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Sunday, April 15, 2007
  TORNEIO “OS SETE MAGNÍFICOS”

NOTA PRÉVIA

No período inicial da implantação em Portugal do Enigma ou Problema Policial (ou Policiário), correspondente aos finais dos anos 40 (mais precisamente, de 1945 a 1948, inclusive), Almeirim foi, sem contestação, um viveiro de entusiastas adeptos.
Um grupo de sete jovens – diríamos “OS SETE MAGNÍFICOS” – não só eram solucionistas a ter em conta como produtores exímios (para a época) e respeitados de problemas. Lembramos: A. Cláudio, empregado numa livraria local frequentada por estudantes e que, já adulto, se formou em História; A. S. Vinagre, estudante então, saudoso amigo que nos deixou prematuramente e preferiu, aos livros, a agricultura; Benedictus (Benedito Sampaio Ferreira), hoje distinto especialista em Psicanálise; Repórter S. O. S. (Fernando Mira Canelas), médico de Clínica Geral; M. F. Correia, actualmente coronel médico; M. Fernandes, hoje empresário comercial de sucesso; M. Constantino, diplomado em Economia e Finanças, ainda no activo como produtor.
São estes “rapazes”, filhos de Almeirim, que os Zés (Zé da Vila, Zé dos Anzóis e Zé-Viseu), responsáveis pela secção “Mundo dos Passatempos”, acham por bem recordar (viva a juventude!) com um modesto torneio, composto por problemas de sua autoria.


Mundo dos Passatempos
Jornal Almeirinense

TORNEIO “OS SETE MAGNÍFICOS”
PROVA Nº. 1
“MORTO!”, original de A.Claudio

O esplêndido Ford do detective Scott percorria a curta distância que separava a sua habitação do palacete do milionário Leon Turner que, segundo a chamada telefónica que havia recebido, há poucos minutos, tinha aparecido morto, na sua residência.
O dia aparecia formoso e prometedor, em contraste com os anteriores, que tinham estado tempestuosos, chovendo ininterruptamente e trovejando bastante. A acção benéfica daquele sol radioso passava despercebida na mente de Scott, que, naquela altura, trabalhava activamente.
Dentro em pouco encontrava-se na frente de um largo portão de ferro, que tratou de transpor, internando-se pela mata que aparecia antes de se chegar ao palacete.
Inadvertidamente, Scott encontrou sob o seu olhar, à direita, dentro de um canteiro, um pedaço de tecido que, maquinalmente, guardou. Um homem sem libré estava ao portão. Scott perguntou-lhe se estava alguém em casa e explicou a sua vinda ali. O detective notou que o homem levava, repetidas vezes, a mão, em forma de concha, ao ouvido.
Seguindo-o, Scott encontrou-se num quarto, onde estava o cadáver do milionário, ficando, depois, só. Um rápido olhar para o corpo, que se encontrava deitado de bruços sobre a cama, com uma pequena brecha no crânio, e um revólver caído no chão, bastaram para que Scott pusesse o seu cérebro matemático em actividade. No mesmo momento verificou se o bocado de tecido que tinha encontrado coincidia com qualquer peça de vestuário do morto. De facto, na algibeira esquerda do casaco, faltava um bocado. Chegou à porta e chamou as únicas pessoas que coabitavam com o milionário – dois sobrinhos (os únicos parentes) e três criados, dos quais, naquela altura só um se encontrava, substituindo o mordomo.
Scott chamou um dos primeiros, que se adiantou e disse:
– Eu nada sei que possa resolver este enigma, pois cheguei hoje de Itália onde tinha ido em visita de estudo.
Scott olhou, depois, para o segundo, que contava mais quatro anos que seu irmão:
– Meu tio já há muito tempo que se encontrava preocupado, não sei porquê; talvez negócios ou o seu estado de saúde. Passava as noites em claro e, muitas vezes, ouvia-o falar alto. O nosso médico recomendou-lhe ter o maior sossego e ir, de vez em quando, dar uns passeios pela mata. Ontem, fui com ele dar uma volta, quando se sentiu, subitamente, mal disposto. Disse para regressarmos e…
Scott interrompeu: – Este bocado de fazenda… o que significa?
– Ah!… isso foi quando regressávamos e, como ele cambaleava, prendeu-se o casaco num ramo e rasgou-se. Hoje de manhã, como estranhava não aparecer, vim até ao quarto e presenciei este espectáculo horrível. Pobre tio! Talvez previsse o fim próximo e, não querendo dar mais trabalho, suicidou-se!
Scott ouviu com atenção toda a narrativa de Stanley Turner. Meditou, por momentos, e, por fim, disse:
– Já sei o que sucedeu!

Qual o seu parecer, caro leitor?


Solução de Inspector Boavida

O Sol despertara radioso no final daquela madrugada que adormecera tempestuosa, “embalada” por dias e dias de chuva intensa e ininterrupta. Com a chegada do Sol também se foram embora os trovões e Scott não teve desta vez dificuldade em ouvir a campainha do telefone. Do outro lado da linha, o chefe gritou: “Vai depressa a casa do Leon Turner. O gajo apareceu morto!”.

Scott não perdeu tempo. Banho tomado, barba feita, dentes lavados, a inevitável gabardina vestida sobre o velho fato roçado, cachimbo apagado no canto da boca, a arma no coldre, a velha lupa dependurada no colete, e lá foi ele no seu magnífico Ford até ao palacete do milionário Turner. Estacionou junto ao portão e entrou mata dentro. Ao seu lado direito deu conta de um pedaço de pano caído num canteiro, e apanhou-o.

Junto ao portão da mansão do falecido Turner estava um dos seus empregados. O homem era mais surdo do que um penedo. Enquanto lhe dizia a que vinha, Scott percebeu que tinha de elevar o tom de voz porque o sujeito levava a mão em forma de concha ao ouvido. Com o esforço de um e de outro, a comunicação foi estabelecida e, breves instantes depois, o detective encontrou-se no quarto onde estava o cadáver.

Scott pediu que o deixassem só com a vítima. Turner estava deitado de bruços sobre a cama, com uma brecha no crânio. No chão do quarto, “descansava” um revólver. A posição do corpo, a zona da cabeça atingida, a localização da arma e… o pedaço de tecido em falta no bolso esquerdo do casaco do morto, igualzinho ao trapo que ele encontrara à chegada junto ao canteiro, do lado direito de quem entra, denunciavam um caso de homicídio.

Só estavam no palacete três almas, para além do cadáver e de Scott: o empregado surdo que recebeu o detective e dois sobrinhos do morto. Um destes, o mais novo, tinha acabado de chegar de Itália, onde estivera em visita de estudo, pelo que nada tinha a dizer que pudesse contribuir para o esclarecimento das causas da morte do tio. O outro, o mais velho, convivera de perto com a vítima até aos seus últimos dias.

Segundo o sobrinho mais velho, Turner aparentava viver muito preocupado, talvez face a problemas nos negócios, e com algum sofrimento, devido à sua já débil saúde. Passava muitas noites em claro, falando alto, e o seu médico recomendara-lhe repouso. Para além disso, havia sugerido que fizesse, de quando em vez, alguns passeios pela mata. Não há nada melhor para a saúde do que um passeio calmo ao ar livre…

O seu último passeio pela mata, de acordo com o depoimento do sobrinho mais velho, teria acontecido na véspera, tendo ele próprio acompanhado o tio com desvelo. E teria sido exactamente nessa altura, quando já regressavam a casa, que o bolso do casaco do milionário Turner ficou preso num dos ramos do canteiro, rasgando-se… O sobrinho, segundo diz, não deu importância ao sucedido porque estava mais preocupado com o estado de saúde do tio, que se havia sentido indisposto de repente.

Foi a partir desta pequena pista que Scott começou por resolver o enigma. De facto, se o bolso esquerdo do casaco do velho Turner tivesse ficado preso no canteiro quando ele caminhava no sentido do portão, tudo estaria certo, uma vez que o canteiro fica do lado direito de quem entra na propriedade. Mas, de acordo com o testemunho do seu sobrinho mais velho, o incidente ocorreu quando o milionário regressava à mansão…

… E uma vez que tinha chovido ininterruptamente nos dias anteriores, muito dificilmente o milionário teria decidido fazer um passeio pela mata na véspera. Um homem fraco, doente, não se arrisca a apanhar uma molha!... Admitindo que ele estava demente e que a chuva não molha tolos, a roupa não escaparia, porém, à “fúria” das águas. E decerto que o sobrinho “querido”, se não tivesse conseguido impedir o velho de passear, teria, pelo menos, providenciado a mudança do vestuário do seu “ti-ti”.

Mas a verdade é que Turner morreu, deitado de bruços sobre a cama, vestido com a roupa (sequinha?) do “passeio”… Assim, poderá concluir-se que o milionário fez a sua caminhada pela mata na manhã do dia em que sucumbiu, quando já não chovia e os raios do sol irrompiam dia dentro, tendo sido talvez arrastado pelo seu sobrinho mais velho, quando se encontrava a admirar as flores do canteiro, que o queria em casa, para lhe “tratar da saúde”... Foi aí que o pedaço de pano se “soltou” do bolso do casaco!...

O sobrinho entrou em casa agarrado ao velho e levou-o para o quarto. Pegou na arma do tio. Turner estava de costas. Um tiro soou e o velho tombou de bruços em cima da cama. O empregado surdo era incapaz de ouvir o disparo da arma e o velhaco do sobrinho do velho teve tempo suficiente para preparar a “encenação” do suicídio. Limpou as suas impressões da arma e atirou-a para o chão. Depois apagou todos os vestígios da sua presença no quarto e.... chamou a polícia.

Scott sabe que um suicida dispara nas frontes ou na boca, pelo que Turner nunca cairia de bruços se tivesse cometido suicídio! Nem a arma se apresentaria sem impressões (o detective já havia confirmado isso, com a sua velha lupa?!). Acresce ainda que o sobrinho não deixaria de ouvir o tiro (ele ouve muito bem!... costumava ouvir o tio a falar alto, no seu quarto!), pelo que não faz sentido que tenha descoberto o corpo do velho quando começou a ficar preocupado com o seu atraso naquela manhã. Até porque era muito cedo (o empregado ainda nem tivera tempo de vestir o libré!...).

E será que a brecha no crânio do velho foi mesmo provocada por uma bala?! Um detective com a experiência de Scott não teria dúvidas sobre isso! Entretanto, se o técnico forense concluir que Turner faleceu na véspera, tudo terá acontecido assim: O velho terá ido para o quarto, sem que antes tenha feito qualquer passeio, porque chovia a “potes”, e nem teve de mudar de roupa!... Bang! Só estavam em casa o sobrinho mais velho e o empregado surdo. Este último nunca conseguiria distinguir o som de um tiro misturado com trovões. E o sobrinho-assassino alegaria o mesmo para justificar não ter ouvido o barulho do disparo que matou o tio: trovejava imenso!!!!

Bom, neste caso, o pedaço de pano do bolso do casaco do velho encontrado no canteiro teria sido lá colocado na manhã do dia seguinte (não estava molhado!...) pelo sobrinho-matador, para que a sua história “do passeio” com o tio fizesse algum sentido. Os criminosos pensam que os polícias são estúpidos, mas… o detective Scott não perdoa!!!


Mundo dos Passatempos
Jornal Almeirinense

TORNEIO “OS SETE MAGNÍFICOS”
PROVA Nº. 2
“O CASO DO SENHOR REIS”, original de M. Fernandes

Na tarde quente, a água fresca murmurava, pardamente, procurando o caminho do lago. Risos, tilintar de copos, música… era este o ambiente do jardim.
Um carro parou frente ao jardim e tornou a avançar pela larga alameda sombreada pelas tílias, para de novo parar e dele sair o célebre Inspector Moisés. Era elegante e gordo o astuto criminalista, tão querido do público.
Avançou, distribuindo cumprimentos e sorrisos à direita e à esquerda e, em breve, viu-se rodeado de grande grupo. Como sempre, pediam-lhe para contar as suas aventuras. Desta vez, porém, Moisés esquivou-se com uma inocente mas habilidosa mentira: – Hoje, não tenho nada de interessante a contar-vos (disse), mas sei de quem o poderá fazer. Procurem o João Reis e ele vos contará um caso interessante.
Os assistentes deixaram-no, após inúteis protestos, e foi com porfiados esforços que encontraram o extravagante milionário João Reis, rival de Moisés.
Após o pedido, o milionário, espantado, balbuciou: – Aquela história que disse o Moisés? Mas… como sabe ele? Eu não lhe disse nada… foi partida, foi partida! Mas vendo o milionário que não o deixavam, viu-se obrigado a contar:
– O caso deu-se assim. Eu estava em Londres e, um dia, resolvi tirar a limpo o facto de um criado – o Jorge – me roubar. Fingi que saí e escondi-me numa pequena sala-escritório que possuía e onde estava o cofre.
Quando entrei, a única lâmpada da sala estava acesa e, ligado à própria lâmpada, um rádio tocava, desalmadamente, um swing! Dei a volta ao comutador e imediatamente a sala ficou apenas iluminada pela claridade ténue que saía do quadrante da telefonia. Escondi-me atrás da porta e esperei. Vi entrar o ladrão e sair com 2000$00. Depois, fui-me a ele e… mandei-o prender.
Tinha terminado Reis de contar a aventura, quando se ouviu uma gargalhada zombeteira e Moisés dizer: – Foste apanhado, meu mentiroso! A tua história é inverosímil – tem duas grandes faltas! Não, não protestes.

Os leitores de “O Almeirinense” vão dizer-nos:
1 – Quais são as duas faltas da história do Sr. Reis?
2 – Por que pensa assim?


Solução de Inspector Boavida

João Reis, não o actor, marido da televisiva Catarina Furtado, mas o milionário fanfarrão e mentiroso, amigo e rival do popular e destemido inspector Moisés, estava longe de imaginar da partida que lhe havia sido preparada. Para escapar às investidas dos representantes do ‘jet-set’ nacional, fúteis e curiosos, que lhe enchiam a paciência com perguntas tolas sobre as suas empolgantes aventuras no combate ao mundo do crime, Moisés resolveu fazer circular o boato de que o ricaço detective João Reis tinha uma história fantástica para lhes contar.

Apanhado de surpresa, João Reis começou por negar ter algo de interessante a dizer, mas, de repente, o seu ego enorme falou mais alto do que a sua lucidez e fez espoletar a fanfarronice que o caracteriza. Mentindo sem pudor nem vergonha, improvisou uma história mirabolante de que nunca antes imaginara ser a personagem principal, o protagonista quase absoluto. E para dar mais respeitabilidade e crédito à história, o milionário Reis centrou a sua acção em Londres, a capital do reino de Sua Majestade a rainha-mãe de toda a Bretanha.

Convém começar por justificar as razões que motivaram o milionário a adquirir uma casa, há já alguns anos, na fria e cinzenta cidade do Big-Ben e da Empire Trafalgar Square. Tudo se prendeu, segundo ele, com o facto de ser constantemente chamado a colaborar com a Scotland Yard, que não dispensa os seus serviços na investigação dos crimes mais complexos e difíceis. E como detesta viver em hotéis, optou por comprar uma típica casa londrina, que decorou a seu gosto. Para não se sentir muito desenraizado resolveu contratar como empregados dois imigrantes portugueses.

Segundo conseguimos apurar, um dos criados, Jorge de seu nome, um ex-criminoso que viveu seis anos ‘engaiolado’ no Linhó por ter espalhado o medo e o terror por várias vilas e aldeias cá do burgo, cometendo os mais diversos crimes, desde o simples roubo à extorsão, estava ao serviço de João Reis há pouco mais de quatro meses. O milionário tinha apostado na sua recuperação e reinserção social, mas cedo se arrependeu. Aos poucos foram desaparecendo lá de casa diversos objectos decorativos de algum valor e as suspeitas começaram a recair sobre o rapaz.

Diz João Reis que um dia deixou aberto, e ‘à mão de semear’, o seu cofre pessoal, onde guarda algum dinheiro e peças de grande valor estimativo, anunciando aos dois empregados que se iria ausentar para uma reunião algo demorada com um dos chefões da Scotland Yard. Sem que os criados dessem por isso, escondeu-se na sala-escritório onde tem o seu cofre, não sem antes ter o cuidado de apagar a luz da lâmpada, a cujo casquilho estava ligado um rádio que debitava na altura um ruidoso swing, e pôs-se à ‘coca’.

Segundo ele, a única luz que havia na sala emanava do quadrante do rádio que havia ‘emudecido’ depois de desligar o interruptor da lâmpada. Graças àquela luz ténue, João Reis afirma que conseguiu ver o malandro do Jorge entrar na sala, dirigir-se ao cofre e retirar de lá exactamente 2.000 escudos (… mas para que servia aquela moeda em Londres?!). O milionário Reis ficou tão furioso com o que viu (completamente às escuras!...) que não teve contemplações: foi-se ao meliante que nem ‘gato a bofe’… e mandou-o prender.

Ao ouvir aquela história mirabolante, o inspector Moisés não conseguiu reprimir o riso nem conter a língua: – “Você mente, meu caro e dedicado amigo, companheiro e rival, João Reis. E mente duplamente. Primeiro, porque ao desligar o único ‘pirilampo’ existente na sala onde estava o cofre, fez com que se desligasse também o rádio que se ‘alimentava’ da energia eléctrica irradiada da tomada do casquilho daquela lâmpada, pelo que o quadrante (da telefonia) não podia emitir qualquer luz por mais ténue que fosse”…

João Reis engoliu em seco, enquanto Moisés lubrificava as cordas vocais com um gole de água lisa (com algum whisky…), para prosseguir depois o seu discurso: “…Segundo, porque não havendo qualquer luz produzida pelo quadrante do rádio, e estando, portanto, a sala completamente às escuras, você poderia eventualmente ter identificado, mais ou menos, a pessoa que lá entrou, atendendo ao volume do seu físico, ao seu modo de caminhar, mas nunca poderia saber (ter visto) o valor exacto do dinheiro retirado do cofre”.

Mas existiam dois outros pormenores que retiravam ainda mais crédito ao relato de João Reis, e Moisés não quis que eles passassem em claro: “Meu caro ‘J.R.’, diga lá se faz sentido guardar num cofre, em Londres, uma moeda tão pobre como o escudo?!... E no caso do ladrão, perguntar-se-á por que razão havia ele de roubar dois mil míseros escudos, se havia com certeza no cofre algumas libras? E mais: se a sala se encontrava completamente às escuras, o Jorge, convencido de que você estava fora, não acendeu a luz porquê? Tem alma de morcego?... Gosta de trabalhar às apalpadelas”?...

J.R. ruborizou de vergonha, tossiu, gaguejou… Deu ordem aos criados para que servissem mais bebidas e canapés aos seus ilustres convidados, tomou um sumo de laranja e… nunca mais ninguém o viu! “Deve ter ido a Londres fechar o cofre” – comentou-se!


Mundo dos Passatempos
Jornal Almeirinense

TORNEIO “OS SETE MAGNÍFICOS”
PROVA Nº. 3
“ATRAVÉS DA RÁDIO”, original de Benedictus

Estou aborrecido! E, quando o estou, só o meu aparelho de ondas curtas me faz esquecer este aborrecimento que, afinal, não paga dívidas…
Vou ser transportado em maravilhosa viagem através do éter e… aterro na América – Chicago, de onde vou ouvir um rádio-enigma policial:
– Atenção, radiouvintes! Atenção ao Departamento de Polícia, de onde difundiremos os depoimentos dos principais suspeitos implicados na morte do célebre milionário Robert Sayt, ocorrida há cerca de uma hora, em circunstâncias misteriosas. Atenção!
Secretária – Afinal, que sei eu? Nada, infelizmente, caros senhores. Quando ouvi barulho (eu fico por cima do escritório), desci e vi Robert – morto! Triste realidade! É tudo o que sei. Oh! O destino foi tão cruel…
Noiva – Meu amor, meu Robert! Tão cedo partiu e tão ingloriamente… Fatalidade! Deve ser obra daquela mulher – da secretária! Meu Deus! Ontem estava tão alegre, em minha casa…
Sir William Nopal – O que eu sei é de extrema inutilidade; ou, por outra, de extrema utilidade para o criminoso. Sim, houve crime. Robert era por de mais cobarde para se suicidar. De positivo, apenas sei que está morto e que, ontem, cerca da meia-noite, saiu de minha casa, bem disposto.
Neppey (um antigo “parasita” da vítima) – Na pretérita noite, acompanhei-o a casa de Sir Nopal, que o malogrado Sayt, generosamente, me apresentou. Mal reparei no novo amigo. Reparei, sim, na sua gentil filha; mas, infelizmente, ela estava noiva de Robert. Há pouco mais ou menos uma hora, logo à hora do crime, fui visitar Sayt e vi, quando distava ainda um pouco mais de 100 metros da casa deste, sair, furtivamente, Sir Nopal, por uma janela. Não sei o que foi lá fazer. Isso é com ele, ok?
Mas… agora me lembro que são 11 horas e ainda estou em jejum. Perdão, vou fechar a telefonia! Mas, por favor, digam-me:

– Quem matou Robert?
Façam favor de expor os vossos raciocínios!


Solução de Inspector Boavida

O jovem estudante Benedito Sampaio Ferreira tinha passado a noite agarrado a dezenas de calhamaços de psicologia dinâmica e comportamental, de psicoterapia, psiquiatria e psicanálise, tendo subitamente adormecido abraçado a Sigmund Freud, Karen Horney, Carl Gustav Jung e Ivan Pavlov, com os quais sonhou toda a noite. Para cúmulo do azar e da confusão, acabou por misturar as teorias psicanalíticas e neo-freudianas com as teorias neo-behavioristas, e o estruturismo de Gestalt com o humanismo de Maslow, tendo acordado em sobressalto e completamente “na fossa” já a manhã entrara dia dentro.

Benedito estava de “rastos”. Tinha exame durante a tarde na Faculdade e sentia os “circuitos” do cérebro todos trocados – os do hemisfério esquerdo emaranharam-se nos do hemisfério direito de tal maneira, provocando uma sensação de desconforto tão grande, que o estudante almeirinense se viu confrontado com um súbito estado de depressão indescritível. Nestas alturas, a solução passava por mudar de personalidade e “vestir a pele” de Benedictus, um policiarista viciado na Secção Mistério e Aventura da revista Vida Mundial Ilustrada e numa rubrica radiofónica policiária emitida em onda curta através de uma Rádio de Chicago.

Todas os dias, mais ao menos àquela hora, por volta das onze da manhã, o detective Benedictus encostava o ouvido à sua velha telefonia para não perder pitada do enigma que a emissora norte-americana submetia à argúcia, à capacidade de raciocínio lógico e de dedução dos seus ouvintes de quase todo o Mundo. Desta vez, a voz cavada e quente do locutor anunciou uma ligação em directo ao Departamento da Polícia da cidade, para fazer a cobertura do interrogatório de quatro suspeitos do assassinato de Robert Sayt, um conhecido milionário que aparecera morto uma hora antes, no seu escritório.

A secretária de Sayt conta como descobriu o corpo. Diz que estava no andar de cima quando de repente ouviu um barulho. Desceu as escadas e ao chegar ao escritório viu Robert... morto! Afirma que nada mais sabe e mostra-se desolada. A noiva do milionário, por sua vez, insinua que a empregada de Sayt sabe mais do que diz, admitindo mesmo que ela será a criminosa. O noivo mostrara-se tão feliz na véspera, pelo que não havia razões para atentar contra a sua própria vida. Com toda a certeza que fora assassinado. O (ex)futuro sogro de Robert, por seu lado, também não acredita que este tivesse coragem para se suicidar. Ele era cobarde de mais para tal!... – afirma.

O quarto suspeito, um “amigo” de Robert Sayt, que o sugava há muito, vivendo praticamente às suas custas, declara que estivera na véspera em casa da noiva da vítima, onde conheceu o pai desta. Mal… porque quase nem olhou para ele. Só tinha olhos para a filha, que era linda. Infelizmente que ela já estava comprometida, senão… Conta ele que, no dia do crime, por volta da hora em que o corpo fora descoberto, decidira ir visitar o “amigo” e que, quando se encontrava mais ao menos a cem metros da casa deste, vira o pai da noiva de Robert sair esquivamente por uma das janelas. O que o deixou muito intrigado, até ao momento em que soube da morte do infeliz Sayt…

De repente, a barriga de Benedictus começou a “dar horas”. Ainda estava em jejum. Olhou para o relógio. Eram onze da manhã em Almeirim, menos cinco horas em Chicago!... Os depoimentos haviam sido prestados há breves instantes, uma hora após a ocorrência do crime, que se registou, portanto, às cinco da madrugada!... O sol ainda não nascera na cidade adoptiva do célebre gangster italiano Al Capone. Em menos de duas torradas e um copo de leite, o detective ribatejano tinha decifrado o enigma radiofónico: o “amigo” de Robert mentiu nas declarações feitas à polícia! E se o fez é porque tem algo a esconder. Decerto que foi ele quem matou o milionário Sayt!

De facto, como é que o “amigo” da vítima podia ter reconhecido àquela distância, a cerca de cem metros, quando a noite ainda dominava o dia, um sujeito (o pai da noiva de Sayt) que mal conhecia, pois fora-lhe apresentado na véspera e quase nem olhara para ele?... E porque razão iria ele visitar o seu “amigo” àquela hora, às cinco da manhã?... Será que foi lá para “sacar” mais alguns “tostões” e o Sayt achou que a “chulice” já era de mais, dando-lhe uma “nega”, o que irritou o “amigo” ao ponto deste perder a cabeça e tirar-lhe a vida?... Será que o móbil do crime foi o roubo de uma bela maquia em dinheiro ou de peças de grande valor material?!... Com certeza que sim!!!

Benedictus limpou a boca ao guardanapo, arrumou a loiça na cozinha, “despiu a farda” de detective e voltou a ser o Benedito Sampaio Ferreira. Daqui a umas horas tinha exame na Faculdade. Ainda havia muito que estudar... Ele tinha alma e vocação de investigador policial, mas o seu sonho era ser Psicanalista!...



Mundo dos Passatempos
Jornal Almeirinense

TORNEIO “OS SETE MAGNÍFICOS”
PROVA Nº. 4
“MATARAM UM CONVIDADO”, original de A. S. Vinagre

Spring, o famoso detective inglês, transcreveu um dos seus últimos casos:
I – Local do crime – primeiro andar. Uma escada nasce do rés-do-chão para o primeiro andar, frente à única porta do salão de honra. Nas paredes do salão podem ver-se quadros famosos e várias relíquias de guerra. Ao fundo, uma larga janela, de vidro martelado. Do cimo da escada atrás citada, partem dois pequenos corredores – à direita e à esquerda – dando para outros dois, dos lados do salão principal, no sentido do seu comprimento, e formando, assim, as alas direita e esquerda do edifício. Nas paredes dos corredores, que terminam ao fundo por janelas envidraçadas, vêem-se, também, armas antigas. Formando a ala esquerda, temos, por ordem: o bar e os quartos 2, 4 e 6; na direita, os quartos 1 e 3, a sala de jogo e a biblioteca. Todos os quartos têm, agora, uma porta para o corredor, excepto a biblioteca e a sala de jogo, que têm comunicação entre si. Observam-se, ainda, janelas em todas essas divisões, a três metros e meio do solo.
II – Foi no quarto nº 4, onde estava instalado Louis, um gigante de dois metros, que se deu o crime, sendo ele próprio a vítima. A morte deu-se entre as 10,30 e as 11 horas, sendo ocasionada por uma das achas de armas, das que se encontravam pelas paredes, e que fracturou o crânio do assassinado. Nada mais notei de interesse; apenas uma cadeira tombada e com o tampo riscado de fresco, possível e único indício de provável luta.
III – Fui eu, Spring, que dei com o morto, cerca das 12,30 horas. Vi todos os quartos e o bar, que estavam vazios e onde nada encontrei de suspeito. Voltei atrás e fui falar com o criado, Jim, que esteve junto à porta do salão desde as 10 horas e onde continuou até ao meio-dia, visto ser ali o seu posto (por excentricidade do dono da casa). Jim viu Ó’Moor, Cresade e Louis a dirigirem-se para os seus quartos, às 10,20 horas, aproximadamente. Viu Ó’Moor voltar, decorridos cerca de 5 minutos, e dirigir-se para a ala direita, voltar novamente ao quarto e tornar a sair.
IV – São 13 horas. Nada descobri, ainda. Espero que todos se juntem ao almoço e, como avisei o dono da casa, fazer, então, algumas interrogações.
V – 13,10 horas. Ó’Moor confirma as declarações de Jim, acrescentando que foi jogar ténis com Conway, instalado no quarto nº 3. Interrogado, depois, Cresade, este fez-se ainda mais pequenino e explicou que se conservara na biblioteca cerca de duas horas, lendo. A linda Mary, do quarto nº 1 e esposa de Conway, diz que esperou por Louis até tarde, para irem à cidade, acabando por ir sozinha. Jim nada acrescenta às suas declarações – não abandonou o seu posto e nada mais viu.

Por fim, acrescento eu:
1 – Quem matou o convidado?
2 – Em que baseia a sua afirmação?


Solução de Inspector Boavida

O jovem Vinagre, ainda estudante, e muito antes de se dedicar à agricultura, tinha uma paixão quase doentia pela leitura. Não havia livro, caderno, brochura, que ele não desfolhasse com o máximo interesse, fosse qual fosse a temática, desde o romance ao ensaio, passando pela novela, conto ou poesia, embora tivesse uma atracção particular pelo policial. Ele era aquilo a que se usa chamar um rato de biblioteca, local onde perdia horas sem fim, e frequentador assíduo de todos os alfarrabistas da região.

Foi numa dessas “lojecas”, de um alfarrabista muito conhecido em Santarém, “o papa livros”, que o jovem Vinagre encontrou umas breves notas do famoso detective inglês Spring inscritas numa folha de papel amarelecido, perdida por entre as mais de quinhentas páginas de um livro publicado no início do século vinte, com a chancela de uma importante editora inglesa, da autoria de um medíocre escritor de novelas policiais, cujo nome ficou esquecido nos escaparates, encoberto pela poeira dos tempos.

Aquelas cinco breves e esclarecedoras notas, reportavam-se a um crime ocorrido em Londres num dos apartamentos do primeiro piso da mansarda de um lorde inglês que havia convidado cinco amigos a passarem com ele alguns dias. Mary ficou alojada no quarto número 1 e Conway ficou instalado no aposento número 3, os dois apartamentos que se situam na ala direita da mansão, precedendo a biblioteca e a sala de jogo, como se pode depreender pelo exposto nas notas I e V.

Por exclusão de partes, e havendo unicamente dois aposentos na ala direita, os outros três amigos, Ó’Moor, Cresade e Louis, ficaram alojados nos quartos que integram a ala esquerda do edifício, como se pode, aliás, constatar no descrito nas notas I e II. Ou seja: na nota I, Spring afirma claramente que os apartamentos 2, 4 e 6 ficam na ala esquerda; e na nota II, escreve que Louis estava instalado no quarto 4, onde apareceu morto.

Acresce que na nota III o detective refere que o criado Jim, que tinha como posto de trabalho a “entrada” do salão nobre da casa, situado a meio do primeiro andar, de onde se avistam os corredores que comunicam com as duas alas do edifício, e que estivera ali de serviço entre as 10h00 e as 12h00, afirmou ter visto Cresade, Louis e Ó’Moor dirigirem-se para os seus quartos por volta das 10h20, tendo o último ido, cinco minutos depois, à ala direita, para voltar novamente ao seu quarto e tornar logo a sair.

Significa, assim, que entre as 10h25 (sensivelmente) e as 12h00 permaneceram apenas na ala esquerda do prédio os convidados Cresade e Louis, facto de extrema importância para a descoberta do assassino se atendermos ao registado na nota II: Louis morreu entre as 10h30 e as 11h00! Sublinhe-se, entretanto, que as janelas de todas as dependências da casa ficam a três metros e meio do solo (conforme se expressa na nota I) e que todos os demais convidados se tinham ausentado, à excepção de Mary...

Ó’Moore e Conway tinham ido jogar uma partida de ténis, com certeza aprazada de véspera, uma vez que quando o primeiro se dirigiu ao quarto número 3 para chamar o seu “adversário de court”, já este tinha saído, antes das 10h00. Esta dedução deve­-se ao facto do criado Jim não ter avistado naquela manhã Conway e de Ó’Moore se ter dirigido da ala esquerda à ala direita da zona habitacional da mansão e ter regressado quase de imediato ao seu quarto, de onde saiu acto contínuo em direcção à rua.

Quanto a Mary, de acordo com o seu depoimento e face ao facto do criado a não ter visto, terá saído da mansarda após esperar em vão por Louis “até tarde”, com quem havia combinado um passeio pela cidade. Passava das 12h00 quando ela abandonou o quarto. Jim já tinha saído de serviço! Mary é uma mulher linda, segundo revela Spring na nota V, mas passeia só, dorme só... e é casada com Conway!... Estranho. Será que o seu casamento está em ruptura e o “bom gigante” Louis tinha um affair com ela?...

O jovem Vinagre julgou ter encontrado a razão do crime: ciúmes! Ele não tinha a certeza. Tratava-se de pura especulação, mas... Quanto ao autor do homicídio, não tinha dúvidas nenhumas: foi Cresade quem matou Louis! Esta convicção é sustentada em diversos factos concretos e objectivos:
primeiro: as janelas dos aposentos ficam a mais de 3 metros do solo, de onde se conclui que o crime foi cometido por alguém que estava no interior da casa;
segundo: só Cresade e a vítima se encontravam na ala esquerda do edifício na hora em que ocorreu o homicídio;
terceiro: Cresade mente quando diz que esteve durante duas horas na biblioteca, uma vez que a afirmação foi feita às 13h10 (nota V) e esta dependência fica na ala oposta àquela onde se situa o seu quarto, tendo o criado Jim garantido que não abandonou o posto de trabalho e nada mais viu para além do que é relatado na nota I;
quarto: a cadeira tombada no quarto da vítima com o tampo riscado de fresco parece indiciar que o autor do crime a utilizou para chegar à cabeça do gigante Louis, a fim de o atingir com uma das achas de armas que abundam por quase todo o primeiro piso da casa, e Cresade é de estatura pequena, como se percebe no referenciado na nota V (“…fez-se ainda mais pequenino…”).
Nota Final: é certo que Mary podia ter entrado no quarto de Louis antes das 10h00 e saído apenas depois das 12h00, períodos em que o criado Jim estava fora de serviço, tendo assassinado o seu amante (?) entre as 10h30 e as 11h00, mas os factos acima referidos inculpam claramente Cresade!

Apesar de ter descoberto o autor do crime, o jovem Vinagre “estava com os azeites”. Tudo porque não conseguia encontrar resposta para o facto de ter sido Spring a “dar” com o corpo de Louis. Sim, porque foi Spring ao quarto da vítima? Era seu amigo e foi ao encontro dele para o saudar? Ia a passar na rua e o seu “faro” de detective cheirou a morte? Vinagre não desarmou: enfiou-se na biblioteca e prometeu a si mesmo que não sairia de lá enquanto não encontrasse a resposta para tão intrigante questão…

Mundo dos Passatempos
Jornal Almeirinense

TORNEIO “OS SETE MAGNÍFICOS”
PROVA Nº. 5
“MORREU UM ÁS DO FUTEBOL”, original de S.O.S

O automóvel estava reduzido a um montão de destroços e o corpo do seu único ocupante, o extremo direito do grupo que, nessa tarde, jogara com os campeões locais, estava carbonizado – irreconhecível…
Consegui alguns dados importantes para a identificação completa do corpo e, na verdade, só me faltava o nome da vítima.
Relembrei, então, o desafio a que assistira horas antes e onde apreciara a magnífica exibição do "team" a que pertencia o morto. Excelente, na verdade, especialmente aquela linha avançada que primava pela notável execução dos lances e rapidez que imprimia às jogadas. Cinco ases avançados; não lhes conhecia, porém, os nomes – o que não admira, pois o grupo fazia a sua estreia no burgo.
No entanto, pelo que ouvi dizer, no intervalo e já no fim do jogo, aos entusiastas presentes, pude tirar as seguintes conclusões:
– Marques, num lance pessoal, marcara o primeiro golo do encontro, aos 10 minutos; Lopes correra do seu extremo para abraçá-lo, juntamente com os seus colegas.
– O extremo direito, que nunca trocava de lugar, marcou o canto que Nunes, com um excelente pontapé, converteu no segundo golo, aos 17 minutos.
– Ernesto e Lemos não concordaram que fosse o avançado centro o designado para marcar o penalty que originou o terceiro golo, visto que, na sua opinião, quem marcara o segundo golo era o mais indicado.
– Ernesto não gostava que o seu extremo trocasse com ele, tanto mais que nunca gostara de jogar nesse lugar.
– Quando o quarto e último golo surgiu, já na segunda parte, marcado pelo ponta direita, os jogadores do grupo adversário protestaram junto do árbitro, alegando que, além do extremo, também Lopes estava fora de jogo.

Responda, então:
1 – Quem era o morto?
2 – Quais os lugares que os cinco jogadores ocupavam na equipa e os seus nomes?

Nota: este é um problema que se passa cerca de 1950, altura em que as equipas de futebol utilizavam uma disposição táctica diferente da actual. Jogavam com cinco avançados – dois extremos ou pontas (esquerdo e direito), dois interiores e um avançado centro.


Solução de Inspector Boavida

Não foi preciso lançar um SOS às minhas memórias mais remotas, fundadas nas “estórias futebolísticas” ouvidas ao colo do meu saudoso pai, para recordar os “cinco violoncelos” dos anos gloriosos do Sporting Clube de… Pedras Rubras (SCPR): Lemos (com o número sete, a extremo direito), Nunes (com o número 8, a interior direito), Marques (com o número 9, a avançado centro), Ernesto (com o número 10, a interior esquerdo) e Lopes (com o número 11, a extremo esquerdo).

Mas se eu tivesse dúvidas sobre as posições ocupadas em campo por aqueles cinco exímios e talentosos jogadores, o Dr. Fernando Mira Canelas dissipá-las-ia (quase todas…) no enunciado do seu Problema. Na verdade, quando ele diz que “Lopes correra do seu extremo” e “Ernesto e Lemos não concordaram que fosse o avançado centro a marcar o penalty”, porque preferiam que a recolha recaísse sobre o marcador do segundo golo da equipa, o autor “abre o jogo todo”.

Com efeito, se eu atentar no facto do produtor dar conta de que foi Nunes quem rubricou o segundo golo, para além de identificar Lopes como extremo e de referir os nomes dos dois jogadores que contestaram a opção do treinador da equipa, no que concerne à escolha do jogador que haveria de marcar a grande penalidade, de que resultaria, aliás, o terceiro golo do “team”, concluo, por exclusão de partes, que era Marques o avançado centro.

De outro modo, quando o autor escreve que “Ernesto não gostava que o seu extremo trocasse com ele” e que “o extremo direito nunca trocava de lugar”, sou levado a pensar que ele quererá dizer que o extremo esquerdo tinha por hábito trocar de posição. Logo, concluo que Ernesto jogava a interior esquerdo. E quando o produtor diz que o último golo “foi marcado pelo ponta direita”, estando alegadamente em posição irregular, assim como o seu colega de equipa Lopes (extremo, como se vê acima), deixa-me concluir que este último jogava a extremo esquerdo.

Acresce que quando o clínico/militar Canelas afirma que “o extremo direito (…) marcou o canto que Nunes, com um excelente pontapé, converteu no segundo golo” da equipa, permite-me concluir que o autor deste golo não era extremo. E uma vez que só falta determinar quem jogava a ponta direita e a interior desse mesmo lado, acaba por identificar Nunes como interior direito. Assim, e por exclusão de partes, Lemos era o extremo direito dos “cinco violoncelos” do Sporting Clube de… Pedras Rubras!

Mas, se eu não tivesse conhecimento, de facto, dos nomes e dos lugares ocupados em campo pelos cinco futebolistas, ficaria na dúvida se Nunes jogava a interior direito ou a interior esquerdo. E isto porque quando o autor diz que “Ernesto não gostava que o seu extremo trocasse com ele”, não fica claro se isso acontecia de quando em vez, mesmo contra sua vontade, ou se tal facto nunca se verificava por “imposição” sua, justificando, assim, a razão porque “o extremo direito nunca trocava de lugar”.

Neste último caso, seria a minha memória que me atraiçoaria e a linha avançada de luxo dos anos gloriosos da equipa que deu brado nos campos pelados (naquele tempo havia poucos estádios… relvados!) de futebol em Portugal nos finais dos anos quarenta/inícios dos anos cinquenta do século XX, teria a seguinte composição: Lemos, a extremo direito; Ernesto, a interior direito; Marques, a avançado centro; Nunes, a interior esquerdo; e Lopes, a extremo esquerdo.

Recordo-me, porém, que o meu pai costumava dizer que qualquer dos “cinco violoncelos” tocava muito bem o instrumento esférico, para regalo dos apaixonados pelas coisas do futebol, e que não só eram muito “afinados” como também “nunca tocavam cada um para seu lado”. Tinham posições muito bem definidas em campo, mas absoluta liberdade de movimentos, embora Lemos nunca saísse do seu “posto”, não por imposição de ninguém mas simplesmente porque eram as suas características de jogador que o “prendiam” à linha.

Se bem me lembro… o meu querido pai dizia também, ainda a propósito de Lemos, que o seu virtuosismo e singularidade de extremo residia exactamente na forma como ele “fintava” os defesas contrários, em espaços muito curtos (dizia-se: “milimétricos”), junto “à linha”, de onde executava passes, centros e cruzamentos quase sempre “fatais” para a baliza adversária. Assim sendo, reforço a convicção de que Nunes jogava a interior direito e Ernesto a interior esquerdo!

Bom… Mas quanto à vítima mortal do aparatoso acidente de viação ocorrido após o jogo, o autor não deixa dúvidas nenhumas: foi o pobre Lemos que acabou os seus dias, carbonizado, irreconhecível, ao volante do automóvel. O acidente terá sido, aliás, manchete na edição do dia seguinte em todos os jornais matutinos e vespertinos da época, com direito a foto e título a negro, em letras garrafais: MORREU O MAIS CRIATIVO EXTREMO DIREITO DO FUTEBOL LUSO!


post scriptum: Consultados os arquivos da “bíblia” fundada por Ribeiro dos Reis, em 29 de Janeiro de 1945, que tudo sabe a respeito do desporto-rei, nada descobri, no entanto, sobre quem vestia as camisolas 8 e 10 do SCPR no último jogo do Lemos. Nem uma letra sobre o clube, o jogo e o atleta! Cheguei a uma triste conclusão: Tudo isto não passa de ficção… e as estórias do meu falecido pai tinham outros nomes como protagonistas, e eles não eram “cinco violoncelos”… mas sim “cinco violinos” (lagarto, lagarto, lagarto)!...

nota de rodapé: Apesar de todo o meu benfiquismo, quero dedicar esta solução a Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano, “mestres” de quem o meu falecido pai me falava com imenso orgulho sempre que fazia investidas visando a minha troca de “emblema”.


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TORNEIO “OS SETE MAGNÍFICOS”
PROVA Nº. 6
“UM CRIME MISTERIOSO”, original de M.F. Correia

Abril de 1933. Segundo dia do mês…
Os campos achavam-se cobertos de verdura. As árvores cobriam-se de flores. A Primavera sorria…
O detective Rodriguez, da polícia espanhola, partia para uma sossegada aldeia, afastada algumas dezenas de quilómetros de Madrid, para onde ia descansar dos seus múltiplos afazeres.
Treze dias depois, quando voltou à capital espanhola, chamado, urgentemente, pelo seu chefe, encontrou os colegas embaraçados com um crime perpetrado na véspera: um riquíssimo banqueiro tinha sido assassinado no seu gabinete de trabalho, com um tiro no coração. O móbil do crime deveria ter sido o dinheiro, porque o cofre se encontrara aberto e vazio.
O chefe tinha-o chamado, porque sabia ser ele o melhor detective do grupo e o homem capaz de deslindar aquele misterioso assassínio, sem muitas delongas e também sem menosprezo para com os restantes.
Por isso Rodriguez se dirigiu para o palacete do banqueiro, onde examinou, pormenorizadamente, o local do crime. Como nada mais aí encontrasse de anormal para a solução do imbróglio, resolveu interrogar os que viviam com o banqueiro: um sobrinho, um primo, um mordomo e uma cozinheira.
O primeiro do grupo a depor, o sobrinho, disse: “À hora a que se deve ter dado o crime, estava com uns amigos, no clube. Só quando cheguei para almoçar é que soube do sucedido. Lamento, mas nada mais posso esclarecer.”
O segundo depoente, o primo da vítima, e que vivia, como o sobrinho, à custa daquela, disse: “Estava ainda deitado, quando me pareceu ouvir um tiro; mas, como não tinha a certeza, não fiz caso. Só passado algum tempo, o mordomo, trémulo e muito pálido, me informou do sucedido.”
O mordomo falou, por sua vez: “Estava a limpar o pó de uns móveis no salão, quando ouvi um tiro, vindo do gabinete de trabalho. Fui o mais depressa possível e encontrei o meu amo recostado no cadeirão, com a camisa cheia de sangue; a seguir, verifiquei que estava morto. Fui, depois, ao quarto do sr. José (o primo) e contei-lhe o acontecido. Telefonámos ao médico e à polícia. Mais nada sei explicar.”
Por fim, a cozinheira, de meia-idade, muito mais nova do que o mordomo, rosto enérgico mas belo, continha, a custo, as lágrimas, contando, com voz entrecortada pela emoção, o seguinte: “Só quando voltei dos ‘Grandes Armazéns’ soube da desgraça. Pobre patrão! Ainda ontem, de manhã, me mandou, todo contente, ao Banco, entregar um convite para o seu irmão não se esquecer do jantar do próximo aniversário. Por sinal, como não estava, nem entreguei o convite. Está lá dentro.”
Rodriguez, que, antes, se mostrava aborrecido, começou a ficar de melhor cariz. E, depois de acabar o seu trabalho, já quase sorria! É que ele tinha uma ideia, quase certeza, porquanto… Bem…

Os dados estão todos ali. Leiam outra vez; e mais outra, se necessário. Busquem, porque o tempo é o grande mestre!
Respondam às perguntas:
1 – Houve crime? Se sim, quem foi o criminoso?
2 – Por que pensa assim?


Solução de Inspector Boavida

… «o tempo é o grande mestre»! É mais ou menos assim que o coronel (e médico) Correia conclui o enunciado do seu Problema, dando, deste modo, a “grande pista” para a respectiva resolução. Na verdade, a “chave” do enigma está no Calendário, aquele precioso “mapa”, plasmado em suporte físico ou no espaço virtual, que nos ajuda a organizar e a “guardar” na memória dos dias, as luas, as marés, os meses, os anos… os amores e os desamores, os sonhos e os pesadelos, as revoluções e as contra-revoluções do nosso (des)contentamento!...

O calendário assinalava 2 de Abril de 1933 quando o detective espanhol Rodriguez partiu para uma sossegada aldeia dos arredores de Madrid, em gozo de umas merecidas férias. Chamaram-no com urgência decorridos que foram apenas treze dias, para deslindar um intrincado crime que tinha ocorrido na véspera, a 14 de Abril portanto! Comemorava-se, nesse dia, o segundo aniversário da II República Espanhola, instaurada na sequência de um golpe de Estado que havia deposto o ditador Primo de Rivera e derrubado a Monarquia.

Exactamente dois anos antes, ouvia-se nas ruas o clamor: Mañana España, será republicana. Gaspar Lamazares, líder da Izquierda Unida, havia içado a bandeira tricolor da República progressista de Manuel Azaña, Largo Caballero, Francesc Macia e Dolores Ibarruri, nas Astúrias. A partir dessa data, e até ocorrer o brutal golpe contra-revolucionário dos generais Franco, Mora e Cabanelas de 18 de Julho de 1936, o povo fazia a festa nas ruas em cada 14 de Abril, dia que havia sido decretado Feriado Nacional em toda a Espanha.

O detective sorriu com a circunstância desse dia 14 de Abril (de 1933) ser “duplamente” feriado: não só se festejava a República como se assinalava a morte de Cristo – era Sexta-Feira Santa. Este facto curioso perduraria todo o “santo dia” na cabeça de Rodriguez, até mesmo durante o interrogatório das quatro pessoas, “potencialmente suspeitas” do crime, que viviam em casa da vítima, um riquíssimo banqueiro que foi encontrado morto no seu gabinete de trabalho na manhã desse dia de “revolução” e de “fé”, abatido por um tiro no coração.

Um sobrinho e um primo da vítima, o mordomo e a cozinheira – eram estas as pessoas que partilhavam o palacete do banqueiro. O primeiro a ser ouvido foi o sobrinho, tendo este afirmado que, mais ou menos à hora em que terá ocorrido o crime, estava com um grupo de amigos no clube, tendo tido apenas conhecimento da triste ocorrência quando regressou a casa para almoçar. O segundo a depor foi o primo, tendo este declarado que estava ainda deitado quando lhe pareceu ouvir o barulho de um tiro, ao qual não deu muita importância por não ter a certeza da origem do ruído.

Foi o mordomo – a terceira pessoa a ser ouvida por Rodriguez – que alertou o primo do banqueiro para o que havia sucedido. Chegou ao quarto deste trémulo e extremamente pálido, passado muito tempo depois do som do tiro. O velho mordomo contou que estava a limpar o pó de uns móveis no salão quando ouviu o barulho do disparo, vindo do gabinete do patrão. Caminhou o mais depressa que o peso da sua idade permitia e quando chegou junto do seu amo encontrou-o recostado no cadeirão, com a camisa coberta de sangue, já morto!

A cozinheira, uma mulher de meia-idade, “muito mais jovem do que o mordomo”, de rosto enérgico mas belo, foi a última pessoa a ser ouvida. Estava triste e meio chorosa, reprimindo a custo as lágrimas que queriam “rebentar”. De voz embargada pela emoção, relatou o que fizera naquela manhã fatídica. Disse ela que saíra cedo de casa e que só voltara depois de passar pelos “Grandes Armazéns”, quando soube então da desgraça ocorrida. Antes, porém, havia passado pelo banco a pedido do patrão, para entregar um convite para a festa do seu aniversário.

O destinatário do convite era o irmão da vítima, que não chegou a receber a missiva porque, segundo a cozinheira afirmou, não se encontrava àquela hora no banco… E foi aqui que os olhos do detective Rodriguez brilharam. Estava descoberto o mistério. A veracidade das declarações do sobrinho da vítima podia ser confirmada pelos amigos que alegadamente estiveram com ele no clube, na manhã do crime; os depoimentos do primo e do mordomo do banqueiro são credíveis; … mas as alegações da cozinheira “deixavam muito a desejar”.

De facto, e dando de barato que os “Grandes Armazéns” estavam abertos naquele dia feriado, que era também de júbilo e de festa para os republicanos progressistas que haviam destronado a monarquia exactamente dois anos antes, de uma coisa o detective Rodriguez estava absolutamente seguro: nenhum banco em Madrid esteve aberto naquela data, por ser Sexta-Feira Santa, dia da morte do Senhor. Portanto, a cozinheira mente! Para além da mentira, acresce que nenhum dos outros “suspeitos” teve oportunidade de esconder o “fruto/móbil” do crime, como ela.

Recorde-se que, apesar do mordomo dizer que se dirigiu “o mais depressa possível” ao gabinete de trabalho da vitima, assim que ouviu o tiro, não significa que foi lesto, já que tinha, com certeza, muitas dificuldades em andar, devido à sua provecta idade (“a cozinheira ... de meia-idade, muito mais nova do que o mordomo”), facto este que deu à pessoa que cometeu o crime tempo mais do que suficiente para “limpar” o cofre e escapar-se porta fora, sem ser vista por ninguém. O primo do banqueiro dormia, o sobrinho estava no clube e o mordomo deslocava-se (devagar...) ao local do crime.

A cozinheira, a autora do crime (crime sim, houve roubo e a vitima não tinha qualquer intenção em suicidar-se, como se pode deduzir pelo convite por ele dirigido ao irmão para a festa do seu próximo aniversário!), justificou o motivo da sua ausência de casa na hora em que se descobriu a morte do banqueiro com uma ida ao banco (que estava encerrado, ao contrário do que ela afirma) e aos “Grandes Armazéns” (aberto em dia feriado?...). Na verdade, o que determinou a sua saída de casa foi a necessidade de esconder em sítio seguro os valores roubados do cofre!...


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TORNEIO “OS SETE MAGNÍFICOS”
PROVA Nº. 7
“LIÇÃO DEDUTIVA DO AVÔ PALALÓ”, original de M. Constantino

O novo ano escolar iniciara-se há sete dias. Manelzito, ao contrário do costume, não estava atento. Suspirava pelo toque do pequeno sino, à entrada da escola. Mal a dona Guilhermina puxou o badalo, saiu disparado… Sacola de serapilheira a tiracolo, na qual o livro único não calava o traquinar do lápis na ardósia! As pernas magras, apertadas nos calções curtos, impediam passadas mais longas; contentou-se com passos miudinhos, num frémito dançar das ancas.
Quando puxou o cordel que abria a pequena porta incrustada no grande portão de zinco, já ia a gritar: – “vó”… “vó”, quero pão com “chóriço”! Vou ter com o “vô” às Milheiras…
Avó Júlia sorriu docemente (ela bem sabia que o neto não usufruía aquele mimo em casa da filha, onde, sem ser uma casa de faltas, os enchidos, logo que saíam do fumeiro, eram limpos e mergulhados em azeite, em potes de barro, para poderem ser usados, com peso e medida, durante todo o ano. Toucinho, sim, nas três formas: assado, em torresmos ou curado)... Deu-lhe o acepipe, com um grande beijo no alto da cabeça, e recomendou: – Vai devagar, filho…
Manelzito há muito tirara a fisga da sacola. Com a boca cheia, atravessou a Rua do Paço, parou um momento a ver uma junta de bois a puxar um carro com um grande casco de vinho, enveredou pela Rua dos Aliados até à Rua das Milheiras, onde, então, findava o casario da vila. Dum lado, a parede do pátio do Vasco, ao qual se seguia o olival da Marquesa; do outro, um pequeno muro caído; depois, as hortas até ao Pupo. Ao lado do muro, um gato amarelo estava entretido com um carreiro de formigas…
Adiantou-se. O gato não se mexeu; era demasiado novo para conhecer as diabruras dos rapazes. Manelzito deixou cair uma ínfima migalha no formigueiro; logo as formigas, como que conversando entre si, iniciaram o arrasto. O gato interveio, com uma patada. Manelzito acordou do feitiço, pisou o rabo do gato, que saltou no ar com um miado angustioso, desfez o vaivém do formigueiro com a ponta de um graveto e dirigiu-se para a horta das Milheiras, numa corrida frouxa. Um cão saiu de um valado lateral e ladrou-lhe. Apanhou uma pedra e procurou atingir o animal, que se refugiou para além da sebe, lançou-se pela rua de areia solta, perseguido pelo latir de “apanha não apanha” do rafeiro, que voltava à carga. Enfiou em corrida pelo portão da horta… foi até ao tanque e ao casarão!
A voz do avô veio dos canteiros do feijão verde, emaranhados nas canas de apoio que encobriam a altura de um homem.
– Estou a regar. Vem ter comigo!...
– Mas eu não o vejo, vô…
– Vai até ao tanque e é fácil encontrares-me…
Ágil, subiu para a pia e desta para a borda do tanque, sem nada ver – apenas a água sussurrante corria da pia…
– Vô, vô… não consigo ver-te!
Ficou sentado, a balançar as pernas. Pouco depois, o rosto curtido e inteligente do avô Palaló saiu do feijoal. Ajudou-o a descer e, em tom chocalheiro, foi dizendo:
– Fizeste asneira, rapaz. Não precisavas subir ao tanque! Só precisavas puxar pela cabeça, pensar… E explicou porquê.
Recebeu a explicação, distraído. A atenção já se dirigia para a fisga e um pássaro que viera para o interior do telheiro…
– Vô… vô, está ali um ninho de cuco… Eu vi-o…
– Nova asneira, rapaz…

Chegou a altura de perguntar: Em que consistiam as asneiras apontadas pelo avô Palaló? Justifique as respostas.


Solução de Inspector Boavida

O Manelzito tem hoje mais de oitenta primaveras. Longe vão os tempos em que saciava a sua gula de pão com chóriço em casa da vó Júlia, depois de sair da escola e antes de correr para a horta da rua das Milheiras, onde o vô Palaló o esperava com “braçados” de ternura, enquanto amanhava a terra. Na correria ainda havia tempo para uma fisgada num pardal mais afoito, uma maldadezinha na labuta de um formigueiro, uma pisadela no rabo de um tareco pouco amigo de formigas ou uma pedrada afugentadora de cachorros atrevidos que se lhe atravessassem ao caminho.

Naquele dia de Outubro, tinha o novo ano escolar apenas uma breve semana, Manelzito aprendeu muito mais em meia hora na horta do vô Palaló do que nas três horas que mediaram entre o início da aula e o momento em que a dona Guilhermina soou o badalo de fim de “tempo”, que o fez saltar da carteira como se tivesse uma mola no rabo. É verdade que, ao contrário do que era costume, o puto do Firmino e da Rita esteve muito desatento, mas o pouco que perdeu na escola ganhou em Milheiras, porque o contacto e o convívio com o avô Palaló era sempre uma grande lição de vida!

Quando chegou nessa tarde à horta, Manelzito correu logo para junto do casarão. A voz do avô Palaló surgiu por entre o feijão verde, que emaranhava por canas maiores do que homens grandes. «Não te vejo, vô. Onde ‘stás?» – perguntou o pirralho. «Estou a regar, aqui no meio dos canteiros de feijão. Vem cá ter comigo» – respondeu Palaló. Manelzito esticou o pescoço o mais que podia, para a direita e para a esquerda, para cima e para baixo, mas em vão: não o conseguia ver. «Vai até ao tanque e é fácil encontrares-me» – disse-lhe o avô.

O catraio subiu à pia, empoleirou-se na borda do tanque, mas... nada! Ouvia a água sussurrante que corria da pia, mas não havia maneira de dar com o avô. Desistiu. Ficou sentado no tanque, baloiçando as pernas, enquanto olhava o feijoal. Pouco depois, o avô Papaló emergia do meio da floresta de canas que amparava a teia de feijões que inundava os canteiros, pegou no neto ao colo e disse-lhe com ternura, desafiando-o a pensar: «Fizeste asneira, meu rapaz. Não precisavas de subir ao tanque! Se tivesses puxado pela cabeça, tinhas ido ao meu encontro sem dificuldade».

Naquela altura foi preciso que o avô Palaló lhe decifrasse o enigma que deixou “no ar”. Se fosse agora, Manelzito não teria dificuldade em responder com sucesso ao desafio. Era tão simples descobrir o vô no meio do feijoal, que ainda hoje lhe custa a perceber como ficou por ali, a fazer equilibrismo na borda do tanque, a percorrer o canteiro com o olhar, em vez de seguir o rego por onde corria a água que saía da pia, e com a qual o seu saudoso avô regava o feijão verde que viria a dar umas boas sopas de legumes nas panelas da avó Júlia. Se o tivesse feito, teria chegado junto dele!

Naquela tarde, as “lições do avô Palaló” não se ficaram por aquele simples enigma. Logo de seguida, ao ver Manelzito de fisga em punho, atirador infalível pronto a abater um passaroco que se infiltrara no interior do telheiro, ao mesmo tempo que clamava num grito quase sussurrado «vô... vô, está ali um ninho de cuco... eu vi-o». O marido da vó Júlia disse, sorrindo: «Mais uma asneira, rapaz...mais uma asneira». O neto ficou atónito. Não podia ser. Ele tinha visto o ninho de cuco com os seus próprios olhos! «Onde está a asneira, vô?...».

A resposta era tão óbvia, mas o Manelzito nessa época, há mais de sete décadas, ainda não sabia que os cucos são “aves parasitas”, que colocam os seus ovos nos ninhos de outros pássaros, deixando a estes os “encargos” de incubar e criar os “filhos” alheios. Não existem, por isso, “ninhos de cucos”! Será, no entanto, possível que ele tenha avistado um cuco, apesar do Outono ter já nascido há semanas e este pássaro ser de “espécie migratória”. Isto porque, quando juvenis, algumas aves migradoras, como é o caso dos cucos, chegam a emigrar muito depois dos pais terem partido…


Mas o mais provável, porém, é que não tenha sido um cuco o passaroco que Manelzito avistou. Fazia tempo que as árvores se despiam lentamente, mostrando aos poucos a nudez dos seus frágeis ramos e fortes troncos. As folhas estavam amarelas, vermelhas, castanhas... e tinham começado a cair. Os dias haviam ficado mais pequenos e o calor abalara devagar, desde 22 de Setembro. É nessa altura que, normalmente, as andorinhas, as rolas e os… cucos partem para países mais quentes! O calendário já ia a meio de Outubro (as aulas começavam normalmente a 7 de Outubro!...).

Se esta segunda lição do avô tivesse acontecido nos dias de hoje, o Manelzito passaria no “exame” com distinção, já que acrescentaria à impossibilidade de ter visto um ninho de cucos a seguinte curiosidade: as mães cuco têm o mau hábito de usar o calor alheio para chocar os seus ovos (um em cada ninho) e… os danados dos filhotes arranjam maneira de expulsar os “irmãos adoptivos” antes destes nascerem; de seguida, aqueles, depois de afastada a concorrência, desatam a piar, como se não fosse nada com eles, e são alimentados pelos inocentes pais dos passaritos que mataram!

O tempo acabaria por ensinar o neto do avô Palaló que todos nós aprendemos muito com os bichos, sejam eles aves ou outros espécimes animais, revendo neles alguns “passarões” com quem nos cruzamos ao longo da vida... Do alto da sabedoria dos seus mais de oitenta anos, o Manelzito (Botas Constantino) fica muitas vezes a pensar por que razão não deu a natureza aos seres “violentados” a capacidade de perceber que “o bico que alimentam, não é nenhum dos que geraram” ou que “o amor que dão, às vezes apenas tem maldade em troca!...”.

Mas, será que tinha de ser assim?!... 
Monday, April 09, 2007
  PÚBLICO-POLICIÁRIO
CAMPEONATO NACIONAL
Temporada 2006-2007


Prova nº 3
“Tempicos de Rastos…”, de A.Raposo

Na sua longa actuação na “Judite”, Tempicos prendeu muita gente. Muito mariola. Alguns por longos e penosos períodos. Prisão que não redimiu os meliantes. Que não lhes deu horizontes nem futuro. Essa prisão não ajudou ninguém. Somente tornou os meliantes mais meliantes e rancorosos. Tempicos sabia isso, mas não gostava de pensar que era ele que iria mudar o mundo.
Chegara o momento em que o mundo do crime desejava ajustar contas com Tempicos. O Sindicato do crime reuniu-se e os sete magníficos decidiram. Os longos anos de prisão sofridos por muita gente iriam ser, agora, vingados.
Foi decidido o castigo. Tinha que ser o mais doloroso possível.
No mundo do crime, a globalização também já chegara.
O Brasil dera a sua contribuição, tendo no topo da hierarquia dois dos seus mais destacados elementos, conhecedores das prisões portuguesas; eram o Xico Surucucu e o Toto Tijuca.
A eles juntaram-se mais cinco portugueses de gema: João Falcão, Zé Camaleão, Quim Mula, Manuel Lagarto de Alvalade, Toino Maçacoto.
Um deles – não se sabia quem – fora encarregado de executar o trabalho. Teria que deixar Tempicos em sofrimento por longo tempo. O mais longo e doloroso possível. Tão longo como os anos de prisão que suscitou.
O processo era simples. Um tiro em cada joelho de forma a não dar qualquer hipótese de fuga.
Aproveitaram o dia de folga da empregada de Tempicos, um dia por semana, sempre à quinta-feira. Tempicos tivera a companhia de Kátia Vanessa, a filha da falecida Nelinha, que se finara no Museu do Teatro em Maio passado, acontecimento que veio publicado na imprensa cor-de-rosa e noticiado por essa Europa fora. Porém, a maldosa influência dos outros padrinhos da menina (Onaírda, Nove e Zé-Viseu) levou a que ela fugisse de casa para lugar incerto, mas provável, que se calcula seja a adega de um dos padrinhos. Agora Tempicos estava sozinho e muito mais vulnerável.
Apanharam-no à secretária, onde gastava longos períodos a escrever histórias policiais que nunca editara. O executor só teve que acertar com toda a precisão um tiro em cada joelho. Era a dose recomendada.
Sentado estava e sentado ficou, a sangrar. O telefone foi-lhe retirado. A vivenda, onde habitava sozinho, ficava num bairro selecto, no Restelo, em Lisboa, onde raros vizinhos passavam a pé.
Tempicos ficara com os joelhos em mau estado, com um tiro em cada um. Foi como se lhe cortassem as pernas. Pedir ajuda não seria fácil. Deslocação, só rastejando – pensou – e usando os braços como força motriz. As dores não seriam pêra doce!
As balas foram certeiras e as pernas ficaram pendentes sem forças e a sangrar. O meliante não demorou dois minutos a terminar o trabalho. Era um especialista competente na sua área. Como entrara saíra fechando a porta no trinco e levando o telefone móvel. O único existente na casa.
Tempicos sabia que podia morrer; essa seria a hipótese mais provável. Rapidamente resolveu reagir. Conseguiu rasgar uma parte da camisa e adaptar um garrote a cada joelho. Assim a perda de sangue minimizava-se e poderia pensar o que fazer a seguir.
Pensou nos seus antigos camaradas da Judite, ainda no activo. Pensou que – na brincadeira – enviava regularmente aos seus colegas enigmas para solucionarem. Que eles aceitavam e resolviam em conjunto.
Queria deixar para os seus colegas da Judite o nome do seu algoz, dissimulando a informação no texto, aparentemente inócuo, para quem o lesse – incluindo o meliante!
Quem sabe se ele voltaria para acabar o trabalho?
Foi isso que Tempicos resolveu fazer. O bloco que tinha sempre na secretária serviu perfeitamente. Pegou na caneta e escreveu:

MINHA POESIA NÃO É PROVÁVEL
SOBREVIVA Á MINHA MORTE!
PORÉM, MINHA FAMA SERÁ!
A MINHA GRANDE OBRA POLICIARIA
DEIXOU-ME AGORA DUM JEITO ASSIM
MORIBUNDO RASTEJANTE!

Depois, atirou-se assim a trouxe-mouxe para o chão onde ficou com dores redobradas mas arrastou-se imediatamente para junto à sua mesa baixa, no meio da sala, decorada com várias estatuetas tipo “arte nova”, de bronze.
Usou-as para, regularmente, ir atirando às vidraças das janelas da sala. A esperança estava em que alguém que passasse na rua pudesse ouvir.
As estatuetas foram partindo – regularmente – as vidraças todas, uma a uma. Mas as forças iam faltando e a ajuda não surgia. A perda de sangue aumentava com o esforço.
Será que Tempicos se salvaria ou será desta que iria de vez para os anjinhos?
Isso nós, agora, não poderemos saber, nem é esse o enigma que será necessário descobrir e resolver. O nome do meliante esse é que será o objectivo da investigação.
Esse é que é preciso que seja acusado, pois não se faz uma maldade destas ao nosso amigo Tempicos. Seria imperdoável!
Podemos fazer a pergunta: quem disparou nos joelhos de Tempicos?


Solução do Inspector Boavida

Tipo de Ocorrência: crime de violência física e de homicídio de forma tentada, por agressão com arma de fogo e abandono da vitima quando esta apresentava fortes hemorragias, cometido por um indivíduo rasteiro e “rastejante”, ligado ao mundo do crime organizado e membro dirigente do Sindicato Internacional de Criminosos (SIC…. – não confundir com a Sociedade Independente de Comunicação, cujos “crimes” que vem praticando são de outra natureza…).
Vítima: Tempicos, pseudónimo de um antigo detective da Polícia Judiciária, António Raposo de baptismo, que vive actualmente da sua magra pensão de reforma e dos largos proventos que aufere a título de direitos de autor pela sua regular colaboração como produtor de enigmas policiais numa secção orientada por um tal Luís Pessoa, que também se assina como Inspector Fidalgo, no jornal Público.
Data e Hora da Ocorrência: Quarto dia útil (quinta-feira) de uma qualquer semana de um mês indeterminado, em hora incerta, menos de um ano depois da morte da saudosa e amada (por muitos…) Nelinha da Purificação, ocorrida em Maio de 2006, no Museu do Teatro.
Local da Ocorrência: Gabinete de Trabalho de Tempicos, uma dependência da vivenda em que vive o ex-agente da “Judite”, algures no Bairro do Restelo, em Lisboa, local onde só mora gente fina e de grande poder económico...
Suspeitos do Crime: Xico Surucucu, Totó Tijuca, João Falcão, Zé Camaleão, Quim Mula, Manuel Lagarto de Alvalade, Toino Maçacoto, os Sete Magníficos do Sindicato Internacional dos Criminosos, estrutura que tem por lema “todo o mal que nos fazem, o SIC COBRA”…
Autor Material do Crime: Xico Surucucu, cujo “petit nom” tem apenas quatro letras e ostenta como apelido (ou alcunha?) o nome de um Ser Rastejante. Quase todos os outros suspeitos têm nome próprio, alcunha ou apelido que nos remetem para animais de patas, alguns deles “quase rastejantes”, mas pouco… (ou seja: caminham baixinho, rente ao solo, “à flor da relva”). E, para além do mais, estes não têm quatro letras no nome próprio! Se bem que isso não tenha muita importância para o caso… Certo é que a mensagem cifrada denuncia o autor do crime através de sete palavras espaçadas de quatro em quatro: minha (palavra “senha-chave” enunciada por quatro vezes) provável morte será obra dum rastejante!

Era Uma Vez…Uma Vingança COBRA(DA) Numa Quinta-Feira

Quinta-feira, quarto dia útil da semana. Tempicos estava só, como sempre acontece uma vez em cada sete dias, mês após mês, desde que Nelinha se finou e sua filha Katia Vanessa se pôs na “alheta”, seduzida por promessas pouco honestas de um dos seus padrinhos (Nove, Onaírda + Zé Viseu – quatro nomes que identificam três perigosos mariolas “danados para a brincadeira”, a que se junta o primo do primeiro, um tal PP de IX (e vão quatro mariolas!...), mais conhecido por Novena nas Casas de Alterne que o popular Pintinho da Costa costuma frequentar.

Enquanto Tempicos, sentado à sua secretária de trabalho, na magnífica vivenda que possui no bairro “chique” do Restelo, tentava escrever o seu quinquagésimo problema policial encomendado por Luís Pessoa para publicação no jornal Público (os contos e romances, que tem escrito aos milhares, continuam na gaveta à espera de editores…), algures na cidade de Lisboa os sete magníficos dirigentes do núcleo lusófono do Sindicato Internacional dos Criminosos (SIC) promoviam uma reunião que tinha como ponto único da ordem de trabalhos “tratar da saúde ao ex-detective”!

Constituído pelos brasileiros Xico (quatro letras) Surucucu (cobra muito venenosa – animal rastejante) e Totó (quatro letras) Tijuca e pelos portugueses João Falcão (ave de rapina com quatro letras no primeiro nome), Zé Camaleão (réptil de pernas curtas), Quim (quatro letras) Mula (fêmea de quatro letras, mulher de Macho, bicho com quatro patas), Manuel Lagarto de Alvalade (quatro palavras para definir um réptil de patas rasteiras de cor esverdeada) e Toino Maçacoto (peça de ferro/arranca pregos), o núcleo lusófono do SIC decretou uma morte lenta ao homem da “Judite”.

O “sindicalista” designado para fazer o “trabalhinho” apenas tinha que cumprir rigorosamente o plano traçado naquela reunião magna. E foi o que fez. Serpenteando ao sol pelas ruas de Lisboa, cedo chegou ao Restelo. Mas também não era preciso muita pressa! O alvo da vingança a cobra(r) estava só… e só teria de morrer, aos poucos e com sofrimento equivalente às dores que havia feito sofrer àqueles que mandou para o “chilindró” durante o tempo em que serviu a “Judite”. O vingador mandatado pelo SIC esgueirou-se casa adentro, sem qualquer ruído, a não ser um leve e quase inaudível “assobio” de gozo que saía da sua “bocarra” venenosa.

Tempicos não deu por nada, de tão absorto e compenetrado que estava na escrita de mais um enigma inspirado num dos muitos intrincados casos reais que investigou e ajudou a resolver, como representante da lei. De súbito, ouviu dois tiros espaçados por milésimos de segundo e uma dor aguda e fria em cada joelho. Pele, ossos, nervos e músculos tinham sido dilacerados por duas balas certeiras disparadas por debaixo da secretária. Deixou de sentir as pernas e de as comandar. Era como se as não tivesse! O seu algoz tinha por missão abandoná-lo assim, e saiu, frio e repelente, como entrou, levando consigo o único telefone que Tempicos possuía em casa.

O sangue brotava dos joelhos de Tempicos como se fossem duas fontes. Havia que estancar as hemorragias e foi isso que ele tentou fazer. Rasgou a camisa em dois pedaços, que transformou em improvisados garrotes. Um para cada perna. Pernas que já não eram suas… que já não sentia. Não tinha como comunicar com o exterior, chamar um médico, a polícia ou alguém que o pudesse socorrer. Um rasgo de imaginação levou-o a atirar-se para o chão e a rastejar até junto de uma mesinha onde tinha diversas estatuetas de bronze, atirando-as, uma a uma, regularmente, de encontro às vidraças. Poderia ser que alguém passasse por ali, o que era raro, e viesse em seu auxílio.

Antes, porém, e temendo que a sua hora chegasse brevemente ao fim, Tempicos deixou em cima da secretária, num bloco de notas, uma mensagem criptografada, aparentemente inócua, capaz de passar completamente despercebida ao seu algoz, se ele voltasse atrás para acabar o “trabalhinho” que deixara a meio, mas suficientemente clara para os seus ex-colegas da “Judite”, habituados à “senha-chave” por ele regularmente utilizada em mensagens de brincadeira, onde identificou o autor daquela barbaridade que o deixou para ali, sozinho, a esvair-se em sangue.

Depois de atirar (regularmente) todas as estatuetas que decoravam a mesinha de centro do seu gabinete de trabalho, sem que tivesse atraído a atenção de qualquer transeunte ou automobilista que porventura circulasse junto à sua vivenda, Tempicos, cada vez com mais dores e perdendo sangue com maior abundância, devido ao esforço feito durante o rastejo e o arremesso das peças de bronze, perdeu de vez as esperanças de escapar com vida daquele infortúnio. E, de rastos, começou a rezar, encomendando a alma ao Senhor...

Mas... sosseguem os seus amigos, admiradores e amigas, sobretudo estas, e particularmente as mais íntimas, que ainda não foi desta que o valente Tempicos foi para as “alminhas”. Por sorte, a sua & Lena decidira voltar para casa, perdoando-lhe pela enésima vez a sua crónica infidelidade. As “facadinhas” no matrimónio eram frequentes e ela foi-lhe desculpando todas as “maluqueiras” até que um dia apareceu a Nelinha, com quem viveu um romance tórrido, que foi notícia em todas as revistas cor-de-rosa e deu brado no espaço cibernético.... Depois, e pior do que tudo, apareceu a Kátia Vanessa e foi o fim!

A bela & Lena ficou desvairada. O seu homem, o seu mais que tudo, a única pessoa a quem amou em toda a sua vida, estava ali, de rastos, a seus pés, rezando, pedindo perdão pelos seus pecados. Era uma verdadeira dor de alma! Não havia tempo a perder. Pegou no seu “télélé” e ligou para o INEM. De seguida, fez uma chamada para a “Judite” e em menos de nada tinha a casa invadida de médicos, para-médicos, maqueiros, enfermeiras... e polícias. O inspector Jartur, que dirigia as operações, o sargento Estrela, o detective Smaluco e o agente Guima – quatro homens do norte, carago! – foram os primeiros “chuis” a chegar ao local (vieram no futuro TGV...).

Tempicos foi logo de “charola” para o hospital mais próximo, o São Francisco de Xavier, onde lhe trataram da saúde. Enquanto isso, os seus ex-colegas da “Judite” passaram a casa a “pente fino”. Em breves minutos a situação estava mais ou menos esclarecida. O inspector Jartur pegou no bloco que se encontrava poisado sobre a secretária de trabalho de Tempicos e gritou: «Eureka!, está aqui “escarrapachado” o autor dos tiros que iam dando cabo do Raposo». O detective Smaluco deitou numa olhadela à mensagem e exclamou: «falta aqui uma coisa importante, meus caros». E faltava de facto, como todos puderam constatar de seguida...

O sargento Estrela, depois de ler e reler a mensagem, concluiu: «Na verdade, o Tempicos, utilizando a palavra MINHA como “senha-chave”, uma vez que a escreve em primeiro lugar, e repetindo-a quatro vezes, leva-nos à leitura de uma frase composta por sete palavras lidas regularmente de quatro em quatro, que apenas nos conduz a um rastejante. Não nos revela o seu nome! Ora vejam, primeiro, a mensagem que ele escreveu, com a palavra “senha-chave” sublinhada:

MINHA POESIA NÃO É PROVÁVEL
SOBREVIVA À MINHA MORTE
PORÉM, MINHA FAMA SERÁ!
A MINHA GRANDE OBRA POLICIÁRIA
DEIXOU-ME AGORA DUM JEITO ASSIM
MORIBUNDO RASTEJANTE

Agora reparem na frase que se consegue construir, partindo de MINHA e pulando as palavras de quatro em quatro, não considerando na soma a primeira palavra (a “senha-chave”) e todas as outras que aparecem em quarto lugar:
MINHA
PROVÁVEL
MORTE
SERÁ
OBRA
DUM
RASTEJANTE

Ficamos assim a saber que o criminoso é um rastejante, nada mais. E o que não faltam por aí são rastejantes, seres rasteiros e lambe botas! Tem que ser alguém conhecido e, provavelmente, com cadastro, que veio aqui para “ajustar contas” com o Tempicos, mas como é que nós vamos descobrir quem é o gajo? A tarefa não é fácil, meus caros. Alguém tem alguma ideia como agilizar a resolução da coisa?». «E se nós falássemos ao professor Pardal? Ele é bem capaz de ter uma ideia genial!...» – sugeriu o agente Guima. «Boa! Vamos a isso» – disseram quase todos em uníssono.

Estava o professor Pardal e a sua “lampadinha” às voltas com uma encomenda do ministro da Tecnologia, Ciência e Ensino Superior, Mariano Gago, que consiste em reconverter as células cinzentas de policiaristas iluminados em cérebros de “ponta” para candidatos a políticos com ambição de poder, capazes de melhorar a performance dos governos de Portugal e do Resto do Mundo visando a criação de uma sociedade global mais justa, mais fraterna, mais humana e mais coesa, quando o seu telefone super-especial de ondas solares tocou.

Do outro lado da linha, o inspector Jartur colocou a grande questão que atormentava os homens da “Judite” em serviço no Restelo, na vivenda A.Raposo & Lena: «Quem é o rastejante que tentou matar o Tempicos?». O professor Pardal pensou durante uns brevíssimos instantes e a “lampadinha” iluminou-o: «clique, já está!». A resposta era simples. Segundo o “stôr” Pardal, a solução passaria por consultar o site do Falcão de Braga. «Está lá tudo o que diz respeito ao alter-ego do Raposo. Basta “clicar” em www.danielfalcao.net e terão resposta a todas as vossas interrogações» – asseverou Pardal.

Os homens do norte não perderam tempo. Lançaram-se ao computador do enfermo Raposo/Tempicos e... em pouco tempo decifraram o enigma. De acordo com a informação recolhida no “Clube de Detectives” (ex-Desafios Policiários), o autor material da tentativa de assassinato do Tempicos foi um dos sete magníficos que dirigem o núcleo lusófono do SIC: os brasileiros Xico Surucucu e Totó Tijuca e os portugueses João Falcão, Zé Camaleão, Quim Mula, Manuel Lagarto de Alvalade e Toino Maçacoto, perigosos meliantes que conhecem muito bem as cadeias lusas.

(Eu ainda não percebi porque razão os quatro homens nortenhos da “Judite” ligaram para o professor Pardal. De facto, bastava terem lido tudo quanto escrevi lá atrás para fazerem as mesmas deduções sem gastarem dinheiro ao erário público com chamadas telefónicas completamente desnecessárias. Mas, enfim... Depois queixam-se que o governo anda a pôr em causa os Magistrados, os Juristas, os Polícias e todos os quadros ligados à Administração da Justiça!!!)

Coube ao detective Smaluco fazer as deduções: «O Toino Maçacoto, tem como apelido uma palavra derivada de macaco que é de ferro feito e não rasteja. Quanto muito, se usarmos de uma imaginação delirante, pode saltar, dar cambalhotas acrobáticas e emitir valentes guinchos de arrepiar, quando levanta pregos ou ergue estacas. Por sua vez, o Manuel Lagarto de Alvalade é do Sporting e anda mais ou menos de rastos, mas não rasteja. Tem patas e, ao caminhar, é provável que arraste a sua pele escamada, mas isso não é propriamente rastejar. Portanto, relativamente a estes dois estamos conversados.

No que concerne ao Quim Mula, também é óbvio que, por muitos coices que dê e zurros que faça soar, não rasteja! No que se refere ao Zé Camaleão, temos a certeza que muda de cor de acordo com o meio ambiente e os seus instintos de sobrevivência, como muita gente que nós conhecemos, tem patas e arrasta-se conforme os seus interesses, mas não pode dizer-se que rasteje!... O último português dos suspeitos chama-se João Falcão. Não tem qualquer laço familiar que o ligue ao Daniel do Policiário, tem garras e asas. Voa. Não rasteja!

Faltam-nos os dois brasileiros. Um deles tem fama de sambista e o nome não engana. Chama-se Totó Tijuca, em homenagem ao Bairro, à Barra e à Escola de Samba do Rio de Janeiro. Ao dançar, mexe as ancas, baloiça a “bunda”, rebola-se pelo chão, mas não rasteja! O outro é “bicho” perigosíssimo. Tem como nome de “guerra” Xico Surucucu. É ele o rastejante! Surucucu é uma serpente do norte e do centro da América do Sul, pertencente à família dos viperídeos, que, além de ter uma grande força muscular possui um veneno altamente mortal. Não foi o caso, desta feita. A sua vítima não morreu. Tempicos vive... graças à sua & Lena!»
Agora era preciso dar caça ao “bicho” antes que ele se “pisgasse” na grande floresta urbana de Lisboa, em direcção a Espanha, de onde poderia escapulir para o Brasil, como fez a “Fátinha” de Felgueiras.

Como o detective Smaluco tinha adquirido larga experiência em lidar com seres rastejantes e venenosos que viviam nas matas de África, escondidos nos buracos onde se refugiavam homens de coragem que combatiam por uma Pátria, foi o elemento destacado para apanhar o Surucucu. Foi “dito e feito”. Em menos de uma hora, Smaluco deitou a mão à COBRA, estava ela “estendida” ao sol junto às docas de Alcântara a tomar uma caipirinha!

Surucucu foi apanhado e agora vai novamente de “cana”, para acalmar a pele escamada durante uns bons anos numa prisão de alta segurança, com uma porta de quatro trancas e fechada a sete chaves. 
enigmas e contos policiais

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