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Tuesday, January 23, 2018
  O DESAFIO DOS ENIGMAS - edição de 10 de janeiro de 2018 “SETE DE ESPADAS” - UM NOME INCONTORNÁVEL Sempre que falamos de desportos mentais, nomeadamente de Policiário, a referência ao nome de Sete de Espadas é incontornável. Os nossos leitores que só agora, ou muito recentemente, tomaram contacto com esta modalidade desconhecerão provavelmente a sua notável importância na divulgação e consolidação deste nosso passatempo, amplamente reconhecido como um veículo importante no estímulo da leitura e sua interpretação, no desenvolvimento do sentido de análise, do poder de síntese e do espírito observador. Nascido na Chamusca, distrito de Santarém, em 1 de fevereiro de 1921, faz agora exatamente 97 anos, o Sete de Espadas, que também se assinava como Tharuga Lattas (apelidos de família), iniciou a sua atividade policiária, em 12 de Janeiro de 1947, como orientador de um espaço no Jornal de Sintra, com o título “Mistério e Aventura”, que ele definia em subtítulo como “secção policial”. A última vez que estivemos com o Sete de Espadas foi há cerca de treze anos, no Fórum da Maia, num convívio organizado pela Tertúlia Policiária do Norte, onde foi homenageado com a Lupa de Honra, troféu com que aquela associação informal se propunha prestigiar anualmente um ilustre membro da família policiária nacional. Comovido, Sete de Espadas agradeceu a simpatia do reconhecimento e começou a desfiar as suas memórias, que nos levaram até aos seus nove anos de idade, altura em que entrou na escola. Ficámos então a saber que concluiu o ensino primário em apenas dois anos e que quando entrou para o Liceu descobriu num livro policial o nome que adotaria como pseudónimo até aos fim dos seus dias: Sete de Espadas! E foi com esse nome que andou pelos mais variados jornais, revistas e livros, a promover o policiarismo, a literatura policial, o charadismo e as palavras cruzadas, ao longo de quase seis intensas décadas. Durante todo esse tempo, cultivou amizades inabaláveis, formou e fidelizou leitores nas publicações onde colaborou, conquistou milhares de praticantes para o policiarismo, promoveu o gosto pela escrita e pela leitura junto dos jovens de diferentes gerações, estimulou contistas e romancistas, divulgou os melhores autores e ensaístas do género policial, acompanhou a par-e-passo a carreira de decifradores e produtores de enigmas policiais… ajudou a formar Homens! Nomes grandes da cultura, das artes, das letras, do desporto, da medicina, das forças armadas e… até da política. Alguns chegaram a ministro. Mas Sete de Espadas nunca os “denunciou”. Se eles usavam pseudónimo, era esse o nome que contava – disse ele. Mas, talvez sem querer, deixou escapar a identidade de alguns policiaristas com posição de relevo na sociedade portuguesa, como Matos Maia (ilustre homem da rádio), Luís Filipe Costa (radialista, jornalista e realizador de cinema), Firmino Miguel (general do Exército e ministro da Defesa dos I e II Governos Provisórios e do I Governo Constitucional de pós-Revolução de 25 Abril de 1974. Boa parte dos mais destacados praticantes do policiário iniciaram-se nas secções orientadas por Sete de Espadas e todos eles respeitam e honram o seu nome, considerando-o como o maior divulgador de sempre do desporto mental no nosso país. Mas não se pense, porém, que foi fácil o seu trabalho. Houve alturas em que desanimou. Cansou-se da modalidade, afastou-se por algum tempo e esteve dezassete anos sem ler nada… de policial. Mas não resistiu aos apelos dos amigos e ao “bichinho” do policiarismo e voltou com novo fôlego, ainda com mais vontade de ensinar… e de aprender com cada um de nós, sobretudo com os mais novos (sempre os mais novos – o seu universo preferido). E já que falamos nos mais novos, não podemos deixar de recordar os grandes convívios por ele organizados, onde era digno de ser visto o grande número de pais que chegavam junto do Sete de Espadas e lhe confiavam os seus filhos, como se confia a um avô. E eles lá ficavam, num são convívio, junto da tribo policiária. São já poucos os policiaristas em atividade que acompanharam o Sete de Espadas nas grandes aventuras promovidas pelo Clube de Literatura Policial de boa memória ou nas secções por ele orientadas no jornal Camarada e no Cavaleiro Andante e em tantas outras insertas nas mais diversas publicações, durante os anos 1940/1960. Mas a esmagadora maioria dos atuais praticantes desta modalidade viveram, e jamais esquecerão, aquele que foi o marco decisivo na história do policiário no nosso país. Decorria então o ano de 1975, quando, no dia 13 de março, apareceu nas bancas, em todas as papelarias, quiosques e outros pontos de venda de jornais e revistas, mais uma edição do Mundo de Aventuras – uma revista de histórias aos quadradinhos –, que continha nas suas últimas páginas uma secção denominada “Mistério… Policiário”, assinada por Sete de Espadas. E foi a partir deste preciso momento que se gerou um novo impulso no crescimento desta nossa modalidade, envolvendo toda uma geração de jovens, alguns muito jovens, com menos de 12 anos, que geraram um movimento que nos trouxe até aos dias de hoje. A partir daquele momento, a literatura policial conheceu uma grande e inusitada procura, traduzida na corrida desenfreada da malta mais nova às livrarias e alfarrabistas em busca dos grandes clássicos do género, o que acabaria por originar o surgimento de novos escritores nos escaparates. Ao mesmo tempo, os convívios policiários passaram a ter um número considerável de participantes, com a malta nova “nascida” da revista Mundo de Aventuras em franca confraternização com os “dinossauros” do policiarismo, tratando-se por pseudónimos escolhidos pelos próprios, com inspiração nas personagens da banda desenhada e da literatura policial ou construídos a partir dos nomes de batismo, nomes que muitas vezes ficavam desconhecidos entre todos. E no centro disto tudo estava um homem simpático de barbas brancas e cabelo ralo, com um sorriso permanente nos lábios: o Sete de Espadas. Ele partiu no dia 10 de dezembro de 2008, deixando uma eterna saudade nos que com ele cresceram… e tentam agora continuar a sua obra. CONCURSO DE ENIGMAS POLICIAIS Para além do próximo torneio de decifração, de que daremos notícia numa das próximas edições, informamos que está já em andamento a nossa mais jovem iniciativa: “Mãos à Escrita!” - um concurso de produção de enigmas policiários, aberto a todos os que se queiram “aventurar” na escrita deste género de ficção, sem temática definida, tendo apenas como condição o limite máximo da dimensão do enunciado (duas páginas A4, com o tipo de letra Times New Roman, corpo de letra 12 e espaçamento de 1,5 linhas). Os textos concorrentes, que terão de ser enviados por e-mail, para o endereço salvadorpereirasantos@hotmail.com, devem incluir a respetiva solução (com o máximo de página e meia A4, com o mesmo espaçamento e idêntico tipo e corpo de letra). O regulamento deste concurso será publicado na próxima edição.  
Thursday, January 04, 2018
  O DESAFIO DOS ENIGMAS - edição de 20 de dezembro de 2017 UM FINAL SURPRENDENTE NO ÚLTIMO CASO DO INSP. CARREIRA O conto vencedor do concurso “Um Caso Policial em Gaia”, que tem animado as últimas edições da nossa secção, chega hoje ao fim. O inspetor Carreira, o seu protagonista, depois de ter perseguido e dominado a quase totalidade dos membros de uma perigosa rede de criminosos que operava em Vila Nova de Gaia, desapareceu misteriosamente. Os seus colegas da Judiciária suspeitam que terá sido ele o autor da morte dos dois meliantes que haviam escapado à prisão, porque os dados laboratoriais não deixavam margem para qualquer dúvida: fora a sua arma que disparara os tiros mortais encontrados nos dois corpos. Iniciou-se, por isso, uma autêntica caça ao homem. Era necessário que a PJ chegasse ao inspetor Carreira antes de qualquer outra força policial ou de um possível cúmplice dos dois criminosos abatidos, eventualmente ainda em liberdade. Mas será que os seus colegas conseguem chegar a tempo? É o que vamos ficar a saber. Sol de Inverno, de Luís Pessoa VI (última) - Parte Já a tarde ia alta quando um taxista revelou que transportou Carreira até à Estação de Campanhã. Acabou por dizer que na altura notou um cheiro intenso a pólvora, que ele bem identificou porque é caçador, mas nem sequer levantou qualquer suspeita. Identificou a fotografia de Carreira. Imediatamente a busca passou pelos horários dos comboios. Provavelmente Carreira tomou um comboio para Lisboa. O Chefe acabou por ligar para um seu colega da capital, pondo-o ao corrente e pedindo-lhe que verificasse, a título não oficial, se Carreira estaria por lá. - Farinha, temos um telefonema de um taberneiro da Ajuda, chamado “Ti’Stalo”, ou coisa que o valha, que diz que o Carreira passou lá pelo estabelecimento dele e que estava muito esquisito… - Ó Barroso, o Carreira está para o Norte… - Parece que não. O taberneiro diz que o conhece há montes de anos e é cliente dele… Uma chamada rápida ao Chefe e este a dar-lhe ordem para seguir imediatamente para lá, porque havia recebido um alerta dos colegas do Porto, para o deterem. O carro parou a escassos metros da tasca e dele saíram três homens, que se dirigiram para dentro do obscuro estabelecimento. Alguns pares de olhos elevaram-se dos copos cuidadosamente tapados com a famosa bolacha de água e sal e fixaram-se nos visitantes. O taberneiro rodeou o balcão e veio de imediato: - Os senhores da Polícia? - Somos. - Ainda bem. Estou muito preocupado. O senhor Carreira sempre foi meu cliente e nunca o vi assim. Vinha beber um ou dois copos, de vez em quando, e ficava algum tempo a saborear. Hoje não! Entrou e bebeu uma meia dúzia num instante e saiu sem conversa! - Foi para casa? – perguntou Farinha. - Sim, senhor, aquela vivenda, ali em cima. Mas há muito tempo que não vejo lá movimento, nem ele, nem a mulher, nem mesmo os filhos. Julgo que não estão cá, às vezes vão temporadas para fora… Mas hoje vi o senhor Carreira entrar, há um bom bocado… - Fique aqui!... – ordenou ao tasqueiro – e não deixe ninguém sair, ok? - Está bem, senhor inspetor. - Vamos lá! – ordenou ao Barroso e ao Silva, que deitaram a mão à respetiva arma, instintivamente, como que a confirmar a sua presença. – Calma, não vamos precisar disso, é o Carreira, que diabo! Já na rua, avançaram cautelosamente. - Silva, toma conta das traseiras, Barroso, vem comigo… Tocou à campainha e fez-se ouvir um som estridente no interior da habitação, mas não houve qualquer resposta. Pressionou a campainha novamente, sem melhor resultado. Do interior, apenas silencio… - Carreira! – chamou – Abre a porta, pá, sou eu, o Farinha e estou com o Barroso, só queremos falar contigo! Silêncio absoluto. - Porra, Farinha, o que fazemos agora? – o Barroso dava sinais de nervosismo. Entretanto, chegou um carro com mais agentes, que levantou muita curiosidade naquele bairro pacato, onde nada acontecia. Farinha receava que se reunissem muitas pessoas, movidas pela curiosidade e deu a ordem para que porta fosse deitada abaixo, no preciso momento em que se ouviu uma denotação vinda do interior, que fez com que todos se deitassem no chão, por precaução e rotina… - Vocês, porta abaixo! Com uma investida rápida, mas musculada, a porta cedeu… Farinha e Barroso precipitaram-se para o interior… Um cheiro nauseabundo invadiu as narinas, fazendo-os recuar um pouco, antes de avançarem, alcançando o quarto… Farinha recuou, horrorizado, e Barroso sentiu-se desfalecer, apesar da experiência que ambos tinham e o muito que já viram… Sobre a cama, longa, repousavam os corpos, em decomposição, de Vera e dos dois filhos e junto a eles, o cadáver recente de Carreira, ainda ensanguentado junto do ouvido direito, onde entrara o projétil que finalmente lhe deu descanso. Os agentes que entretanto foram entrando, logo deixavam cair os braços ao longo do corpo, segurando as armas, parecendo hipnotizados perante tal violência… Um deles começou a vomitar, sem conseguir desviar o olhar… Por longos segundos, que pareceram horas, assim estiveram todos, perdidos no tempo… As lágrimas corriam pela face de Farinha, quem estava ali era o seu melhor amigo, Carreira e a Vera… E os miúdos que tanto adorava, como se fossem seus, parceiros de tantas brincadeiras… Em cima de uma pequena mesa, repousava uma carta em envelope fechado, com um nome manuscrito: Farinha. Mas ninguém parecia notar, tal a força do quadro que prendia os olhares. Foi Barroso quem ergueu o envelope e o entregou a Farinha. Este tomou o caminho do exterior, completamente destroçado, com os olhos rasos de lágrimas teimosas. Abriu o sobrescrito e retirou um pequeno papel onde se lia, com a caligrafia habitual de Carreira, estranhamente serena: “Farinha, meu bom amigo: Peço-te que me perdoes, mas não posso deixar que me prendam. A minha vida acabou quando há muito tempo entrei em casa e vi o que tu estás a ver. A partir daquele momento, só vivi para vingar os meus amores e não estou arrependido do que fiz. Quando te lembrares de nós todos, não nos recordes assim, mas nas brincadeiras em que todos entravamos, nas festas que fizemos, nas férias, nos momentos bons que vivemos. Vou juntar-me aos meus amores. Peço-te por tudo que nos deixem ficar juntos. Não me julgues mal, meu bom amigo. Carreira.”  
Thursday, December 21, 2017
  O DESAFIO DOS ENIGMAS - edição de 10 de dezembro de 2017 “SOL DE INVERNO” APROXIMA-SE DO FIM Na pista de uma perigosa quadrilha, onde pontificam dois cruéis meliantes que haviam escapado à polícia num complicado caso muito recente que enchera as primeiras páginas dos jornais e abrira os principais noticiários televisivos, o inspetor Carreira não só descobrira o covil dos criminosos, como se preparava agora para lhes deitar a mão. Apesar de estar completamente só e sem qualquer hipótese de pedir auxílio, não hesitou em fazer frente aos inimigos… Mas será que consegue dominá-los? É o que vamos saber com a continuação da publicação do conto que venceu o concurso “Um Caso Policial em Gaia”, que se aproxima a passos largos do seu final. Sol de Inverno, de Luís Pessoa V - Parte Numa derradeira tentativa, em desespero, descarregou o tambor da arma, sem selecionar a direção nem os alvos. Apenas descarregou… Ouviu na resposta, dezenas de tiros! Fez-se, então, um estranho silêncio, interrompido por um sonoro grito: - RENDAM-SE! Carreira ainda conseguiu esboçar um sorriso. Tinha-os enganado, pensavam que estavam cercados por vários polícias! Antes de desmaiar, ainda ouviu: - Está aqui! Acordou lentamente. O quarto excessivamente branco, fazia Carreira imaginar que poderia estar já no “outro lado”, pelo menos era a ideia que tinha do que encontraria quando a vida se esgotasse. Não tardou, no entanto, a estar rodeado de vários colegas, inteirando-se da sua situação e do seu estado. Eram quase 17 horas quando os presentes se ergueram, para dar passagem ao chefe, invulgarmente sorridente. - Boa tarde, Carreira! - Boa tarde, senhor diretor! Lamento não poder levantar-me… - Ora, ora, Carreira, deixe-se disso! Venho dar-lhe os parabéns pela sua ação. Não foi a mais perfeita em termos técnicos, mas foi eficaz e a imprensa está a adorar. Você é um herói! Isso é sempre bom… Mas não devia ter isso sozinho, percebe? Foi um risco escusado. E sem comunicações, sem armamento capaz, sem uma lanterna… Se o rapazito não o tivesse visto entrar na capela e não sair, de certeza que não tínhamos chegado a tempo… - Rapazito, que rapazito? - Um moço cigano que andava por ali e reparou que você entrou e não o viu sair. O Sequeira disse-nos que o tinha deixado por lá e foi por lá que começámos, claro. Andávamos à sua procura com a foto, quando o rapaz nos disse que o tinha visto a entrar na capela ao anoitecer, mas não tinha dado conta de o ver sair… Foi assim que vasculhámos o interior da capela até encontrarmos o mecanismo e tudo o resto, até chegarmos a si… - Apanharam o monstro? - Era um truque para afastar visitas inoportunas. Quando alguém passava em certos sensores, começava uma espécie de sessão de cinema com som altíssimo… Era arrepiante. - Os carris paravam repentinamente… - Era de propósito. Quem conhecia, acionava um mecanismo que trazia uma carruagem e essa ia direta para a caverna. Quem não sabia, era despistado pelo caminho que você e nós percorremos, com as armadilhas, para forçar a desistência. Muito bem engendrado! - Apanharam-nos todos? - Todos! Estão a ser interrogados e certamente vamos ter novidades em breve… - Apanharam também o Ptolomeu e o Pancrácio? - Essa agora, porque pergunta? - Porque eu vi-os lá! Estavam no envidraçado a falar com os outros, eles estão envolvidos em tudo isto… - Tenha calma, Carreira, temos tempo para falar de trabalho. Agora trate de recuperar para regressar em condições. Carreira nem queria acreditar que os PPs se haviam escapado de novo, eles que estavam por trás de tudo, quer ali, quer em Lisboa. O telefone tocou e do outro lado estava o seu amigo Farinha: - Parabéns, pá! Já todos soubemos do teu feito! Parabéns! - Farinha, os gajos escaparam! - Quem? - Os PPs! Os gajos estavam lá, eu vi-os! Vi-os lá a dar ordens, são eles, mas escaparam… - Esquece, havemos de lhes dar caça e apanhamo-los mais cedo ou mais tarde, tem calma, agora já sabemos! Olha, já falaste à Vera e aos miúdos? - Hem? Sim, sim. – mentiu – Está tudo bem… - Vê lá se precisas de alguma coisa, apita! - Claro, obrigado Farinha, és um bom amigo… - Já há muito caíra a noite quando Carreira se ergueu da cama, foi à casa de banho, regressando pronto para abandonar o hospital. Não disse nada a ninguém, vestiu a mesma roupa com que dera entrada. Sentia-se andrajoso, mas só tinha que chegar à sua atual casa, para tomar um bom banho, vestir roupa lavada e regressar à vida… Não foi intercetado por ninguém, saiu calmamente pelo próprio pé e tomou um táxi, que o deixou à porta do prédio do seu apartamento. Olhou em redor e já não viu o movimento habitual nem a presença do agente que por ali fazia vigilância permanente durante o tempo que durou a investigação. - Parece que acabou tudo! Desistiram de ir mais além? Acham que a prisão de uma dúzia de bandoleiros resolve a situação? Desalentado, cabisbaixo, entrou no apartamento que nunca lhe dissera grande coisa, mas que agora não lhe dizia mesmo nada. Às sete da manhã, era grande o alvoroço na Judiciária. O piquete fora alertado para ocorrências quase simultâneas em dois pontos distintos no Canidelo, um num apartamento de luxo e outro numa vivenda, onde foram ouvidos tiros. Ao chegar, a Polícia verificou que havia um cadáver em cada uma das habitações, tendo alertado a PJ para proceder à recolha de indícios e tomar conta da investigação. Por volta do meio-dia já muitos agentes procuravam o colega Carreira, misteriosamente desaparecido, porque os dados laboratoriais não deixavam margem para qualquer dúvida: fora a sua arma que disparara os tiros mortais encontrados nos dois corpos e Carreira recuperara a sua arma, depois das atribulações por que passara. Mais importante, ainda, os cadáveres eram do Ptolomeu e do Pancrácio! Iniciou-se uma autêntica caça ao homem. Era necessário que a PJ chegasse ao Carreira antes de qualquer outra força policial ou de um possível bando dos dois criminosos, eventualmente ainda em liberdade. O Chefe deu a ordem para se intensificarem as buscas, sem emissão de qualquer alerta para as restantes forças. Todos os agentes puseram os seus informadores em campo, mas não havia vestígios do inspetor. (Continua na próxima edição)  
Thursday, December 07, 2017
  O DESAFIO DOS ENIGMAS - edição de 30 de novembro de 2017 INSPETOR CARREIRA DESCOBRE CAIS CLANDESTINO Na pista de um grupo de criminosos responsável por um lucrativo negócio de contrafação de vinho, que tardava a ser desmantelado, o inspetor Carreira foi confrontado com uma passagem secreta na Capela do Senhor da Pedra, que levá-lo-ia a um fétido regato infestado de ratazanas onde existe uma plataforma que comunica com uma ponte aparentemente suspensa, de onde surgiu um corpo de grande dimensão. Instintivamente, levou a mão à coronha da sua arma, pronto para qualquer eventualidade… E, pronto, é aqui que continua a nossa leitura do conto vencedor do concurso “Um Caso Policial em Gaia”, de que publicamos agora a quarta parte: Sol de Inverno, de Luís Pessoa IV - Parte Do fundo do leito começou a vislumbrar um brilho estranho, uma luz difusa, de cor indefinida, que se tornava cada vez mais clara, mostrando um corpo ondulante a erguer-se das profundezas, na sua direção. Sem ação, Carreira estava apavorado, nunca vira coisa assim, tão horrenda e improvável, mas conseguiu reagir, atirando-se ao solo e puxando da arma, que pôs em posição de fogo. Um cheiro intenso a enxofre envolveu-o e sentiu-se desfalecer, não sem antes disparar dois ou três tiros contra a amálgama disforme que o atacava… ooooo /// ooooo A sensação de quem regressa de uma viagem ao infinito, com um despertar doloroso e assustador era o que Carreira sentia naquele momento. Não sabia o que fazia ali, fosse esse ali o que fosse. Não fazia a mínima ideia onde estava, nem que dia ou horas eram. A escuridão era total e constatou que estava amarrado. Ouvia vozes longínquas, indistintas… Apetecia-lhe gritar, dizer que estava vivo, mas a mordaça não lho permitia. As vozes aproximaram-se. Cada vez mais perto, ouviu distintamente o ruido do arrastar da pesada porta, que lhe permitiu entrever uma luz, ainda ao longe, onde apareceram recortados dois vultos, em contraluz, caminhando na sua direção. - Vai espreitar o “chui”… - Ora, o “gajo” levou no “bule”, vai tardar a acordar… Carreira estava sozinho, amarrado e amordaçado, mais que isso, fatigado e exausto e tinha pela frente dois homens, aparentemente, experientes. Não tinha nada de boa a sua situação. Só de surpresa poderia obter algo, pelo que simulou continuar desmaiado. Sentiu a aproximação de um deles, que começou a desatá-lo, certamente para melhor o transportar. Carreira via aí a sua oportunidade, mas um turbilhão de dúvidas assaltavam-lhe o cérebro: Teria a pistola no bolso? As pernas iriam obedecer-lhe? Teria forças para se erguer? Iriam matá-lo? Quantos tipos seriam? Saltou para a frente, cabeça baixa, com a rapidez possível, atingindo com violência o que se encontrava na sua frente que, apanhado de surpresa, rugiu de dor, vacilou e caiu de costas, imóvel. Virou-se e encarou o segundo adversário, ainda confuso e sem reação, a quem vibrou um forte pontapé, que o fez dobrar-se e, lentamente, escorregar para o soalho… Ofegante, Carreira dobrou-se pelos joelhos, tentando recuperar o fôlego. Apelando às derradeiras forças, prendeu os dois meliantes com as cordas que antes o atavam. Não fugiriam. Resumiu mentalmente a situação. Estava sozinho, num local que desconhecia; tinham-no despojado da sua arma; não sabia quantos opositores tinha pela frente nem as suas intenções… Como único fator positivo, a surpresa! Os outros não sabiam que ele estava liberto e pronto para a ação… Revistou os dois prisioneiros e num deles encontrou um Lawman MKIII, carregado! Dispunha de seis tiros… - Melhor que nada, pensou. Abriu a porta, lentamente, evitando barulho e saiu para o corredor húmido. Estava novamente livre e armado. Com esforço, percorreu a distância que o separava da fonte de luz que vislumbrava para além de uma porta com aparência de espessa e forte, mas que estava apenas no trinco, permitindo-lhe que a afastasse ligeiramente e espreitasse… Cerrou os olhos perante tamanha luminosidade e aguardou breves momentos antes de ajustar a visão. O que viu causou-lhe espanto: uma espécie de gruta enorme, com vários setores, como que em socalcos, onde repousavam centenas, talvez milhares de barris e cubas… Ao fundo, uma plataforma entrava pelo rio, numa cúpula de vidro que se ajustava completamente ao casco de um barco… - Raios, estes tipos têm coisas que só visto! – espantou-se ao perceber o método usado: O barco acostava e abria uma porta abaixo do nível da água onde ajustava a cúpula de vidro. Visto de cima o barco era normalíssimo e insuspeito, transportando a carga normal destes barcos, mas mais abaixo, em outro nível, vinha a carga clandestina que era descarregada por baixo de água, diretamente para a plataforma escondida. – Porra! Por isso o gajo estava a orientar a manobra lá de cima! O barco era mais pesado que o normal e tinha de ajustar a parte submersa! Bem podíamos andar lá em cima à procura… Olhou em volta e contou pelo menos oito indivíduos a trabalhar por ali. Não sabia se eram todos criminosos, podiam ser apenas trabalhadores que nem soubessem bem em que trabalhavam ou o que faziam, mas para si tinham de ser considerados como ameaças, até prova em contrário. Notou, então, num plano um pouco superior, um envidraçado onde estavam mais três indivíduos, em quem logo reconheceu o Plotomeu e o Pancrácio, a quem chamavam os PPs e que não eram mais do que os dois mafiosos que ele perseguia há tanto tempo e quase lhe fizeram a folha no caso de Lisboa. Carreira sempre tivera a certeza que estavam por detrás deste negócio, mas não tinha qualquer prova, só suspeitas. Agora o caso mudava de figura e ganhava novos contornos, a que teria de retirar o desejo de vingança, que começava a tomá-lo! - Acalma-te, Carreira, a vingança é má conselheira… – esforçou-se para se convencer, embora sem grande sucesso. Sentia-se enjaulado, mas não era a primeira vez que tal acontecia. Estava armado, é certo, mas os inimigos eram muitos, provavelmente muito mais bem armados do que ele, não tinha possibilidade de pedir auxilio nem de retirar porque desconhecia como chegara ali, quem o transportara e por onde. - Resumindo, pá, estás tramado! – acabou por concluir em surdina. Conferiu o revólver: Carregado. Destravado. Pronto. Encostado à parede, para não ser surpreendido pela retaguarda, numa zona de penumbra, ergueu a arma com as duas mãos e gritou a plenos pulmões: - POLÍCIA! QUE NINGUÉM SE MEXA! ESTÃO CERCADOS! RENDAM-SE! O eco ribombou na imensa caverna, com alguns dos homens a atirarem-se para o chão, mas todos completamente desorientados sem saberem a origem daqueles gritos. Carreira disparou logo de seguida, para reforçar o aviso, atingindo um dos homens, o que estava mais desprotegido. Logo se deslocou alguns metros, antes do segundo disparo, este sem atingir o alvo. Tinha de dar a impressão de que eram vários os polícias a disparar… Depois da surpresa inicial, uma chuva de projeteis varreu a parede que lhe servia de apoio, obrigando-o a atirar-se para o chão. As pernas também já cediam ao cansaço. - Estou perdido, pensou. (Continua na próxima edição)  
Tuesday, November 28, 2017
  O DESAFIO DOS ENIGMAS - edição de 20 de novembro de 2017 UMA PASSAGEM SECRETA NA CAPELA DO SENHOR DA PEDRA Prosseguimos nesta edição a publicação do texto vencedor do Concurso de Contos “Um Caso Policial em Gaia”. Nas duas primeiras partes já publicadas, ficámos a saber que o Inspetor Carreira anda atrás de uma pista que o conduziu até Gaia, no encalce de alguns indivíduos que suspeitava estarem envolvidos numa história que metia contrabando de vinhos, moeda falsa, ouro e tráfico de influências. Esta sua investigação levou-o até à Capela do Senhor da Pedra, por onde um suspeito se infiltrou e desapareceu misteriosamente. Após algumas tentativas frustradas, Carreira conseguiu mover uma laje que deixou a descoberto uma escadaria que se perdia na escuridão, por onde o sujeito se esgueirou. E, depois de algumas hesitações, lá foi ele também. Sol de Inverno, de Luís Pessoa III - Parte Obviamente continuou a descida, até porque com o calor da noite, certamente já não haveria vendedores. Descobriu uma pequena manivela que acionou, fechando a passagem atrás de si. Com a ténue luz do telemóvel arcaico, foi descendo a escadaria, até um patamar, semelhante a um cais, em frente ao qual se viam carris, que se perdiam no escuro. Sem hesitações, desceu o pequeno degrau, colocando-se entre os carris e começou a sua viagem, como se fosse um comboio em busca do destino. Durante algum tempo, o caminho foi simples, não havia obstáculos e os metros vencidos com facilidade, mas repentinamente os carris terminavam, abrindo-se um buraco a que não conseguia tirar as medidas, nem no cumprimento nem na fundura. Olhou em volta e notou que do lado direito existia uma plataforma que permitia continuar, pelo menos até onde a vista alcançava, paralelamente aos carris, se estes lá estivessem. Foi continuando. Periodicamente ia ligando a luz do telemóvel para se certificar da sua localização, mas numa das curtas exposições à luz, verificou com surpresa que já não havia precipício à sua esquerda, mas apenas uma parede, semelhante à existente à sua direita. Estava, literalmente, a seguir num estreito túnel, sem outra alternativa que não fosse prosseguir ou regressar pelo mesmo caminho percorrido. Parou um pouco, para ganhar fôlego e para alinhar as ideias… Era óbvio que tinha de continuar, pelo menos até ver onde ia chegar. Um cheiro fétido acudiu-lhe às narinas. Fazia frio ali em baixo e havia humidade, que lhe tolhia os movimentos. Começava a estar terrivelmente cansado quando chegou a um impasse, em forma de uma parede que impedia qualquer avanço. À esquerda, parede rugosa, tal como à direita e, agora, também em frente… Parecia restar o recuo. A luz esbatida do telemóvel não lhe dava qualquer outra saída. Com a mão, percorreu toda a parede à sua frente, procurando alguma coisa que lhe permitisse prosseguir. Em vão. Empurrou com os joelhos, depois com ambas as mãos, finalmente com o corpo todo. Prestes a desistir, uma pedra mais pequena que as restantes, chamou-lhe a atenção. Pressionou-a, lenta mas seguramente, sentindo que ela cedia, ao mesmo tempo que toda a parede se movia! Instintivamente levou a mão ao bolso, de onde retirou a pistola, ao mesmo tempo que avançava para uma cavidade maior, de onde vinha um estranho ruído, semelhante a um corpo volumoso em movimento. Tremeu, não sabia se de frio ou de medo, mas, sem alternativa, prosseguiu. O cheiro fétido acentuava-se e caminhava às escuras, poupando a pouca carga de telemóvel que lhe restava, arrastando os pés para não cair em alguma armadilha. Reparou que a parede à sua esquerda desapareceu, dando lugar a um precipício, do fundo do qual parecia emanar o barulho que ouvia e o cheiro fétido. Tentou apontar para lá o foco de luz, mas sem qualquer sucesso. Era demasiado profundo. Continuou, até chegar a um ponto sem saída, com o estreitamento da plataforma em que se vinha movendo. Restavam duas alternativas: regressar pelo mesmo caminho ou descer o precipício. Procurou uma escadaria, uma rampa, alguma forma de poder descer, mas em vão. Não havia pedras soltas que pudesse atirar para medir a profundidade, a luz do telemóvel não atingia o fundo e estava receoso de se atirar sem saber para onde. Decidiu atirar a carteira depois de retirar todos os documentos, mas quando levou a mão ao bolso, sentiu o frio da caneta que Vera lhe tinha oferecido num dos seus aniversários. - Parabéns, meu amor, isto é para te lembrares de mim sempre que escreveres coisas boas… Fechou os olhos, como se fizesse alguma diferença fazê-lo naquela escuridão, ou simplesmente para aguçar a concentração naquele momento mágico de recordação. Não atirou a carteira e a caneta guardou-a junto ao coração, que batia desordenadamente. Suspendeu-se na beira do buraco, contou mentalmente até três e soltou-se, precipitando-se em curta queda. - Afinal não era assim tão alto! – rejubilou – Carreira, desta safaste-te, rapaz! Aguardou um bom par de minutos, recuperando do esforço e da tensão do momento, após o que começou a inteirar-se da sua situação. Afinal, o cheiro fétido vinha de um regato de detritos de esgoto que corria ali mesmo, junto a si. Sentiu pequenas bicadas nas pernas e não deixou de dar um grito quando dirigiu o ténue foco de luz para um aguerrido grupo de ratazanas de esgoto, que o cercavam completamente! Sem luz para as manter afastadas, restava-lhe estugar o passo e arrastar os pés, fazendo barulho. Olhou para o relógio, mas estava parado. A luz do telemóvel deu o último suspiro! Estava entregue à escuridão e às mordidas das ratazanas mais afoitas, mas pelo menos tinha caminho para percorrer e era o que fazia, seguia sempre em frente! Parecia-lhe que estava há horas no ventre da terra e provavelmente era verdade. Longe ficaram os carris onde se iniciou esta travessia e nunca mais os reencontrou… Mecanicamente continuava a andar, ouvindo e sentindo o ruído do movimento dos roedores à sua volta, ao mesmo tempo que se apercebia que o caminho começava a subir, pelo esforço requerido. Repentinamente notou, aliviado, a ausência dos roedores, ao mesmo tempo que atingia uma plataforma que apenas dava acesso a uma ponte, aparentemente suspensa, que o devia conduzir para a outra margem. Às apalpadelas, percorreu os primeiros metros dessa estrutura, que lhe pareceu bastante sólida… - Ó Carreira, arranjaste-a bonita! – pensou, sem se dar conta que o fazia em voz alta, surpreendendo-se com o eco. Logo se apercebeu que alguma coisa estava para acontecer, quando começou a ouvir o tal ruído estranho, primeiro de baixa intensidade, mas cada vez mais alto e nítido, como se fosse de um enorme corpo em movimento. Um corpo de grande dimensão. Instintivamente deitou a mão ao bolso, apalpando a reconfortante coronha da sua arma. Ainda estava em cima da ponte e mergulhado na mais profunda escuridão, com todos os sentidos em alerta total, pronto para qualquer eventualidade. (Continua na próxima edição)  
Friday, November 24, 2017
  DUAS NOVAS INICIATIVAS POLICIÁRIAS A secção O DESAFIO DOS ENIGMAS, do jornal AUDIÊNCIA GP, tem neste momento em marcha duas novas iniciativas: 1) “Mãos à Escrita!” – um concurso de produção de enigmas policiários, aberto a todos os que se queiram “aventurar” na escrita deste género de ficção, sem temática definida, tendo apenas como condição o limite máximo da dimensão do enunciado (duas páginas A4, com o tipo de letra Times New Roman, corpo de letra 12 e espaçamento de 1,5 linhas); 2) “Solução à Vista!” – um torneio de decifração, composto pelos enigmas apresentados ao concurso supracitado, em que os participantes (também) classificam os produtores. Os seus respetivos regulamentos aqui estão: MÃOS À ESCRITA! CONCURSO DE ENIGMAS POLICIÁRIOS (PRODUÇÃO) REGULAMENTO 1. O concurso é aberto a todos os leitores do AUDIÊNCIA Grande Porto ou seguidores do blogue O Local do Crime, sem condicionalismos de idade; 2. Cada concorrente pode apresentar mais do que um original; 3. Os trabalhos, na modalidade de produção de enigma policiário, em língua portuguesa, deverão conter enunciado e respetiva solução; 4. Os trabalhos deverão ser apresentados em suporte digital, formato A4, com tipo de letra Times New Roman, em corpo 12 e com 1,5 de espaçamento entre linhas; 5. O enunciado do enigma deve ter o máximo de 2 páginas e a solução o máximo de uma página e meia; 6. Os trabalhos, nos moldes atrás descritos, deverão ser enviados para o endereço eletrónico salvadorpereirasantos@hotmail.com, entre 1 de dezembro de 2017 e 15 de abril de 2018; 7. A classificação dos enigmas será definida através da média da pontuação atribuída pelos participantes no torneio de decifração “Solução à Vista!” e pelo orientador da secção O Desafio dos Enigmas; 8. Na apresentação da solução de cada prova do torneio de decifração acima referido, os participantes atribuirão ao respetivo enigma entre 5 a 10 pontos, tendo o orientador da secção o mesmo número de pontos para atribuir a cada enigma; 9. Será vencedor do concurso o enigma que alcançar uma pontuação média mais elevada, sendo distinguidos também os enigmas classificados na segunda e terceira posições; 10. Serão atribuídos os seguintes prémios: 1º. Lugar – Troféu M Constantino; 2º. Lugar – Taça Zé da Vila; 3º. Lugar – Taça Mário Campino; 11. Os casos omissos serão resolvidos pelo orientador da secção O Desafio do Enigmas, não havendo recurso das decisões tomadas. SOLUÇÃO À VISTA! TORNEIO DE DECIFRAÇÃO REGULAMENTO 1. O Torneio de Decifração de enigmas policiários é aberto a todos os leitores do AUDIÊNCIA Grande Porto ou seguidores do blogue O Local do Crime, não necessitando de inscrição prévia; 2. O Torneio será constituído pelos enigmas apresentados ao concurso “Mãos è Escrita!”, que serão publicados mensalmente a partir de 1 de maio de 2018; 3. As propostas de solução de cada enigma deverão ser enviadas até ao dia 10 do mês subsequente ao da sua publicação, sendo acompanhadas de pontuação atribuída ao respetivo enigma, entre 5 a 10 pontos, em função da sua originalidade, qualidade e grau de dificuldade. 4. Cada proposta de solução será classificada entre 5 e 10 pontos, correspondendo 5 à simples presença e 10 à solução integral do enigma, sendo as pontuações intermédias definidas de acordo com o grau de resolução; 5. Em cada enigma, das soluções enviadas serão selecionadas, pelo orientador da secção, as três melhores, que somarão mais 3, 2 e 1 pontos; 6. Será vencedor do Torneio o concorrente que no final acumule o maior número de pontos, sendo distinguido com o Troféu “AUDIÊNCIA Grande Porto’ 2018”; 7. Os concorrentes posicionados nos três lugares subsequentes da classificação final serão distinguidos com as Taças “Natércia Leite”, “Severina” e “Medvet”; 8. Os classificados entre o quinto e o décimo lugar serão distinguidos com medalhas de participação; 9. Os casos omissos serão resolvidos pelo orientador da secção O Desafio do Enigmas, não havendo recurso das decisões tomadas.  
Thursday, November 16, 2017
  O DESAFIO DOS ENIGMAS - edição de 10 de novembro de 2017 SEGUNDA PARTE DO TEXTO VENCEDOR DO CONCURSO DE CONTOS Esta edição é exclusivamente preenchida com a continuação da publicação do conto vencedor do nosso Concurso “Um Caso Policial em Gaia”. Na primeira parte, publicada na última edição, ficámos a saber que o inspetor Carreira acabara de chegar a Gaia atrás de uma pista relacionada com alguns indivíduos que haviam escapado às malhas da justiça num caso de grandes repercussões ocorrido em Lisboa, que foi dado como encerrado. Durante a noite avistara um sujeito no miradouro do Mosteiro da Serra do Pilar, que gesticulava exageradamente em direção ao rio Douro, onde um barco manobrava tentando uma acostagem ao cais, enquanto falava ao telemóvel, comportamento que lhe pareceu estranho e aguçou o seu espírito de polícia. Sol de Inverno, de Luís Pessoa II – Parte Logo pela madrugada, depois da noite não dormida, [Carreira] ligou ao Farinha, para saber novas de Lisboa e apanhou-o ensonado. Não havia notícias. - Carreira, como vai a Vera? E os miúdos? - Tudo bem, tudo calmo, agora. Estão em casa. Férias… - Queres que vá ter com eles? Precisas de alguma coisa? - Não, não, Farinha. Está tudo bem, vou contactando e daqui a uns dias já devo estar de volta, não te incomodes. Se houver alguma coisa digo-te e a Vera sabe que se precisar pode ligar-te. Obrigado, amigo! Depois de desligar a chamada, pensou que dentro de dias começava um ano novo e queria estar já despachado deste caso… - Ó “ti S’talo, dê-me aí um copo de três… - Ó senhor Carreira, é para já… e com tampa! Era uma particularidade daquela tasca, o velho galego há décadas no bairro, naquele mesmo local, por onde Carreira passava a caminho de casa. A tampa era uma bolacha de água e sal, com que tapava o copo. Depois, eram uns dedos de conversa, mais um copo e ficava a par das novidades do bairro… - Senhor Inspetor, o carro está pronto. - Obrigado, Sequeira, vou já… A paragem era no Senhor da Pedra, uma capela “plantada” em plena praia, mesmo junto ao mar e rodeada de rochedos protetores. Um ponto de paragem quase obrigatório e por isso havia autocarros de turismo em quantidade centenas de novos peregrinos, chamemos-lhe assim, de mochilas às costas, alguns com bonés coloridos, como formigas em fila, para a capela e vindo dela. Alguns grupos paravam à porta, enquanto outros faziam as orações lá dentro. Carreira dispensou o Sequeira. Resolveu ficar por ali, apesar do frio intenso. O dia estava bonito, o céu limpo e o sol brilhante, apesar de não aquecer. No areal, alguns miúdos jogavam à bola, aproveitando os derradeiros dias de férias e Carreira recordava os raros momentos em que o trabalho abrandava e ia com os filhos até ao relvado da Torre de Belém dar uns pontapés na bola, em dias como este, frios e bonitos… Perdeu o olhar na imensidão do mar e do céu azul, distraído, até que uma voz lhe chamou a atenção. Já a ouvira em algum lugar, mas não conseguia reconhecer, até baixar o olhar e ver, na fila formada à sua frente, o rosto conhecido do homem que fizera o espetáculo de som e gesto na Serra do Pilar, no dia anterior. Era curioso reencontrá-lo ali, num grupo numeroso, para visitar um monumento que ele devia conhecer, a avaliar pelo modo como “orientou” a manobra de atracagem do barco. Seguiu com o olhar o evoluir do grupo, até desaparecer no interior da capela. Outro grupo ficou à porta, esperando a vez. Passados alguns minutos começaram a sair, enquanto os que esperavam se aprestavam para entrar. Carreira olhava de frente cada um dos homens, procurando aquele que já considerava o seu “Amigo da Serra”, mas ele não passou. - Deve ter ficado lá mais um bocado – pensou. Mas foram entrando e saindo pessoas sem que o homem reaparecesse. Longos minutos de espera, com alguma expectativa à mistura, mas do homem, nem sinal! Carreira decidiu entrar também, para ver onde ele poderia estar. Não conhecia a capela, não sabia quantas portas tinha, mas uma coisa era certa, apenas se poderia retornar dela pelo areal, porque em toda a restante volta, havia rochedos e mar revolto. E não havia maneira de sair dali, fora do seu alcance visual. Por isso, esperou mais algum tempo. Já bastante intrigado, juntou-se a meia dúzia de pessoas e entrou com elas. Rapidamente chegou à conclusão que o homem não estava lá nem se cruzara com ele. Em resumo, esfumara-se lá dentro! Na sua cabeça, algo começava a tomar forma. E se não fosse só aquele homem que não regressou, mas todos os que entraram com ele, substituídos por outros que já lá estivessem? - Carreira, lá estás tu a maquinar coisas… Essa mania de imaginares mistério em tudo… – sorriu com o seu próprio comentário, que não disfarçava que estava mesmo intrigado. Decidiu ficar mais umas horas, até ao anoitecer, quando as pessoas fossem embora e a capela ficasse entregue definitivamente ao seu mistério. Com o ocaso, o frio viu reforçado o seu poder e Carreira já lamentava não ter trazido um agasalho mais forte. O vento soprava, gélido e cortante, o que fez com que se refugiasse na capela. Não havia vivalma e Carreira iniciou a busca, pedra a pedra, laje a laje, objeto a objeto. Notou que ao apoiar-se no altar, parecia haver uma pequena oscilação. Olhando com mais pormenor, notou que havia uma pequena fissura no chão. A luz ia-se perdendo e Carreira lamentou não se ter munido de uma lanterna capaz, tinha de usar o velhinho telemóvel, que tinha a fama de só trabalhar quando queria e já fazia parte do anedotário da corporação. Procurou rodar o altar, para a direita, para a esquerda, carregar, nada. Não havia qualquer movimento. Com a mão percorreu toda a área, sem notar nenhuma modificação, mas quando deu um passo para o lado direito, sentiu que o sapato encontrou uma aspereza, uma protuberância, entre duas lajes. Procurou com a mão, percorreu a junção e deu com uma espécie de alavanca minúscula. Notara que havia uma folga, que permitia que se movesse. Assim fez, para a direita, para a esquerda, pressionou-a. Sem qualquer resultado. Estava prestes a desistir, fez mais umas tentativas enquanto se apoiava no altar para se erguer e foi então que quase se estatelou quando este começou a mover-se, silenciosamente, deixando a descoberto uma escadaria que se perdia na escuridão! - Ah! – ouviu-se exclamar como se tivesse descoberto aquilo que há muito procurava – então o meu “Amigo da Serra” não se perdeu no ar, mas nas entranhas da terra! A sua excitação perante uma perspetiva de nova investigação, apenas foi travada pela larga experiência que lhe ditava ao ouvido que devia ser prudente. - Carreira, acalma-te, vai lá fora aos vendedores ambulantes e compra uma boa lanterna e pilhas com fartura e depois lança-te pela terra dentro… – sorriu, imaginando um anjinho virginal a dar-lhe o conselho, logo contrariado por um diabinho vermelho com um tridente: - Ó Carreira, não te fies nesse “anjola” deslavado, segue em frente! (Continua na próxima edição)  
enigmas e contos policiais

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