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Friday, July 13, 2007
  PÚBLICO-POLICIÁRIO
CAMPEONATO NACIONAL
Temporada 2006-2007
Inspector Boavida


Prova nº 6
“A Estatueta de Pedra”, de Búfalos Associados

Não nos perguntem como é que esta carta, assinada por Nelinha da Purificação, que nunca terá sido enviada, nos chegou às mãos. É segredo que não podemos revelar. Mas, em face da morte violenta da sua autora, ocorrida durante o convívio a que ela alude na parte final do texto, obtivemos, de sua filha, licença para a divulgar. Só que parece que também ela está cheia de erros e incorrecções. Querem os nossos detectives ajudar-nos a detectá-los?

“Aos polícias de Domingo:
Aqui há tempos um portuguesinho valente que dá pelo nome de Tempicos, revelou nas páginas do PÚBLICO factos relacionados com uma viagem que os dois, há anos, fizemos a Paris. Como toda a gente viu, esse relato estava cheio de incorrecções que em nada abonavam a favor da imagem do seu autor. Mas adiante…
Nessa malfadada viagem que fiz a Paris em 1972, acompanhada pelo tal “Poirot de bolso”, houve um acontecimento que ele se absteve de relatar. Naquela época, a vigilância nos museus não era comparável com a de hoje. Câmaras de vídeo era coisa que não existia. Podia passear-se à vontade por entre as obras de arte e quase tocar nelas, se o vigilante estivesse distraído ou ausente. Foi numa dessas ocasiões que, no museu do Louvre e na zona da arte fenícia, o nosso Tempicos teve um arrobo amoroso que o fez agarrar-se a mim, de tal forma que eu não pude evitar encostar-me a uma vitrina onde se encontrava uma estatueta de pedra que representava um passaroco de bico adunco. Com o impacto a vitrina abriu-se e a estatueta ficou, de repente, ao alcance das nossas mãos. Ele olhou em volta, não se encontrava ninguém à vista, nem sequer o vigilante. E, como diz a sabedoria popular, a ocasião faz o ladrão. Rapidamente a estatueta, que não era muito grande, passou para o interior do blusão do meu acompanhante. Saímos rapidamente do museu, o coração parecia saltar-me do peito, mas a realidade é que ninguém nos cortou a marcha e fomos pôr a salvo a estatueta no quarto do hotel de quinta ordem onde dormíamos na Rue St. André des Arts, ali bem pertinho do Louvre.
O Tempicos, como manifestação do que ele dizia ser o seu amor por mim, ofereceu-me a estatueta. Nunca cheguei a saber o seu valor, mas as notícias que no dia seguinte saíram nos jornais franceses falavam de um valor incalculável e atribuíam o golpe a um gang certamente bem organizado.
O Tempicos assegurava-me que aquele era o célebre Falcão de Malta que dera origem ao famoso romance com o mesmo nome que a colecção Vampiro há muitos anos publicou com o número 43. Mas eu, embora loira, não sou assim tão burra e lembro-me muito bem de ter lido o livro e de saber que o falcão de que ele fala não era uma estatueta de pedra, mas sim de ouro, revestida de pedras preciosas e mais tarde coberta com uma camada de esmalte negro para disfarçar o seu alto valor. Além disso, nunca poderia tratar-se de uma obra proveniente da zona do Mediterrâneo, mas sim de um exemplar de arte hispano-americana, encontrada em Malta, na província de Paraíba, no Norte do Brasil. Pelo menos, foi assim que a descreveu o autor do romance, Raymond Chandler.
Ainda hoje desconfio que aquela generosa oferta foi apenas um pretexto para ser eu a portadora da preciosidade ao passarmos a fronteira, pois nessa época a alfândega era bastante rigorosa. A verdade é que, uns tempos depois, já em Portugal, numa noite em que o Tempicos foi dormir a minha casa, de manhã, quando acordei, a estatueta tinha desaparecido, bem como o patife.
Já quase me tinha esquecido do assunto, quando um dia, ao folhear uma dessas revistas cor-de-rosa, a minha alma quase me caía aos pés. No meio de dezenas de fotos de casais com sorrisos parvos, lá estava uma série de fotos em casa de um escritor de sucesso. Entre elas havia uma que o mostrava na sua secretária onde, entre diversos objectos, os meus olhos vidraram na imagem da estatueta tão minha conhecida. Não podia haver dúvida. Era o passaroco de pedra que me tinha sido oferecido em Paris e roubado em Lisboa pelo Tempicos. Provavelmente o policiazeco havia vendido o valioso objecto a um qualquer comerciante de velharias e o tal escritor de sucesso tê-lo-ia comprado.
Não descansei enquanto não tratei de recuperar a estatueta. E confesso que foi um desafio às minhas capacidades de sedução. Consegui localizar o escritor. Morava com dois sobrinhos numa moradia nos arredores de Lisboa. Através de um amigo comum de nome Falcão (que coincidência…) fiz-me amiga de um sobrinho e depressa percebi que ele nutria um enorme ciúme pela carreira do tio. Ao fim de algum tempo já éramos íntimos e incuti-lhe aos poucos a ideia de se ver livre dele. A mim o que me interessava era a estatueta que vi no escritório do afamado escritor. Só que tirá-la de lá era demasiado arriscado.
Foi então que entrou em cena outra personagem. Na festa da passagem do milénio travei conhecimento com um jovem que se dedicava a serviços pouco limpos, entre os quais a eliminação de pessoas indesejáveis a troco de alguns patacos. Tinha um metro e noventa de altura, usava sempre botas cardadas e dava pelo nome de “Meiguinho”.
O plano foi minuciosamente urdido entre mim, ele e o sobrinho do escritor. E o “negócio” consumou-se conforme o combinado. Atraindo o escritor à janela do rés-do-chão, não estando mais ninguém em casa, o “Meiguinho” despachou-o com um tiro certeiro. Nunca chegou a descobrir-se o autor do crime e a estatueta voltou às minhas mãos, pois fazia parte do pagamento aprazado com o sobrinho do escritor. A hora combinada para o “serviço” era entre as cinco e as cinco e um quarto da tarde. Contou-me o “Meiguinho” que o sobrinho do morto se atrasara um pouco para lhe entregar a estatueta, última prestação do pagamento. Mas por fim o jovem lá chegou e a operação concluiu-se.
A vivenda onde o escritor habitava ficava perto da Praia do Magoito e, por razões de segurança, eu não tinha acompanhado o “Meiguinho” na fase final da missão. Depois de o ter deixado perto da casa, fui esperar por ele com o meu carro na Praia da Aguda, perto de Fontanelas, onde viria ter comigo quando tudo estivesse acabado. A Praia do Magoito liga com a da Aguda, que lhe fica a norte, e só quando a maré está vazia é possível passar a pé pelo areal de uma para a outra. Estava uma noite clara de plena lua cheia e pela areia molhada o caminho não tinha dificuldades, havendo cerca de 2 quilómetros a percorrer. Não tive de esperar muito. Pouco passava das três da manhã, quando o “Meiguinho” me apareceu subindo as escadas que servem de acesso à Praia da Aguda com a notícia de que o “trabalhinho” acabara de ser feito e entregando-me a desejada estatueta de pedra.
Agora que tenho o “bicho” em meu poder só penso em vingar-me de todas as amarguras por que esse famigerado Tempicos me fez passar. No próximo dia 24 de Maio, um domingo, tenciono ir até ao Museu Nacional de Teatro, em Lisboa, onde terá lugar o 2º Convívio da Tertúlia Policiária da Liberdade. Ele estará lá certamente e eu poderei, com escândalo público, denunciar as patifarias que esse traidor me fez ao longo dos anos. E vou levar comigo a estatueta para o caso de ter que lhe dar com ela na cabeça.”


Solução do Inspector Boavida

O casal de Búfalos da Damaia teve acesso a uma Carta alegadamente assinada pela malograda Nelinha da Purificação, onde “esta” tece considerações muito pouco abonatórias sobre o seu antigo amante Tempicos e confessa o seu envolvimento no roubo de uma Peça de Arte no Museu do Louvre, em 1972, e no homicídio do famoso escritor António Mendonça, ocorrido há alguns anos numa vivenda junto à Praia do Magoito, no concelho de Sintra.

Não se sabe quem facultou a Carta àquele simpático casal, embora se suspeite que haja por ali mãozinhas de um sujeito despeitado que vive em Viseu ou de um tal Novena (PP de IX) morador na linha de Sintra, porque ambos tudo têm feito para denegrir a imagem do popular detective alfacinha. O que se sabe é que a Carta não pode ter sido escrita por Nelinha. Alguém falsificou a sua letra e assinatura, com toda a certeza, e isso poderá explicar as inúmeras incorrecções contidas na missiva.

A Carta começa por dizer que “aqui há tempos um portuguesinho valente que dá pelo nome de Tempicos, revelou nas páginas do PÚBLICO factos relacionados com uma viagem que os dois, há anos, fizemos a Paris”. Ora, como se sabe, aquela “revelação” foi publicada no dia 21 de Maio de 2006, exactamente no dia em que a coitada da Nelinha foi assassinada, durante o II Convívio da Tertúlia Policiaria da Liberdade, no Museu Nacional do Teatro, em Lisboa.

Deste modo, para além de detectarmos uma incorrecção (o II Convívio da Tertúlia da Liberdade ocorreu a 21 e não a 24 de Maio, como é referido no final do texto), concluímos que a Carta foi escrita tempos depois da publicação do Enigma “Memórias de Tempicos (Férias em Paris)”, o que reforça a nossa certeza de que a Carta não é da autoria da nossa saudosa Nelinha, mas sim de alguém que quer atentar contra a sua memória e pôr em causa o bom nome (?) do detective Tempicos.

Diz-se na Carta que, em 1972, o Museu do Louvre não estava equipado com um sistema de vídeo-vigilância, o que também constitui uma incorrecção (a não ser que se estivesse a falar de gravação digital). Mas mesmo que não existissem ainda “câmaras vídeo”, o que não é verdade, haveria, no mínimo, alarmes eléctricos. Não nos podemos esquecer que depois do roubo da Mona Lisa, em 1911, o Louvre reforçou a sua política de vigilância e nunca divulgou (por razões óbvias) os seus sistemas de segurança.

De facto, depois do carpinteiro Vincenzo Peruggia ter roubado a Obra Maior de Da Vinci, o que provocou um escândalo de contornos políticos e sociais tão dramáticos que quase levaram à queda do governo, o Museu do Louvre foi dotado dos mais diversos equipamentos de segurança. Os sistemas de vigilância foram sendo revistos e actualizados ao longo dos tempos, tanto em termos técnicos como humanos, o que transformou aquela infra-estrutura numa mais seguras do Mundo.

É verdade que, apesar de toda a segurança, o Louvre não conseguiu impedir que aquela mesma Obra de Leonardo Da Vinci viesse a ser, um pouco mais tarde, alvo de dois actos de vandalismo, em 1956, uma vez apedrejada e outra atacada com ácido. No entanto, a partir da década de sessenta, é quase impossível alguém visitar o Museu sem que os seus passos não sejam seguidos a cada instante por “seguranças” (uns identificados, outros não!) e através dos mais sofisticados meios de vigilância.

Por estas razões, e por outras que abaixo se enunciam, está ferida de incorrecção, a história do roubo de uma Estatueta de Pedra representativa de um Falcão patente numa Vitrina de uma tal “zona da arte fenícia” do Museu do Louvre, coisa que nunca por lá existiu. Para cúmulo, pretende-se ainda admitir que não havia ninguém por perto aquando do roubo e que a dita Vitrina se abria com um simples encosto. Nessa altura, até já em Portugal, as vitrinas de exposições eram monoblocos, para evitar roubos!...

Convém referir, entretanto, que, contrariamente ao que se refere na Carta, cuja autoria é atribuída à saudosa Nelinha, a imprensa francesa não fez eco de qualquer roubou ocorrido no Louvre no ano de 1972, o que atesta a falsidade da afirmação produzida e reforça a desconfiança de que se está, de facto, perante uma estranha e doentia tentativa de desonrar a memória de uma jovem mulher que se perdeu na vida por amor e por amor morreu (às mãos da pessoa que mais amou!).

Ainda segundo a Carta, após o alegado roubo, Tempicos e Nelinha teriam conseguido escapar à apertada vigilância do Museu e foram ”esconder” a Estatueta no quarto do hotel de quinta ordem onde dormiam, “ali bem pertinho do Louvre”, na rue St. André des Arts. Esta rua fica do outro lado do rio Sena, junto à Boulevard St.Michele, e dista cerca de 15 minutos do Louvre (fazendo o percurso a pé!...). Ou seja, não fica propriamente ali bem pertinho, mas também não fica muito longe.

Se uma distância que se percorre em 15 minutos é perto ou longe, depende da interpretação de cada um. Mas a verdade é que existe por lá um hotel de quinta ordem (uma estrela). Chama-se "Hotel Saint André des Arts", funciona numa Mansão do século XII que foi Residência dos Mosqueteiros do Rei, e fica no número 66 daquela que é uma das artérias mais pequenas, mas animadas, do Quartier Latin, onde se encontram inúmeros restaurantes e cafés de diversas nacionalidades.

Alguns dos restaurantes mais concorridos daquela rua são especialistas da cozinha do Líbano, da Síria e de Israel, região mediterrânea onde, há cerca de 5.000 anos, existiu a Fenícia, uma comunidade semita do mundo antigo, cuja origem é ainda desconhecida. O que se sabe é que os Fenícios eram altamente civilizados (fundaram uma escrita anterior ao alfabeto moderno) e hábeis comerciantes marítimos, tendo fundado colónias através do mediterrâneo, até que foram conquistados pelos Persas.

A arte mais típica dos Fenícios é representada em escaravelhos de jaspe verde, encontrados nos cemitérios cartagineses da Sardenha e de Ibiza, e em sofisticados sarcófagos de mármore. Graças à sua actividade mercantil, os pequenos artefactos chegaram a difundir-se pelo mundo mediterrâneo, muitos deles encontrados em escavações, como jóias, garrafas de vidro e alabastro, caixas de marfim, e estatuetas – mas nenhum deles alguma vez esteve no Louvre!!!
Afirma-se na Carta que a tal Estatueta de Pedra alegadamente roubada por Tempicos, com a conivência da sua amada Nelinha, era, de acordo com a suposta teoria do próprio detective supracitado, nem mais nem menos do que o famoso “Falcão de Malta” descrito por Dashiel Hammett (e não por Raymond Chandler – mais uma incorrecção!), no seu livro homónimo editado na Colecção Vampiro com número 34 (e não 43 – mais uma incorrecção!).
O “Falcão de Malta” nunca existiu de facto. É uma criação de Hammett, provavelmente com base em escritos da Alta Idade Média. E não era de pedra, mas sim de ouro e de pedras preciosas, mais tarde revestida com esmalte. E também não era uma estatueta hispano-americana! Ela teria sido feita por turcos e não foi encontrada em Malta, na província de Paraíba, no norte do Brasil! No romance, ela foi a primeira renda de uma Ordem religiosa ao Imperador de Espanha pela cedência da Ilha de Malta!…

De acordo com a narrativa do escritor Dashiel Hammett, a Ordem do Hospital de S.João de Jerusalém, mais tarde chamada de Rhodes, fixada em Creta, onde permaneceu durante sete anos, terá persuadido o Imperador Carlos V a ceder-lhe a Ilha de Malta! O soberano espanhol concedeu o pedido com a condição da Ordem lhes pagar todos os anos, como renda, “um Falcão”! O “pobrezinho” do Imperador até só queria uma ave, mas, no primeiro ano, os religiosos resolveram dar-lhe um tesouro!…

A Carta que o casal de Búfalos tornou agora pública contém outros erros e imprecisões, que põem em causa a sua credibilidade e autenticidade. Como exemplo, destaca-se para já uma imprecisão de pequeníssima monta comparativamente às várias incorrecções acima referidas e às outras que se lhes sucedem mais abaixo: uma vivenda construída perto da Praia do Magoito, não fica propriamente nos arredores de Lisboa; se quisermos ser precisos, estaremos a falar dos arredores de Sintra! Mas, adiante…

Segundo a Carta em apreço, o “ocasional larápio” Tempicos terá oferecido a “misteriosa” Estatueta de Pedra (?) à malograda Nelinha, que acabou por assumir todos os riscos da transposição das fronteiras França/Espanha e Espanha/Portugal na posse de uma Obra supostamente tão valiosa, “surripiando-a” mais tarde após uma noite de amor em casa da sua amada para a vender em seu único proveito. Com tudo isto pretende-se apenas obviamente colocar em causa o carácter do destemido detective!!!

De acordo com o que relata a Carta, a própria Nelinha não terá dado muita importância ao sucedido. Talvez porque estaria convencida de que Tempicos tinha decidido simplesmente começar nesse momento a juntar os trapinhos dos dois na sua casa do Restelo, levando primeiro a Estatueta!... O que a terá chateado solenemente foi o facto de ela ter descoberto aquela “preciosidade” em cima da mesinha de trabalho de um famoso escritor, numa foto publicada numa revista cor-de-rosa.

Pretende-se insinuar na Carta que Nelinha não terá descansado enquanto não descobriu a morada do escritor, um tal António Mendonça, que vivia com dois sobrinhos (um sobrinho e uma sobrinha, se quisermos ser mais precisos…), numa Moradia algures junto à Praia do Magoito. A Nelinha tanto terá porfiado que se fez amiga do sobrinho do “escriba”, um pobre jovem escritor sem chama que morria de inveja do sucesso do tio!

Ao perceber a fraqueza e a grande frustração do rapaz, Nelinha ter-se-á empenhado nas suas inesgotáveis artes da sedução ao ponto de conseguir convencê-lo a desfazer-se do tio, que se encontrava a ultimar mais um Romance, e a apoderar-se deste como sendo a sua primeira grande Obra. Cego pelo desejo do sucesso e da fama, o sobrinho de António Mendonça concordou em “alinhar” num golpe que Nelinha terá ficado de preparar com a ajuda de alguém que fizesse do crime a sua profissão.

Pretende-se que Nelinha terá encontrado esse “profissional do crime” na festa da passagem do Milénio, um gigante de um metro e noventa de altura, de alcunha o Meiguinho, que ficou de dar cabo do canastro ao escritor António Mendonça e de recuperar a Estatueta de Pedra que este tinha em seu poder. E eis que encontramos aqui outra incorrecção. Segundo a Carta, Nelinha terá contratado o Meiguinho na passagem do ano 2000 para 2001 e o escritor foi morto em meados dos anos 80 do século XX!...

Mas não se ficam por aqui as incorrecções. Diz-se no texto que Meiguinho cumpriu na íntegra o “serviço” na Vivenda do Magoito à hora combinada (entre as 17h00 e as 17h20, após uma brevíssima espera pelo sobrinho da vitima) e que foi ao encontro “da” mandante do crime pouco tempo depois (“não tive de esperar de muito” – diz-se na Carta). Ora, se ele só apareceu às três da manhã com a estatueta junto da Nelinha, no cimo da escadaria de acesso à praia da Aguda, a espera foi muito longa!!!

Recorde-se que a praia do Magoito dista menos de dois quilómetros da praia da Aguda, quer o caminho se faça pela arriba quer se faça pelo areal junto ao mar (o que só se consegue fazer em períodos de maré muito baixa). Assim, e como alegadamente o meiguinho terá feito o percurso pelo areal, estamos perante mais uma grande incorrecção. Porquê? Simplesmente, porque em noite de lua cheia plena (primeiro dia de lua cheia, às três da madrugada) a maré não poderia nunca estar vazia!!!

Para terminar, como homem do SUL a viver no NORTE, num vai-e-vem constante entre as estações de Campanha e de Santa Apolónia, que me deixa por vezes completamente desnorteado com os pontos cardeais, quero chamar a atenção para uma incorrecção geográfica. Ao contrário do que se diz na Carta alegadamente assinada (quem terá sido o falsificador?) por Nelinha da Purificação, a praia da Aguda não fica a NORTE da praia do Magoito, mas sim a SUL!!!

Inspector Boavida

P.S. – Ah, é verdade: o autor da Carta forjada diz que nunca se descobriu o autor do assassinato do escritor António Mendonça. É mentira! Eu mesmo descobri o autor moral do crime (em mail enviado para o jornal PÚBLICO, ao cuidado de Luís Pessoa, no dia 2 de Maio de 2006). Lembro-me como se fosse hoje. O homicídio foi congeminado pelo sobrinho da vítima, um tal Rui Mendonça, que, ao ser desmascarado, denunciou o Meiguinho como seu cúmplice e autor material do crime!!!... 
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CAMPEONATO NACIONAL
Temporada 2006-2007
Inspector Boavida

Prova nº 5
“A Morte da Digitálica”, de Onaírda


Chamavam-na “Digitálica” e foi a vítima. Professora de Informática, Natália Sá era formada em Engenharia Informática e especialista em sistemas digitais – “digitálicos”, diziam os alunos, parodiando o ensino. Leccionava numa escola secundária, e dava aulas em sala única para o efeito. Tinha por costume o ter sempre em cima da secretária um copo de vidro opaco com água de beber, sendo novamente cheio a meio de cada aula pela auxiliar de acção educativa Olga. A especialidade da professora deu a que aos alunos lhe chamassem “prof. Digitálica”
No decorrer da aula das 17h00, a professora sentiu-se indisposta, nauseada, com vómitos, sensação de vertigens e de discromatopsia. Tinha aflições de diarreia, chegou a ir à casa de banho, regressou à sala, mas não melhorou e às 17h45 caiu inanimada no chão. Alunos deram o alarme, veio o director e o marido, também professor na escola. Chamou-se o 112. O médico socorrista diagnosticou que a vitima apresentava sintomas de intoxicação e foi levada de imediato ao hospital, onde chegou já cadáver. O director espalhou a notícia de que a professora tinha sido envenenada. Acusação gravíssima. Via-se que sabia algo mais e insinuava quem era o autor do crime.
O inspector Garçôa, o “teórico” da PJ, tomou conta do caso e de imediato foi à escola falar com o director. Como a sala deste era no mesmo piso onde leccionava a “Digitálica”, mostrou-se ao contínuo. Este, quando soube quem era, não o encaminhou logo para o director e forneceu-lhe pistas importantes.
Afirmou que nesse dia Olga tinha mudado sempre a água do copo em todos os períodos. E o curioso, segundo lhe disse Olga, é que a professora bebia sempre o conteúdo do mesmo, dando a impressão de que estava a tentar restabelecer o equilíbrio hidroelectrolítico no seu organismo. Devido à posição estratégica, viu sempre quem entrou na sala da “Digitálica” durante os intervalos, dado que ela saía sempre da sala. Assim, no das 11/12 entrou o professor de Ciências Humanas e Sociais Eduardo Sá, marido da professora. No das 14/15 voltou a entrar o Eduardo e no das 15/16 entrou o professor de Ciências Físicas e Naturais Taborda. O contínuo pediu a atenção do “teórico” para esta personagem, pois dizia-se que era um antigo apaixonado da ”Digitálica” e que tinha sido repudiado por ela, não tendo aceite bem a atitude da amada. Sabia que na aula prática de Química das 15h00 ele tinha confiscado a um aluno um frasco de “605 forte” (agora com outra designação comercial), veneno muito usado na agricultura. Desculpou o aluno, mas não o devolveu no fim da aula. As visitas de Taborda à professora originavam ciúmes de Eduardo e este desconfiava que a mulher não resistia ao assédio do colega. Todos viam que ela repudiava Taborda, menos o marido.
Garçôa preferiu não ouvir mais nada sem falar primeiro com o director. Este pouco adiantou sobre a morte, mas chamou a atenção do comportamento do professor Taborda, no assédio à “Digitálica”, e se falou em envenenamento talvez fosse precipitado, mas mantinha a opinião. Garçôa pediu-lhe facilidades para interrogar possíveis suspeitos, aqueles que entraram na sala de aula e que podiam ter metido veneno no copo de água da professora, para que esta ingerisse o liquido mais tarde. O director chamou os suspeitos e aproveitou para entregar ao inspector as fichas de cadastro pessoal não só destes, mas também da falecida. Curiosamente, e talvez para justificar o elevado número de faltas que davam ao serviço, os professores tinham uma ficha clínica invejável.
Foi chamada Olga. Esta afirmou que tinha entrado na sala em todos os períodos, tinha enchido sempre o copo de água e tinha confirmado que a professora bebia todo o conteúdo. Quanto aos rumores sobre o Taborda e a Natália, disse que não tinha nada com isso e que lhe passava ao lado.
De seguida veio o professor Taborda. Tinha 54 anos e bom aspecto, apesar de sofrer, em estado um pouco avançado, da síndroma de Wolff-Parkinson-White. Era obrigado a tomar medicamentos a preceito, mas evitando completamente alguns que poderiam interactuar negativamente. Era professor de Ciências Físicas e Naturais e as aulas práticas no laboratório eram o seu expoente profissional, em especial a trabalhar com tóxicos. Tentou ver a sua colega Natália no intervalo das 15/16, mas não a viu. Quando lhe falou no frasco do veneno apreendido ao aluno, ficou vermelho. Confirmou a apreensão do frasco ao aluno, que não o tinha devolvido no fim da aula e que tinha espalhado o conteúdo numa sanita. O frasco vazio deitou-o no contentor do lixo. “Incrível”, pensou Garçôa.
Quando Garçôa interrogou Eduardo Sá, este estava calmo. Viu que o “teórico” tinha a sua ficha clínica nas mãos, explicou-lhe que, tal como sua mulher, era um doente conformado com o seu estado. Sofria de “insuficiência cardíaca” e uma arritmia diagnosticada como supraventricular. Estava medicado com um fármaco que, para além de dar força ao coração (chamado “efeito inotrópico positivo”), lhe reduzia a frequência cardíaca, obrigando o seu coração a bater a um ritmo mais lento e fácil de suportar. Nunca lhe disse o nome do fármaco. Garçôa pouco se importou com esta omissão. Eduardo guardava este medicamento em local seguro e inacessível a terceiros, incluindo sua mulher. No dia da morte desta, deslocou-se à sua sala, no intervalo das 11/12 e no das 14/15, porque a mulher lhe pediu que lhe trouxesse um analgésico (tipo aspirina) pois sentia-se mal. Não a viu em ambas as vezes e retirou-se para a sua sala. Pelo telemóvel, disse-lhe que tinha metido no copo o tal analgésico. Almoçaram em turno diferente. Só a voltou a ver caída no chão e já desmaiada, a seguir ao alarme. Nunca referiu qualquer aspecto da vida conjugal com a mulher. Garçôa franziu o sobrolho.
O “teórico” ainda interrogou o director para saber algo mais sobre a Natália. Relativamente a um romance entre Natália e Taborda, não sabia de nada, mas já tinha sido informado do caso do frasco de veneno que Taborda tinha apreendido a um aluno e que, de certeza, o tinha consigo, quando entrou na sala da colega às 14h50. “A ocasião faz o ladrão, não é, senhor inspector? E custa-me dizer isto, mas Taborda não é boa peça.” E estranhou o destino que Taborda deu ao frasco e ao seu conteúdo. Admirava-se que Natália mantivesse um romance com ele, pois também era doente como o seu marido. Estava medicada a preceito. Sofria do coração, pois tinha uma “cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva” e por vezes apresentava situações de “hipercalcemia” e” hipocaliemia” significativas. Garçôa não teve acesso ao resultado da autópsia, por já ter a presunção de quem era o criminoso, mas porque a análise da mesma iria ser feita pelo MP para fundamentar a acusação. No entanto, soube que a falecida apresentava uma significativa desidratação e também “hipercalcemia”.
Quando o ajudante de Garçôa coseu o processo, rotulou-o “A Morte (da) Digitálica” (501/06 homicídio) O “teórico” sorriu.


Solução do Inspector Boavida

Tipo de Ocorrência: Crime de homicídio qualificado, por intoxicação provocada com fármaco digitálico – o ajudante do inspector Garçôa rotulou o Processo de “A Morte (da) Digitálica”, acrescentando ao número do Documento a definição do crime: homicídio!
Vítima: Natália Sá, professora de Informática, especialista em sistemas digitais – a sua especialização académica valeu-lhe uma curiosa (e talvez carinhosa….) alcunha, “apadrinhada” pelos seus alunos: Professora Digitálica…
Data e Hora da Ocorrência: Meio da tarde, depois das 17h45, de um dia indeterminado de 2006 – o número do Processo elaborado pela equipa da Polícia Judiciária destacada para desenvolver as investigações não deixa dúvidas quanto ao ano em que se registou a ocorrência: 501/06!
Local da Ocorrência: Sala de Aula de Informática da Escola Secundária “Lá Vai Mais Uma”, sedeada algures numa cidade, vila ou aldeia portuguesa (talvez na linha de Sintra, onde reside o autor do enigma…).
Suspeitos do Crime: Eduardo Sá, marido da professora “Digitálica”, também ele docente no mesmo estabelecimento de ensino, onde lecciona Ciências Humanas e Sociais; Taborda “Não Sei Quantos”, colega de ambos, professor de Ciências Físicas e Naturais; e a auxiliar de educação Olga “Qualquer Coisa” – e porque não o Contínuo “Sempre Alerta da Silva”, agindo sozinho ou em conluio com o Director da Escola, professor doutor “Precipitado de Sousa”?... (num crime de homicídio, todos são suspeitos até prova em contrário!..)
Autor do Crime: Eduardo Sá, um homem muito ciumento ­(suspeitava que Natália e Taborda o “encornavam”) e doente (sofre de insuficiência cardíaca e tem disritmia supraventicular). Absolutamente convencido de que a mulher correspondia ao assédio sexual que lhe fazia o colega Taborda, e cego pela loucura dos ciúmes, Eduardo depositou no copo de água de Natália comprimidos digitáticos – por exemplo, Digoxina (fármaco que integrava o quadro terapêutico instituído pelo seu médico e que tinha o cuidado de guardar em lugar seguro, inacessível a terceiros), medicamento que pode provocar intoxicações fatais em pessoas que tenham complicações cardíacas e desequilíbrio hidroelectrolítico predisponente a arritmias, como o era o caso da professora “Digitálica”…

Era Uma Vez… Uma Morte Digitálica

Eduardo Sá, professor de Ciências Humanas e Sociais sofre de insuficiência cardíaca, patologia que resulta numa diminuição da função sistólica global do coração, com diminuição da fracção de ejecção. Ou seja, o coração não tem capacidade de bombear sangue suficiente para oxigenar todos os tecidos do organismo, existindo hipertrofias miocárdias associadas com frequência. Tinha ainda disritmia supraventicular, complicação eléctrica cardíaca localizada entre a aurícula e o ventrículo, provocando um aumento da frequência cardíaca, com extrassístoles supraventiculares frequentes, que conduzem à insuficiência cardíaca por degradação da função miocárdica. Nestes casos, é geralmente instituída terapêutica com digitálicos, por exemplo a Digoxina, de forma a controlar a frequência cardíaca!…

Natália Sá, docente de Informática e mulher de Eduardo Sá, padece de cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva (patologia que resulta numa diminuição significativa da contractibilidade cardíaca), uma hipertrofia do miocárdio que, ao perder a sua elasticidade, vai comprometer a capacidade de expansão do coração aquando da diástole, que pode provocar alterações do ritmo cardíaco. Ela tem ainda hipercalcémia (aumento sérico dos níveis de cálcio) e hipocaliémia (diminuição dos níveis séricos de potássio), desequilíbrio hidroelectrolítico que pode causar polidipsia (necessidade de ingestão frequente de água). Os iões K+ (potássio) estão directamente relacionados com a condução eléctrica cardíaca, sendo que a sua diminuição ou aumento sérico predispõem e levam a complicações arrítmicas. Nestes casos, é fatal a aplicação de qualquer fármacoterapêutico digitálico!…

Taborda “Não Sei Quantos”, professor de Ciências Físicas e Naturais, enferma de uma doença que provoca episódios súbitos de taquicardia (síndroma de Wolff-Parkinson-White), que pode degenerar em insuficiência cardíaca. A taquicardia transforma-se por vezes em fibrilhação auricular e esta é particularmente perigosa, devido a que a via acessória pode conduzir os impulsos rápidos para os ventrículos com maior eficácia do que o normal. O resultado é uma velocidade ventricular acelerada, que pode ser mortal. Não só torna o coração muito ineficaz por bater tão rapidamente, como também aumenta a frequência cardíaca, progredindo para uma fibrilhação ventricular, que leva à morte. Nestes casos, a toma de digitálicos na idade adulta está absolutamente contra-indicada!...

Estes três primeiros parágrafos podiam muito bem servir de introdução a uma narrativa com acção centrada num Hospital de Doenças Cardiovasculares, atendendo à história clínica das personagens retratadas. Mas não. O caso que vamos relatar decorre na Escola Secundária “Lá Vai Mais Uma” e tem por protagonistas os docentes/doentes acima referidos; o Contínuo “Sempre Alerta da Silva”, que presta serviço à direcção, aos professores e aos alunos; a auxiliar de acção educativa Olga “Qualquer Coisa”, que tem como uma das suas mais importantes funções prestar cuidados especiais na defesa da saúde da professora Natália Sá (impedindo que esta corra riscos de desidratação – factor potenciador de desequilíbrios hidroelectroliticos); e o doutor “Precipitado de Sousa”, que dirige aquele Estabelecimento de Ensino.

O ano passado, no decurso da aula de Informática das 17h00, de um qualquer dia que não vem ao caso, por não ser relevante, a professora Natália Sá sentiu-se indisposta, com tonturas, náuseas, vómitos, perturbações da visão (diplopia), alterações de percepção das cores (discromatopsia) e diarreia, culminando com arritmias (bigeminismo) que a levaram à lipotimia (desmaio). Eram 17h45 quando caiu inanimada no chão. Foi chamado o INEM e o médico (ou o socorrista) diagnosticou-lhe sintomas de intoxicação por agente indeterminado. Algum tempo depois chegava a notícia: a professora que leccionava Informática, reconhecida pela sua extrema competência e especialização em sistemas digitais, facto que levou os seus alunos a alcunhá-la de “Digitálica”, finara-se, vítima de uma paragem cardíaca!…

A equipa da Polícia Judiciária liderada pelo Inspector Garçôa, investigador de grande prestígio internacional, conhecido no universo da criminologia nacional como “O Teórico”, não teve dúvidas: a morte da professora Natália Sá foi provocada por intoxicação com fármacos “digitálicos”! Esta conclusão é, aliás, revelada pela forma curiosa e espirituosa com um dos ajudantes de Garçôa resolveu rotular o Processo: “A Morte (da) Digitálica”. Mas não se pense, porém, que a resolução do caso foi “pêra doce”. Longe disso. Naturalmente que só depois de cuidadas análises, de exaustivos estudos, de exames técnico-laboratoriais avançados e de relatórios médicos especializados é que foi possível chegar a esta conclusão. Mas tudo teve por base aturados interrogatórios efectuados no local do crime a todos os suspeitos.

No piso onde o Contínuo “Sempre Alerta da Silva” presta serviço ficam situados o gabinete do Director da Escola e a sala de aula da professora Natália Sá. Do seu posto de trabalho, o Contínuo vê claramente as duas salas, não perdendo pitada de quem entra e sai pela porta de qualquer uma delas. No dia em que deu o “badagaio” à “stora Digitálica”, ele viu perfeitamente quem entrou na sala de Informática nos intervalos das aulas, quando a professora estava ausente. Sensivelmente entre as 11h50 e as 12h00 (no intervalo da aula das 11h00 para as 12h00), o professor Eduardo Sá, marido da falecida, entrou na sala de aulas de Informática, tendo lá voltado a entrar entre 14h50 e as 15h00, sempre na ausência da mulher. Por sua vez, o professor Taborda entrou na sala de aula de Natália Sá entre as 15h50 e as 16h00, também quando ela lá não estava.

O Contínuo “Sempre Alerta da Silva” não tem em muito boa conta o “stôr” Taborda, tendo chegado a dar a entender que talvez tenha sido ele o responsável pela morte da “Digitálica”. Segundo o Contínuo, o professor Taborda “Não Sei Quantos” era um antigo apaixonado de Natália e supostamente nunca se terá conformado com o facto dela o ter preterido em favor de Eduardo Sá, insistindo, por isso, em assediá-la em constantes ocasiões dentro da própria Escola, apesar de todas as resistências da professora de Informática. Para reforçar as suas suspeitas, o “Sempre Alerta da Silva” recordou, que, na aula prática de Química das 15h00, o professor Taborda tinha confiscado a um dos seus alunos um frasco de 605 Forte, veneno que ninguém sabe muito bem que sumiço levou…

Também o doutor “Precipitado de Sousa”, Director da Escola, afirma não ter dúvidas de que alguém envenenou a professora Natália Sá, chegando a insinuar que Taborda “Não sei Quantos” podia estar implicado naquele funesto acontecimento. Tal como o Contínuo, também ele fez menção ao estranho caso do frasco de Paraquat confiscado por Taborda a um aluno momentos antes de ter entrado na sala de aulas de Natália, mulher casada que ele vinha perseguindo há muito, provocando falatório na Escola e corroendo a relação do casal Sá com as dúvidas e os ciúmes que o seu comportamento originava no colega Eduardo. “Precipitado de Sousa” estava absolutamente convencido de que Natália não dava “troco” a Taborda e que este devia andar furioso com ela, ao ponto de a envenenar com o 605 Forte!...

Aparentemente, o Contínuo “Sempre Alerta da Silva” e o Director “Precipitado de Sousa” tinham a professora “Digitálica” na conta de uma mulher honesta e extremamente fiel ao seu marido, sofrendo em silêncio o despudorado e atrevido assédio do colega para não “incendiar” ainda mais a sua relação conjugal. Nenhum dos dois, Contínuo e Director, teria quaisquer razões para acabar com a vida de Natália, mas o mesmo já não se poderia dizer se a vítima tivesse sido o Taborda. Nesse caso, eles seriam potenciais suspeitos!!!... E a auxiliar Olga, que papel teria tido ela em toda esta história? Ela era muito delicada com a professora Natália, sempre atenta à sua saúde, pelo que nada terá a ver com a morte da “Digitálica”. Porém, conviria ouvi-la, até por que o seu depoimento poderia esclarecer muita coisa…

A auxiliar de educação Olga “Qualquer Coisa” diz que entrou por diversas vezes na sala de Informática, conforme pode ser testemunhado pelo Contínuo “Sempre Alerta da Silva”, para fazer tudo como de costume, como se tratasse de um ritual. Mais ou menos a meio dos períodos, e satisfazendo o pedido há muito feito por Natália Sá, entrou na sala de aulas para lhe encher o copo com água, que a professora bebia sempre na totalidade, de forma a prevenir eventuais desidratações – factor potenciador de desequilíbrios hidroelectroliticos – a que estava sujeita por via da sua doença. Olga garante que nesse dia não se passou nada de anormal. Encontrou o copo de Natália vazio como sempre acontecia a meio de cada aula, e, também como sempre, voltou a enchê-lo com a mesma água de sempre, à vista de todos (alunos e professora)!

Decididamente, tanto o Contínuo como o Director da Escola estão enganados no que respeita às causas da morte de Natália. Ela não morreu por envenenamento provocado com Paraquat. Esta substância só causaria a morte em tão pouco tempo se fosse tomada em grande quantidade, o que seria impossível. O seu sabor e odor são tão marcantes que Natália não beberia mais do que um gole da água deixada pela prestável auxiliar Olga. Por outro lado, se a professora Digitálica tivesse ingerido apenas uma pequena quantidade daquela substância teria tido uma morte muito lenta e dolorosa, causada pela corrosão das estruturas corporais internas, com aparecimento de fístulas internas e fibrose pulmonar, que levariam primeiramente à falência respiratória e renal, e posteriormente à falência multiorgânica não reversível. Não foi o caso!

A possibilidade de envenenamento com Parquat podia ser liminarmente excluída, face ao quadro sintomatológico precedente ao falecimento de Natália e à não credível ingestão de uma tão grande quantidade daquela substância, capaz de causar morte em tão pouco tempo sem que a vítima a não detectasse pelo olfacto e pelo paladar. Mas que raio se passou, então, com o frasco de 605 Forte apreendido na aula prática de Química? Taborda “Não Sei Quantos” diz que despejou o veneno na sanita e deitou o frasco vazio no contentor do lixo, o que para um especialista em tóxicos é, no mínimo, “incrível”. Com professores deste “calibre”, tão irresponsáveis e negligentes, as Escolas portuguesas são um verdadeiro perigo para a saúde e segurança das nossas crianças!!! Bem, mas o caso em análise não era esse…

O professor Taborda é irresponsável e negligente apenas naquilo que não o atinge directamente, porque no que toca à prevenção e defesa da sua saúde ele é bastante cuidadoso!!! Ele é um homem maduro, com 54 anos, e nesta idade um doente de Wolff-Parkinson-White, como é o seu caso, não pode tomar fármacos digitálicos sem colocar a sua vida em risco. E ele sabe isso muito bem! Confirma que é obrigado a tomar medicamentos a preceito, mas que evita completamente alguns que podem interactuar negativamente. Como “expert” que é em tóxicos, ele sabe muito bem que tem de se afastar da Digoxina como “o diabo da cruz”. Taborda confessa que entrou na sala de Natália Sá entre as 15h50 e as 16h00 para lhe falar, mas em vão. Ela tinha saído para um breve descanso! Ele saiu, assim como entrou: sem digitálicos!...

Eduardo Sá, o marido da vítima, admite que entrou na sala de aulas da mulher nos intervalos dos períodos das 11/12 e das 14/15, tendo almoçado em turno diferente de Natália. De ambas as vezes que procurou a mulher na sala de Informática não a encontrou. Diz que foi lá a pedido desta, para lhe levar um analgésico. Como ela não estava colocou-lhe aspirina no copo de água, comunicando-lhe depois o facto pelo telefone. Talvez se torne necessária uma pequena correcção: Na sua primeira “visita” ele deve ter ficado desconfiado de que Natália estivesse algures com o rival Taborda, o que o deixou fora de si! Terá telefonado para a mulher que lhe disse que se tinha ausentado da sala de aulas para desanuviar um pouco. Terá sido aí (?) que ela se deixou de dores de cabeça e lhe pediu um analgésico, tendo este ficado de o providenciar.

Eduardo terá ficado fora de si, louco de ciúmes, absolutamente convencido de que a mulher estaria com Taborda nalgum sítio, em qualquer alcova, numa pensão manhosa ou num quarto de hotel de cinco estrelas!... Estava completamente “passado” da cabeça. E foi nessa altura que resolveu acabar com a vida de Natália. Foi a casa e trouxe consigo o “tal” fármaco «que, para além de lhe dar força ao coração (efeito inotrópico positivo), lhe reduzia a frequência cardíaca, obrigando-o a bater a um ritmo mais lento e fácil de suportar» e que ele guardava em local seguro e inacessível a terceiros, especialmente à mulher – o digitálico (indispensável para a sobrevivência dele, mas fatal para Natália…)! Voltou à sala de aulas de Informática e despejou um ou mais comprimidos no copo de água da professora “Digitálica”.

Eduardo não revela a Garçôa o nome dos comprimidos que mantém guardados a “sete chaves”, mas o Inspector já tem a certeza de que se tratam de Digoxina (semelhantes às aspirinas, com a mesma coloração e que se dissolvem na água sem necessidade de serem esmagados) e que foi com eles que “baptizou” o copo de água de Natália Sá, sua mulher. A opacidade do copo impediria Natália de ver através dele o processo dissolução dos comprimidos, se chegasse nos minutos mais próximos! O facto dela ter ingerido os comprimidos após o almoço justifica o aparecimento de sintomas de intoxicação tardiamente. A presença de alimentos no estômago retardou a absorção gástrica e a consequente metabolização do fármaco, de forma que só mais tarde entrou na circulação sanguínea e os seus efeitos passaram a ser visíveis.

O doutor “Precipitado da Silva” nem queria acreditar. Ele daria tudo para que fosse Taborda “Qualquer Coisa” o autor do homicídio. Desde o início das investigações que ele fez os possíveis e impossíveis para que as suspeitas recaíssem inteirinhas sobre o professor de Ciências Físicas e Naturais. Era tanta a sua vontade em ver Taborda na cadeia que começou por fazer circular a notícia de que a “Digitália” tinha morrido por envenenamento, sublinhando depois o constante assédio sexual de que esta era vítima por parte do colega “das químicas”. Acabou até por aventar a hipótese de Taborda ter aproveitado o fraco de Paraquat, que havia apreendido a um dos seus alunos na aula das 15h00, para envenenar Natália, depositando uma quantidade daquela substância no seu copo de água quando foi à aula de Informática, às 14h50!...

Esta incongruência é muito comum em homens precipitados (defeito que o Director da Escola assume como seu…). Porque se de facto o Taborda “visitou” a sala de aulas da professora Natália, na sua ausência, às 14h50, como afirma o “Precipitado da Silva”, como é que ele podia ter envenenado a colega com 605 Forte se o frasco a que faz referência foi confiscado depois dessa hora, na aula das 15h00? Por outro lado, a fazer fé nesta afirmação (o intervalo da aula das 15h00 para as 16h00 ser às 14h50), as outras “visitas” (do Eduardo) ocorreram às 10h50 e 13h50, o que não altera em nada o acima exposto, e vem reforçar a ideia de que “Precipitado de Sousa” não tem perfil para o cargo que exerce! Um Director de uma Escola não se pode comportar da forma como ele o fez, evidenciando uma profunda falta de ética e de moral!

A estranha personalidade do Doutor “Precipitado de Sousa” pode ser, aliás, a explicação para a Escola que dirige contrariar a prática comum em todos os estabelecimentos de ensino secundário em Portugal, em 2006, da realização de aulas com a duração de 90 minutos e não apenas de uma hora (50 minutos)! A sua obsessão pela “novela” do assédio sexual movido à falecida Natália, bem como o seu “ódio” pelo professor Taborda, tolhiam-lhe a sanidade. Pelos vistos, não havia apenas três doentes na Escola “Lá Vai Mais Uma”. A patologia de que enferma o “Precipitado de Sousa centra na cabeça: o homem é louco! De certeza que o inspector Garçôa terá concluído o Processo “A Morte (da) Digitálica” com duas recomendações: prendam o Eduardo Sá e internem o Director da Escola num manicómio!

Inspector Boavida 
  PÚBLICO-POLICIÁRIO
CAMPEONATO NACIONAL
Temporada 2006-2007
Inspector Boavida

Prova nº 4
“Um Cadáver na Piscina”, de Mr. Ignotus


Abri as persianas para olhar o tempo: estava uma daquelas manhãs radiosas de Primavera. Tudo convidava a um encontro com a natureza, tanto mais que era domingo e não teria de ir trabalhar. Dispus-me a ir tomar o pequeno-almoço a uma esplanada próxima e, depois, a dar um passeio pelo parque, retardando a hora de almoço, para compensar o tempo que ficara a preguiçar na cama.
Ainda meio ensonado, liguei a rádio para ouvir as notícias e fiquei logo com a sensação de que o meu dia não ia ser assim: numa moradia, em Cascais, aparecera o cadáver de um homem a boiar na piscina, suspeitando-se de assassinato. Os donos da casa estavam de férias no estrangeiro e quem chamara a polícia fora o jardineiro. Antes de sair telefonei para a PJ e um amigo confirmou a notícia, indicando-me o local. Modifiquei logo os meus planos: iria tomar o pequeno-almoço e, depois, rumaria a Cascais.
O sol já aquecera bem a manhã quando me sentei, debaixo do chapéu da pastelaria, para comer uma torrada mal passada e beber um café. As árvores em volta já tinham tenras folhas e, como o trânsito era pouco, podiam-se ouvir os pássaros a cantar. Chovera até quase o dia clarear e, talvez por isso, parecia que a natureza estava plena de pujança, com tudo muito verde e fresco. O café despertou-me; voltei a olhar o papel onde rabiscara a morada e confirmei a ideia que, de repente, me veio à cabeça: a moradia era a de um casal amigo, e até já nadara na tal piscina!
Liguei pelo telemóvel e atendeu-me a criada que, reconhecendo-me, não só confirmou as minhas suspeitas como acrescentou que a casa estava num pandemónio, com polícias por toda a parte, permanentemente a massacrá-la com as mesmas perguntas. Procurei tranquilizá-la e disse-lhe que, em breve, passaria por lá. Ainda estava ao telemóvel quando senti o sinal de que alguém tentava contactar-me. A ligação era do Inspector Lucas:
“Então já sabes a notícia? Para ainda não teres aparecido é porque te levantaste tarde… Dá um salto até cá, que tenho um caso de que vais gostar.”
Meia hora depois estava a tocar à porta da vivenda. Um polícia acompanhava a criada Dolores, que rejubilou com a minha presença e com o saber que era amigo do Inspector.
“Isto está um inferno! Estou farta de dizer a toda a gente que não sei nada, porque nem cá estava. Como os patrões não estão fui dormir a casa. Só soube o que se passava quando me telefonaram a mandar vir para cá.”
O Inspector Lucas fez-me um rápido ponto da situação: às oito e doze fora recebida a chamada do jardineiro Ambrósio participando que, quando se preparava para limpar a piscina, vira um corpo a boiar. Pensando que ainda poderia estar vivo tirara-o da água, logo se apercebendo que já há muito tinha morrido. Tal como Dolores, declarou não conhecer o morto. Também a polícia ainda não sabia de quem era o cadáver, pois não fora encontrada qualquer identificação. Segundo o médico legista, a vítima sofrera uma pancada na nuca, que lhe provocara forte hematoma, não podendo ainda precisar se este fora a causa da morte ou o afogamento. Tudo devia ter ocorrido pelo meio da madrugada.
Para o inspector, a vítima não era dali e admitia mesmo que fosse estrangeira, quer pelo aspecto físico, quer pela roupa que usava. Pressentia que os empregados (ou pelo menos um deles) sabiam como a morte ocorrera. Nenhum tinha álibi para a provável hora do crime – pois já não tinha dúvidas que se tratava de tal –, alegando que estavam em casa, a dormir. Ele na vivenda, onde tinha quarto, ela em casa. Como vivia só e saíra tarde da moradia, não tinha, também, quem confirmasse a versão que contava.
Uma certeza já tinha obtido com a acareação que lhes fizera: tinham uma secreta relação amorosa, que os levava a, mutuamente, se tentarem encobrir, revelando ambos grande inquietação.
Fui ver a zona da piscina. O cadáver permanecia na relva do lado mais próximo da casa.
A borda da piscina, de mármore branco, estava impecavelmente limpa, como sempre a conhecera; a água muito azul era um convite; toda a zona envolvente estava como eu a conhecia. Nada de dissonante era visível A polícia identificara pegadas do morto junto à borda da piscina, e também das botas que Ambrósio ainda calçava. Por baixo do cadáver estava uma faca, de lâmina curta e forte, ainda com a etiqueta da casa onde fora comprada. Pedi ao inspector que chamasse a criada, a quem perguntei a nacionalidade, pois, pelo ligeiro sotaque, sempre pensei que não era portuguesa.
“Nasci no Brasil mas como tinha uma vida miserável, pois ganhava pouco e o homem me chegava o pau, fugi e vivo cá há dez anos. Arranjei logo trabalho nesta casa e já nem saudades tenho de lá.”
“E do seu homem, nunca mais soube nada?”
“Nem quero! Antes da minha mãe morrer o Honório ainda aparecia lá por casa a perguntar por mim. Dizia que me queria muito, mas fartou-se de me bater. Era muito bravo. Agora, há mais de um ano que não recebo notícias…”
Depois foi a vez de Ambrósio, a quem pedi que me repetisse o relato do fizera até agora.
“Como já disse à polícia, levantei-me cerca das oito horas. Arranjei-me, tomei o pequeno-almoço, pus a secar a roupa que ontem molhei e fui à arrecadação buscar o carrinho com as coisas para limpar a piscina. Quando aqui cheguei vi o homem a boiar. Puxei-o para a relva e, como já estava morto, fui telefonar à polícia, que me disse para não tocar em nada. Eu assim fiz: vim sentar-me naquela cadeira e fiquei à espera que chegassem”
Perguntei-lhe se sabia que a Dolores era casada. Disse-me que ela lhe contara que fugira do Brasil por ele ser muito mau e ciumento. Que até jurava matá-la, e ao rival, se soubesse que tinha outro homem.
Convidei o inspector a dar uma volta à casa. No estendal das traseiras secava um fato de macaco, completamente molhado; na arrecadação tudo perfeitamente arrumado. Estava a observar algumas ferramentas, que ainda estavam húmidas, quando apareceu um agente a informar que junto ao muro havia pegadas, como se alguém o tivesse escalado, para forçar a entrada na moradia.
Fomos ver e, pelo caminho, perguntei-lhe se suspeitava quem era o morto, quem o assassinara e como devia ter acontecido o homicídio. Expus-lhe a minha teoria. Ouviu-me com a habitual atenção. Depois fez uns telefonemas e quando, tempo depois, obteve uma resposta, disse-me que começava a fazer-se luz sobre todo aquele mistério.
Será que os nossos detectives também já podem responder às perguntas que fiz ao Inspector Lucas?


Solução do Inspector Boavida

Tipo de Ocorrência: Crime de homicídio, cometido na sequência de violência física “exercida à traição”, seguida de um “afogamento” induzido/encenado, que, segundo se pôde concluir durante as investigações, teve por protagonista um casal de “colegas amantes”.
Vítima: Honório, um brasileiro roído pela dor do ciúme ou ferido de morte pelo seu orgulho de macho possessivo, que se apurou ser casado com a mulher que integrava a dupla de “colegas amantes”, recém-chegado dos “brasis” com o propósito, ao que se supõe, de vingar com as suas próprias mãos a traição de que se considerava ter sido objecto.
Data e Hora da Ocorrência: Meio de uma madrugada de um domingo primaveril, que começou chuvoso e só se despiu de nuvens ao raiar do Sol, que nasceu radioso e propício a um “casamento a sós” com a natureza, num qualquer jardim da cidade; ou a “um namoro a três” à sombra de uma esplanada... sorvendo uma bica bem quente, na companhia do jornal Público aberto na página dos “Jogos”!!!....
Local da Ocorrência: Jardim da vivenda de um casal amigo de Mr. Ignotus, em Cascais, uma das zonas mais chiques da linha do Estoril, onde os “flirts” secretos são socialmente tolerados entre alguma gente da classe média e os “swings” são moda na “alta roda”, ao contrário do que sucede nas sociedades mais conservadoras e tradicionais, como, por exemplo, nalgumas regiões do Brasil, onde os homens não aceitam de forma nenhuma que as suas mulheres “molhem o bico” fora do casamento (mesmo quando vivem em “separação de facto”!). Os donos da moradia tinham saído para o estrangeiro e o par de “colegas amantes” que os servia tinha, enfim, uma das poucas oportunidades de fruir livremente o seu romance secreto por entre os muros da casa, a sós, numa noite de luxúria na cama do quarto de um deles, recostados pela manhã em descanso e sossego nos sofás da sala de estar, abraçados “in love” a meio da tarde dentro da piscina ou a tomar banhos de sol, de corpos “enroscados” como se os dois fossem um só, no recato do jardim…
Suspeitos do Crime: Ambrósio jardineiro e Dolores criada – o casal de “colegas amantes“. Eles não eram propriamente suspeitos do crime no início das investigações, mas ao longo dos interrogatórios acabaram por perder a “virgindade dos inocentes” enquanto se “estendiam completamente ao comprido” no leito das contradições em que se expuseram.
Autor(es) do Crime: Ambrósio e Dolores são cúmplices de um crime que não premeditaram, nem supostamente alguma vez imaginaram serem capazes de cometer. Tudo indica que tenham agido em legítima defesa, se atendermos ao facto da vítima ter por debaixo do seu corpo uma arma branca que se veio a comprovar ser de sua propriedade, mas decidiram não assumir o crime. O casal de “colegas amantes” quis esconder o homicídio, cometendo, assim, um outro crime: a tentativa de ludibriar, enganar a justiça… E isso (também) não se perdoa!!!

Era Uma Vez… Um Afogamento Encenado (ou “A Pancada da Morte”)

Mr. Ignotus dormiu profundamente, mas devagar, como se as horas, os minutos, os segundos, tivessem parado no tempo, e despertou aos poucos, sem nenhuma pressa de sair da cama. Era domingo, dia de descanso. Tinha chovido toda a “santa noite”, mas o barulho das águas que caíam dos céus, batendo forte na janela, apenas serviu para o embalar num sono revigorante, enquanto as luzinhas dos seus olhos se iam apagando lentamente na escuridão que inundava o quarto. Só ao nascer do Sol é que as nuvens se calaram, ao mesmo tempo que a luz começou a espreitar por entre as persianas.

Indiferente aos primeiros raios de luz da manhã, Ignotus decidiu levantar-se apenas quando o Sol se instalasse em todo o seu esplendor, ao mesmo tempo que ligou o seu pequeno rádio de cabeceira. Estava na hora do noticiário. Uma informação de última hora mereceu destaque especial: Crime em Cascais! Só uma coisa destas o faria saltar da cama. Ligou para um amigo da Judiciária e confirmou a notícia. Suspeitava-se de um homicídio. A polícia tinha sido chamada pelo jardineiro da moradia onde o caso ocorrera. Tomou nota do respectivo endereço e saiu pouco depois para a rua.

O Sol estava prestes a exibir toda a sua pujança quando Ignotus se sentou à mesa de uma esplanada vizinha do local onde vive, para tomar um café que o acordasse de vez! Só então se apercebeu que a morada do local do crime lhe era familiar. Engoliu à pressa a torrada que fazia companhia a “uma bica bem curta”, pagou a conta, e meia hora depois estava a tocar à campainha da porta da vivenda de um casal amigo, em Cascais. Foi Dolores, a criada, que lhe abriu a porta. Junto dela estava um dos polícias que integravam o “batalhão” de agentes chefiado pelo inspector Lucas.

Entre Lucas e Ignotus existia uma amizade de muitos anos. Não havia processo algum que o inspector investigasse, desde um simples roubo a um complexo homicídio, como era o caso!, que não partilhasse com o amigo. Para além do mais, este era sempre uma preciosa ajuda nas investigações. O inspector deu-lhe conta de toda a situação, surpreendendo-o com a existência de uma secreta relação amorosa entre o jardineiro Ambrósio e a criada. Tal facto seria até desconhecido dos donos da casa, porque nunca o caso foi comentado nas diversas vezes em que Ignotus ali esteve como convidado.

Esta revelação foi, aliás, uma das primeiras “pistas” que mais contribuíram para deslindar o mistério que envolvia o homicídio em investigação. Na verdade, não fazia nenhum sentido que a criada Dolores tivesse ido dormir a sua casa naquela noite, como alegou, já que tinha uma das raras oportunidades de “viver” em pleno, na vivenda, aquela sua, tão secreta quanto misteriosa, relação de amor com o jardineiro Ambrósio, sem correr o risco de serem descobertos pelos patrões, uma vez que eles estavam ausentes no estrangeiro.

Também não fazia absolutamente nenhum sentido o jardineiro Ambrósio ter dito que se levantara nesse dia por volta das oito horas da manhã e, no tempo que medeia entre o seu despertar e o telefonema que fez para a polícia (doze minutos, apenas!...), haver conseguido arranjar-se, tomar o pequeno-almoço, colocar roupa a secar no estendal, retirar da arrecadação o carrinho dos objectos necessários à limpeza da piscina... e puxar para a relva do jardim aquele estranho homem que alegadamente teria visto a boiar nas águas da piscina.

Nem o Lucky luck, a personagem mais rápida do universo da banda desenhada, conseguiria fazer tanta coisa em tão pouco tempo! Mas mais estranho (e suspeito!...) é o facto do jardineiro Ambrósio ter dito que seguira à risca as recomendações feitas pela Polícia Judiciária, quando telefonou a dar conta da ocorrência. Ou seja: não tocou em mais nada e sentou-se numa das cadeiras existentes no jardim, onde ficou até chegar a brigada chefiada pelo inspector Lucas. Porém, o carrinho de limpeza da piscina tinha levado sumiço!...

Estranho é ainda o facto de não se vislumbrar na relva quaisquer marcas de arrastamento da vitima, como absurda é também a circunstância do seu corpo se encontrar mais próximo da casa do que da piscina. Se tivesse havido afogamento, como alega o jardineiro, o corpo da vítima estaria decerto muito pesado! Assim sendo, o “pescador” do cadáver tê-lo-ia deixado obviamente junto à piscina. Admitindo, porém, que o arrastara pelo jardim, as marcas desse esforço escusado e sem sentido estariam patentes na relva!...

A versão do jardineiro Ambrósio é ainda contrariada pelo facto de se ter descoberto por debaixo do corpo da vítima uma arma branca. Tal achado, bem como um grande hematoma detectado na nuca do morto, permitem concluir que ele foi agredido e abandonado no sítio onde se encontra. Se Ambrósio tivesse deslocado o cadáver da piscina para aquele lugar do jardim, como afirma, teria naturalmente dado conta de que o estaria a depositar em cima de uma faca. A chuva já tinha parado. O Sol despontara há muito… e os raios solares fazem brilhar lâminas!...

Mesmo considerando que o morto tenha sido levado “em peso” e que ele tinha a faca “escondida” por entre as suas roupas, sem que o jardineiro a visse, não seria possível que a arma ainda ostentasse uma etiqueta. Isto porque, ao fim de algumas horas em contacto com a água, ela ter-se-ia descolado. Impossível era também a existência de pegadas da vítima junto à borda da piscina e perto do muro, porque o médico legista tinha quase a certeza de que tudo havia ocorrido a meio da madrugada. Assim sendo, a chuva teria “lavado” as pegadas… nomeadamente as “desenhadas” no mármore.

Admitindo que as pegadas não estariam expostas em espaço empedrado, facilmente “lavável” pela chuva, mas sim na relva, tal facto levantaria duas outras questões. Ou seja, teriam de existir pegadas do morto em todo o percurso por ele percorrido entre o local por onde entrara e a piscina, sendo que a mesma lógica se aplica ao jardineiro; no caso concreto deste, acrescenta-se a estranheza das suas pegadas não estarem no passadiço da borda da piscina: se ele tivesse “pescado” o “morto” (com os utensílios de limpeza?...), obviamente que pisaria o mármore!

A piscina tinha a sua borda de mármore branco impecavelmente limpa e a sua água tão azul como Ignotus sempre a vira das vezes que nela mergulhou, o que também o surpreendeu. Isto porque o morto estava calçado e tinha os sapatos sujos, como atestam as suas pegadas bem visíveis em dois locais do jardim (junto à borda da piscina e ao mural da vivenda). Ora, assim sendo, a água da piscina e a borda desta teriam que apresentar, no mínimo, resquícios de lama ou de outra qualquer matéria “suja” que estava “entranhada” no calçado da vítima.

Acresce ainda que se a piscina tivesse sido leito de cadáver durante tanto tempo, desde o meio da madrugada, com certeza que os fluidos orgânicos libertados pela vítima deixariam inevitavelmente os seus “sujos” sinais na água. Por outro lado, um corpo afogado (vestido e calçado, ainda por cima…) afunda-se primeiro e só algumas horas depois é que emerge. O médico legista teria agora de determinar a hora exacta da morte da vítima para avaliar da probabilidade do jardineiro ter encontrado o corpo a boiar às oito e picos da manhã, o que parece pouco provável!...

Estranho era também o facto da vítima não ter consigo quaisquer documentos de identificação. O seu aspecto físico e o tipo de vestuário que envergava “denunciavam-no”, porém, como cidadão estrangeiro. Tal suspeita seria ainda sustentada pela etiqueta da faca, que continha o nome da casa onde fora comprada – uma firma brasileira, como se depreendeu à primeira leitura. Perante estes elementos, já não havia dúvidas: a faca era propriedade do morto! E foi aí, e por isso, que Ignotus se lembrou do leve sotaque estrangeiro no “falar português” da criada Dolores.

Ignotus decidiu falar com a criada e com o jardineiro, em separado. Dolores confirmou que era brasileira e que tinha fugido do seu país há dez anos, porque ganhava mal e levava uma vida miserável. Ainda por cima, o marido chegava-lhe a “roupa ao pelo”. Trabalhava naquela casa, em Cascais, desde que chegara do Brasil, aonde nunca mais voltou. O marido, um tal Honório, era muito violento. A mãe contava-lhe que, depois da sua partida, ele ia muito lá a casa perguntar por ela, dizendo que a amava. Mas desde que a mãe morrera, há mais de um ano, nunca mais tivera notícias dele.

A conversa com Ambrósio foi mais longa. Primeiro havia a curiosidade de saber se ele tinha tido o cuidado de limpar a cadeira onde se sentara enquanto aguardara pela polícia, uma vez que ela devia estar encharcada. Chovera toda a noite. Como não havia nenhum pano por perto, o jardineiro devia ter o rabo das calças todo molhado!... Só depois é que Ignotus lhe perguntou se sabia que Dolores era casada, ao que ele respondeu que sim. Ela até lhe contara que “ele” era muito mau e ciumento. Jurara até acabar com a vida dela e do homem com quem andasse! Aquele “ele”, em vez de “o marido” era muito comprometedor!...

Ignotus deu depois uma volta pela casa. Observou minuciosamente o fato de macaco completamente molhado, que secava no estendal; admirou espantado a arrumação da arrecadação; e ficou muito pensativo a olhar para algumas das ferramentas, que se encontravam húmidas… De súbito, lembrou-se que o jardineiro tinha entrado em casa quando telefonou para a polícia, pelo que deviam lá estar as suas pegadas. Tal e qual como aquelas que ele havia deixado junto ao bordo da piscina! Será que estavam?... Também não era preciso averiguar tal facto.

Ignotus já sabia como tudo tinha acontecido

A meio da madrugada, Honório, marido da criada Dolores (o inspector Lucas, num dos vários telefonemas que fez, confirmou que tinha entrado em Portugal, na véspera, um cidadão brasileiro de nome Honório) e saltou os muros da vivenda (ele visitava frequentemente a sogra, e esta deve ter-lhe dado a morada da casa onde a filha trabalhava). Ele ia munido de uma faca e estava decidido a cumprir a sua jura: matar Dolores e o homem com quem ela andasse! Honório tinha atravessado o Atlântico apenas com esse propósito. Nada o faria recuar.

O jardineiro e a criada gozavam as delícias do seu amor secreto. De súbito, ouviram um ruído estranho no exterior. Ambrósio vestiu à pressa o seu fato de macaco, correu até à arrecadação e pegou numa das ferramentas, com o intuito de a utilizar como arma de defesa, caso fosse necessário. Dolores levantou-se, vestiu-se e foi ver o que se passava. Ficou estupefacta. Tinha ali, à sua frente, Honório, de faca na mão, ameaçador, pronto a fazer justiça pelas suas própria mãos. Queria vingar o seu coração dilacerado pelo amor traído, o seu orgulho de macho ferido… completamente desfeito.

Ambrósio foi, pé ante pé, ao encontro do brasileiro, “encoberto” pela escuridão da noite, com uma peça de ferramenta na mão. Aproximou-se de Ambrósio e desferiu-lhe uma pancada na cabeça. Honório caiu de bruços, deixando por debaixo do seu corpo a faca com que ameaçava Dolores. Os papéis atribuídos a Dolores e Ambrósio poderão estar invertidos, mas tudo indica (“forte pancada”) que foi o jardineiro quem atingiu o brasileiro. De uma coisa, porém, não há dúvidas: a pancada foi desferida à traição (“na nuca”!).

Ambrósio e Dolores ficaram perdidos, sem saber o que fazer, até que um deles terá pensado na simulação de um afogamento. Pegaram num qualquer recipiente, encheram-no com água da piscina, despejando-a abundantemente pela boca do Honório até este morrer “afogado” (se é que ainda estava vivo!... – o médico legista ainda não conseguia precisar se ele morreu da pancada na nuca ou do “afogamento”). Deixaram a vítima estendida em cima da relva e retiraram-lhe todos os documentos (nenhum deles se lembrou da faca do morto, que ficou esquecida por debaixo do seu corpo…).

Chovia (choveu até ao nascer do dia). Ambrósio tinha o fato de macaco colado ao corpo. Estava molhado até aos ossos, assim como o cadáver. De tão encharcado que este estava, ninguém suspeitaria que não se tivesse afogado (e de facto assim morrera, se é que a pancada apenas o deixou inconsciente… porque se a pancada o “fulminou” mesmo, a água que os “colegas amantes” lhes despejaram pelas goelas abaixo não lhe entrou nos pulmões; neste caso, a água estaria toda no estômago, uma vez que ele teria o esfíncter fechado – mas esse assunto ficaria agora ao cuidado do médico legista!..).

Entretanto, veio o Sol. A chuva parou. O jardineiro sugeriu que a criada Dolores trocasse de roupa e se fosse embora para sua casa. Pareceu-lhe conveniente que ela não estivesse na vivenda quando a polícia chegasse. Impunha-se que ela levasse dali a sua roupa molhada e, por outro lado, era também absolutamente necessário fazer desaparecer os despojos do morto. Queimando os documentos e abandonando os outros bens (chaves, moedas…) algures, em lugar distante. Ambrósio, por sua vez, manteve-se a trabalhar na “encenação da morte por afogamento”.

O jardineiro trocou de roupa. Pendurou o seu fato de macaco no estendal. Apagou eventuais vestígios da sua presença e de Dolores no jardim durante a madrugada. Lavou o objecto com que atingiu Honório e arrumou-o na caixa de ferramentas, sem ter o cuidado de o limpar (algumas ferramentas estavam húmidas... e uma delas pode conter cabelos do brasileiro!). Depois, descalçou o morto por breves instantes e, com os sapatos deste, “produziu” falsas pegadas da vítima junto ao muro e ao bordo da piscina, deixando aqui também as marcas das suas próprias botas.

Seguro de que ninguém suspeitaria do seu envolvimento na morte de Honório, que ele juraria jamais ter visto em toda a sua vida, assim como a sua amada Dolores ficara de fazer se fosse chamada à vivenda para colaborar na identificação do corpo, Ambrósio telefonou para a polícia. Para ele, a história seria convincente quanto baste para sair isento de quaisquer suspeitas. Por outro lado, a gente que vivia nas redondezas não conhecia o morto. E como ele não era portador de documentos, ninguém iria descobrir a sua identidade... nem o seu parentesco com a criada.

O Jardineiro Ambrósio ignora que vivemos numa verdadeira aldeia global e que em breve alguém comunicaria o desaparecimento de um brasileiro que viajara para Portugal em turismo, ou, quem sabe?, em busca da mulher... Por outro lado, a sua “santa ignorância” não permitia ver o óbvio: nada escapa à perspicácia de Mr. Ignotus e do seu amigo Lucas, sobretudo contradições, tão básicas quanto ingénuas, como aquelas em que ele e a sua amada Dolores se “enredaram” em toda esta história do “afogamento”, onde meteram água (da piscina, da chuva...) por todos os lados!!!

Inspector Boavida 
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