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Friday, September 28, 2007
  Mundo dos Passatempos
Apartado 593
2000-SANTARÉM

TORNEIO DA PRIMAVERA / PROVA Nº.1

“ATROPELAMENTO FATAL”, original de Zé da Vila

O Inspector Gustavo, o G.B. da "Judite" (minha senhora, o seu digno esposo é exemplar; esta "Judite" é uma respeitável instituição) é um investigador culto, sagaz, que a P.J. admira e não dispensa. Apesar das células cinzentas trabalharem a meio tempo, a sonhar, simultaneamente, com Ferraris, a restante metade sobeja para intervir e deslindar os complicados casos, por vezes esfíngicos, da sua profissão.
Na última semana, numa das suas mais do que escassas folgas, aproveitou para visitar um colega, convalescente e furioso por ter sido ferido numa perna com uma bala que, em regra, destina aos situados do lado oposto da barreira da justiça. Alguém comentara que a saída da capital se destinara, em boa verdade, a experimentar a nova "bomba" de quatro rodas e um roncar de avião em subida… um Alfa 159! Invejas, claro!
Quando retornava, mal andara cerca de dez minutos, a tempestade desabou. Chuva a cântaros que o obrigava a conduzir com prudência, servindo-se de toda a perícia; limpa-pára-brisas a trabalhar a toda a velocidade, olhos postos na estrada à sua frente. Subitamente, ainda que conduzindo devagar, teve de travar a fundo, para não chocar com um veículo de alta cilindrada que lhe surgiu, atravessado, bloqueando a estrada. O motor trabalhava, em cadência.
Para evitar surpresas, G.B. passou a pistola para o bolso e saiu do carro. Segundos depois, encontrava-se todo molhado. Em frente do carro, parado a alguns metros de distância, deparou com o corpo de um ciclista, caído sobre o asfalto. A bicicleta estava praticamente destruída pelo pára-choques do carro parado, amachucado e com vestígios de tinta da cor da bicicleta destroçada. O pulso do sinistrado não tinha reacção… uma vida que se fora! Abriu a porta do carro onde um indivíduo se encontrava, desmaiado, sobre o volante, com um golpe na testa. O ar frio e a chuva fizeram o homem recuperar.
– Foi o súbito aguaceiro que me cegou, declarou. Vi o ciclista demasiado tarde. Travei e derrapei… lamento! Sou Vasco Campos.
G.B. pediu uma ambulância para o ciclista, ainda que inútil para o salvamento da sua vida. Depois das medições e apontamentos, ajudou o condutor a entrar no carro da G.N.R. que acompanhara a ambulância, recomendando: – Vejam se o Sr. Vasco bebeu de mais. Ia demasiado depressa! Não foi a falta de visibilidade a razão do acidente. Podem ir. Eu tiro o carro sinistrado, que continua a trabalhar, para a berma e sinalizo-o.
Posto isto, entrou no carro do acidente, pôs o limpa-pára-brisas a trabalhar e conduziu-o para a berma da estrada, sinalizando, depois, a sua presença…
Entrou no 159, encharcado e lastimando o seu estado, ao sentar-se sobre os estofos novos…

Pergunta-se: Que levou G.B. a denunciar o automobilista?


SOLUÇÃO DE INSPECTOR BOAVIDA

G.B., o homem da “Judite”, também conhecido como o mais fanático dos ‘tifosi’ portugueses e o mais ferrenho adepto do Glorioso (não haja confusões: glorioso só há um, o da Luz e mais nenhum!), é igualmente considerado um verdadeiro ‘amigo do seu amigo’, um indivíduo que cultiva o bom humor e, sobretudo, a camaradagem (e… a pesca! – mas isso será tema de conversa para outras ‘marés’...), razão pela qual não podemos duvidar dos motivos que o levaram a pegar no seu bólide naquela dia, que, de súbito, à tardinha, viu as torneiras do céu abrirem-se para uma forte chuvada: ele foi com certeza visitar o tal amigo e camarada de profissão!
É verdade que G.B. não perde uma oportunidade para carregar a fundo no acelerador (não ser piloto de Formula Um terá sido a frustração da sua vida!?...), porém, no regresso da sua visita ao companheiro ‘ferido em combate’, a chuva, que começou a ‘cair a potes’, obrigou-o a abrandar a velocidade. Felizmente, porque, subitamente, deu de caras com um carro de alta cilindrada atravessado na estrada. “Não bastava a chuva, agora esta cena!...” – pensou ele. Saiu rápido do seu bólide, não sem antes pegar na ‘ferramenta que dá tiros’, não fosse o diabo tecê-las, e acercou-se da viatura que bloqueava a via. A uns metros, já morto, estava caído um ciclista.
Já nada podia salvar aquela vida, mas G.B. tratou logo de pedir a presença do INEM. A bicicleta da vítima fora abalroada pelo carro atravessado na estrada, que, curiosamente, naquele momento ainda estava a trabalhar, em ‘cadência’. O seu condutor estava debruçado sobre o volante, desmaiado (?!...), com um golpe na testa devido naturalmente ao embate. G.B. acreditou na ferida (ela existia de facto!), mas duvidou do desmaio, porque se o homem tivesse desmaiado após o choque com o ciclista, o carro teria ‘ido abaixo’. Se o condutor alguma vez desmaiou, terá sido depois de ter posto o carro em ‘ponto morto’!...
E o ‘limpa pára-brisas’ do carro estava desligado (estranho?...)! “Ainda não chovia quando se deu o acidente” – terá pensado G.B., que foi no entanto levado a admitir que também se podia ter dado o caso do condutor ter desligado o ‘aparelhometro’ depois do choque com o ciclista – se bem que isso não faça muito sentido, a não ser que o homem houvesse perdido a noção do tempo e da realidade (certo é que não saiu da viatura para acudir a vítima!...). G.B. recordou-se, porém, que a chuva tinha começado a ‘desabar’ há muito pouco tempo, facto que lhe permite apostar mais na primeira hipótese: ou seja, não chovia quando se deu o acidente!
De uma coisa tem G.B. a firme certeza: o homem estava ‘bem bedido’. Se o indivíduo estivesse no pleno uso de todas as suas faculdades não teria ficado dentro do carro, sem reacção, incapaz de mexer uma ‘palha’ para socorrer a vítima! Só para tirar a ‘prova dos nove’, G.B. pediu aos efectivos da GNR (entretanto avisados do acidente, pelo serviço de emergência médica) que fizessem testes de alcoolémia a Vasco Campos, enquanto ele próprio arrumaria na berma da estrada a viatura do dito senhor, que ainda continuava com o motor a trabalhar e… com o limpa pára-brisas parado.
G.B. voltou depois para o seu bólide molhado até aos ossos, encharcando os belos estofos de couro do Alfa 159 que ainda cheiravam a novo, e seguiu viagem de regresso a casa, com a seguinte máxima pensamento: “no caso de beber, convém conduzir MUITO devagarinho, não vá aparecer por aí a Brigada de Trânsito… ou algum ciclista!”



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TORNEIO DA PRIMAVERA / PROVA Nº.2

“UM ROUBO NA SEXTA-FEIRA”, original de Zé da Vila

Tratava-se de um longo memorando e não, propriamente, de uma exposição minuciosa, o documento que acabara de ler sobre prioridades investigativas da Judite. Se não fosse o facto de o considerar informal, não desprovido de uma pitada de humor, tê-lo-ia arquivado com uma gargalhada sonora, bem ao seu jeito – o que não era invulgar para um indivíduo que, em quaisquer circunstâncias, mesmo de apuro, era o espelho do optimismo. Ao fechar o arquivo, G.B. deu-se conta de um invulgar silêncio, num Departamento em que a nota saliente era o rumor: conversas, perguntas e respostas, telefonemas… Afinal, era sexta-feira, o expediente fechara há mais de duas horas e a permuta de turnos estava efectuada, deixando o mínimo de efectivos para assegurar a regularidade nos homicídios, no roubo e noutras secções.
Começou a vestir o casaco, já a pensar no ar puro de uma boa pescaria, quando a ordem chegou: "G.B., entra em acção! A caminho de casa, passa pela rua X e vê o que se passa com Y. Não temos pessoal disponível!"
Nem vinte minutos depois, parava na vivenda ajardinada de Reinaldo Lopes.
Um carro da P.S.P., com dois agentes, aguardava. Juntou-se ao secretário particular de R.L. e ao jardineiro; subiram. Na ampla sala-escritório, entre duas secretárias, frente a frente, encontrava-se um cofre aberto e alguns papéis no chão. Ao centro da sala, numa mesa leve e redonda, assente sobre um caro tapete, sobressaía um vaso com bem tratadas begónias. Atada à mesa, uma forte corda atravessava o aposento até à janela aberta…
Dinis, o secretário, explicou: – Esta tarde fui levantar 200.000€ ao Banco, que entreguei ao Sr. Lopes. Depois de contar o dinheiro, encarregou-me de fazer os recibos dos salários dos empregados da fábrica e colocar a respectiva importância em envelopes individuais, já que ele ia ter um fïm-de-semana prolongado e queria que os pagamentos fossem feitos na segunda-feira, de manhã. Distribuí o dinheiro em lotes, quando me pareceu ouvir um ruído lá em baixo. Desci e, porque nada de estranho tenha encontrado, voltei, a tempo de ver um homem agarrado à corda e a descer pela janela…
– Eu também vi, interrompeu o jardineiro. Ainda o vi agarrado à corda. Corri atrás dele, mas desapareceu. O secretário voltou a tomar a palavra para lamentar o desaparecimento do dinheiro levantado e ainda alguns trocos que estavam no cofre, que o patrão deixara aberto.
Tranquilamente, o inspector G.B. limpou os óculos e observou, ainda mais serenamente:
– Bem, preferem entregar já o dinheiro ou esperam para serem submetidos a um interrogatório legal?

Pergunta-se: Que levou G.B. a suspeitar dos empregados?


SOLUÇÃO DE INSPECTOR BOAVIDA

Sexta-feira, fim de tarde. Reinava a calma na ‘Judite’. O expediente fechara há mais de duas horas (passava das sete, portanto!) e já quase toda a gente dera ‘à sola’, excepto o pessoal que acabara de entrar de turno e…G.B.! O Silêncio era tanto que se conseguia ouvir distintamente o tique-taque do relógio que ornamenta uma das paredes do gabinete de trabalho do mais destemido, corajoso, arrojado e eficiente inspector no activo: G.B., claro!
O fim-de-semana de G.B. seria passado em águas menos calmas, a bordo de uma pequena embarcação, algures na costa alentejana, acompanhado de um grupo de amigos amantes da pesca… e de um bom convívio. Desta vez, para além dos ‘pescadores’ habituais, iriam estar também o velho Dic, o Raposão, o PP de IX, o primo deste e… a Kátia Vanessa, porque havia assuntos muito importantes a discutir sobre o futuro da ‘piquena’!
Absorto nestes pensamentos, G.B. arrumou a papelada, vestiu quase mecanicamente o casaco e… O telefone tocou! Era o chefe, o ‘chato’ do Pessoa, que volta e meia lhe troca as voltas nas investigações de casos ‘bicudos’ que julga ter resolvido a contento, desta vez muito manso: “G.B., desculpa lá, mas estamos sem pessoal. Dá um saltinho a casa de um tal Reinaldo Lopes, que fica a caminho do sítio onde moras, e vê lá o que se passa. Parece que ‘deram corda’ a uma mesa vizinha de um cofre e a ‘guita’ desapareceu”.
G.B. chegou à morada indicada em menos de vinte minutos e nem foi preciso ir na ‘gasosa’. Ele é que ia com o ‘gaz’ todo! Não tinha tempo a perder. Os amigos da pesca esperavam por ele no dia seguinte, manhã cedo, e ainda tinha imensas coisas para tratar: limpar as canas, comprar o isco, desembaraçar as linhas, os anzóis e os pesos, preparar o farnel – é verdade, não podia esquecer o vinho para os ‘machos’ e a Coca Cola para a ‘Káti’!
G.B. ouviu da boca do secretário de Reinaldo Lopes uma ‘história’, que tinha por protagonista um meliante radical, especialista em ‘assaltos em corda vertical ou rapel’, que o jardineiro confirma ter visto em plena acção, e pensou: “Estes ‘gajos’ estão feitos um com o outro. A ‘massa’ só pode ter sido levantada antes das três, porque os bancos depois dessa hora estão fechados. Já passa das sete e os ‘tótós’ querem convencer-me que o dinheiro ainda não estava ‘envelopado’ e fechado no cofre!?... Para mais a uma sexta-feira, dia em que a ‘malta’ quer é pôr-se a mexer para casa e ‘curtir’ o fim-de-semana?!...”
G.B. continuou o seu raciocínio dedutivo sem dizer uma única palavra: “A mesa é leve e está assente sobre um tapete caro. O vaso que está em cima dela não pode ser pesado, se não danificaria o tapete (caro! – é preciso não esquecer). A mesa continua no centro da sala, ladeada por duas secretárias, não tendo nada que se oponha entre ela e a janela. Então, como é que alguém pode descer para o jardim por uma corda atada à mesa (leve!), sem que esta seja arrastada pelo menos até à janela face ao peso do corpo do tal misterioso assaltante?!...
G.B. irritou-se, mas fingiu calma e serenidade, e fez soar a sua voz autoritária: “Bom, meus caros, devolvam lá a ‘massa’ depressa que não tenho tempo a perder. Amanhã vou dedicar-me à pesca!!!!”


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TORNEIO DA PRIMAVERA / PROVA Nº.3

“O CASO DOS QUADROS DESAPARECIDOS”, original de Zé da Vila

Manhã melancólica convida à melancolia. Não para o Inspector Gustavo. Entra de rompante no gabinete e senta-se. Abre os braços, espreguiçando-se, e solta uma gargalhada, diante de duas caras suficientemente preocupadas.
– Vai ao gabinete do Director, informam-no…
G. B. levantou-se. Maquinalmente, olhou, através da janela, comentando: – Não se deixem influenciar pelo clima…
Meia hora depois, sai do gabinete do director, disfarçando um sorriso amarelo. No íntimo, revela-se um esboço, incomum, de tempestade. "Um investigador do crime, geométrico, lógico, dedutivo não pode ter muitos princípios nobres". Os sentimentos são relativos… Atende o telefone e sai do edifício. Um carro já o espera. No interior deste, um cavalheiro, distinto, de meia-idade, quase não o deixa sentar:
– Perdoe, Inspector. É um procedimento estranho, mas gostaria de obter resultados, sem escândalo. Sou administrador de um Museu de Arte. O meu nome é Damião de Castro. Ultimamente, apoiado por meus pais, tenho adquirido alguns quadros, mais propriamente oito telas de paisagens, que guardava no meu escritório. Desapareceram! Ninguém poderia ter conhecimento das telas. Só têm acesso ao escritório os restantes três membros da Direcção; por isso, gostaria que assistisse à reunião que vamos ter, onde levantarei a questão. Tenho a certeza de que foi um deles. Confio no seu discernimento e discrição…
G.B. foi apresentado como um amigo, conhecedor de arte.
Aberta a reunião, Damião atacou: – Lamento informar que houve um roubo de algumas peças de arte que guardava no meu escritório. Gastei tempo e dinheiro para iniciar uma colecção particular…
– É bem feito, interrompeu Dora de Ataíde. Não se pode meter em negócios particulares!
David Neves apoiou Dora: – Se tivesse reunido essas telas de paisagem para o Museu, nada disto teria acontecido!
Arnaldo Seco defendeu-se: – Se pensa que algum de nós tem a ver com o assunto, risque o meu nome. Desde a última reunião, há três semanas, que não venho ao Museu!
Todos queriam falar ao mesmo tempo. G. B. levantou-se:
– Sou Inspector da Judiciária e tenho suspeitas seguras de quem tirou as telas. Aconselho o actual possuidor a devolvê-las. Mais! Quando sair daqui, com a devolução consumada, quero levar dois cheques de 500 euros cada, a favor da Liga Portuguesa contra o Cancro, assinados, respectivamente, pelo meu amigo senhor Damião e pelo suspeito. Amanhã, se informar por escrito, não garanto nem posso controlar o dígito…
Estabelecido o acordo, pergunta-se:
De quem suspeitava o Inspector e porquê?


SOLUÇÃO DE INSPECTOR BOAVIDA

O Inspector Gustavo (G.B. – o homem da “Judite”) nem queria acreditar. Um investigador com o seu currículo, agraciado com as mais altas distinções por relevantes serviços prestados na nobre causa do combate ao crime e ao banditismo, habitualmente destacado apenas para a coordenação de Processos complexos e de elevado grau de dificuldade, via-se agora confrontado com um Caso que qualquer jovem estagiário resolveria a contento.
G.B. nunca contestou as determinações dos seus superiores e não seria desta vez que o faria. Segundo o “chefe”, aquele Caso teria que ser investigado com a maior cautela e o máximo sigilo, de forma a evitar escândalos públicos. Estava em causa o desaparecimento de oito Pinturas sobre Tela que Damião de Castro, um dos directores do Museu de Arte (não podemos dizer qual é porque o caso está sob sigilo…), havia comprado recentemente e guardara em segredo no seu escritório, ao qual só tinham acesso os restantes três membros da direcção do Museu.
Era dia de reunião da direcção do Museu. O inspector G.B. fora apresentado por Damião de Castro como seu amigo e um grande conhecedor de Arte, pelo que lhe foi permitido assistir aos trabalhos. Aberta a reunião, o director lesado atacou: “Lamento informar que houve um roubo de algumas peças de arte que guardava no meu escritório. Gastei tempo e dinheiro para iniciar uma colecção particular…”. Como é óbvio, as reacções não se fizeram esperar.
Dora Ataíde, indignada, interrompeu o colega para o recriminar por se ter envolvido em negócios particulares… com arte, o que podia ser considerado eticamente reprovável e até mesmo incompatível com o cargo que exerce no Museu; Arnaldo Seco defendeu-se de quaisquer suspeitas que sobre ele recaíssem como autor do roubo das peças de arte, dizendo que há três semanas que não punha os pés no Museu; e David Neves empertigou-se para dizer que a ocorrência não se teria registado se o colega “tivesse reunido as Telas de Paisagens para o Museu”, em vez de as guardar para si.
“Alto! Chega de conversa! Está descoberto o larápio!” – concluiu G.B., que se manteve calmo e calado, enquanto prosseguia com o seu raciocínio: “se o David Neves não fosse o autor do roubo, como saberia ele que as peças de arte roubadas eram Telas de Paisagens?!... O colega lesado não especificou que obras de arte tinham desaparecido do seu escritório”. Acto contínuo, G.B. identificou-se como Inspector da Polícia Judiciária e disse saber já quem tinha “desviado” as Telas…
Alguns momentos depois, como que por magia, as Telas voltaram para o Museu e G.B. saiu de lá com dois cheques de 500 euros emitidos à ordem da Liga Portuguesa contra o Cancro, um assinado por David Neves e outro por Damião de Castro. O primeiro “pagava” o delito; e o segundo os serviços da “Lei”!...


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TORNEIO DA PRIMAVERA / PROVA Nº.4

“O CASO DA MAFALDA”, original de Zé da Vila

O permanente bom humor de Gustavo vacilou diante do amontoado de trabalho sobre a secretária. Detestava, pura e simplesmente, o factor burocrático inerente à profissão. Suspirou. Reconhecia que, mais cedo ou mais tarde, teria de mergulhar no monte de papéis. Adiava, porém…
Arrancou, de entre os relatórios de rotina, memorandos e documentos internos, o processo, iniciado na manhã anterior, da morte de Mafalda Rosa. Fixou-se na leitura. A mente treinada absorvia os factos registados, resumindo-os ao essencial.
Cerca das 12 horas do dia anterior, na margem do lado X, usualmente bastante frequentado mas naquela manhã semi-deserto face aos indícios de chuva forte, um casal de idosos, que encerrava a habitual incursão de cinco quilómetros diários, com chuva ou sem ela, deparou com o cadáver de uma jovem mulher. De imediato, porque o telemóvel é outro hábito, telefonou à polícia. Da Polícia… à Judiciária, cujos técnicos recolheram fotos, indícios e poucos vestígios (a chuva caíra forte, após o crime) para análise, depoimentos para confirmar. A vítima fora estrangulada com um cordão incaracterístico. Estava caída de lado, de óculos escuros e um lenço, apertado na cabeça, ocultando os cabelos louros. A carteira, caída perto, continha duas notas de cem euros e uma de vinte, alguns trocos e a carta de condução, que a identificava como uma conhecida modelo. O casal que a encontrou estava, positivamente, fora de suspeita e não se encontrara, até então, outras pessoas que tivessem contactado com o corpo. Aguardava-se, porém, a comparência de Pedro Castro, um abastado jovem, canoísta amador, que remava, frequentemente, nas águas do lago.
O inspector G.B. recuperara o bom-humor e a vivacidade, perante o desafio de um novo caso.
Chegou o canoísta, acompanhado de um homem da Judiciária. Trazia um jornal onde se publicava a notícia do crime, ilustrada com uma fotografia da modelo, que colocou sobre a secretária de Gustavo, adiantando-se, ansiosamente, antes que algo lhe fosse perguntado: – Reconhecia-a, logo que a vi passar na margem, com um homem alto e bem vestido. Pareceu-me que discutiam. Não me aproximei muito. Fiquei a 200 metros; aliás, não tinha nada com o assunto! Apesar de bonita, não era o “meu género”… Afastei-me!
– Alguma vez tinha estado ou falado com a Mafalda, interrogou G.B.?
– Não. Nunca tive esse prazer, respondeu o inquirido. A minha ocupação favorita é a canoagem.
– Então, lamento. Vai deixar de remar por uns tempos. Vou acusá-lo, por suspeita de crime…

Em que se baseava G.B. para suspeitar de Castro?



SOLUÇÃO DO INSPECTOR BOAVIDA

O inspector G.B. vive afogado em pilhas e pilhas de papéis, processos, relatórios, memorandos e ofícios, montes de papelada sem qualquer interesse, que inundam a sua secretária de trabalho e em breve serão “despachados” para um dos cantos do arquivo morto... depois de uma selecção criteriosa dos documentos, claro. E é exactamente isso que o chateia “piamente”. Decididamente, ele não suporta o trabalho burocrático! O que G.B. adora realmente é “surfar” nas ondas do crime, mergulhar nas águas da investigação e nadar até atingir às margens da justiça, sem se deixar perder nas complexas malhas em que se enredam os criminosos para escaparem às amarras da cadeia. Na verdade, todos os processos que ele investigue acabam sempre por atingir bom porto! Não há “tubarão” ou “peixe miúdo” com culpas na “pele” que não caia na sua rede ou lhe leve o isco sem ficar preso no anzol da “judite”.
Um dos documentos amontoados na sua secretária relata o crime ocorrido na véspera, numa das margens de um lago por onde habitualmente passeiam descontraidamente muitas pessoas. Naquela manhã, porém, os “passeantes” do costume tiveram medo da chuva e decidiram optar por paragens menos “húmidas”. Apenas um casal de idosos “desafiou” as previsões meteorológicas... Eles e a vítima: uma jovem mulher, modelo de profissão.
Foi o casal de idosos que encontrou o cadáver da jovem e avisou a polícia. Os velhotes estavam isentos de quaisquer suspeitas e não foram encontradas outras pessoas que tivessem contactado com o corpo. G.B. aguardava, porém, a comparência no seu gabinete de um jovem canoísta que costuma remar frequentemente pelas águas daquele lago. Chama-se Pedro Castro e é um rapaz abastado que dedica grande parte do seu tempo à canoagem.
Quando o jovem chegou trazia consigo um dos jornais do dia onde se publicava a notícia do crime, ilustrada com uma foto da modelo, e foi logo adiantando, sem que ninguém lhe perguntasse nada nem lhe tivessem dito para que fora chamado: “Reconhecia-a, logo que a vi passar na margem, com um homem alto e bem vestido: pareceu-me que discutiam. Não me aproximei muito. Fiquei a 200 metros. Aliás, não tinha nada com o assunto! Apesar de bonita, não era o meu “género… Afastei-me!”
G.B. quis saber se Pedro já tinha estado ou falado alguma vez com a jovem modelo, ao que este respondeu que não. Depois deitou mais uma “olhadela” ao Relatório e concluiu, com um sorriso: como é que o “maroto” do Pedro conseguia identificar uma rapariga, que ele nunca tinha visto de perto, se ela foi encontrada de óculos escuros e com um lenço que lhe ocultava os seus cabelos louros, estando ele, ainda por cima, a uma distância considerável?... A duzentos metros de distância só seria possível cometer tal proeza se ele fosse dotado de hiper-visão com raios X!...
Não há dúvidas. Foi o “menino” Pedro quem matou a jovem modelo. O móbil do crime não foi com certeza o roubo, já que junto ao corpo da vítima foram encontradas duas notas de cem euros e uma de vinte, para além de mais alguns trocos. Até porque o “moço das canoas” era abastado, não precisava de dinheiro! O caso parece configurar um crime passional, precedido de discussão violenta, ocorrido da maneira que ele próprio descreveu no seu depoimento… como sendo “coisa vivida por outrem”!
Agora, e durante uns bons pares de anos, o destino do rapaz das canoas, vai ser à sombra, por detrás das grades de uma prisão… sem lagos nem barcos a remos!!!



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TORNEIO DA PRIMAVERA / PROVA Nº.5

“O RAPTO DO ALDINHO”, original de Zé da Vila


Salvo o assassínio de um polícia, nenhum crime, do roubo ao desfalque, suborno, corrupção, falsificação, extorsão, sonegação, violência física, delitos sexuais (incluindo a violação), excepto de menores, etc., causa tanta repulsa no seio do Departamento como o rapto ou sequestro de menores. O rapto do Reinaldo explodiu como uma bomba! Esqueceram-se os problemas próprios, investigações, inquirições, exames laboratoriais em curso, processos amarelecidos, prestes à prescrição, pela prioridade do rapto.
Gustavo ofereceu-se (talvez exorbitantemente, porque é pai, demais outros o são) para a investigação. G.B. conhecia vagamente os Martinho, gente endinheirada, pais da criança, muito desejada e um tanto tardia. Não foi preciso procurar o endereço. Uma fita colocada pela P.S.P., vedava o acesso a curiosos e jornalistas, incluindo a televisão. G.B. bateu levemente na porta. Recebeu-o uma interessante jovem, a preceptora, em pranto e visível angústia. Afirmou que os senhores tinham viajado de iate com amigos, deixando o Aldinho – era a única a chamar a criança desta forma, desde que ela tomara conta como uma mãe, ainda no berço, agora já com três aninhos – à sua guarda. Confiavam tanto nela! Que desgraça! Levara-o para a sala e deixara-o entregue aos seus brinquedos, descendo à cozinha para fazer um lanche. Depois, pareceu-lhe ouvir passos pesados lá em cima. Correu a tempo de ver um homem, com a criança nos braços, saltar pela janela aberta e descer pelo escadote ali encostado, para o solo a dois metros deste, correr para o carro perto e fugir com a criança.
G.B. acenou, pensativo. Observou a sala, com os cobertores da cama revoltos, os brinquedos arrumados, um tubo de talco, desfeito, espalhando o pó onde se via uma pegada larga de homem, que ia até à janela; no quadro perto do sítio onde teria estado a criança, a giz, que não se encontrou, estavam escritas as palavras, em letras de imprensa, maiúsculas, ameaçadoras: LEVO O ALDINHO. PREPAREM 50.000€, SENÃO…
Desceu. Trocou impressões com os colegas. Chegou, entretanto, o administrador da casa, que encorajou a rapariga: “Tudo se arranja, minha querida Leonor, vou levantar o dinheiro e temos o miúdo de volta!”
G.B. deu de ombros e encaminhou-se para o escadote: no solo arenoso umas leves pegadas, bocados de vidro da janela partida e a pedra enrolada num pedaço de pano; não encontrou vestígios do talco na escada. Voltou já com uma ideia formada, quando o jardineiro, que vivia nas traseiras, esclareceu:
“Fui eu que meti aí a escada, a pedido da menina Lurdes, para limparem a janela…”
– Obrigado, amigo! Acabou de esclarecer o resto que faltava. Sei quem é o autor do rapto!

Pergunta-se: Quem foi o autor do rapto, e em que se fundamentou G. B. para a sua afirmação?


SOLUÇÃO DO INSPECTOR BOAVIDA

O inspector G.B. ficou verde. Se há crimes que o incomodam, que o deixam fora de si, não são os de extorsão, de corrupção ou, até mesmo, de homicídio; os delitos que não tolera mesmo, com os quais não consegue conviver sem que uma ponta de raiva lhe enegressa a alma, são aqueles que envolvem crianças. Foi por isso que ninguém estranhou que ele fizesse questão em se ocupar pessoalmente do caso do rapto de Reinaldo, filho dos Martinho, um casal endinheirado que G.B. conhece vagamente.
A preceptora do catraio estava branca. Parecia muito preocupada e rebentou em prantos, assim que viu o Inspector: “Raptaram o Aldinho!” Ela era a única pessoa que tratava assim a criança – lembrou-se o homem da “Judite”, que tivera certa vez uma breve conversa de circunstância com o pai Martinho em que este lhe confidenciara que aquele tratamento o deixava roxo de vergonha. Ele sempre fora avesso a diminutivos e… “ainda para mais, Aldinho Martinho não me parece coisa que soe lá muito bem!...” – dissera-lhe o patriarca da família.
A mãe Martinho andava rosada. De felicidade. Já não é nenhuma jovem e Deus concedera-lhe a bênção de um filho, há cerca de três anos. Custara deixá-lo, mas partira tranquila para um passeio de iate com um grupo de amigos, porque tinha absoluta confiança na preceptora, que, agora, chorava baba e ranho nos ombros de G.B. enquanto balbuciava: “Desci à cozinha… deixei o Aldinho… entretido com os seus brinquedos… pareceu-me ouvir passos … e quando voltei… ainda vi um homem sair pela janela… por um escadote… e fugir de carro… levando com ele o meu Aldinho…”.
G.B. ia ficando castanho. De raiva. Os brinquedos do miúdo estavam arrumados, o que significa que a preceptora mentia ao dizer que havia deixado a criança às voltas com os seus brinquedos!...; no chão da sala estava escrito a giz: LEVO O ALDINHO, PREPAREM 50.000 €, SENÃO…, e a verdade é que ninguém tratava o miúdo pelo seu diminutivo a não ser a própria preceptora!...; um tubo de talco, esmagado, tinha deixado o pó espalhado pelo chão onde se via uma pegada de homem!...
O homem que administra a casa dos Martinho estava amarelo. Chegou e apressou-se a consolar a preceptora: “… minha querida Leonor, vou levantar o dinheiro e temos o miúdo de volta!”. As meninges cinzentas de G.B. revoltaram-se contra tamanha desfaçatez: “Como é que o administrador sabia da frase inscrita no chão?!... E como é que ele sabia onde, e com quem, se fazia a troca do petiz pelo dinheiro?!... Por outro lado, em que Banco é que ele levantaria o “pilim” àquela hora (os lanches são por volta quatro/cinco da tarde…)?!... E a que se deve aquela manifestação de carinho?!... Será que os dois são apenas amigos, namorados, ou… cúmplices também?!...”.
O jardineiro que vive nas traseiras estava azul. Fora ele que pusera o escadote junto à janela da sala de brincadeiras do filhote dos Martinho e, naturalmente, temeu ser acusado de conivência não rapto. Mas não, ele apenas acedera a um pedido da “menina Lurdes” (será esta a “graça” da senhora das limpezas ou o “jardineiro Zé da Vila” trocou o nome de Leonor por distracção?...), que dissera necessitar daquele acessório para lavar as vidraças. Porém, ninguém queria limpar a janela… mas sim a conta bancária do casal Martinho.
G.B. irradiava luzes brilhantes cor de prata. Agora tudo estava claro para ele. Observou os pedaços de vidro e uma pedra enrolada num pano, no solo, junto ao escadote, o que revelava que a janela fora partida pelo interior da sala. E ali ao pé, no chão arenoso, notou pegadas de homem, mas no escadote não vislumbrou sinais de talco, de onde concluiu que o meliante que pisou o pó espalhado na sala saiu de casa pela porta da rua. Não há dúvidas: a menina Leonor não viu nenhum homem a descer pelo escadote. Ela e o administrador-raptor estão feitos um com o outro!!!!
Na sede da “Judite” toda a gente rejubilou de alegria por mais um caso bem sucedido, numa pequena e improvisada festa que meteu champanhe, confettis e serpentinas de todas as cores. Entre abraços e vivas, não faltaram rasgados elogios à competência do Inspector G.B., que não conseguiu evitar que um leve rubor subisse às faces do seu rosto até se transformar na sua cor preferida: Vermelho. Vermelho Benfica. Vermelho Ferrari. Vermelho: a cor mais bela do Arco-Íris da Justiça!!!



Mundo dos Passatempos
Apartado 593
2000-SANTARÉM

TORNEIO DA PRIMAVERA / PROVA Nº. 6

“UM ENIGMA PARA GUSTAVO”, original de Zé da Vila

Apesar da força interior para aparentar jovialidade, Gustavo não podia disfarçar o cansaço. Ele próprio duvidava podê-lo esconder por muito tempo. Se o "Rapto do Aldinho" fora fácil de mais, já "O Punhal Maldito Que Veio do Passado", "A Morte do Escritor" e outros mais, consumiram-lhe boa parte dos neurónios. Dias e noites de intensas buscas… Assim, G.B. nem protestou à ordem que "veio de cima" para oito dias de férias… já! Férias repartidas – comentou, num sorriso meio chistoso, para o colega de equipa – ainda se fossem férias repetidas!!!
De qualquer modo, partiu para S. Pedro de Moel, habitual refúgio revigorante, entre o cheiro doce dos pinheiros e o ar salgado da imensidão do mar. A "bomba 159" entrou em descanso, trocada por amigos certos, dispostos à cavaqueira, longos passeios, a pesca que compartilhava, a sós, com o mar… um entendimento entre a agitação da água e os seus eternos pensamentos… quiçá, tão só, sonhos jamais revelados…
Levantou-se tarde. Espiou o mar, do alto da falésia. Após o almoço, conduziu o passeio de manutenção até ao "Bar dos Anjos", recanto paradisíaco roubado ao passado. Conversa, jogo de damas, dominó, sueca, bisca… Televisão só nas transmissões de futebol e nas (imperdíveis!) de Fórmula 1. Abraçou os quatro companheiros com quem se encontrava à noite, gozando as peripécias das longas partidas de bisca de quatro. O Jeremias e o Matos (que partilhavam parte do dia com a pesca), o Vinhas (que se dedicava a tempo inteiro a passear a simpática cadela) e o Pacheco (que tem um quintal murado e árvores de fruta bem tratadas, de que ele cuida com enlevo).
E foi a fruta, fundamentalmente as peras, que gerou um duelo entre os quatro referenciados. Pacheco gabava-se de que ninguém conseguia entrar no pomar devido ao temível cão que o guardava, apesar de o portão gradeado ficar no trinco. A bravata soou a desafio e gerou um total silêncio de desagrado. O facto é que, na noite seguinte, um dos parceiros faltou e foi Gustavo quem tomou o seu lugar. Soube-se, entretanto, que, através do portão, alguém lançara dois pedaços de carne ao cão, que os rejeitou. Até parecia mais feroz…
Tentativa A, pensou G.B., quando teve conhecimento do acto! Aliás, no decorrer do passeio digestivo, divisou Vinhas a rondar o pomar, ralhar com a cadela e atirar um pequeno seixo a um rafeiro que se aproximava. Nessa noite, um dos parceiros escalou a traseira do muro através de uma escada que passou para dentro. Ao descer, o cão apareceu e mal teve tempo de subir para o muro, de onde desceu sem escada, com prejuízo das pernas…
Na quinta-feira, Pacheco foi à Marinha Grande. Quando regressou e entrou no pomar, encontrou uma cesta de peras apanhadas, uma meia comida! O cão, deitado junto à casota, olhou o dono meio desconfiado, ergueu uma orelha interrogativa, mas indiferente…
Roubado, limpamente! Ou, antes, não havia ladrão… deixara lá as peras! Mas… como iludira o cão? Era a pergunta que tinha para a noite!
Um desafio para si, Inspector – eu só quero saber Quem e Como? Mais tarde, teve a resposta, óbvia.

Pergunta-se: Quem foi o "ladrão" e como conseguiu colher as peras, sem oposição do cão?


SOLUÇÃO DE INSPECTOR BOAVIDA

G.B. já andava de rastos. Depois de um ano de intensa actividade, desvendando os mais delicados casos, desde o homicídio cometido pelo tresloucado pintor que vivia num estranho prédio “infestado” de pedófilos até às famigeradas cruzes desenhadas a “tira linhas” pelo inefável professor Casimiro, sem esquecer o canto do tentilhão da Ericeira e outros problemas “bicudos”, como a morte do Playboy algarvio ou a amnésia do “homem trocado”, o inspector estava mesmo a precisar de férias. O “forreta” do chefe sabia isso muito bem, mas achou que oito dias de descanso chegavam!...
“Mais vale pouco do que nada” – pensou G.B., que acabou por aceitar como boa aquela semanita de férias. Na manhã seguinte, sábado pela fresquinha, “pegou” na família e lá zarpou ele no seu “bólide” para São Pedro de Moel. Praias tranquilas, longos areais cheios de sol e de ondas apetecíveis. Junto ao farol… a pesca! Os rochedos “mariscados” atraem diversas espécies de peixes, como o sargo, o robalo, o safio e a dourada… E nessa tarde foi “um ver se te avias”! A noite, essa, foi dedicada por inteiro à família… e às 10 o Inspector já estava no “berço”!
No domingo, G.B. dormiu até tarde. Por volta da uma “colou-se” ao televisor e não deu “troco” a ninguém. Quando o seu Michael Schumacher se bate no “asfalto” com o rival Alonso, ou o seu Benfica se trava de razões com lagartos ou dragões, ninguém tem direito a nada. O rectângulo do seu novo plasma é tudo o que existe para ele! Resultado: naquela noite o inspector não saiu de casa… – o Massa ganhou o Grande Prémio dessa tarde e o Alonso conseguiu somar mais um ponto na diferença que o separa de Schumacher, na classificação do Mundial de Pilotos!
Na segunda-feira, Gustavo saiu cedo da cama. Tomou um pequeno-almoço frugal e conseguiu coragem para um passeio pelas redondezas. Durante a caminhada encontrou os seus amigos Matos e Jeremias, que se preparavam para mais um dia de labuta na pesca; um pouco depois saudou o “agricultor” Pacheco, que já estava há horas no “amanho” do quintal; ao fim da manhã avistou o “castiço” Vinhas, arrastado pela sua simpática cadela que perseguia com afinco um rafeiro de boa “pinta”. A todos prometeu aparecer à noitinha no Bar dos Anjos para uma “cartada” e dois dedos de conversa.
O “bate-papo” teve como tema de fundo o quintal do Pacheco e as suas árvores de fruta, tão bem tratadas por ele e super-protegidas pelo seu cão. O bicho é tão temível que “ninguém consegue entrar no pomar, apesar do portão se encontrar sempre fechado apenas no trinco” – garantiu o Pacheco. Matos, Jeremias e Vinhas apostaram que haviam de pôr o cão à prova, deitando mãos a umas belas peras. A verdade é que, na noite seguinte, um deles (que faltou à “jogatana”) lançou para o quintal dois pedaços de carne, a fim de franquear o portão, e o que conseguiu foi irritar o feroz cachorro.
Na noite de quarta-feira, outro dos “amigalhaços” faltou também ao jogo das cartas. Soube-se depois que se aventurou a transpor os muros do quintal, com a ajuda de uma escada, tendo obtido como resultado uma “corrida em osso” à frente do cão e as pernas esfoladas na pressa de fugir. Porém, na manhã de quinta-feira, Pacheco teve de se deslocar à Marinha Grande e quando regressou ao pomar foi surpreendido com uma cesta de pedras apanhadas (uma meio comida), enquanto o seu feroz cão de guarda o olhava indiferente, e feliz da vida, junto à casota...
G.B. lembrou-se então que na manhã anterior tinha avistado nas imediações do quintal o Vinhas e a sua cadela, cada vez mais “assanhada” pelo cio, com o dono a apedrejar os rafeiros e cães de elevado pedigree que queriam à viva força “saltar-lhe para cima”… Eureka! – exclamou o inspector. Está resolvido o enigma do “roubo” das peras. Tudo se terá passado desta maneira: o Vinhas abriu o portão do quintal, levando à frente a sua simpática cadela, faminta de sexo, a cujos encantos o cão do Pacheco não resistiu; e enquanto o par amoroso ficava “entretido na deles”, o Vinhas foi às peras!...
Agora pergunta-se: daqui a uns meses, quem é que fica com a ninhada de cães, fruto daquela cena de sexo canino? Sugestão do Inspector Boavida: os dois primeiros classificados do Torneio da Primavera levarão para casa um cãozinho. Os restantes “bichanos” serão sorteados por entre todos os concorrentes… 
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