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Monday, October 15, 2007
  PÚBLICO-POLICIÁRIO
CAMPEONATO NACIONAL
Temporada 2006-2007
Inspector Boavida

Prova nº 8
“O Inspector Fidalgo e o Caso ‘Anaquicoínes’”, de Inspector Fidalgo


Anaquicoínes procurava a solução para um enigma que a atormentava. O mote fora dado pela queda que lhe aconteceu e a partir daí foi um corrupio de acontecimentos, cada um mais complicado do que o anterior. Verdadeiramente já só lhe faltava que a acusassem da prática de terrorismo e, mesmo assim, parecia não estar essa hipótese afastada de todo.
O caso explica-se por si. Uma moça terá caído de forma bastante aparatosa na carruagem de um comboio, batido com a cabeça e ficado amnésica. As pessoas que seguiam na composição, ao que contaram, correram para ela, mas só duas é que estavam despertas para contar o que se passou.
O Inspector Fidalgo tomou nota do que viu e ouviu, mas sem o brilho nos olhos que era habitual quando fazia uma investigação.
Disse um dos observadores: “O comboio vinha calmamente, de sul para norte, juntinho ao rio. A linha é magnífica. Se nos chegarmos à janela, a dois passos de nós temos o precipício e lá no fundo o rio serpenteando. A moça estava sentada ali, mesmo junto à janela e olhava para o precipício. Tentei meter conversa com ela, mas deu-me com os pés. De repente levantou-se, foi até à frente da carruagem, belíssima, com a blusa branca e as calças muito justas, magnífica, fez uma espécie de dança, olhou fixamente para mim, deu dois passos em frente e disparou à queima-roupa sobre o desgraçado do tipo que estava ali sentado, junto à janela, precisamente no momento em que cruzámos com o comboio que seguia em sentido contrário. A bala estilhaçou completamente o vidro, que se espalhou pela carruagem e deve ter-se cravado na outra composição. A seguir, voltou para o seu lugar, tentou abrir a janela, mas desequilibrou-se no momento em que o comboio rodou à esquerda, rumo à ponte, bateu com a arma no vidro, que também se estilhaçou e espalhou completamente e depois voltou a oscilar quando a composição virou à direita, após a ponte, ao retomar a margem do rio. Só nessa altura ela conseguiu atirar a arma pela janela quebrada, mas acabou por cair com estrondo e ficou estendida, com a cara contra o chão. Fiquei completamente petrificado e não tive reacção…”
Disse o outro: “Eu estava no lugar atrás da moça. Vi-a levantar-se e fiquei a apreciar aquelas curvas maravilhosas, de quem tem tudo no sítio devido. Ela foi até lá à frente, olhou para o fundo da ravina, para o rio, voltou-se, a dançar, deslocou-se um bocado para aquele lado e disparou um tiro no passageiro que lá estava sentado, penso que a dormir. Depois veio na minha direcção, entrou no seu lugar, bateu na janela com a arma, o que fez com que milhares de pedaços de vidro se espalhassem e quando o comboio endireitou a sua marcha, depois da ponte, atirou a arma pela janela e caiu redonda. Fiquei um bocado à espera para ver se se levantava e depois fui ver, mas estava desmaiada. Alguém accionou o alarme e o comboio parou.”
Os outros dois passageiros dormiam e só foram acordados pelo barulho, atirando-se ao chão quando os outros dois lhes gritaram para o fazerem… Um deles, já idoso, quase ia tendo um ataque e não dizia coisa com coisa. O quarto não se lembrava bem do que se passou depois do sobressaltado acordar, não soube dizer se a moça estava em pé ou deitada, nada. Só se lembrava do que os outros dois lhe contaram, enquanto aguardavam pela polícia, e da imagem que lhe ficou de espreitar e ver os outros dois passageiros debruçados sobre a jovem a sacudir os estilhaços de vidro de cima dela. Mesmo naquele momento, ainda ficava em grande desconforto só por pensar o que teria levado uma moça tão querida a um acto daqueles.
A rapariga acabou por ser reanimada pelo revisor e pelos passageiros. Estava descalça e os sapatos alinhados debaixo do banco, não escaparam a alguns estilhaços de vidro. Ao levantá-la, descobriram por baixo um livro policial, “O Crime do Expresso do Oriente”, aberto na página 121. Não foram encontrados documentos, bagagens, carteira, nada que fosse dela.
Um enigma a que o Inspector Fidalgo deu um nome: Anaquicoínes!
No fim de tudo, a investigação deu resultados curiosos.
Apareceram uns tipos da secreta e levaram a vítima, um espião perigoso, que devia transportar com ele uns tantos segredos de Estado – falava-se dos planos de localização do futuro aeroporto de Lisboa! –, mas que não foram encontrados em lado nenhum.
A arma foi recolhida logo após a ponte, no sítio aproximado onde os dois passageiros disseram, e foi a responsável pela morte. Só tinha impressões digitais da moça e na coronha alguns cabelos e células que se verificaram ser dela, também.
O comboio que seguia em sentido contrário foi atingido pelo projéctil, mas não causou grandes estragos.
A vítima desapareceu. Perdeu o nome – que nunca se veio a saber, de resto! –, diluiu-se algures nas brumas do esquecimento.
Os dois estremunhados passageiros que acordaram à má fila são agora guias turísticos, percorrem as linhas do “Expresso do Ocidente” a contar as suas aventuras e o crime que quase presenciaram.
Os dois passageiros que viram tudo parece que descobriram a vocação e são agora agentes secretos, tão secretos, que não se conseguiu saber os seus nomes. Deixaram de andar de comboio e percorrem as estradas de Portugal atrás de espiões que andam à cata dos planos do Poceirão.
A moça, já quase recuperada, continua no entanto de médico em médico, de relatório em relatório, sem recuperar a memória dessas horas fatídicas e continua sem saber o nome, morada ou número do contribuinte, se é terrorista, vingadora ou outra coisa qualquer. A amolgadela no cocuruto degenerou para um galo de grandes proporções, que entretanto foi emagrecendo. Em todos os documentos da investigação, lá está: Anaquicoínes!
O Ministério Público parece não ter grandes dúvidas e aguarda os centésimos relatórios médicos para saber o que deve fazer.
Finalmente, o Inspector Fidalgo acabou mais um caso. Ficou sem perceber quem era a moça, chegou a suspeitar que era a Nelinha e que algum dos presentes fosse seu padrinho, mas outras investigações demonstraram essa impossibilidade.
– Fidalgo, já não és o que eras! – pensava enquanto ia, cansado, a caminho de Marinhais, de regresso ao lar…

Solução de Inspector Boavida

Tipo de Ocorrência
: Homicídio com uma arma de fogo, que foi depois arremessada para longe do local do crime, através de uma janela de vidro estilhaçado em mil pedacinhos.
Vítima: Homem Sem Nome, supostamente ao serviço de um Comendador nascido na maravilhosa Ilha do Rei Alberto João e conhecido sobretudo como especulador financeiro bem sucedido, que iniciou a sua imensa fortuna a garimpar restos de ouro numa mina da África do Sul, ao mesmo tempo que vendia hortaliça aos demais garimpeiros, e que actualmente determina o futuro das maiores empresas nacionais, preparando-se neste momento para arrecadar milhões de mais valias na compra do glorioso S.L.B. e para construir a custo zero o futuro Aeroporto de Lisboa entre Santa Apolónia e Grândola (uma das “famosas” linhas do Ocidente…), depois de ter “arrematado” o Centro de Exposições do C.C.B. em troca da cedência temporária da sua valiosa colecção de arte contemporânea…
Data e Hora da Ocorrência: Dia desconhecido, num passado próximo (já se discutia a localização do futuro Aeroporto Internacional de Lisboa…), numa qualquer semana de um mês indeterminado, em hora incerta mas diurna (via-se a belíssima paisagem: o precipício e o rio ao fundo…).
Local da Ocorrência: Carruagem do Expresso do Ocidente, uma linha ferroviária inventada/imaginada pela empresa Bode Espiatório, que promove a realização, num Comboio dos anos quarenta, de uma adaptação/recriação (livre e ao sabor do improviso…) da história protagonizada por Hercule Poirot no célebre romance de Agatha Christie “Um Crime no Expresso do Oriente”, interpretada por “público” e actores.
Suspeita do Crime: Anaquicoínes (nome que junta, curiosamente, três personagens de uma série juvenil da Tevê Pimba nacional: Ana, Quico, Ines, de “Morangos com Açúcar” – e que poderá significar “a mulher que levou uma pancada no cocuruto da cabeça”, ou… ou… ou…), uma jovem esbelta e insinuante, apreciadora de literatura policial, que é “abatida” à coronhada e depois “banhada” com pedaços de vidro para que o crime se cumpra e sirva de… bode “espiatório” (assim mesmo, mal grafado, como a designação da tal empresa de eventos acima citada).
Autores do Crime: São quatro (serão só dois?...) os cúmplices. Dois fingiam dormitar e os outros dois estavam de pestanas abertas. Só um (?) deles disparou. Qual? Mas que importância tudo isso tem, ó deuses?!... O que interessa é que (supostamente) os planos do Aeroporto Joe Berardo estão a salvo, em boas mãos!!!

Era Uma Vez…Um Crime no Expresso do Ocidente

A defesa dos superiores interesses do Estado (que muitas vezes se confundem com os privilégios de poderosos e influentes grupos económicos, financeiros, religiosos, corporativos, etc….) tudo justifica. Na verdade, que importância tem a vida de um homem ou o bom nome de uma cidadã face ao valor da segurança dos segredos da Pátria?!... Ele foi abatido a tiro e despojado de importantes documentos secretos; ela foi agredida e acusada de um crime que não cometeu. Tudo “A bem da Nação”, é claro!...
Ela perdeu a liberdade, a identidade e a memória. A sua vida passada sucumbiu a uma coronhada desferida no alto da cabeça, quando lia uma das mais famosas obras de Agatha Christie (uma “edição rasca” com o título mal grafado…), sentada, de pés descalços, no lugar que lhe havia sido destinado no comboio onde o homem foi assassinado. Os restantes passageiros que viajavam na mesma composição defendem outra versão dos acontecimentos, assegurando que foi ela a autora do homicídio.
Segundo um deles, ela ter-se-á levantado do seu lugar e caminhado até à frente da carruagem. Depois voltou-se, ensaiou um passo de dança, deu dois passos em frente e disparou à queima-roupa sobre a vítima. Aquela jovem mulher vestia uma blusa branca e umas calças muito justas. Não tinha com ela uma simples carteira ou qualquer bagagem (aliás, nada foi depois encontrado de sua pertença, a não ser o livro policial e os sapatos…). Perguntar-se-á: onde levava ela a arma? Na mão, à vista de todos?!...
A fazer fé neste testemunho, que sustenta ter a jovem e insinuante mulher disparado à queima-roupa sobre a vítima, as peças de roupa que aquela envergava, assim como partes do seu corpo (as mãos, pelo menos…), teriam naturalmente que apresentar marcas denunciadoras desse facto. Assim, perguntar-se-á: foram detectados, nas mãos e no vestuário da suposta assassina, vestígios de pólvora do disparo e sinais de sangue salpicado do corpo do homem assassinado?!...
Diz a testemunha que o passageiro alvejado estava sentado no momento do disparo e que a bala estilhaçou o vidro da janela, que se espalhou pelo chão. Perguntar-se-á: se a jovem estava de pé e o tiro foi disparado no sentido descendente, como é que a janela podia ter sido atingida?!... Mais. A testemunha afirma que, depois do tiro, a suposta assassina caminhou calmamente para o seu lugar. Perguntar-se-á: como é que alguém caminha descalço sobre pedaços de vidro sem se cortar neles?!...
Na altura do tiro passava um comboio que seguia em sentido contrário, admitindo a testemunha como provável que a bala tenha atingido uma das suas carruagens (o que se confirmaria mais tarde). Perguntar-se-á: como é que uma bala disparada à queima-roupa trespassa fatalmente um homem, ainda tem força suficiente para estilhaçar um vidro temperado (resistente às mais fortes pancadas) e consegue deixar a sua marca num comboio (metal, fibra de aço…)?!...
De acordo com o relato da testemunha, quando a suposta assassina estava de volta ao seu lugar o comboio rumou à esquerda, fazendo-a desequilibrar-se para o mesmo lado e bater involuntariamente com a arma na janela, cujo vidro se estilhaçou, espalhando-se pela carruagem. Perguntar-se-á: se ela estava de pé, junto ao seu lugar, como é que foi “arrastada” para o lado esquerdo da composição, contra a janela, contrariando as leis da física (força centrípeta)?!...
De seguida, e segundo a testemunha, o comboio guinou à direita e a jovem foi bruscamente “atirada” contra aquele mesmo lado da carruagem, o que me remete para a pergunta do parágrafo anterior. Mas perguntar-se-á ainda: se o comboio circulava calmamente, como afirmou a testemunha, e se os sapatos da jovem permaneceram alinhados sob o seu assento, como é possível acreditar em todos aqueles movimentos bruscos do comboio?!...
Segundo o depoimento desta testemunha, a jovem terá conseguido atirar a arma do crime pela janela fora e de repente terá dado uma queda, caindo com estrondo, de cara no chão. Perguntar-se-á: se ela caiu de cara no chão, como é que tem uma amolgadela no cocuruto da cabeça?! Perguntar-se-á também: Se ela caiu de cara no chão, que estava completamente coberto de vidros, o seu rosto não teria ficado em muito mau estado?!...
O segundo passageiro a prestar declarações confirmou no essencial o que foi dito pelo primeiro. Diz ele que, algum tempo depois da queda da moça, alguém accionou o alarme do comboio e este parou. Perguntar-se-á: se o primeiro não disse ter praticado tal acção e os restantes passageiros alegam que vinham a dormir, quem fez então parar a composição? E por que razão é que o alarme só seria accionado bastante tempo depois do disparo?!...
As testemunhas querem convencer-me que quem accionou o alarme não “deu” pelo tiro mas conseguiu ouvir o corpo da jovem a cair no chão, o que é curioso. Como curioso é o facto de um dos passageiros “dorminhocos” ter visto um dos “acordados da silva” a sacudir vidros de cima do corpo da moça. Perguntar-se-á: se ela caiu no chão depois dos vidros das janelas se terem espalhado pelo chão, não seria óbvio que os pedaços de vidro se encontrassem por debaixo do corpo e não por cima?!...
Os passageiros que alegadamente vinham a dormir sustentam que foram acordados com o barulho e que obedeceram às ordens dos que estavam acordados, quando estes gritaram para se atirarem ao chão. Perguntar-se-á: se o chão da carruagem estava coberto de vidros, como é que os dorminhocos não se cortaram todos?! Mais: sendo a paisagem tão maravilhosa, e sendo de dia, não seria natural que estes dois passageiros estivessem acordados, para apreciar “as vistas”?!
Recorde-se que nem os sapatos da moça, que permaneciam alinhados por debaixo do seu assento, escaparam aos estilhaços de vidro. O mesmo não acontecendo, claro está, com o livro policial que foi encontrado por debaixo dela. Perguntar-se-á, neste caso: se o livro estava por debaixo do corpo, ao que se supõe sem vestígios de vidros, tal facto não indiciará que a jovem estava calma e tranquilamente a ler (descalça…) quando caiu no chão da carruagem?!...
Mas… e os vidros estilhaçados? Mesmo que se tratem de vidros que não respeitem as normas de segurança em vigor, ao serem partidos pelo interior de um comboio em andamento, não se espalhariam pelo chão da carruagem. Perguntar-se-á: será que o sentido do embate nos vidros e o efeito de sucção provocado pelo ar exterior, não evitaria que a esmagadora maioria dos estilhaços ficassem no interior da composição?!...
E o livro? O inspector Fidalgo, que dirigiu as investigações, diz tratar-se de um romance policial com o título “O Crime do Expresso do Oriente”. Ora, não existe um livro policial com este nome. A obra mundialmente conhecida, da autoria de Agatha Christie, chama-se exactamente “Um Crime no Expresso do Oriente. Perguntar-se-á: será que o inspector não me está a remeter para a um caso análogo ao daquele romance, ou seja, um “homicídio colectivo”, ao dizer “O crime do…”?!...
Para reforçar a ideia de que se está perante um “crime colectivo”, basta que nos recordemos do romance da “Dama do Crime”. No livro, tal como neste caso, também se colocam duas soluções para a resolução do homicídio – uma politicamente correcta (em que ninguém é culpado - por opção do Estado) e a outra em que são todos culpados, menos quem parece ser: Perguntar-se-á: não fará sentido que os quatro passageiros sejam cúmplices e a rapariga a intrusa, tal como no livro foi o Poirot?!...
De facto, tudo indica que todos os passageiros, à excepção da jovem, estão envolvidos no crime. A moça apenas estava no lugar errado à hora menos certa, e o passageiro que viajava atrás dela “brindou-a” com uma valente coronhada na cabeça, com o intuito de a pôr a dormir… acabando por lhe varrer a memória por completo. Perguntar-se-á: se assim não fosse, como se explicaria a existência de cabelos e de células da cabeça da jovem na coronha da arma do crime?!...
Aquele passageiro, ou um outro, pegou na mesma arma e aproximou-se do homem (o tal que levava consigo importantes documentos do futuro Aeroporto de Lisboa). O homem, um perigoso espião a soldo de inimigos da Mãe Pátria, sentiu o perigo e soergueu-se. Uma bala calou-o para sempre. Perguntar-se-á, no entanto: se admitirmos que a vítima estava de pé, parece-nos crível que a bala que o matou tenha atingido o vidro da janela, mas será que tinha força para o trespassar?!...
Poderá, no entanto, ter havido dois tiros: um que atingiu o espião e outro disparado contra o vidro, cuja bala foi embater na carruagem do comboio que passava na altura. O passageiro do(s) disparo(s), que estava de luvas calçadas, foi então junto da jovem e colocou a arma na sua mão. Acto contínuo, partiu o vidro da janela do lugar dela e atirou a arma borda fora. Perguntar-se-á: será que isto não é suficiente para explicar a existência das impressões digitais da jovem na arma do crime?!...
Terá sido aí que o alarme do comboio foi accionado. Talvez pelo revisor, que, apesar do barulho do comboio que circulava em sentido contrário, ouviu o ruído do(s) disparo(s) e o barulho dos vidros. A moça já estava há algum tempo caída no chão, quando o revisor apareceu e foi em seu auxílio. Perguntar-se-á: será que o revisor ignorava a existência do homem morto, socorrendo apenas a jovem porque pensou que tinha sido ela o alvo do(s) tiro(s), o que o iliba de cumplicidade no crime?!...
Enquanto o revisor e os dois passageiros “acordados da silva” tentavam reanimar a moça, os dois “dorminhocos” ajudaram a fazer desaparecer os documentos secretos e demais “pertences” do homem e da jovem (excepto o livro e os sapatos!...). Tudo estava planeado ao pormenor (as secretas são assim…). Aquele era o momento de alguém, que se encontrava noutra carruagem, entrar ali, pegar nos despojos e pôr-se ao fresco!... Perguntar-se-á: se o comboio estava parado, não era difícil dar o fora, pois não?!...
E por que razão levaram eles a bagagem, a carteira, os documentos de identificação da jovem?... Evidentemente que não imaginariam que a moça iria ficar amnésica, mas terão pensado, ao vê-la caída no chão, que ela também teria sido atingida (terão ouvido dois tiros?) mortalmente. Nestas coisas da espionagem e das polícias secretas, convém que os mortos não tenham nome!!! Perguntar-se-á: se ela tivesse morrido de facto, não seria mais fácil culpá-la como “executora” do homem?!...

O homem foi levado um pouco mais tarde por um grupo de auto-proclamados agentes da polícia secreta, que andavam à cata dos planos de um futuro aeroporto de Lisboa. Nada foi encontrado, porque aqueles documentos já tinham sido arrebatados algum tempo antes. Perguntar-se-á: será que estamos perante dois grupos rivais com interesses no Poceirão, na Ota, em Alcochete… ou no eixo Alcácer do Sal-Grândola (a minha alma surrealista diz-me que um deles é liderado pelo perigoso “pistoleiro-comendador” que dá pelo nome de Joe… de apelido Berardo)?!...
Entretanto, já o Inspector Fidalgo tinha tomado conta das investigações, dando o nome de Anaquicoínes à jovem “amnésica” e ao Caso. Perguntar-se-á: será que ele chamou Ana à moça, porque é ANA o nome da empresa que gere os aeroportos no nosso país?; será que lhe acrescentou Quicoínes porque o Quico se põe na cabeça e Coínes são moedas (sinónino: coroas), de forma a que se possa ler “coroa da cabeça”?; assim, teríamos “a mulher (Ana) atingida no cocuruto da cabeça”!?...
Não é claro que o Inspector já soubesse que a jovem tinha levado uma pancada na cabeça quando lhe deu o nome de Anaquicoínes. Nesse caso, posso também admitir que o “baptismo” deriva de mais uma associação à famosa obra de Agatha Christie. Perguntar-se-á: será que ele pensou que a jovem era suspeita de cúmplice do espião, como o Mc Queen era suspeito de cúmplice da vítima no romance policial, e, assim, designou-a de ANAquiCOÍNES (Quenn’s, lido em português)?!..
Mas a jovem, coitada, não devia ter nada a ver com aquele “filme”. Estava posta em sossego, a ler, sentadinha num lugar à esquerda da carruagem de um comboio que seguia no sentido Sul-Norte. A vítima viajava no lado direito, por onde circulam as composições em sentido contrário. Estava quase na hora de um desses comboios passar, cujo barulho encobriria o som do tiro… e a moça continuava acordada. Perguntar-se-á: se era preciso dar cabo do espião, a moça não tinha de ser “adormecida”?!...
Quanto à tese do crime “a quatro”, ela é também sustentada pela actual ocupação profissional dos passageiros que viajavam na carruagem do homicídio. Os dois “acordados da silva” servem o Estado como agentes secretos e já nem andam de comboio. Agora fazem-se transportar em carros de grande cilindrada!... Perguntar-se-á: será que eles já eram agentes da secreta ou tratou-se de facto de uma mudança de estatuto, como prémio pelos serviços prestados no comboio?!...

E qual foi o prémio dos passageiros “dorminhocos”? Estes vivem agora as suas vidinhas “contando as suas aventuras e o crime que (dizem) quase presenciaram”, como guias turísticos nas linhas do “Expresso do Ocidente”. Aqui perguntar-se-á: se as linhas do Expresso do Ocidente foram criadas pela imaginação dos homens da empresa Bode Espiatório, para uma aventura que tem por base a obra de Agatha Christie, será que estamos apenas perante uma “representação teatral”?!...

Na realidade, face a tantos factos incongruentes e inverosímeis, sou levado a concluir que este caso poderá ter enquadramento nas actividades promovidas pela Bode Espiatório, no âmbito do ciclo “Comboios Mistério”, que contempla a existência de uma linha do Expresso do Ocidente, que, embora possa abranger vários trajectos, tem privilegiado sobretudo o percurso Santa Apolónia-Grândola. Perguntar-se-á: é por isso que se faz referência à Nelinha, que tem uma avó a viver na Vila Morena?!...

Neste evento, que tem por cenário um Comboio dos anos 40, cada passageiro encarna uma personagem (cujo nome, profissão, etc, constam de uma folha que lhes é distribuída à partida) e terá de ajudar a resolver um crime que acontece a bordo, podendo ser qualquer um deles o criminoso ou a vítima. Perguntar-se-á: será que o Fidalgo embarcou numa destas “viagens” com a família, e os seus filhos chamam-se Ana, Francisco (Quico) e Inês (tudo é possível neste problema surrealista)?!...

O facto da acção decorrer num comboio dos anos quarenta poderá explicar a existência de janelas de abrir, com vidros que se quebram com facilidade, o que não aconteceria nas composições de hoje. Os vidros dos comboios actuais são temperados e preparados para não se estilhaçarem nem ferirem ninguém em caso de acidente (as regras de segurança em vigor assim o exigem! Perguntar-se-á: este argumento não reforça a ideia de que os acontecimentos não são reais, mas sim ficcionados?!...

O relato de uma ocorrência que tem por “palco” uma linha ferroviária que não existe de verdade, no interior de um comboio cujas características apontam para uma realidade passada, onde se discute um crime que tem por pano de fundo um problema actual, como é o caso dos planos de localização do futuro Aeroporto de Lisboa, só pode ser ficção. Perguntar-se-á: não me assiste toda a razão para desconfiar que se está perante uma das “aventuras” produzidas pela empresa Bode Espiatório?!...

No evento organizado pela Bode Espiatório convivem diversas personagens. Entre elas, existe uma que se chama Poirote, encarnada por uma actriz, a que se juntam muitas outras “defendidas” por actores profissionais e pelos passageiros. Cada viagem pode ser realizada por um número variado de pessoas, até 500, e todas elas passam a ter um nome diferente do seu, que pode ser o mais estrambólico que se possa imaginar. Perguntar-se-á: será que neste dia alguém viajou com o nome “Anaquicoínes”?!...

Os nomes “de viagem” e os “perfis” dos passageiros do Expresso do Ocidente podem ser “n”. Para além das personagens da obra de Agatha Christie, figuram nesta encenação improvisada pessoas com as mais diversas profissões e nomes. Podem ser carpinteiros, escriturários… ou até mesmo jovens actores em início de carreira. Perguntar-se-á: entre eles estiveram nesse dia os jovens que interpretam a Ana, o Quico e a Inês (AnaQuicoÍnes) da série “Morangos com Açúcar”?!...

Alexandre O´Neill e Mário Cesariny são algumas pessoas ilustres (encarnadas por passageiros e actores) que embarcam no Expresso do Ocidente… para mais uma viagem, mais um crime. Com eles seguem sempre um revisor, um inspector da Pide, um candidato à presidência de qualquer coisa e vários cidadãos comuns que se podem chamar Ana, Quico, Inês (AnaQuicoInes)… Perguntar-se-á: não é verdade que num enredo surrealista “à O’Neill ou à Cesariny”, como este, tudo é possível?!...

Tenham os passageiros os nomes que tiverem, todos os eles têm papéis e tarefas a desempenhar no “Crime do Expresso do Ocidente”. Ali cabe de tudo, desde um terrorista suicida a um pastor de almas, desde uma inveterada defensora de casos perdidos a uma terrível vingadora de crimes públicos, desde um atleta de sucesso a um artista frustrado… Perguntar-se-á: será que não cabe neste curioso mundo de ficção toda a espécie de crimes e acontecimentos, por mais inverosímeis que pareçam?!..

Um crime acontece a bordo. Um rádio vai transmitindo para todas as carruagens os desenvolvimentos da ocorrência. O “travestido” inspector Herculano Poirote dirige as investigações. No fim da viagem, todos são convidados a apresentar a solução do enigma. Só depois é que Poirote faz a sua dissertação final. Perguntar-se-á, para acabar: será que esta solução de “interrogações afirmativas” não merecerá dez pontos no veredicto final do Poirot de Marinhais?!...


PÚBLICO-POLICIÁRIO
CAMPEONATO NACIONAL
Temporada 2006-2007
Inspector Boavida

Prova nº 7
“Guarda-me a Última Dança”, de Peter Pan

Ao nosso querido capitão Dic Roland…
que possa estar algures num sítio bonito como o Tahiti…

O Esmeralda estava ancorado na baía de Cook desde essa manhã. Era uma visão magnífica aquele grande veleiro enquadrado pelo recorte da vegetação e das montanhas vulcânicas de Moorea. Era a beleza indescritível do Tahiti no Pacífico Sul.
Eu estava no clube Bali Hai, ali nas margens da baía e desfrutava daquele espectáculo. No dia seguinte, os hóspedes do clube foram presenteados com um convite do Comandante do Esmeralda para um baile no convés do navio ao princípio da noite.
O ambiente era informal mas de alguma forma solene, pelo menos ao princípio. A banda do Esmeralda já tocava quando as pessoas começaram a subir. Tínhamos que percorrer uma curta distância, desde o clube até ao veleiro, num pequeno barco a motor. As pessoas amontoavam-se no pequeno cais do Bali Hai à espera da sua vez. Havia muitos americanos e foi rodeado por alguns desses casais que fiz a curta viagem.
O Esmeralda estava engalanado com fitas e balões e tanto a tripulação como a banda exibiam os altivos uniformes. O comandante era um indivíduo cortês e de trato simples e agradável. Percebia-se que os cadetes o tinham em grande respeito e mesmo nas brincadeiras e ditos a que pude assistir eles sabiam bem até onde podiam ir. Quando finalmente o convés da popa se encheu e estava literalmente transformado em pista de dança, a banda do navio-escola irrompeu a tocar em tutti uma célebre melodia de salsa chilena e a inibição inicial das pessoas desapareceu por completo.
A noite começava a cair e nas margens eram cada vez mais intensas as luzes das casas ao redor da baía. E também cada vez mais nítido o brilho único das estrelas no céu do Pacífico Sul, algo impossível de apagar da nossa memória. O baile decorria cada vez mais animado e o ambiente estava fantástico. Havia um sector do convés onde um cadete barman improvisado servia cocktails e bebidas de várias cores. Eu perdia-me por piñas coladas e foi depois de duas ou três que me apercebi da chegada de Vaiani. Soube depois o seu nome embora não tenha tido oportunidade de chegar perto dela. Os cadetes estavam autorizados a confraternizar e havia um número bastante razoável de raparigas, entre americanas, francesas e algumas nativas. Vaiani era uma delas. Teria os seus 20 anos e, apesar da simplicidade em geral das mulheres tahitianas, tinha porte altivo e uma grande auto-confiança que só a juventude pode conferir. O seu olhar era de cortar a respiração. Vinha com a grinalda tahitiana na cabeça, o colar de conchas e o pareo que lhe envolvia o corpo esbelto. A partir da sua aparição concentrou todas as atenções. E não eram só os cadetes a requisitar os seus braços; vários turistas, americanos sobretudo, tiveram a sua oportunidade. A certa altura um dos cantores de serviço da banda inflectiu dos temas latino-americanos e começou com um tema conhecido, ainda assim bem a condizer no seu carácter festivo. A canção perfeita, diria; feliz, insinuante, ingénua e malandra ao mesmo tempo e embalados por aquela alegria contagiante só apetecia dançar e seguir aquele som por todo o lado; o nome dessa melodia: Save the last dance for me. Um largo sorriso meu acompanhou a figura de Vaiani ao som daquela canção. Apesar de muito solicitada, ao fim de um certo tempo percebi que alguns dos cavalheiros começavam a conseguir mais danças com Vaiani. Um deles era um oficial do Esmeralda, um indivíduo alto e bem parecido e de uma tez tipicamente sul-americana. Destacava-se aprumado no seu belo uniforme branco e era um dançarino exímio. O segundo era um turista americano que me lembrava de ver no Bali Hai, um sujeito loiro, ainda novo e do tipo folgazão. O terceiro era um francês que esteve uma boa parte do tempo junto de comandante e soube mais tarde que era o representante das autoridades locais naquele evento. Nenhum dos três teria mais de 30 anos e a presença de Vaiani era um chamamento irresistível.
Mais tarde, alguém me disse que a jovem descendia de antepassados da realeza tahitiana, ainda antes da Polinésia se transformar num protectorado francês. E apesar da confusão era difícil não olhar para a beleza daquele corpo em movimento. Mesmo o grupo de pessoas mais próximo do comandante, entre os quais um alto nativo tahitiano, de magnífico porte atlético, seguia-a com atenção. Este parecia estranhamente sério e alheado da folia incontrolada em redor.
Algum tempo depois, o comandante e várias pessoas deixaram o convés e, pelo que soube, desceram para os seus aposentos na popa para um brinde especial e mais em privado; aquela jovem tahitiana, de colar de flores de tiaré, foi uma delas. Eu, nessa manhã, tinha tido a oportunidade de conhecer o barco e havia-me sido facultado um prospecto com a planta dos compartimentos em baixo. Tinha estado uma boa parte da tarde a estudar o interior da Dama Branca por pura diversão. E foi por impulso e sem ser convidado que tentei seguir aquele grupo. Ainda consegui descer mas fui barrado, no corredor em baixo, no local da Detallía. Aí, um cadete estava a controlar a passagem e, ao ver o gabinete da Detallía aberto, perguntei ao oficial subalterno que lá estava se podia entrar. Ele foi simpático e disse que sim e estivemos um bom bocado à conversa.
Penso que entretanto terei perdido a noção do tempo e da festa que decorria lá em cima e da outra mais privada, ao longe, no fundo do corredor. O oficial da Detallía chamava-se Cid Geraldo e em breve nos tornámos bons amigos. Reforcei a ideia de os chilenos serem uns tipos bem calorosos e sempre prontos para um naco de conversa. A porta ficara aberta e eu estava sentado e podia ver todo o corredor, ao longo, até ao local da cabine do comandante. Só havia outra saída visível, a meio do corredor, para o convés da popa, em cima, para além daquela do ponto onde estávamos. Durante uma boa meia hora estive à conversa com o meu novo amigo, até que um cadete o veio substituir. Geraldo disse-me que podia continuar a ver a carta da rota de el buque, que ele não demoraria. Vi-o ir até ao fundo do corredor e entrar na sala de estar do comandante onde decorria o convívio VIP. O cadete que ficou comigo embrenhou-se com uns papéis e eu por uns minutos abstraí-me do corredor e fiquei a consultar a rota e o mapa da região que tinha entre mãos. A verdade é que Geraldo não voltou.
Normalmente os oficiais acompanhariam o seu comandante se saíssem com ele. Por fim a comitiva que estava com o comandante deixou os seus aposentos. Ao chegar diante da Detallía e rumo ao convés em cima, reparei em algo curioso: excepto uma das personagens, não vi passar Vaiani, nem o oficial chileno ou o turista americano que, soube mais tarde, era um cantor canadiano de Vancouver, no início da sua carreira internacional; eram os mesmos que haviam tido a sorte de melhor conhecer os encantos da bela nativa tahitiana.
Esperei ainda um pouco. Lá em cima ouvia-se perfeitamente uma voz que cantava um tema de Cole Porter e não era em castelhano ou em inglês com sotaque. Pensei ainda em todos aqueles homens que podiam sonhar com Vaiani e percebi afinal que todos eles se tinham dispersado por locais diferentes. Quando, algum tempo depois, também eu voltei para cima, começava a ser tempo de despedida. Ouvia-se de novo “Guarda-me a última dança”. Nos céus tinha começado um breve mas glorioso espectáculo de fogo de artifício ao redor da baía e de el buque. Bebi ainda uma taça de champanhe para coroar aquele momento inebriante de total alegria. E foi ao aproximar-me da amurada que vi então Vaiani. No bote que nos trouxera do Bali Hai ela ia com um homem que a acompanhava e eu, que não a tinha visto chegar, sorri ao som de uma canção.

Pergunta-se:
1 – Quem levou Vaiani para terra e com ela o seu coração? Concretize a sua resposta.
2 – Localize os “suspeitos por Vaiani” quando voltámos a subir.


Identificação dos locais do navio de acordo com o mapa de bordo, em língua espanhola:
1 – Cámara Comandante (onde decorria o brinde com os convidados especiais)
2 – Camarote Comandante
3 – Repostero Comandante
4 – Camarote de Oficiales
5 – Camarote Segundo Comandante
6 – Detallía
7 – Servomotor
8 – Cámara Oficiales
9 – Camarote de Oficiales - Bajo


Solução de Inspector Boavida

O navio-escola chileno Esmeralda fundeou (a ancora não é utilizada nestas circunstâncias…) de manhã, ao largo da baía de Cook, e na noite do dia seguinte já estava devidamente preparado e engalanado para uma grandiosa festa no seu convés. O evento seria aberto a convidados locais e a alguns turistas que frequentavam de noite o bar do clube Bali Hai e de dia desfrutavam as águas cálidas e límpidas da baía, a magnificência das montanhas vulcânicas de Moore e a beleza das suas paisagens verdejantes e húmidas.

Peter Pan, o turista português de Massamá, deixou a sua simpática irmã Cristina no quarto e lá foi ele no pequeno bote a motor disponibilizado pelo comandante do Esmeralda para levar os convivas para a festa, que metia baile e bebidas à descrição. Os cadetes estavam impecavelmente ataviados, de branco imaculado, esperando ansiosamente pelas belas moçoilas nativas e pelas meninas estrangeiras descomprometidas que durante o dia avistaram de longe no areal da baía, praticamente desnudadas, estendidas ao sol do Pacífico Sul!

Assim que chegou o bote com o primeiro grupo de convidados, a improvisada banda musical do navio-escola irrompeu com uma célebre salsa chilena e os corpos começaram a desinibir-se. As danças sucediam-se freneticamente ao ritmo das músicas latino-americanas, animando jovens e menos jovens, mulheres e homens, civis e marinheiros, num ambiente cada vez mais festivo e descontraído, graças também ao “cadete-barman” que ia servindo coloridos cocktails, as mais diversas bebidas exóticas, champanhe francês e piñas coladas…

Tudo se transformou quando chegou a nativa Vaiani. A sua natural e rara sensualidade não escapou aos olhos de ninguém que se encontrava no convés, excepto a Peter Pan (que não largava o barman...). Ela teria pouco mais de vinte anos e reunia em todo o seu esplendor a simplicidade peculiar das tahitianas e o encanto das mulheres mais belas do planeta. O porte altivo e a auto-confiança por ela evidenciados resultavam da sua juventude e dos genes guerreiros e nobres que carregava dos seus antepassados, que haviam governado aquela região antes da colonização francesa.

A bela e sedutora Vaiani vinha de grinalda na cabeça e de colar de conchas ao pescoço, artefactos que faziam sobressair a exuberância sensual do pareo que lhe envolvia o corpo esbelto. O seu olhar quente e fogoso fazia cortar a respiração dos jovens cadetes e despertava sonhos coloridos, libidinosos e obscenos na imaginação dos homens mais românticos, atrevidos e charmosos que havia no baile. A música não parava e todos disputavam Vaiani. As atenções passaram a estar concentradas naquela bela nativa que a todos trazia cativo.

Até mesmo Peter Pan, que até ali estivera entretido com as piñas coladas, já sonhava envolver-se nos braços de Vaiani. Foi por isso que ele esboçou um sorriso meio malandro e tentador ao vê-la dançar ao som de “Save the last dance for me” (Guarda-me a última dança), uma velha melodia de Doc Pomus e Mort Shuman, gravada em 1960 pelos Drifters, que nos dias de hoje faz grande sucesso na voz do canadiano Michael Bublé, um jovem de trinta e poucos anos que tem no seu palmarés onze milhões de discos vendidos em quase todo o mundo.

Aquela canção insinuante, ingénua mas atrevida, desinibiu ainda mais os homens da festa. Vaiani começou a ser cada vez mais requisitada, tanto pela tripulação e alunos do Esmeralda como pelos turistas convidados para o baile. Três deles foram “ganhando” mais danças com a bela nativa: um jovem oficial chileno, um turista americano (canadiano, para ser mais preciso, um cantor em inicio de carreira, que pouca gente ainda conhecia… chamado exactamente Michael Bublé!...) e um francês que representava as autoridades locais naquele evento.

A noite era de festa mas também de protocolo. O comandante do Esmeralda convidou diversas personalidades para uma pequena cerimónia nos seus aposentos. O jovem oficial, o turista cantor canadiano, o francês representante do governo gaulês na região e a bela nativa Vaiani foram algumas das pessoas que acompanharam o comandante. O turista português de Massamá foi atrás deles mas acabou por ser barrado por um cadete que tinha por missão impedir “penetras” menos sóbrios naquele acto mais privado e formal.

Meio tocado pela bebida, Peter Pan, que já trocava os passos e via tudo a dobrar, fora barrado exactamente no corredor de acesso à câmara do comandante. Ali, naquele local, funcionava a Datallía (Casa da Navegação!). A porta encontrava-se aberta e lá dentro estava (?) um oficial subalterno, que o deixou entrar a seu pedido. Era um sujeito muito simpático e caloroso, culto e conversador como poucos, um poeta sonhador… O turista português perdeu a noção do tempo mas ganhou um novo (velho?!) amigo, de seu nome Cid Geraldo!

Do sítio onde estava sentado, à conversa com o seu amigo Cid, Peter Pan conseguia ver toda a gente que saísse ou entrasse na câmara do comandante onde decorria o convívio VIP. Aos poucos foi-se desligando do que se passava no convés e no fundo do corredor da proa, deslumbrado que estava com o feliz e inesperado (re?) encontro com Cid Geraldo, talvez gerado e fertilizado pelas bolhas do champanhe francês e das piñas coladas… Após algum tempo, um jovem cadete veio substituir o amigo e este “esfumou-se” no fundo corredor, com a promessa de voltar!

Dando asas à sua imaginação, estimulada pelos fluidos do álcool e pelo cheiro bravio da maresia, o turista de Massamá julgou ter visto (ou viu?) o seu amigo Cid Geraldo entrar na sala do comandante para se despedir deste (ele havia saído de “quarto” – período de serviço de seis horas – à Detallía e preparava-se para dar um salto a terra...). Porém, ao ver a bela nativa Vaiani quedou-se enfeitiçado pela jovem. Um sorriso meio atrevido no olhar e duas graçolas brejeiras bastaram para que ela também sucumbisse aos encantos do jovem oficial... subalterno.

Peter Pan ficou na Casa da Navegação meio adormecido com a Carta da Rota do Esmeralda e o Mapa da Região por entre as mãos, completamente abstraído de tudo o que se passava à sua volta, enquanto o jovem cadete que havia entrado de “quarto” se debruçava sobre a papelada que tinha sido deixada pelo oficial que saíra de turno. Este, por sua vez, havia dito que não se demoraria, mas… nunca mais voltou à Detallía. Só o turista de Massamá soube que razões mais altas se levantaram. Razões do coração. Razões que, por vezes, a própria razão não explica… e que fazem perder a razão...

Cid Geraldo estava completamente preso pelo “beicinho”, sem olhos para mais ninguém que não fosse Viaini, mas ainda teve discernimento suficiente para reconhecer no jovem turista canadiano o cantor que começava a despontar para o mundo: Michael Bublé. Entusiasmado pela descoberta, e desejoso de ter Vaiani nos seus braços, Cid pediu ao cantor que os brindasse com um dos temas do seu segundo álbum. Este não se fez rogado e, para não perderem mais tempo, subiram os três (Vaiani, Michael e Cid Geraldo) até ao convés, pela escada que fica mais próxima da proa.

O resto da comitiva que havia estado na festa VIP também saiu em debandada em direcção ao convés, subindo pela escada por onde haviam descido. O turista de Massamá só aí despertou (por breves instantes…) para a realidade do que se passava em seu redor e detectou que faltavam na comitiva três pessoas: Vaiani e dois dos “dançarinos” que mais haviam dançado com ela – o oficial e o turista canadiano. O primeiro ficara na cabine com o comandante (“normalmente, os oficiais acompanhariam o comandante se saíssem com ele”…) e o segundo já estava no convés.

O tema de Cole Porter que se começou a ouvir não era cantado em castelhano nem em inglês com sotaque, como muito bem deu conta Peter Pan (no meio da neblina do seu sonho…) – quem o cantava era Michael Bublé! No convés, Cid e Vaiani dançavam sob o olhar sério do tahitiano alto e de magnífico porte atlético, que o turista de Massamá supunha ser o guarda-costas de Vaiani. Competia-lhe, julgava ele, garantir que nada pusesse em causa a segurança da jovem descendente da realeza local, que pertencia à primeira linha de sucessão ao trono do Tahiti no caso da sua independência.

O francês representante do poder político francês no evento estava no seu posto, no convés, como determina o protocolo: estava quase na hora do fogo de artifício. O comandante e o seu imediato, o tal oficial chileno “dançarino” (ele tinha patente acima do Cid Geraldo, que era subalterno!...), preparavam-se para subir ao convés, para o fim de festa. Foi também nessa altura que Peter Pan resolveu sair da Detallía para mais umas piñas coladas e umas “flutes” de campanhe, sendo surpreendido por uma nova interpretação de “Save the last dance for me”, desta feita na voz do cantor canadiano:

“Tu podes dançar qualquer dança com um homem
Que te lance ‘aquele’ olhar.
Deixa-o manter-te apertada.
Tu podes sorrir qualquer sorriso para um homem
Que prendeu a tua mão à luz da lua,Mas não te esqueças quem te leva para casa
E em que braços tu vais acabar por ficar.
Assim querida, guarda a última dança para mim.
Oh, eu sei que a boa músicaÉ como um vinho espumoso.
Vai e diverte-te.Ri e canta. Mas quando estivermos separados
Não dês o teu coração a qualquer um.
Não te esqueças quem te leva para casa
E em que braços tu vais ficar.
Assim querida, guarda a última dança para mim.
Querida, tu não sabes quanto eu te amo? Consegues sentir o meu amor quando nos tocamos?
Eu nunca, nunca, te vou deixar.Eu amo-te, oh tanto.
Tu podes dançar. Vai e continua
Até que a noite acabe
E seja hora de partir.
Se ele te perguntar se estás sozinha e se te pode levar a casa
Tu deves dizer que não,
Porque não te esqueças quem te leva para casa
E em que braços tu vais acabar por ficar.A
ssim querida, guarda a última dança para mim.
Porque não te esqueças quem te leva para casa
E em que braços tu vais acabar por ficar.
Assim querida, guarda a última dança para mim.
Assim querida, guarda a última dança para mim.
Guarda a última dança para mim.
Guarda a última dança para mim”.

(tradução livre do “arranjador” de canções Smaluco)

De súbito, estoiraram foguetes nos ares e os céus foram invadidos por alguns dos mais belos efeitos pirotécnicos que o homem de Massamá jamais vira nos dias da sua vida. Com toda a gente de olhos no ar, encandeados pelas luzes que brotavam do azul claro do céu do Pacifico Sul, ninguém viu um pequeno bote ser arreado até ao mar e dois corpos descerem até ele por uma escada do convés. O motor ligou-se e ele desapareceu em direcção à margem… Peter Pan viu Vaiani enlevada, abraçada ao homem que conduzia o bote.

Tal como diz a canção, Vaiani tinha dançado durante a noite com quase todos os homens, mas Cid tinha ganho a última dança… e arrebatado o seu coração. No entanto, contrariando a letra daquela melodia, o homem que a trouxera até ao Esmeralda não a levaria a casa nem acabaria a noite com ela nos seus braços. Peter Pan procurou, com o olhar, o suposto segurança tahitiano e não o encontrou. Meio cambaleante e tonto pelos “vapores” do álcool, foi até junto da amurada, debruçou-se e julgou tê-lo visto nadando com braçadas firmes e fortes em perseguição do bote.

Será que Peter Pan, tolhido pelo álcool e sugestionado pela triste notícia do falecimento de um velho amigo, recebida dias antes, por telefone, confundiu as personagens e imaginou grande parte do que se passou naquela noite a partir da sua “enésima” piña colada?! Será que o oficial Geraldo nunca existiu? Será que ele terá projectado a imagem do seu amigo Dic Roland naquele navio “povoado” por espectros de homens que partiram antes de cumprirem a sua missão em vida? A história recente do navio Esmeralda está cheia de memórias terríveis!!!

Após o golpe militar de 11 de Setembro de 1973, que derrubou o regime de Salvador Allende, o Esmeralda serviu a política do ditador Augusto Pinochet como “Centro Prisional” no porto de Valparaíso. Está hoje provado que uma unidade de “execução sumária” da Armada chilena “residiu” no navio com o objectivo de interrogar os detidos que eram trazidos de outros lugares de reclusão. Esses interrogatórios incluíam, geralmente, torturas e maus-tratos, processo que, por ser extremamente doloroso, dispensa explicações detalhadas.

Refira-se, porém, que, embora o número de detidos a bordo do Esmeralda varie conforme os testemunhos, tudo indica que chegou a haver um período temporal curtíssimo em que foram submetidas às mais diversas sevícias físicas, psicológicas e sexuais cento e doze pessoas Entre os detidos, na sua maioria mulheres e homens conotados com o regime de Salvador Allende, destaca-se a execução do padre Miguel R. Woodward que faleceu a caminho do Hospital Naval de Valparaíso, após ser vítima das mais bárbaras e dolorosas torturas no navio.

Os fantasmas dos que soçobraram naquele navio às mãos dos carrascos do tenebroso Pinochet, talvez ainda hoje se confundam por entre a tripulação do Esmeralda, reclamando num silêncio ensurdecedor, em cada porto, que os membros da Armada do Chile superem a sua cobardia moral, reconheçam o uso criminal que fizeram do navio e peçam perdão pelas vítimas martirizadas a bordo. Porém, é pouco provável que, entre eles, esteja um antigo militar português que nos últimos anos da sua vida amou e foi amado no seio da família policiária.

Mas se o Cid era apenas uma miragem, quem foi que levou então Vaiani para terra? Terá sido o nativo alto e musculado que esteve sempre muito sério e alheado da folia no convés? Terá sido com ele que a Vaiani chegou e com ele partira? E será que ele não era um segurança, mas o seu noivo? Assim, a canção pode fazer mais sentido mas destrói-me o coração. O que eu daria para que o nosso velho Cid (agora renascido pelos favores dos deuses) levasse de bote para uma noite de amor a mais bela tahitiana de todas as tahitianas!!!

Infelizmente, é esta a verdade: o nosso velho e saudoso amigo Dic Roland não entra na história e o oficial subalterno que estava de “quarto” na Casa na Navegação não se chamaria provavelmente Cid nem Geraldo. Mas o seu nome pouco importa. O importante é que quando este deixou o turista de Massamá às voltas com a Carta da Rota do navio, já meio embriagado e a confundir realidade com ficção num sonho provocado por “piñas coladas e champagne”, foi até à cabine do comandante pedir autorização para pernoitar em terra… e nem sequer reparou na nativa Vaiani!

O oficial subalterno substituído na Detallía por um jovem cadete (quando os navios-escola estão atracados ou fundeados os cadetes fazem serviço sem a presença de oficiais), obteve então a permissão do comandante para passar a noite nas margens da baía de Cook, desceu depois até ao seu camarote, situado no corredor inferior ao corredor dos aposentos dos oficiais superiores e da Casa da Navegação, onde tomou um bom banho, trocou de roupa, perfumou-se… Ao longe ouvia-se, no convés, uma canção de Cole Porter em “inglês sem sotaque”.

Fora Vaiani que convencera Michael Bublé a exibir os seus dotes de artista (da música e do cinema!…). Na cabine do comandante, alguém havia reconhecido nele o cantor da moda que começava a fazer furor um pouco por todo o mundo. Vaiani subiu com Bublé pela escada de acesso da proa ao convés, que fica no primeiro quinto do navio, mais ou menos em frente ao “repostero do comandante”. Foi por isso que Peter Pan, ao despertar do seu “sonho”, não os viu no meio da comitiva que estivera no convívio VIP e que subira para o convés pela escada que fica em frente à Detallía.

Nessa altura, os “suspeitos por Vaiani” (estranha definição do turista de Massamá) estariam em três locais distintos: o turista americano (canadiano) estava no palco, a cantar; o “político” francês estava no convés; o oficial sul-americano estava na câmara do comandante (era seu imediato e estaria sempre onde ele estivesse – até porque um oficial não larga o seu comandante quando sai com ele, e era preciso receber instruções para accionar o fogo de artifício). Peter Pan subira entretanto para o convés, quase ao mesmo tempo que o comandante e o imediato (embora por escadas distintas).

Michael Bublé começou então a cantar um dos mais populares temas do seu repertório: “Guarda-me a última dança”. O tahitiano alto e musculado, que viera para a festa acompanhado de Vaiani (Peter Pan não os tinha visto à chegada…), sorriu, feliz … e a letra da canção cumpriu-se: ela bebera e dançara toda a noite com quem quisera, estivera nos braços dos homens que a cortejaram, sorrira para eles mas nunca negara que estava acompanhada com um homem que a trouxera e a levaria a casa – o seu noivo tahitiano! Seria dele a última dança… e o seu coração.

Estoiraram foguetes no ar. O céu encheu-se de mil luzes e cores. O tahitiano levava o seu amor no bote. Peter Pan, debruçado sobre a amurada, enjoado como se estivesse no mar alto, em equilíbrio periclitante, num limbo entre o sonho e a realidade, começara a ficar de todas as cores (tal e qual como os cocktails e as bebidas exóticas servidas pelo “cadete-barman” durante a festa), que se transformara de súbito numa espécie de palidez verde. Um jovem cadete passou por ele e segredou-lhe aos ouvidos, meio gozão: «Carga ao mar!!!».

PS – Se o irmão da Cristina de Massamá tivesse estado mais atento ao que se passou no convés, entre a chegada de Vaiani e a festa VIP no camarote do comandante, em vez de se “enfrascar” de copos, teria assistido porventura ao anúncio do noivado daqueles dois nativos de “linhagem real”, que terão sido agraciados com colares de tiarés (flor que simboliza as boas vindas e… o noivado). Foi por isso que Peter Pan viu primeiro Vaiani com colar de conchas e, depois, com colar de tiarés!!!
 
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