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Friday, February 27, 2004
  PASSATEMPO DE ESCRITA POLICIAL

Rip Kirby, A.Raposo, Inspectora Marcelis, Inspector Huga Booga, Dr.Gismondo, Arnes e Inspector Moka, sete dos “internautas” mais assíduos e participativos deste passatempo decidiram, está decidido:

O Inspector Huga Booga é o autor do Quinto capítulo do romance “Pão de Canela”, com quatro votos expressos.

Posto isto, o nosso romance vai assim:


PÃO DE CANELA (título provisório)

Primeiro Capítulo

Todos os dias úteis de todas as semanas, desde há mais de um ano, vinham a mirar-se longamente ao pequeno almoço. Ele escolhia invariavelmente um “bretzel” que acompanhava com meia de leite, ela pedia um “croissant” com manteiga, com pouca manteiga, insistia, e um chá verde. Não se falavam. Não se cumprimentavam sequer. Ele abria o “Notícias”, ela lia o “Público”. Lá fora, na Praça das Flores, espaço verde na lisboeta encosta entre o Príncipe Real e S.Bento, sucediam-se as estações, as ramagens, as iluminações de Natal, as festas populares em Junho, os nevoeiros de Novembro e de Fevereiro. Os lugares que escolhiam na característica sala eram, também, quase sempre os mesmos – apenas alterados quando alguém chegava mais cedo e lhes trocava as voltas. Dir-se-ia que se evitavam.

Um dia, a casualidade aproximou-os. A fartura de sucursais bancárias, em esquinas fronteiras, tornou-se subitamente fome, quando ambos os estabelecimentos caíram nos braços de patrões que os fecharam, que “reestruturaram” o respectivo pessoal e, sobretudo, que levaram consigo as hoje imprescindíveis caixas atm. Os comerciantes e moradores da área lamentaram-se, fizeram listas de assinaturas, escreveram para os jornais, colaram papelinhos nos troncos onde antes se anunciava, em fotocópias mal tiradas, que havia uma sessão de fado vadio em pleno Bairro Alto ou que o "Boby" se pirara dos carinhos da dona, arrebatado pelos odores caninamente irresistíveis duma fêmea em cio. António Rosa, com a pasta cansada em que guardava os processos que estudara ao serão, tendo de ir a S.Bento para se abastecer de algumas notitas das novas, cheias de europas, pontes e estilos, chegou ali mais tarde que o costume, mal disfarçando o desagrado de encontrar na sua habitual mesa um casalinho em aparente fim de noite e, pelo ar já derreado que ambos mostravam, em pouco promissor início de manhã. Madalena olhava o jornal e anotava, em folhas A4 dobradas em caderno, algumas ideias soltas, que poderiam influir na criação de um novo vestido para um outro outono que ainda vinha longe. Ficaram próximos. Suficientemente próximos para António apanhar o volume do “Kaputt” que, mal pousado na convexidade do assento da cadeira à direita de Madalena, não escapara ao movimento da empregada brasileira, apressada a trazer o habitual “bretzel” para o não menos habitual cliente.

Lê Malaparte, perguntou ele. Leio, respondeu ela. Eu também...mas agora que Malaparte caiu em desuso, vendendo-se em saldo em qualquer supermercado... Eu também sei, cortou Madalena, mas gosto da forma como consegue descrever o que viu e o que talvez não tenha visto, segundo muitos... Falaram sumariamente do autor e da obra. António prometeu-lhe trazer alguns outros livros da sua biblioteca. Madalena agradeceu. No decorrer do tempo, que passava para além do normal e que deixara os jornais abertos esquecidos, António questionou: E, já agora, conhece a casa de Malaparte em Capri? A casa que ele construiu nas arribas do Cabo Masullo e que baptizou de “Casa como eu”? Não, não conheço... Sabe, eu também não, a não ser em fotografia. Mas de há muito eu sonho poder visitá-la. Só que não encontro quem queira ir lá comigo! Não sei porquê, lançou ela surpreendida com a inesperada ocorrência de tal degelo em manhã de Outono ainda quente, se alguém me convidasse eu não desprezaria uma oportunidade de ir a Capri, com casa de Malaparte ou sem ela! Quer então vir daí? Isso é um convite? É uma sugestão! E por que não...é coisa a pensar!

E o diálogo daquela manhã passou a ser a regra. O “bretzel” iria irmanar o “croissant”, nas mesmas manhãs, no mesmo prato, começando até a cutucarem-se bem cedo, em até então inéditas manhãs de sábado. Lá fora, no rito de todos os anos, as árvores despiram-se e as gotas de chuva perlaram os ramos, marcando os tempos litúrgicos que vão do nascimento do menino à morte do homem. Decidida a utilização da viatura de António, iam montando cuidadosamente a viagem, cujos meandros desenhavam com o apoio de mapas, de itinerários colhidos no “local” www.michelin.com e de um sonho que passara a ser conjunto, expresso nas mãos que se iam gradualmente tocando.

Saíram de carro, duas semanas depois da páscoa. Tinham acordado dizer o mínimo a amigos e conhecidos. Tinham também acordado, apesar da menor experiência de Madalena, em revezar-se ao volante. No escritório, António distribuiu processos, assinou substabelecimentos, deu instruções suficientes para que os colegas pudessem assegurar o expediente da próxima quinzena. No “atelier”, Madalena deixou igualmente instruções. Em casa, à mulher e aos filhos, António sugeriu uma viagem de serviço, que o levaria a França por duas semanas. Madalena, tirando uma prima distante que estava colocada no Politécnico de Setúbal e que equilibrava o preço do alojamento em Troino com um meio-tempo prestado numa seguradora, não tinha mais família a quem deixar recados.

Dois levantamentos de dinheiro, feitos em Faro, foram os últimos sinais por ambos deixados em terras portuguesas. Previdente, António movimentara antes da partida alguns fundos, incluindo reforços que transferira para a conta conjunta e que destinava a prevenir despesas domésticas extraordinárias, como habitualmente fazia quando das suas deslocações. Madalena deixara na míngua as suas duas contas. De acordo com instruções transmitidas a alguns escritórios com quem mantinha relações e tendo em conta aquele confuso período de troca de moedas, António tinha previsto a possibilidade de levantar dinheiro em Castellón, Sète e Ventimiglia. Bastante dinheiro até. Madalena incumbira-se de, sem avançar grandes detalhes, cobrar, em Barcelona, uma dívida de uma cliente catalã do “atelier”, proporcionando-se assim a disposição de um razoável montante de pesetas. Provar-se-ia mais tarde que o levantamento em Castellón teve lugar, como previsto, mas nem em Sète, nem em Ventimiglia, nem em Barcelona tinha sido reclamado qualquer montante. Não houve mais levantamentos, cobrança ou notícias. Na confeitaria da Praça das Flores prolongava-se a ausência de ambos, enquanto a Primavera se ia resolvendo nas últimas chuvas, enxota-pombos precedendo a aproximação de um Verão que se adivinhava quente.

As duas semanas tinham-se completado, sem novas nem mandados. Na segunda feira seguinte, a mulher de António telefonou para o escritório, a saber de notícias. Conhecia-se de há muito o laconismo entre ambos, o que justificou o “devem estar a acabar-lhe as massas e por isso se lembra dele!”, com que o dr.Aurélio comentou o facto, enquanto afiava meticulosamente o lápis com que teimava em anotar as minutas e que não trocava por qualquer lapiseira, por muito AG Spalding que fosse. Aliás, no escritório, nada tinham de mais para dizer. Dias depois, era do “atelier” de Madalena que procuravam a trabalhadora-estudante, para desta saber se tinha recebido qualquer mensagem da prima... Negativo, também!

À terceira semana houve notícias. Alguém voltou. Mas apenas um dos que tinham partido.

a) Inspector Moka


Segundo Capítulo

A Páscoa, em 2002, foi a 31 de Março e, piada velha, calhou ao domingo. Com ela a costumeira febre de consumo, o exodo das cidades, a nacional hecatombe nas estradas. O ano trazia o ónus dum popular provérbio, lembrando que “Páscoa em Março ou é fome ou é mortaço”, mas nem pela lembrança desse ditado, por muito que a festa se escondesse no último dia do mês, nem pelas tolerâncias de ponto concedidas para segunda-feira de manhã, iriam estas jornadas acolher acrescida prudência.

A leste da cidade, num dos arruamentos ainda sem termo definido da zona já órfã da Expo 98 e agora em progressiva ocupação urbana, a norte da via férrea, o Rover 414 verde e sujo permanecia solitário, com a legenda “Trata 977 081 006” em cartolina branca, encostada e presa à superfície interna do vidro lateral, do lado do condutor, por uma simples etiqueta de correio-azul. No banco traseiro, desenhos e jornais dobrados. O fim de semana prolongado interrompera a actividade babélica da construção civil e esvaziara muitas das instalações comerciais próximas – evitando assim que nenhum abelhudo viesse questionar a estranha presença daquele carro. Aliás, como depois se comprovou, ninguém sabia exactamente “desde quando”, embora alguns arriscassem que já o teriam visto ali uma ou duas manhãs antes da desmobilização civil iniciada na quinta-feira santa. Certo é que, passada a “ponte”, tal permanência iria ainda manter-se escassos dias, até que o estroncamento maldoso dum retrovisor lateral, o crescente questionar na vizinhança quanto à origem e propriedade do automóvel, a hipótese de que fora roubado e que, como tal, poderia beneficiar eventuais alvissareiros, tudo cumulado com a crescente fedorina que dele se exalava, contribuíram para que, finalmente, fosse comunicada à PSP a enigmática ocorrência.

Não, não havia qualquer participação de roubo relacionada com aquele veículo, registado em nome de um António Ferreira Neto, com morada na Amadora. Sem telefone na lista. Uma tentativa de contacto no endereço indicado iria assustar uma rotunda mãe de família cabo-verdiana quando tranquilamente preparava o jantar. Corroborada em tudo pelos vizinhos, afirmou ali morar há mais de dois meses, ter “alugado” a casa em agência que indicou, e mais declarou, com o nervosismo que lhe causavam fardas, que não conhecia nem queria conhecer qualquer anterior morador da “sua casa”, fosse ou não fosse Neto ou avô. No prédio, de dois andares e seis fogos, dois ou três vizinhos recordavam-se do locatário do 2º direito, que tivera passagem efémera, de pouco mais que meio-ano, e que não viam desde que se fora embora, à cerca de uns três meses. Entrava e saía a desoras e era ou dizia-se engenheiro. Vivia só, sem familiares, sem qualquer bicharada conhecida, mas às vezes entrava-lhe em casa uma moça muito mais nova, desenvolta, que passava lá a noite e que aguçava a curiosidade (e certamente o apetite) do pessoal masculino local, levantava sérias reservas ao mulherame e a quem, jurariam, o engenheiro chamara algumas vezes de Madalena. Pois! (interjeição acompanhada de um piscar de olhos). O homem, esse tinha de facto um carro verde que, pela descrição, não destoava do tal Rover abandonado. Em conversa ocasional e rara, queixara-se da dificuldade de conseguir rapidamente um telefone fixo. Relativamente novo, pendia já para uma meia-idade que a calvície nascente denunciava. Era muito educado, apesar do cheiro a charuto que por vezes inundava a caixa da escada e, mais raramente, do ruído duma “música séria”, que ficava a tocar um pouco alto. Deixara o andar bastante sujo, com jornais e revistas empilhados e com alguns tarecos que nunca mais veio reclamar e que acabaram, quase todos, junto ao mais próximo contentor do lixo.

A persistência do cheirete, cada vez mais pútrido, e a inoperância das diligências empreendidas acabaram por levar a polícia a abrir as portas da viatura -- o que tornou o ambiente próximo simplesmente insuportável. Levantada a tampa da mala, logo descobriram a causa. Vestido de forma convencional, parcialmente coberto com uma manta de viagem e deitado em posição fetal, o cadáver tinha ainda postos os auscultadores ligeiros e de boa marca que se ligavam a um leitor portátil de CD’s. Introduzido neste, o disco com quatro “Concerti Grossi” do Opus 6 de Haendel deixara há muito de se ouvir e de ser ouvido. A respectiva caixa juntava-se a outras duas, uma com peças sortidas de Mozart, outra evocativa de Gilbert Bécaud, a abrir com o conhecido “Et maintenant?”, que tantos corações fizera romanticamente palpitar desde 1975. Ainda, naquele espaço limitado da mala, foram recolhidas e devidamente acondicionadas diversas embalagens vazias de um barbitúrico forte, uma garrafa também vazia de “JB” e uma palhinha de refrigerante, como constava do relatório policial. O exame dos documentos contidos na carteira, mantida no bolso interior esquerdo do casaco, com cartões de crédito, alguns cheques por utilizar e uma quantia modesta em notas novas de pequeno valor, confirmou tratar-se, de facto, de António Ferreira Neto, engenheiro mecânico, 47 anos, natural de Sousel e, de acordo com o BI, residente na Amadora. Poucos cartões de visita, de execução esmerada mas de cantos já deformados, repetiam a morada onde hoje sabiam viver uma mamalhuda senhora, demasiado tisnada pelo sol de sucessivas gerações. Nos bolsos pouco mais: uma “bic-cristal” preta, meio consumida, uma lapiseira, duas chaves tipo Yale, o porta-chaves do automóvel, com o respectivo “comando”. Um envelope aberto, sem destinatário, guardava uma carta dactilografada em computador, assinada a esferográfica azul, que o “de cujus” dirigia à sua ex-mulher, comunicando, de forma telegráfica e seca, como de correspondência comercial, a decisão definitiva e reflectida que tomara de por termo à sua vida. Sem invocar qualquer razão, sem revelar qualquer sentimento ou provisão, sem um adeus que fosse, até sem data e sem nome para além do “A minha ex-mulher” que escrevera como primeira linha. Quem primeiro a recebesse, que procurasse a destinatária, num ali surpreendente estilo “toma e embrulha”.

Também na mala do carro, uma pasta de cartolina verde-claro, com abas e elásticos, continha uma colecção de doze desenhos, dobrados como é de uso. Na face exterior, a lápis ténue, podia-se ler a palavra “Almansor”. No banco traseiro, uma outra colecção de desenhos acompanhava meia dúzia de “diário de notícias”, nenhum dos quais posterior a 23 de Março. Os desenhos de ambas as colecções, de evidente natureza técnica, reportavam-se a equipamentos há muito vendidos como sucata, após o desmantelamento de uma instalação química situada a norte de Lisboa, ironicamente epilogada num processo de “recuperação de empresas” em que os bancos credores abriram mais os olhos para o imobiliário afecto à produção que para o prosseguimento da actividade industrial e a manutenção de emprego. Nasceria ali mais uma urbanização! O tema até tivera honras de aparição num noticiário das oito, com trabalhadores idosos por detrás de cartazes, e levara alguns desmancha-prazeres da oposição a ousarem de perguntar, em sessão aberta da câmara, se tão apetitosos terrenos estavam comprovadamente descontaminados para os fins habitacionais a que, com público clamor, eram agora votados. Não deixava de ser curioso que o conjunto de doze desenhos contidos na pasta estivesse totalmente repetido no conjunto do assento traseiro, que, além destes, continha mais cinco diferentes e “desemparelhados”. Outra diferença existia: nos desenhos da pasta alguém desenhara grandes “balões” a marcador vermelho, em torno de certas peças do equipamento fabril, que numerara de #01 a #16, ao passo que todos os desenhos, no outro conjunto, se apresentavam como saídos do aparelho de cópia, sem qualquer marcação aposta.

Longe dali, no outro extremo da cidade, Madalena chegava a casa. Acendeu um cigarro, colocou um CD na aparelhagem Sony que tinha comprado tempos antes para se dar companhia. Sentou-se no sofá, descalçou os sapatos e já tranquila, distendida, olhando o nada no tecto, pensou rapidamente na viagem que, em breve iria fazer e que esperava a conduzisse a secretos objectivos. Gilbert Bécaud, enchendo a sala, repartia o espaço com o fumo que subia do cigarro. “Et maintenant...”.

a) Inspector Moka


Terceiro Capítulo

Desde o início da viagem algo de diferente sugeria a António Rosa que se não tratava de uma simples “excursão de prazer”. Ao levar Madalena a casa, na véspera da partida, esta tinha-lhe pedido para por no carro duas pesadas caixas de madeira, limitando de forma inesperada o espaço da mala. No dia da partida, juntou-lhes uma desproporcionada mala de viagem e dois gordos envelopes azuis de papel entretelado. Madalena esclareceu tratarem-se de artigos a entregar em Barcelona, contra o montante a cobrar — algo que nunca antes referira. Finalmente, um outro envelope, esse de plástico, com documentos, foi posto no porta luvas.

Saíram no domingo, por Madalena não querer meter-se a caminho em dia 13. Tinham combinado passar aquela primeira noite numa vivenda vazia mas sempre preparada que pertencia a um amigo de António e que, no limiar do Alentejo, combinava um aspecto exterior irrepreensível com o recato e a comodidade exigíveis a uma “garçoniére” requintada, valorizada pela relativa proximidade das praias algarvias e suficientemente acoitada, pela distância, das suspeitas de uma consorte ciumenta.

O programa estabelecido era simples: procurariam chegar a Capri em jornadas que não exigissem mais de 8 horas diárias de condução, sempre apoiadas em sítios que, por qualquer forma, “aculturassem” o romance sem desacamar o seu aspecto óbvio. No segundo dia ficariam em Manzanares, procurando lugar no Parador local, no terceiro cerca de Castellón, no quarto dia em Sète e no quinto já em Génova, prontos a descer a bota até Capri, que - forçando a nota - atingiriam no sexto, para que, no sétimo dia, esquecessem o descanso bíblico e visitassem os monumentos principais da ilha, com particular atenção para a “Casa como Eu” que constituia a meta oficial da peregrinação.

Se outra surpresa surgiu quando, em plena E05, passada Sevilha, Madalena demonstrou não ser uma condutora nem tímida nem inexperiente, o pior estava reservado a António Rosa na noite de 16 para 17, depois da chegada a Castelló. Levantado o “capital” ali postado, tinham-se afastado mais alguns quilómetros ao longo da costa e escolhido, para fim da etape, um pequeno e confortável hotel de Oropesa del Mar, voltado a um Mediterrâneo a perder de vista. Depois de transportar para o quarto o malão terceiromundista de Madalena e a malinha de executivo em férias em que trazia o essencial da pernoita, pois que geralmente dormia nu, António colocou o “pacotinho de euros” recebido em Castellón no envelope de plástico e – como tencionavam sair -levou este conjunto para a aparente segurança do cofre da recepção. Já debaixo do chuveiro, pareceu-lhe que Madalena estava a usar um telemóvel, mas nada disse. Saíram a pé, para “cear”, e como alvitrado por Madalena, tinham-se seguidamente excedido numa intimidade dançarina, razoavelmente bebida e aconchegada numa “boite” próxima. Deitaram-se tarde, pedindo ao porteiro que os acordassem cedo. Quiçá efeitos da viagem, do banho, do jantar e da bebida, António sentia-se muito pesado e caiu logo num sono profundo, ao lado duma Madalena que se declarava também ensonada e pronta para mais nada que não fosse dormir.

Quando acordou, com uma dor de cabeça terrível, o sol tinha rompido entre núvens e inundava o quarto. A boca sabia-lhe a cortiça., concretizando uma cruel ressaca, daquelas que podem resultar da muita quantidade, ou da má qualidade ou de ambas — o que talvez fosse o caso. Estranhando a demasiada claridade e ainda meio ensonado, estendeu o braço para o local onde deveria estar a sua companheira de viagem e sabe-se lá do que mais, a seu devido tempo. Nada... estremunhado acordou e olhou para o despertador: eram 3 horas e meia da tarde, hora local. Não, não o tinham acordado! E Madalena não estava ali! Nem as malas, nem a roupa, nem documentos, nem dinheiro, nada! A surpresa foi mais radical que qualquer aspirina. Pelo telefone pediu um robe, que lhe levaram, de turco, demasiadamente reduzido, dando-lhe um aspecto tristíssimo. Pediu a presença do gerente. Explicou-lhe a situação, solicitou-lhe explicações.

Pois, a Senhora tinha saído de manhã muito cedo, antes das seis horas, dizendo que ia a Castelló a casa de uns amigos. Que o senhor estava doente e que não o incomodassem. Ia inclusive aviar-lhe um medicamento urgente, para voltar antes das dez. Almoçariam no hotel e só sairiam à tarde, o que, pela pequena ocupação, lhe disseram ser possível. Colocou a mala grande no carro e saiu com ar preocupado. Face a esta situação e ao dístico “não incomode” colocado na porta, tinham-se limitado a cumprir. Certamente que se tratava de um mal entendido — sugeriu o gerente com ar cúmplice — e que a senhora voltaria em breve. Preparariam uma refeição ligeira, que trariam ao quarto, e o senhor poderia esperar vendo televisão. António, envolvido no robe, sem roupa, sem documentos, sem carro, sentado no sofá, não pode deixar de se recordar do primeiro filme dos Lumiére, que vira em miúdo e que pela sua simplicidade tanto o impressionara: “l’arrosoir arrosé”.

Minutos depois, reavaliada a situação com o conforto de um “consomé” quente, a reacção de António já não seria tão tranquila. Madalena ainda não chegara, pelo que havia mesmo que actuar. Em primeiro lugar, um telefonema para o escritório do colega de Castellón, onde na véspera levantara o dinheiro. Tinha saído da cidade, mas deram-lhe o número do telemóvel. Referiu-lhe em palavras breves o que se passava e pediu-lhe que viesse ao seu encontro, em Oropesa, onde permanecia indocumentado, sem carro, sem cheta, com horror a todo o tipo de publicidade, e, além disso, presumivelmente intoxicado com qualquer mistela adicionada à bebida. E sem Madalena, de quem não tinha notícias ou mensagens e a quem poderia ter sucedido sabe-se lá o quê.

Participação discreta à polícia, que veio logo a seguir. Tarde já para contactar com o consulado português mais próximo, mas suficientemente cedo para difundir os dados da viatura. Pairava no ar a dúvida de um desajuste entre namorados, de um arrufo de que António escondesse pormenores e até, sabe-se lá, de algo mais que isso. O agravamento de um mal estar, com vómitos, boca seca, perda de equilíbrio e recrudescidas dores de cabeça, justificou uma visita ao hospital local. Face aos sintomas, aos primeiros resultados analíticos e á evidente ansiedade, o médico de serviço aconselhou o internamento sob vigilância médica, por uma noite. O colega insistiu e iniciou as diligências para aplainar a situação. Procurou saber que valores ou títulos se encontravam também desaparecidos. Sem tocar no envelope, que continuava no cofre, elaborou, com um António já meio sedado, uma lista das possíveis comunicações a fazer – acolhendo os pedidos para que se não desse eco público àquela situação, aquém e além fronteiras, dado o melindre que a sua presença ali revestia. Que sossegasse pois havia experiência disso, já que nada espanta numa região que viva do turismo.

Só no dia seguinte lhe permitiram sair do hospital e regressar ao hotel de Oropesa del Mar. Conferenciando com o colega e um associado deste, foi-se montando o conjunto de indagações necessárias para restabelecer um mínimo de apresentação e as suficientes garantias, nomeadamente de não terem existido mais levantamentos. Não lhe era simples telefonar para Portugal e, quando o fez, foi através de pessoa de muita confiança, que jamais deu com a língua nos dentes e que motivou os devidos interesses pelo assunto, nos planos policial, diplomático e bancário. Pôs-se à disposição das autoridades locais, que procuravam encontrar uma Madalena também desaparecida e o automóvel com que desaparecera.

O envelope de plástico amarelo escapara “à voragem” por estar no cofre do hotel e o seu conteúdo foi inventariado. Para além do dinheiro, registou-se um recorte detalhado de um mapa fotocopiado de uma carta militar portuguesa ou de um mapa com escala de idêntica generosidade, a minuta duma factura de “serviços diversos” impressa em computador, mas sem data e sem identificação de qualquer das partes e uma folha de instruções (em línguas sortidas) que descrevia um pedómetro de marca “Tronic”. Agrafado ao mapa, um cartão de visita, vincado a meio, de António Ferreira Neto, Engenheiro Mecânico (IST), mas sem qualquer outra indicação, e no verso do qual, escrito a esferográfica, se reconhecia o número: 977081006.

a) Inspector Moka


Quarto Capítulo

Madalena chorou copiosa e desalmadamente que nem uma arrependida quando desencarnou o monstro que transporta dentro de si e voltou a ser a bela mulher terna e delicada, sensível às coisas do espírito, das artes e das letras, sempre disponível para as grandes causas sociais e humanitárias, de uma fidelidade quase canina aos seus amores enquanto estes duram e desde sempre assolapadamente apaixonada pela vida. Os olhos marejados de lágrimas e os espasmos causados pelo choro convulsivo obrigaram-na a encostar o carro à berma da estrada que a levará até Paris, cidade luz e capital da moda cosmopolita, onde há muito tempo aspira exibir as suas criações.

Para Madalena, António Rosa jaz morto num quarto de hotel em Oropesa del Mar. Na noite anterior, a “outra” que há em si preparou com todo o cuidado e rigor mais um dos seus muitos crimes. Levou o seu António, o único dos Antónios que verdadeiramente amou – descobriu ela agora – para uma noite de muita música, fumo e álcool, numa discoteca “rasca” das imediações de Castellón. Na sua malinha de mão, um pó infalível, mortal, que trouxera de Colômbia, tinha como destino certo o copo da bebida de António Rosa. Ao terceiro uísque e depois de algumas danças próprias para “constituir família”, com longos, ardentes e apaixonados beijos, nos olhos, no pescoço, na boca, à mistura com juras mútuas de amor eterno, havia chegado a hora de levar à prática o crime premeditado.

As mãos tremeram-se-lhe, a pulsação começou a bater forte e o seu peito gerou um nó que lhe impedia a respiração. A bela e o monstro pareciam lutar entre si, nas entranhas de Madalena, e no calor da luta o pó quase se derramou por inteiro no chão. Dentro do copo acabou, no entanto, por ficar uma boa parte do “produto” fatal. Bastava então que António Rosa bebesse o que lhe restava do seu terceiro uisque, quando regressasse da casa de banho, para cair redondo num sono profundo e definitivo que o levaria até ao paraíso dos céus. Ele voltou alegre e agitado, talvez imaginando já a noite de delírio e prazer que o esperaria nos braços de Madalena, na cama daquele hotel onde em boa hora decidiram pernoitar na segunda pausa da longa jornada que os levaria até Capri. Sorrindo, lânguido e amável, sentou-se ao lado de Madalena, pegou-lhe na mão, beijando-a ternamente, e, sempre a sorrir, levou o copo à boca e bebeu o que restava do seu último uísque. Ele era o quinto António que caía na cilada de Madalena.

Onde houvesse um António por perto de um domingo de Páscoa a morte espreitava afoita e ligeira, com as suas ferozes e temíveis garras de fora, pronta a desferir um golpe mortal na sua presa incauta. Primeiro foi o António José, um jovem cabeleireiro de orientação sexual duvidosa que mereceu os favores de Madalena, e com quem esta passou longas noites de luxúria a par de acesas discussões sobre cortes de cabelo e de penteados que mais se ajustavam às suas criações para a moda Primavera/Verão do ano seguinte. O corpo foi descoberto no sábado de aleluia, por volta das dez da noite, à porta do Salão de Cabeleireiro onde trabalhava, com dois tiros no peito.

Na Páscoa de 2001, a vítima chamava-se António Pires, tinha pouco mais de vinte e cinco anos, era jogador de futebol de primeira num clube de segunda e conheceu Madalena num desfile de encerramento da Moda Lisboa. O seu corpo apareceu a boiar no rio Tejo numa manhã quente e soalheira de Abril, junto às Docas de Alcântara. Nesse mesmo ano, a “sorte” coube também a António Raposo, um homem maduro já aposentado, pequeno, simpático e anafado, de cabelo bem cuidado e grisalho, membro bastante activo de uma Tertúlia que animava todas as últimas quartas-feiras de cada mês uma certa Esplanada da Avenida da Liberdade, em Lisboa, num concorrido almoço onde se discutiam crimes, polícias e ladrões. Deram com ele em casa, debruçado sobre a sua secretária pejada de livros de Agatha Christie, Edgar Alan Poe, Arthur Conan Doyle, Ross Macdonald, Dashiell Hammet, Júlio Conrado, Scott Turrow, Rex Stout, Patrícia Highsmith e Dick Haskins, morto com uma faca enfiada nas costas.

Em 2002, a morte escolheu António Neto, engenheiro mecânico, homem sem paradeiro certo na vida e ao que se julga saber de muitas e pouco duradouras paixões, que se perdeu de amores por Madalena e acabou os seus dias na mala de um Rover 414, sem nunca ter percebido que Mozart, Haendel e Gilbert Becaud são pouco compatíveis e que barbitúricos com álcool não dão saúde a ninguém!... A fome do monstro continuava insaciável. Era preciso mais. Mais dor, mais morte, mais sofrimento, e António Rosa foi o eleito. Madalena desatou novamente num pranto. Ela tinha amado todos, à sua maneira é certo, mas António Rosa foi um caso muito, muito especial. O namoro durou meses e meses, por entre dezenas e dezenas de meias de leite e chás verdes, “bretzels” e “croissaints”, primeiro com alguma timidez mal disfarçada em leituras apressadas dos matutinos de cada dia e depois com mais desenvoltura e arrojo graças a Malaparte e ao seu “Kaputt”. Aos poucos foram descobrindo o muito que havia em comum entre eles. Não fosse a “outra” e Madalena e António Rosa decerto chegariam a Capri… juntos e felizes.

De súbito, um automobilista abrandou a marcha do carro e quase parou para ver o que se passava com a jovem debruçada sobre o volante da sua viatura, chorando desalentada. Madalena tremeu. Lembrou-se então que daqui a nada a polícia estaria no encalço de um Laguna cinzento de matrícula portuguesa registado em nome de António Rosa. Era preciso rapidamente abandonar o carro algures numa povoação vizinha. Por outro lado, o seu cabelo castanho escuro de corte curto seria coberto por uma longa cabeleira loira e os “jeans” que usara no hotel, onde não foi identificada, seriam substituídos por uma roupa mais feminina. Depois era preciso alugar um automóvel que a levasse até Paris.

Mais de dois mil quilómetros a separavam do destino. Tentaria perder o menos tempo possível na viagem. Faria apenas breves pausas para desentorpecer as pernas, relaxar os músculos e tomar alguma coisa, aqui e ali, e dormir muito pouco. A pressa neste caso é amiga da perfeição e do sucesso… do crime. Chegando a Paris tinha muito que fazer. Monique e Antoine esperavam-na no apartamento/atelier que dividiam há já alguns anos no Quartier Latin. São ambos estilistas, de algum renome em Paris e em Roma, e “ouviram falar” do trabalho de Madalena numa revista especializada em moda emergente. Tinham muita curiosidade em conhecê-la e dispunham-se ajudá-la a entrar no complexo e difícil mundo da moda parisiense.

Longe vão os tempos em que os emigrantes portugueses entravam em França “a salto”, com uma pequena mala de cartão onde transportavam os seus parcos haveres. Madalena chegaria a Paris ao volante de um automóvel de média cilindrada, levando na bagagem, para além de muitos sonhos, um grande malão onde guarda o melhor das suas “toilletes” e duas malas de madeira onde carrega dezenas de figurinos e algumas peças de sua criação, já confeccionadas, para um primeiro desfile. Ela tinha tudo planeado até ao mais ínfimo pormenor. Nada foi deixado ao acaso. Para começar, antes de tudo o mais e assim que chegar a Paris, tem de fazer um importante telefonema.

… E o telefone tocou em Troino.
Quando Sónia, a jovem estudante-trabalhadora prima de Madalena, atendeu, ouviu do outro lado da linha: “Boa tarde. Daqui fala o Inspector António Jorge, da Policia Judiciária…”

a) Inspector Huga Booga


Quinto Capítulo

Sónia não sabe absolutamente nada da prima Madalena vai já para três semanas e havia prometido não abrir o bico para ninguém sobre o destino da sua recente viagem. Fosse para quem fosse! Nem mesmo para a mestra-costureira que dirige o seu atelier e que há dois dias lhe bateu à porta de tesoura quase em riste, de língua afiada e de falas cortantes, exigindo saber o paradeiro de Madalena. Sónia não se descose. Ela sabe muito bem que a prima não dá ponto sem nó e que o silêncio por ela reclamado tem razão escondida em verdades insofismáveis, embora desconheça por completo os motivos do mutismo imposto. Desconfia que há mouro na costa, isto é, que há homem na história, mas nunca se atreveu a perguntar fosse o que fosse sobre o assunto. Até porque Madalena não é mulher de badalar muito sobre a sua vida afectiva.

Ela conheceu a prima há meia dúzia de anos na festa da aldeia transmontana onde ambas nasceram em épocas distintas, separadas por cerca de dez anos. Sónia é filha de um primo do pai de Madalena, o António da Mula, um homem de maus fígados que fazia a vida negra a toda a gente que se atravessasse no seu caminho, sujeito capaz de virar tudo do avesso quando os azeites estavam com ele e pouco dado a grandes intimidades. Ficou conhecido por Mula porque era assim que tratava a mulher sempre que a ela se referia, quer estivesse são como um pero e lúcido como um sábio ou ébrio a cair da tripeça. Bom, na verdade, quando estava bêbedo que nem um cacho, ou a mostarda lhe subia ao nariz, a coisa fiava mais fino no tear da sua maldade congénita fermentada em (muito) vinho e aí não era só a sua santa e sacrificada mulher que era Mula. Toda a gente da aldeia e arredores que vestisse saias ficava alcunhada de fêmea de Macho e, pior ainda, dos nomes mais ordinários que o homem gozava e abusava do seu vernáculo vocabulário.

Até à morte do pai, abatido por uma rápida e implacável cirrose alcoólica, Madalena experimentou o pão que o diabo amassou. E aqui o diabo não é figura de estilo. É mesmo o demo, o belzebu, o homem mau de cornos afiados e de língua viperina, personificado no progenitor, no pai que quis ser tutor, patrão e amante. O pão, esse, era duro como pedra e amargo como fel. E não se pense que foi fácil digeri-lo. Noite após noite, depois de uma primeira investida quando ela tinha apenas catorze anos, o António da Mula metia-se por entre os lençóis da cama da filha e castigava-a sexualmente. Um dia a mãe acordou sobressaltada e gritou “António, onde estás?” Aquele nome, António, ainda hoje ecoa na sua cabeça como se viesse das profundezas do inferno, onde ele deve estar cumprindo penitência dolorosa, decerto tão dolorosa quanto foram (e quiçá ainda são) as dores de que fez Madalena padecer.

Ao telefone, o Inspector António Jorge insistia: “mas não faz mesmo ideia onde e com quem possa estar neste momento a sua prima?” Que não, continuou Sónia. E até jurou. Falso, mas jurou: “não sei, juro que não sei”. O inspector não acreditou, mas optou por não forçar a confissão. Preferiu mudar de estratégia e disparou: “o número de telefone 977081006 diz-lhe alguma coisa, sabe de quem é?” Sónia vacilou: “sim, sei” – balbuciou – “é o número de telemóvel da Vanessa, a empregada brasileira da confeitaria da Praça das Flores”. Curioso, muito curioso – pensou António Jorge... – “e o nome António Neto é-lhe familiar?” Não, Sónia nunca tinha ouvido aquele nome. Não sabe quem seja, jura que não faz mesmo a mínima ideia. Quanto a Vanessa, apenas sabe que ela está em Portugal há pouco mais de três anos e que assim que chegou ao nosso país foi logo trabalhar para a confeitaria “Pão de Canela”, onde Madalena toma habitualmente o seu pequeno-almoço antes de ir para o atelier.

Não havia inauguração de exposição, acontecimento social, desfile de moda, estreia de filme, concerto ou peça de teatro que Madalena e Vanessa perdessem. O “Frágil” no Bairro Alto ou os Bares mais “in” das docas de Alcântara eram o ponto de abrigo de quase todas as noites para as duas amigas, que raramente caíam na cama antes das três da madrugada, quase sempre sós ou mal acompanhadas. E cinco horas depois lá estavam elas de olhos e sorriso abertos na Praça das Flores para iniciarem mais um dia de trabalho igual a todos os outros: Vanessa a servir bebidas e pastelaria variada na confeitaria; Madalena a cortar e a costurar roupa dos mais diversos modelos e feitos no atelier - até que o lusco-fusco do fim de tarde viesse, qual príncipe encantado, despertar as suas “príncezinhas” para mais uma noite de entretenimento, cultura, convívio, copos e prazer.

Durante perto de ano e meio, Vanessa e Madalena foram assim uma espécie de “roque e amiga – por onde vais tu vou eu”, tão ou mais unidas do que “unha com carne”, tão fiéis confidentes como beata e sacerdote na sacristia ou no altar do Senhor, companheiras inseparáveis de todos os dias quer fizesse chuva, sol ou vento. Mais irmãs do que gémeas nascidas do mesmo ventre, mais solidárias do que união feita de sangue e lágrimas, elas não existiam uma sem a outra. Porém, um certo dia, ou noite, vá-se lá saber porquê, as duas amigas desentenderam-se e agora não podem ver-se nem pintadas. Há quem diga que a zanga ficou a dever-se a um conflito que teve origem na disputa pelos amores de um jovem e promissor treinador de futebol de uma equipa de segunda linha na zona de Cascais, por quem ambas se apaixonaram perdidamente, mas Sónia jura que não sabe.

O inspector António Jorge não quis ouvir absolutamente mais nada. Fartou-se de “juras” de quem com toda a certeza omite factos ou mente descaradamente e, irritado, antes de desligar o telefone, intimou Sónia a comparecer na sede da Judiciária no dia seguinte às nove da manhã para prestar declarações. Entretanto, e sem mais delongas, meteu os pés a caminho até ao Príncipe Real, desceu à Praça das Flores e foi experimentar um “bretzel” no “Pão de Canela”…

a) Inspector Huga Booga


ATENÇÃO

Entre os dias 10 e 20 de Março de 2004, os “detectives” que queiram participar na criação do Sexto Capítulo do “Pão de Canela” devem enviar para o endereço ssantos@tnsj.pt as suas propostas de texto (com o máximo de 7.000 caracteres). Recorda-se mais uma vez que os textos propostos devem enquadrar-se no espírito e história(s) dos Capítulos anteriores.

 
Friday, February 20, 2004
  PASSATEMPO DE ESCRITA POLICIAL

A situação repete-se do quarto para o quinto capítulo do romance “Pão de Canela”: A.Raposo, Inspector Huga Booga e Inspector Moka disputam a preferência dos internautas policiaristas, com propostas que apontam para caminhos totalmente diferentes.

Compete-nos agora (a todos nós, sem excepção!) escolher o rumo da história e das personagens do romance, através de voto a enviar para o endereço electrónico do confrade Smaluco (ssantos@tnsj.pt), até 27 de Fevereiro, impreterivelmente.

Para o efeito, basta escrever o seguinte:

“voto na proposta nº. 1 – original de A.Raposo”

ou

“voto na proposta nº. 2 – original de Inspector Huga Booga”

ou

“voto na proposta nº. 3 – original de Inspector Moka”


Pão de Canela (título provisório)
Quinto Capítulo
Proposta nº. 1 – original de A.Raposo


(Aviso para os leitores mais distraídos)

O Autor destas linhas sofreu um traiçoeiro ataque pelas costas, com arma branca. Uma facada, quando se encontrava em casa, a terminar uma solução do seu problema policial, recentemente publicado no Público.
O golpe desferido, por acaso – mas só por mero acaso – como adiante se verá, não lhe causou a morte. O suposto assassino desapareceu sem ser visto bem como o original da solução, exemplar único.
Quem segue as linhas tortuosas desta incrível história sabe que a mesma é escrita a várias mãos e algumas cabeças. Também sabe – suponho – que o final é insuspeito, desconhecido, mas eventualmente triste.
Neste caso será um drama. Como sou optimista acho que antes isso que uma perna partida ou pior ainda um herpes labial.
Feito este necessário reparo quero aqui deixar o testemunho do que se passou.
Tinha acabado de fazer, à mão, pois é assim que escrevo, o original e único exemplar da solução do problema que o Publico apresentara, quando senti um golpe frio de uma faca a entrar-me pelas costas dentro.
Lembro-me ainda de ter dado com os queixos na secretária e depois só acordei a caminho do hospital. Talvez com o “noninoni” da ambulância do 112.
Vim, a saber, depois, que por mero acaso a minha casa foi invadida pela polícia, com arrombamento de porta, oficiais de diligências e quejandos. Há males que vêem por bem. Foi isso que acabou por acontecer e que concorreu para me salvar.
O pessoal do Tribunal vinha fazer um arresto dos meus parcos bens. Uma colecção quase completa da Vampiro. Umas centenas de livros de outras antigas colecções policiais que escrevi, com pseudónimos ingleses, que tiveram um êxito relativo e que só levaram para me tentar aborrecer.
E isto porque nos cinco anos anteriores não entreguei a minha declaração de IRS, por lamentável esquecimento.
E assim foi. O pessoal arrombou-me a porta porque eu como estava não a poderia ter ido abrir. Foram dar comigo agonizante na secretária, com uma faca enfiada nas costas.
Levaram-me, bem como os livros. A mim para o Hospital. Deixaram-me na sala de espera e seguiram a sua vida, com os livritos.
O meu caso não devia ser muito urgente, pois só esperei três horas.
Por fim deitaram-me de bruços numa maca – de costas não dava por causa da faca – e fizeram-me uns raios-X, num aparelho muito bonito, com cromados que tinha uma chapa onde se lia “...aparelho oferecido por W.K. Roentgen, em 1905, quando da sua vinda a Portugal a convite de D. Carlos...”
Um médico ensonado, porque entretanto já seriam umas três horas da manhã, retirou-me a faca com um puxão brusco, deu-me uma Aspirina e com um sorriso, olhando a chapa de raios-X, disse-me: “teve sorte, porque o senhor tem o coração do lado direito! Isto agora passa. Tome lá a sua faca, tem alta. Leve mais três pensos rápidos.”
Saí do hospital apesar de tudo satisfeito. Não tinha morrido. Praticamente não tinha dores, e vim para casa assobiando uma melodia da canção francesa “... et maintenant..”
Salvo erro de Bécaud.
A meio da calçada, começou a doer-me um bocadinho mais a ferida, junto à clavícula direita.
Nesse momento veio-me à cabeça a frase do médico, dizendo que eu tinha o coração do lado direito. Que disparate. O que se passara é que eu fizera os raios-X de bruços, por causa da faca ainda espetada e o médico pensou que a fizera de costas!
Estas coisas, às vezes, acontecem aos melhores.
Poderíamos dizer que o coração fica do lado direito de quem entra e do lado esquerdo de quem sai, mas, não gosto de me perder com filosofias.
Ainda vinha longe de casa e deu-me para começar a pensar quem seria que me deu a punhalada, com uma faca da minha própria cozinha, para trinchar perus?
A Madalena não poderia ser. Da última vez que estivera com ela – já há mais de duas semanas – ela tinha-me dito que encontrara um indivíduo que lhe ia pôr casa. Um tal capitão com um nome esquisito que estava babadinho por ela. Já não era novo, mas, para Madalena seria um bom partido.
Tirando a Madalena, quem mais estaria interessado em matar-me para ficar com o romance Pão de Canela só para ele?
Pensei logo num tipo que na verdade não conheço, e, ainda por cima tem um pseudónimo herdado de alguma ilha do oceano pacífico: Huga Booga!


Pão de Canela (título provisório)
Quinto Capítulo
Proposta nº. 2 – original de Inspector Huga Booga


Sónia não sabe absolutamente nada da prima Madalena vai já para três semanas e havia prometido não abrir o bico para ninguém sobre o destino da sua recente viagem. Fosse para quem fosse! Nem mesmo para a mestra-costureira que dirige o seu atelier e que há dois dias lhe bateu à porta de tesoura quase em riste, de língua afiada e de falas cortantes, exigindo saber o paradeiro de Madalena. Sónia não se descose. Ela sabe muito bem que a prima não dá ponto sem nó e que o silêncio por ela reclamado tem razão escondida em verdades insofismáveis, embora desconheça por completo os motivos do mutismo imposto. Desconfia que há mouro na costa, isto é, que há homem na história, mas nunca se atreveu a perguntar fosse o que fosse sobre o assunto. Até porque Madalena não é mulher de badalar muito sobre a sua vida afectiva.

Ela conheceu a prima há meia dúzia de anos na festa da aldeia transmontana onde ambas nasceram em épocas distintas, separadas por cerca de dez anos. Sónia é filha de um primo do pai de Madalena, o António da Mula, um homem de maus fígados que fazia a vida negra a toda a gente que se atravessasse no seu caminho, sujeito capaz de virar tudo do avesso quando os azeites estavam com ele e pouco dado a grandes intimidades. Ficou conhecido por Mula porque era assim que tratava a mulher sempre que a ela se referia, quer estivesse são como um pero e lúcido como um sábio ou ébrio a cair da tripeça. Bom, na verdade, quando estava bêbedo que nem um cacho, ou a mostarda lhe subia ao nariz, a coisa fiava mais fino no tear da sua maldade congénita fermentada em (muito) vinho e aí não era só a sua santa e sacrificada mulher que era Mula. Toda a gente da aldeia e arredores que vestisse saias ficava alcunhada de fêmea de Macho e, pior ainda, dos nomes mais ordinários que o homem gozava e abusava do seu vernáculo vocabulário.

Até à morte do pai, abatido por uma rápida e implacável cirrose alcoólica, Madalena experimentou o pão que o diabo amassou. E aqui o diabo não é figura de estilo. É mesmo o demo, o belzebu, o homem mau de cornos afiados e de língua viperina, personificado no progenitor, no pai que quis ser tutor, patrão e amante. O pão, esse, era duro como pedra e amargo como fel. E não se pense que foi fácil digeri-lo. Noite após noite, depois de uma primeira investida quando ela tinha apenas catorze anos, o António da Mula metia-se por entre os lençóis da cama da filha e castigava-a sexualmente. Um dia a mãe acordou sobressaltada e gritou “António, onde estás?” Aquele nome, António, ainda hoje ecoa na sua cabeça como se viesse das profundezas do inferno, onde ele deve estar cumprindo penitência dolorosa, decerto tão dolorosa quanto foram (e quiçá ainda são) as dores de que fez Madalena padecer.

Ao telefone, o Inspector António Jorge insistia: “mas não faz mesmo ideia onde e com quem possa estar neste momento a sua prima?” Que não, continuou Sónia. E até jurou. Falso, mas jurou: “não sei, juro que não sei”. O inspector não acreditou, mas optou por não forçar a confissão. Preferiu mudar de estratégia e disparou: “o número de telefone 977081006 diz-lhe alguma coisa, sabe de quem é?” Sónia vacilou: “sim, sei” – balbuciou – “é o número de telemóvel da Vanessa, a empregada brasileira da confeitaria da Praça das Flores”. Curioso, muito curioso – pensou António Jorge... – “e o nome António Neto é-lhe familiar?” Não, Sónia nunca tinha ouvido aquele nome. Não sabe quem seja, jura que não faz mesmo a mínima ideia. Quanto a Vanessa, apenas sabe que ela está em Portugal há pouco mais de três anos e que assim que chegou ao nosso país foi logo trabalhar para a confeitaria “Pão de Canela”, onde Madalena toma habitualmente o seu pequeno-almoço antes de ir para o atelier.

Não havia inauguração de exposição, acontecimento social, desfile de moda, estreia de filme, concerto ou peça de teatro que Madalena e Vanessa perdessem. O “Frágil” no Bairro Alto ou os Bares mais “in” das docas de Alcântara eram o ponto de abrigo de quase todas as noites para as duas amigas, que raramente caíam na cama antes das três da madrugada, quase sempre sós ou mal acompanhadas. E cinco horas depois lá estavam elas de olhos e sorriso abertos na Praça das Flores para iniciarem mais um dia de trabalho igual a todos os outros: Vanessa a servir bebidas e pastelaria variada na confeitaria; Madalena a cortar e a costurar roupa dos mais diversos modelos e feitos no atelier - até que o lusco-fusco do fim de tarde viesse, qual príncipe encantado, despertar as suas “príncezinhas” para mais uma noite de entretenimento, cultura, convívio, copos e prazer.

Durante perto de ano e meio, Vanessa e Madalena foram assim uma espécie de “roque e amiga – por onde vais tu vou eu”, tão ou mais unidas do que “unha com carne”, tão fiéis confidentes como beata e sacerdote na sacristia ou no altar do Senhor, companheiras inseparáveis de todos os dias quer fizesse chuva, sol ou vento. Mais irmãs do que gémeas nascidas do mesmo ventre, mais solidárias do que união feita de sangue e lágrimas, elas não existiam uma sem a outra. Porém, um certo dia, ou noite, vá-se lá saber porquê, as duas amigas desentenderam-se e agora não podem ver-se nem pintadas. Há quem diga que a zanga ficou a dever-se a um conflito que teve origem na disputa pelos amores de um jovem e promissor treinador de futebol de uma equipa de segunda linha na zona de Cascais, por quem ambas se apaixonaram perdidamente, mas Sónia jura que não sabe.

O inspector António Jorge não quis ouvir absolutamente mais nada. Fartou-se de “juras” de quem com toda a certeza omite factos ou mente descaradamente e, irritado, antes de desligar o telefone, intimou Sónia a comparecer na sede da Judiciária no dia seguinte às nove da manhã para prestar declarações. Entretanto, e sem mais delongas, meteu os pés a caminho até ao Príncipe Real, desceu à Praça das Flores e foi experimentar um “bretzel” no “Pão de Canela”…


Pão de Canela (título provisório)
Quinto Capítulo
Proposta nº. 3 – original de Inspector Moka


Joaquim Narciso Filipe, mais conhecido nesta terra pelo “Pinguinhas”, escreveu ao Presidente da Câmara local uma pungente carta. Recebido de urgência nos Paços do Concelho com outros dois colegas, representando assim 60% da força de trabalho da falida “Resineira de Santa Leocádia”, veio em cansado fato domingueiro e tom solene, relatar como os trabalhadores da mesma, reunidos após vicissitudes diversas, vencimentos perdidos, deserção do patronato, mal-sucedida recuperação de empresa e explicação confusa de procedimentos, se sentiam finalmente espoliados do pouco que ainda restava antes das portas serem definitivamente fechadas e o terreno desocupado para fins imobiliários. Ouvia-o o atento presidente, atrás dos óculos de armação em titânio, novidade na época, aro fino e preço alto, solene o homem como convém, penteado a preceito de apresentação mediática próxima, instalado entre a bandeira nacional e um busto da República, generosamente patriota.

Certo era que, de há muito, os negócios não andavam bem e que, tanto clientes, como matérias primas, como facturações iam sucessivamente rareando e deixavam mesmo de levantar a mercadoria, os tais falados standoiles, com base em não se cumprirem as especificações de fabrico. Quanto à “massa” em caixa, então nem se fala! Os donos italianos e também o gerente espanhol, o tal que tinha vindo de Barcelona, não punham os pés no estabelecimento e a zona de produção só se manteve menos mal enquanto por ali andou o Eng. Lobato. Este, farto de promessas por cumprir, várias vezes tinha ameaçado de ir-se embora, até que deu mesmo de frosque.

Veio então outro engenheiro, um tal António Ferreira Neto, que logo mostrou preocupar-se com o reactor grande ao ponto de pedir ao José da Costa que, daquele amontoado chamado arquivo, destacasse todos os desenhos, especificações e correspondência que respeitassem aquele equipamento e aos respectivos acessórios, comprados anos antes em Itália, no mercado de segunda mão.

Nessa altura, já no início de Janeiro, o processo de recuperação dava já o que tinha a dar. Os credores continuavam a ser muitos e o dinheiro nenhum. Continuavam a não pagar vencimentos, primeiro em partes, depois no todo. Os principais credores entenderam-se bem quanto ao espaço e nada quanto à viabilização industrial. Criaram-se duas sociedades, a imobiliária e a outra, remetendo para esta o pessoal. À espera de melhores dias, tínham-lhes proposto algumas formas de saída, todas abaixo do que pensavam poder esperar. Os fabricos continuavam parados, a falência da empresa industrial tornava-se um facto. Como um abutre, um reaparecido António Neto dizia desempenhar pouco claras funções a mando ou em relação com o desenrolar de um processo que parecia não mais ter fim. Vigiavam o ambiente que fora também deles, já que não tinham outro sítio ou esperança para onde ir. Assim, foi com dificuldade e veemência que o regressado engenheiro lá os convenceu, naquele fim de ano de 2001, a abandonarem os portões entre o Natal e o dia de Reis com o argumento de que, findas essas duas semanas, estaria a tempo de os readmitir e de reatar a produção com um rentável fabrico a feitio que ele iria contratar, matérias primas da conta do cliente, produto a levantar contra dinheiro fresco e certo, deixando-os então imediatamente compensados de tudo o que por agora se lhes ficara a dever. Trigo limpo, a deixar de haver devidos logo que viessem buscar a mercadoria. Entretanto, durante as festas, a fábrica ficaria mesmo fechada a cadeado, ninguém se chatearia por isso e pronto!

Não foi sem surpresa e revolta que, quando regressado em Janeiro, o pessoal apercebeu-se da saída do reactor grande e seus pertences, o condensador, os sistemas de agitação, aquecimento e controle. Um vizinho da fábrica contou que, no fim de uma daquelas tardes de festa, tinha chegado um camião coberto, de matrícula espanhola, que entrara às arrecuas no pátio e que só saíra na manhã seguinte. Um gajo mal encarado aparecera a perguntar onde poderia comer algo e, em provocada conversa, disse que tinham vindo trazer uns bidons de matérias-primas para o novo fabrico. Confortara-os com isso, a ponto de não deixar passar vozes de alarme. E de facto os bidons lá estavam, mas usados, amolgados e vazios, verdadeiramente de para português ver.

De adquirentes da firma nem notícia, do Eng. Neto muito menos, só tinha aparecido por ali o advogado da imobiliária a verificar se o espaço estava já liberto. Apertado com perguntas foi bastante evasivo: o processo de falência estava concluído, os trabalhadores teriam os seus direitos certamente acautelados. Quanto ao reactor, fez-se mesmo de novas e disse que de nada sabia, arriscando que poderia ter sido vendido como sucata ou até devolvido aos seus legítimos proprietários pois constara-lhe que, quer o equipamento, quer licenças de fabrico, nem sequer tinham sido totalmente pagas. Assunto entre o tribunal e os credores e de disposição da massa falida, em extensão que não sabia o falante precisar.

Logo a seguir à constatação do despojamento, Narciso “Pinguinhas” e colegas tinham conseguido aceder ao escritório e arquivo para ver se ainda lá estavam as coisas que o José da Costa em tempos coleccionara a pedido do Eng. António Neto. Faltava tudo, isso e não só! Como sucedeu em muitas empresas portuguesas falidas ou intervencionadas, o desaparecimento dos arquivos roubara-as à História, num verdadeiro “vae victis” de que, em tempos futuros, se irá certamente apanhar os cacos. Ficava a memória: o José da Costa lembrava-se do que colocara na e junto da secretária do interessado engenheiro, de todos os desenhos dos reactores, agitadores e condensadores, em envelopes azuis entretelados, dos dossiers de correspondência, de duas ou três pesadas caixas de madeira que continham os manuais técnicos e os livros diários de fabrico

E agora, amigo presidente, já que somos do mesmo partido e votamos em si, aqui estamos para lhe narrar isto, pedir as providências da Câmara e para que nos aconselhe sobre o que devemos fazer?!

Só me saem duques do baralho, pensou o presidente! E começou o discurso-modelo três dos momentos desgraçados de crise. Sabem, meus amigos, não há muito que a Câmara possa fazer nestes casos. Falem já com o vosso sindicato e com o vosso advogado, aquele que o sindicato designou e que acompanhou o processo e expliquem-lhes tudo tim-tim por tim-tim. Recordem-se os elementos que puderem sobre isso do reactor, do camião e dos documentos pois pode ser preciso ir ao tribunal ou à guarda falar-lhes nisso ou, sei lá, formalizar mesmo uma queixa, no caso da saída ter sido irregular. Mas, sem dúvida, comecem e já pelo sindicato e pelo vosso advogado. Hoje mesmo! E só por curiosidade, qual é o tamanho daquilo? Pois é, não se evapora assim! E o material, qual é? Ah, um inox especial... está bem de ver! Há sucateiros por aí que adoram inoxes!

Mas vocês acham mesmo que poderia interessar a alguém tal como está? Pois é verdade, vocês até disseram que tinha vindo para cá de Itália, em segunda mão. E para que poderia aquilo servir? E a quem? Dizem vocês que daria para fazer quase tudo como se fosse uma panela de pressão ou uma chocolateira... essa é boa! Digam isso também ao advogado e, se for preciso, ao delegado e à guarda! E à direcção regional do ministério da economia, já agora. E aos rapazes do ambiente, que são muito sensíveis a essas coisas.... E é isso o que poderão fazer por ora. Não vejo outra solução. Sindicato e advogado já! Nisto de crises, os principais pagadores acabam sempre por ser os mesmos...como na história do mexilhão, pois é... Agora desculpem, tenho de ir inaugurar o espaço para o futebol de salão no Abelhense. Não tem as medidas, mas serve. Obra asseada! Entramos com um subsídio para aquilo... promessas eleitorais a cumprir, como convém! Digam-me coisas, depois das vossas diligências. Esses gajos todos, desde que compraram a Resineira, nunca me pareceram de boa pinta!

Saltou para o carro, democraticamente ao lado do “Narigudo”, arvorado em motorista da presidência após as eleições e, deixando-os a olhar, o carro afastou-se rápido.

Não eram muitos. Não eram novos. Não tinham mais a que se agarrar. Poderiam fazer uns cartazes e chamar ali a SIC ou a Quatro. A fábrica eram só paredes. O futuro era, mais uma vez, incerto. A estrada, à frente, enchia-se de angústia.



 
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