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Monday, September 29, 2008
  PÚBLICO-POLICIÁRIO
CAMPEONATO NACIONAL e TAÇA DE PORTUGAL
Temporada 2007-2008

Prova nº 1 / 1ª. Eliminatória
“Revelações Perturbantes”, de Detective Lupa de Pedra


Aníbal Silva Gatuno tinha sede de saber, mas de um saber específico, pois desde sempre o acompanhara uma obsessão em querer saber as origens da sua família e do seu curioso nome.
Já em criança se deleitava a ouvir as histórias que os seus avós lhe contavam sobre a sua vida quando jovens. Nunca se cansava de uma e outra vez as ouvir, e imaginava um passado cheio de tribulações e sacrifícios, mas também de muitas alegrias e motivos de comemoração. Tudo o que ouvia era tão diferente da realidade que conhecia, que sentia como se estivessem a falar de outro planeta!
Era de tal modo apaixonado por estas narrativas que muitas vezes o acusavam de ser aluado e distraído e de passar mais tempo a olhar para “o que já lá vai” em vez de estar atento às suas obrigações diárias, acusações, aliás, que o continuaram a acompanhar pela vida fora.
Esta paixão não mais o abandonou e, em adulto, depois de começar a trabalhar e conseguir alguma disponibilidade financeira, deu finalmente inicio a pesquisas mais aprofundadas.
Não o fazia por sonhar descobrir antepassados fidalgos, pois as suas origens humildes e até o seu apelido em tudo o pareciam desmentir, mas sim porque lhe custava admitir que tudo passava como o pó ao vento, que nada restava de ninguém, nem sequer uma simples lembrança.
Com estes pensamentos Aníbal caminhava regularmente há alguns anos, em direcção às conservatórias do registo comercial para obter registos de nascimento, casamento e óbito dos seus familiares, tornando-se inclusive um assíduo frequentador dos Arquivos Distritais e da Torre do Tombo. O tempo e o empenho deram-lhe a familiaridade com todo o tipo de documentos, das certidões aos passaportes, dos assentos paroquiais aos testamentos.
Tudo começara por volta de 1995 numa Loja do Cidadão, onde requisitou a sua própria certidão de nascimento. Esse simples documento tornou-se uma verdadeira “porta para o passado”. Daí passou para os seus pais, avós e por aí fora numa sucessão quase imparável, tendo conseguido estabelecer com um detalhe razoável, a história das quase dez gerações da sua família que viveram ao longo dos últimos três séculos.
O seu casamento em 2002 com Joana e o nascimento da filha Sofia em 2005 em nada alterou os seus hábitos. Pelo contrário, Aníbal redobrou mesmo os seus esforços, pois passou a investigar também a genealogia da sua esposa, de forma a ter uma genealogia completa que um dia pudesse deixar ao seu rebento.
A pesquisa foi sendo efectuada sem grandes revelações ou surpresas até um dia numa conservatória do registo civil, enquanto consultava mais um imponente livro de Assentos.
Quase caiu da cadeira quando se deparou com o assento de óbito de Joaquim o “Gatuno”, nome pelo qual foi conhecido Joaquim da Silva, um dos seus trisavôs, pelo lado paterno. Estava descoberta a origem do seu apelido. Estava também descoberta a ovelha negra da família, confirmando-se que o seu apelido tivera uma origem infame.
Nos dias que se seguiram as revelações sucederam-se num turbilhão, pois esta descoberta estava a revelar-se um verdadeiro filão para um apaixonado da genealogia.
Conseguiu apurar que este familiar vivera entre os anos de 1825 e 1860. A sua vida não tinha sido longa, pois a carreira que tinha adoptado, a de ladrão, não era das mais promissoras em termos de expectativa de vida. No seu reduzido tempo de vida Joaquim viu-se muitas vezes a contas com a Justiça, tendo-se livrado por pouco da forca. Foi cliente regular de diversos estabelecimentos prisionais um pouco por todo o País, tendo-se tornado meliante especialmente temido pelo submundo do crime na cadeia penitenciária de Lisboa ao cimo do parque Eduardo Sétimo, local onde mais tempo esteve detido.
Joaquim sabia bem que o seu destino estava traçado. O dia fatídico chegou quando, em pleno assalto a uma agência bancária, foi surpreendido e abatido a tiros de mosquete pela Guarda Nacional Republicana.
Este dramático acontecimento durante algum tempo encheu as parangonas da imprensa periódica da época, tento tido grande destaque no jornal “O Século”, principalmente pela trágica morte de alguns civis que se encontravam no banco. Para além de Joaquim, e de dois guardas, também tombaram por terra mais um jovem casal e as suas duas únicas filhas de 5 e 3 anos.
Aníbal sofria sempre que descobria aspectos menos dignificantes dos seus antepassados, mas este deixara-o especialmente desgastado. Incomodava-o ser descendente de um tal bandido mas, por outro lado, pensava que sem o filho que Joaquim Gatuno deixara a uma humilde lavadeira, ele Aníbal, não existiria. Teria de aceitar que também devia um pouco da sua existência a um homem que marcou a sua geração através de crimes hediondos. Será que havia alguém que se pudesse gabar do contrário?
Só que o mais surpreendente ainda estava para surgir.
Uns dias mais tarde, ao cruzar registos e verificar uma e outra vez alguns documentos, Aníbal concluiu algo de surpreendente que nem queria acreditar. Levantou-se e depois de tirar mais alguns apontamentos devolveu os livros.
Habitualmente não partilhava com Joana as suas descobertas genealógicas, mas desta vez sentia-se na obrigação de o fazer. Aníbal encarava estes assuntos com muita seriedade e sentia-se responsável por dar explicações que ninguém lhe exigia.
No caminho para casa, Aníbal sentia-se de tal modo perturbado que falava sozinho enquanto caminhava pelo passeio.
Ao chegar a casa foi directo ao assunto.
“Sabes Joana, hoje fiz uma descoberta que nos diz respeito. Lembras-te de há alguns dias eu te ter falado do meu trisavô Joaquim Gatuno e da forma como ele morreu? Pois fica a saber que aquele casal e suas filhas que ele matou nesse dia no banco antes de ser morto são teus antepassados!
Não pode haver qualquer dúvida. Já verifiquei os nomes e tudo bate certo!
Quem diria que um meu antepassado matou os teus antepassados!
Sabes que mais? Isto é muito triste e vai ser difícil de explicar à nossa filha!
Acho que perdi o gosto por estas pesquisas. Percebi hoje que há segredos que devem morrer com as pessoas.”
“Não fiques assim Aníbal” – disse Joana. “Não tens que te martirizar tanto com coisas que aconteceram há tanto tempo e das quais não tens qualquer responsabilidade. Olha, sabes uma coisa, eu acho que nem deves pensar tanto no passado. Olha mais para o presente. Parece-me que a menina está a chorar. Podes ir dar-lhe o biberão?”

Pergunta-se: Será que se justificava tanto sofrimento em Aníbal?
E será que podem ser encontradas outras inverdades neste relato?


Solução de Inspector Boavida

Tipo de Ocorrência
: perturbações patológicas de foro mental, a roçar a esquizofrenia, provocadas pelo exercício exacerbado de pesquisas genealógicas por individuo analfabeto funcional, pouco informado, desmemoriado, iliterato, disléxico, míope e… mitómano, que decidiu colocar a “cabeça em água” a largas centenas de policiaristas em plena época natalícia.

Vítima: o universo policiário português, em virtude das atribulações de um homem obcecado em descobrir as suas origens, através da montagem da árvore genealógica da família, com nomes, datas e lugares por onde andaram os seus mais remotos antepassados, tentando, assim, mantê-los vivos na sua memória e na dos seus descendentes.

Data da Ocorrência: 9 de Dezembro de 2007, através de um relato circunstanciado resultantes das peripécias da criação de uma árvore genealógica que teve inicio em Outubro de 1995 e se prolonga até à actualidade, com particular incidência no período que medeia entre 2002 e 2005.

Local da Ocorrência: secção Policiário do jornal Público, que situa as potenciais vítimas deste caso em diversos e distintos locais onde se registam este tipo de ocorrências, que têm normalmente por palco conservatórias do registo civil, arquivos, igrejas e paróquias diocesanas ou arquidiocesanas, sedes de ordens religiosas não ortodoxas, bibliotecas de pequena, média ou grande dimensão, et cetera, et cetera.

Autor do Delito: Aníbal Silva, por via da sua desmedida ânsia em saber tudo o que compõe a história das pessoas que marcaram as várias gerações da sua Família, sem cuidar de saber primeiro se dispunha de saúde mental, de preparação intelectual ou… de óculos adequados à missão a que se propôs, deixando de rastos e à beira de um ataque de nervos inúmeros “detectives”!!!


Era Uma Vez…
Um Filho de Gatuno que Sofre de Iliteracia, de Deslexia, de Falta de Vista, de …

Aníbal Silva, não o Cavaco, mas sim o Gatuno (cuidado: nada de confusões, estou a falar de nomes…), tinha tomado conhecimento de que a genealogia é uma ciência que estuda a origem, evolução e disseminação das famílias, permitindo desvendar até ao mais pequeno detalhe tudo o que diga respeito à sua história, desde o estudo dos apelidos até ao levantamento dos lugares onde nasceu cada membro das várias gerações e os relacionamentos inter-familiares. O seu apelido, Gatuno, há muito que o intrigava… e chateava sobremaneira. Não havia nenhuma pessoa, animal ou bicho careta, que não risse descaradamente na sua cara ou tossisse discretamente para disfarçar o ataque de riso de que era acometido, quando ele dizia o seu nome. “Como?!... Gatuno, foi o que disse?!...” – perguntavam-lhe amiúde.

Ele sabia que esta coisa da genealogia podia ser muito complicada e obrigá-lo-ia com certeza ao convívio prolongado com ácaros e poeiras seculares e arquivos públicos, mas o esforço havia de ser compensado com a resposta a todas as suas dúvidas e inquietações. Em boa verdade, não era só a razão do apelido que o motivava à descoberta das suas origens. Desde jovem que se interessava por saber tudo sobre as suas raízes, o contexto social e económico em que viveram os seus antepassados, as suas culturas e tradições… e, claro, por que raio havia de ter aquele maldito nome! Diz ele que começou a construir a sua árvore genealógica por volta de 1995, numa Loja do Cidadão, revelando que sofre porventura de alguns problemas de visão. Nessa altura, o Aníbal poderá ter estado em todo o lado, mas nunca no lugar que diz!

As duas primeiras Lojas do Cidadão foram inauguradas em 1999, uma em Lisboa e outra no Porto, durante o primeiro governo liderado pelo Guterres Engenheiro (com diploma à séria e tudo, não como o “outro”!), pelo que o Aníbal deve ter requisitado a sua certidão de nascimento nessa altura, nos idos de 1995, num qualquer outro estabelecimento público. Mas decerto que não foi também numa Conservatória de Registo Comercial que conseguiu aquele documento, assim como os registos de nascimento, de óbito e de casamento de familiares seus, como ele igualmente afirma. Nestes serviços públicos, só se regista e publicita a situação jurídica dos comerciantes e das sociedades comerciais!... E é aqui que começo a temer que o problema no Aníbal Silva talvez não esteja apenas nos olhos, mas também na cabeça…

Na verdade, se ele fosse realmente bom da “tola” não teria desperdiçado tanto tempo a tentar conhecer as anteriores gerações da sua família, em prejuízo do gozo pleno da dádiva que o presente lhe dera, em 2005, de acompanhar em cada dia, em cada momento, a construção das próximas gerações representadas na criança por si próprio gerada. Aníbal Silva tinha o privilégio de ajudar a construir o futuro e detinha-se com redobrado interesse num passado que desconhecia e jamais poderia alterar! E, ainda por cima, ele não se ficou pela montagem da genealogia das últimas gerações da sua família, naturalmente com parentes colaterais, tios, primos em vários graus, et cetera e tal. Não, não. O tolo quis também saber tudo sobre as raízes da sua mulher e, claro!..., descobrir de onde provinha o seu apelido.

Para além de ser curto de vistas e meio tolo, o Aníbal sofre também de ataques de amnésia. Só isso poderá explicar o facto contraditório dele ter conseguido estabelecer primeiro com detalhe a história de quase dez gerações da sua família e só depois, ao que parece, ter descoberto que o seu apelido advém de um suposto trisavô paterno (sua quinta geração no sentido ascendente, portanto!), que viveu entre 1825 e 1860, e a quem puseram a alcunha de “gatuno”. É bem verdade que nessa altura as crianças já “herdavam” os apelidos dos pais e não os das mães, como acontecera mais ou menos até à época dos descobrimentos, mas não passariam nunca ao crivo da “pia baptismal” quaisquer nomes pouco dignos ou injuriosos. E nessa altura, em meados do século XIX, o advérbio “gatuno” já era sinónimo de ladrão!

Bom, a não ser que eu esteja a tresler o velho e amarelecido diário do meu tetravô Montes (pároco de Samaiões, entre 1820 e 1840), onde se diz claramente que Gatuno (vocábulo que deriva de gato e tem origem na língua castelhana) constava de um extenso rol de nomes que não eram aceites como apelidos. Acrescente-se ainda que, nessa altura, os rebentos nascidos de uniões não abençoadas pela “santa madre igreja” eram registados no Livro de Assentos como filhos de pai incógnitos. Esta observação poderá não ter muita relevância para o caso em apreço, uma vez que não é liquido que o bisavô de Aníbal não fora gerado durante a constância do matrimónio. De facto, não é claro que o Joaquim Gatuno tenha desposado a humilde lavadeira, mas também nada nos diz que o filho desta fosse um “bastardo”.

Aníbal Silva parece ainda padecer de dislexia ou de qualquer doença psicossomática que o obriga a mentir. Só uma destas causas pode justificar o facto de ele dizer que as mais surpreendentes revelações da sua árvore genealógica tiveram lugar numa Conservatória do Registo Civil, quando consultava um imponente Livro de Assentos. Ali pode requisitar-se as mais diversas Certidões, mas não é possível consultar documentos. Se tal desiderato tivesse tido por palco o Arquivo Nacional da Torre do Tombo ou qualquer Arquivo Distrital, vá que não vá, porque, para além da sua Missão de preservação e valorização do património arquivístico de interesse histórico, estas Estruturas têm por competência o apoio técnico na organização de arquivos públicos ou privados, com serviços especificamente destinados à genealogia.

Sublinhe-se que, por norma, as Conservatórias não reúnem no seu acervo Livros com assentos registados há mais de cem anos, até porque só a partir da aprovação de um Decreto de 18 de Fevereiro de 1911 (vulgo Código de 1911) foi estabelecido o princípio da obrigatoriedade da inscrição no Registo Civil dos factos a ele sujeitos, abrangendo todos os indivíduos independentemente da sua religião e confiando a realização do registo a funcionários civis. Além da obrigatoriedade do registo e da secularização dos serviços, o Código de 1911 alargou também o âmbito do registo (que então se limitava aos assentos criados pela Igreja: nascimentos, casamentos e óbitos) e fixou a precedência obrigatória do registo civil sobre as cerimónias religiosas correspondentes, cominando sanções pesadas para os infractores.

Aníbal parece ser realmente pessoa pouco informada e enfermar de analfabetismo funcional, caso contrário não teria pesquisado a sua árvore genealógica em simultâneo nos Arquivos Distritais e no Arquivo da Torre do Tombo, uma vez que tudo o que existe nos primeiros está reunido no segundo, devido à sua abrangência territorial (tem âmbito nacional!!!...). Aqui, na Torre do Tombo, conservam-se os antigos livros paroquiais das freguesias de todos os concelhos, desde o século XVI até aos finais do século XIX, o que permite evitar que os “maluquinhos da genealogia” andem de paróquia em paróquia à procura dos seus antepassados. Para facilitar a sua tarefa, Aníbal poderia ainda consultar naquele Arquivo o Inventário Colectivo dos Registos Paroquiais e recolher aí as mais diversas informações genealógicas.

Mas há ainda outros pormenores que revelam a imensa ignorância de Aníbal. Quando este diz, por exemplo, que Joaquim Silva foi um “cliente” habitual de vários “estabelecimentos prisionais”, parece ignorar que esta designação data apenas do século XX. À época, os ladrões e os outros criminosos que conseguiam escapar à pena de morte, apenas formalmente abolida com a Reforma Penal e das Prisões de 1 de Julho de 1867, iam bater com os “costados” em pequenos presídios que eram, na maior parte dos casos, pouco mais do que repugnantes enxovias. E no que concerne à alegada “passagem” do Gatuno pela Cadeia Penitenciária de Lisboa, convém recordar que esta Prisão começou a ser construída em 1873 e que só recebeu os seus primeiros presos em 1895 (ou seja: 35 anos depois dele se finar!).

O Aníbal Silva revela também desconhecer que o Parque Eduardo VII ainda não existia no período em que sustenta ter vivido o seu alegado trisavô Joaquim Gatuno. Aquele espaço de excelência de Lisboa foi construído com base num projecto da autoria de Henri Lusseau, que venceu um concurso internacional de ideias lançado em 1887 pela Câmara Municipal, sob proposta do engenheiro Ressano Garcia. De execução muito dispendiosa, o projecto foi temporariamente transformado numa solução mais económica pelo Município, que acabou por baptizar o espaço como Parque da Liberdade. Com projecto mas sem dinheiro, a obra foi-se arrastando e só seria retomada vinte anos depois. Em 13 de Abril de 1903, o Parque passou a ter a designação actual, por ocasião da visita a Lisboa do Rei de Inglaterra, Eduardo VII.

A ser verdadeira a existência do tal famigerado Joaquim Silva, O Gatuno, no período que refere Aníbal, ele poderia ter sido efectivamente condenado à pena de morte por enforcamento em conformidade com a Lei então (recorde-se mais uma vez que a pena de morte foi abolida em 1867, pese embora a última condenação à forca remonte a 16 de Abril de 1842). Uma coisa, porém, é certa: ao contrário do que diz Aníbal, a morte do seu suposto trisavô não podia ter tido cobertura noticiosa no extinto jornal O Século porque na altura (1860) aquele diário, que retratou a realidade portuguesa durante quase cem anos, ainda não existia. O Século foi fundado em 8 de Junho de 1880 e formalmente extinto em Novembro de 1996, embora a sua morte tenha sido declarada em 12 de Fevereiro de 1977, por se considerar que não tinha viabilidade económica…

O falecimento do famigerado Gatuno poderia ter de facto ocorrido num Banco (não numa agência bancária, designação que à época não se utilizava!), durante um assalto por ele perpetrado. O primeiro Banco português foi criado no Brasil (então colónia lusa), em 1808, no reinado de D. João VI, monarca que viria a fundar 13 anos depois na “capital do Império” o Banco de Lisboa. Em resultado da sua fusão com a Companhia Confiança Nacional, uma sociedade de investimento especializada no financiamento da divida pública, aquela instituição bancária daria origem à criação do Banco de Portugal, por decreto real de 19 de Novembro de 1846. Tudo bem. Posso dar de barato que o Gatuno existiu e foi morto num Banco, mas não posso aceitar que ele tenha morrido às mãos da GNR e a tiros de Mosquete!

Quanto ao Mosquete, convém referir que esta arma foi substituída pelos nossos aliados ingleses em 1853, dando lugar às espingardas Enfield. Ao contrário do Mosquete, que tinha um alcance de tiro limitado a pouco mais de cem metros e demorava para cima de um minuto a carregar entre cada disparo, a Enfield era eficaz num raio de quinhentos metros e possuía um disparo relativamente rápido. Os franceses, que estavam, tal como nós e os ingleses, envolvidos na colonização de África e da América, produziram uma arma equivalente à Enfield para combater os nativos, que lutavam até então de igual para igual, com Mosquetes de pederneira, de carregar pela boca e com cano de alma lisa, manufacturados pelos ferreiros dos povoados africanos. Nós também mudámos de armas, mas não as fabricámos. Comprámos. Aos ingleses, claro!

Segundo o relato de Aníbal, a ocorrência que provocou a morte do seu suposto tio Gatuno terá ainda originado a morte de mais pessoas, designadamente alguns civis que se encontravam no Banco e dois efectivos da Guarda. A morte dos dois representantes das forças da ordem parece significar que houve troca de tiros durante o assalto, o que reforça a minha convicção de que os disparos não foram feitos com Mosquetes. Esta arma, usada principalmente entre os séculos XVI e XVII, chegava a pesar mais de 10 quilos e tinha que ser apoiada sobre uma espécie de forquilha para ser disparada. Por todas estas razões, não me parece possível que o temível Joaquim Silva tenha utilizado um Mosquete para assaltar o Banco. Assim como não é crível que os Guardas mortos tenham sido abatidos pelos seus próprios camaradas!...

No que concerne à GNR (Guarda Nacional Republicana), impõe-se recordar que esta Força só existe depois do advento da implantação da República. Criada a 3 de Maio de 1911, a GNR veio substituir as Guardas Municipais que haviam tomado o lugar das Guardas Reais da Polícia de Lisboa e Porto, dissolvidas em fins de Maio de 1834 por D. Pedro, quando este assumiu a regência em nome de sua filha D. Maria II, na sequência da Guerra Civil que assolou o Reino. Como se prova pelo atrás descrito, não se pode assacar à GNR, transitoriamente designada por Guarda Republicana enquanto a sua missão não se estendeu a todo o território nacional, a autoria da morte de Joaquim Gatuno. Se este existiu de facto e foi abatido por uma força da ordem, tal proeza só pode ser cometida a uma das Guardas Municipais.

Relativamente aos civis supostamente atingidos mortalmente Municipal durante a “caçada” da Guarda Municipal ao Joaquim Gatuno, afirma o Aníbal que eles pertenciam todos à mesma família: um casal e suas duas únicas filhas. Mas o mais surpreendente é que, depois de cruzar diversos documentos, Aníbal acabou por concluir que aquelas pessoas eram antepassados da sua mulher, o que o deixou destroçado. Sinceramente, não vejo razões para tal. A não ser que o casal tivesse, para além das suas únicas “filhas”, um filho que não acompanhara os pais naquele dia ao Banco, ou qualquer dos cônjuges tivesse gerado filhos fora do casamento. Assim não sendo, os quatro civis mortos durante o assalto podiam ser “antepassados” da mulher de Aníbal, mas não na linha de ascendência directa. Quanto muito seriam seus parentes colaterais.

Mas era tal o sofrimento de Aníbal que este voltou a partilhar com a mulher descobertas genealógicas, coisa que habitualmente não fazia, talvez por estar absolutamente convencido de que havia uma relação de parentesco directo entre ela e um dos civis que tombaram com Joaquim Gatuno em 1860. Será que a sua “familiaridade” com Passaportes (em meados do século XIX designavam-se Cartas de Passagem cá pelo burgo, ao que apurei…) e com Testamentos, conduziram-no à revelação de que um daqueles “antepassados” seniores de sua mulher havia andado algures por terras estrangeiras e deixara expresso em papel a vontade de que parte dos seus bens beneficiassem um “herdeiro” que por lá gerara, e mantivera em segredo? Não creio! A verdade é que o Aníbal ia dando cabo do meu Natal!...


PÚBLICO-POLICIÁRIO
CAMPEONATO NACIONAL e TAÇA DE PORTUGAL
Temporada 2007-2008

Prova nº 2 / 2ª. Eliminatória


“Smaluco em Londres”, de Inspector Boavida

Smaluco está triste, abatido. Natália, a mulher da sua vida, acaba de ser condenada a 13 anos de prisão por crime de homicídio. Ela, mais do que nunca, precisa do seu conforto, mas ele sente-se debilitado. Os acontecimentos que precederam o julgamento tinham sido arrasadores. Ele necessita de tirar pelo menos umas semanas de descanso, para recuperar forças e ganhar alento. Já tem o destino escolhido: Londres! É lá que vive o seu companheiro de infância e ex-colega na Judiciária, João Horta, Orton para os amigos em homenagem ao escritor britânico cruelmente assassinado em Agosto de 1967. Smaluco e Orton eram admiradores do dramaturgo e projectaram ir nesse mesmo ano a Londres, quando o autor fora premiado pelo jornal Evening Standard e pela revista Plays and Players. Mas a tropa não deixou. Eles tinham ido às sortes meses antes e haviam ficado apurados. Naquele tempo, sair do país era uma missão impossível para dois jovens mancebos em idade de cumprir o serviço militar.
Tinham ambos o mesmo sonho, a mesma paixão: os palcos do teatro. Mas as voltas da vida levaram Smaluco e Orton a candidatarem-se à Polícia Judiciária, logo que terminaram a comissão de serviço em Angola. Estiveram curiosamente no mesmo aquartelamento e na mesma cidade, Luanda, e o facto de terem servido na Polícia Militar abriu-lhes as portas da “Judite”. Inscreveram-se em 1972, entraram para os quadros dois meses antes da Revolução de Abril e em 1975 estagiaram na Scotland Yard em regime de contexto real de trabalho, acompanhando a investigação dos mais diversos e complexos crimes. Foram seis meses verdadeiramente inesquecíveis, de arrasar. Se não fossem as terríveis saudades de Natália, tudo teria sido perfeito para Smaluco! As noites eram passadas quase todas em claro, entre copos e tertúlias teatrais, mas nunca faltou a nenhum compromisso. A pontualidade britânica era cumprida quase in extremis, mas foi sempre respeitada.
Um dia, Smaluco quase que se atrasou. O encontro estava marcado para as oito no Royal Court e ele chegou mesmo em cima da hora. Entrou na sala afogueado e sentou-se. Estava cansadíssimo. Há três dias que não pregava olho. Orton suspirou de alívio quando viu chegar o amigo e entregou-lhe uma brochura para as mãos: “Loot”. Um banco fora assaltado e suspeitava-se que o dinheiro estava escondido em casa dos McLeavy, que faziam o luto da matriarca da família, falecida na véspera aos braços da enfermeira McMahon, após doença prolongada O principal suspeito do saque era Dennis, um amigo do filho dos McLeavy, Harold. Quem dirigia as investigações era o inspector Truscott da Scotland Yard. Foram feitas algumas buscas à casa e, após breves inquirições a Dennis, à enfermeira McMahon e aos membros da família McLeavy, estava descoberta a verdade: Harold e Dennis eram cúmplices no roubo. O pai McLeavy, um respeitável leigo católico, não queria acreditar no que ouvia.
O jovem descendente dos McLeavy tinha tido uma esmerada educação, segundo os mais sagrados princípios da religião católica, e era membro dos Filhos da Divina Providência. Mas isso não convenceu ninguém, até porque a enfermeira já tinha definido muito bem Harold. “O conteúdo da cómoda do quarto dele é um libelo da sua maneira de viver. Não é só armas, mas até equipamento de planeamento familiar. É preciso uma dispensa papal para lhe limpar o pó”, disse a McMahon.
Já quanto ao Dennis, era conhecido como um jovem devasso, frequentador assíduo dos bordéis londrinos de pior reputação. Quanto a questões de sexualidade, Dennis era tido como um “hetero” não fundamentalista, repartindo a sua “cama” com o amigo Harold, a enfermeira McMahon e outras cinco mulheres. No que respeita à sua profissão, já tinha tido os mais diversos empregos e naquela altura trabalhava como cangalheiro numa agência funerária contígua ao banco assaltado.
“O dinheiro está na urna”, segredou Orton. O seu palpite estava certo: o produto do saque foi descoberto na urna que continha as vísceras da falecida senhora McLeavy, que havia sido embalsamada por vontade expressa na hora da morte. Antes disso, o caso tomara proporções quase surreais. Para além da confirmação dos autores do assalto ao banco, concluíra-se que a matriarca dos McLeavy tinha sido assassinada. Smaluco não registara aquela reviravolta nas investigações. O seu cansaço era tal que o sono ia e vinha aos soluços, forçando-o a cair nos braços de Morfeu por espaços curtos e intermitentes. Por essa razão, não soube sequer quem tinha cometido o homicídio e só muito mais tarde teve conhecimento de que, por força das palavras de John Orton, o inspector Truscott acabou por ficar muito mal na fotografia. Quando a cortina correu sobre o acontecimento, quem ia a caminho do cárcere, algemado e arrastado por um polícia de nome Meadows, reclamando a sua inocência, era o pai McLeavy!
Após a sua aposentação antecipada da Polícia Judiciária, aos cinquenta e poucos anos, João Orton, o ex-colega e amigo de Smaluco, assentou arraiais em Londres, onde ainda hoje faz grande sucesso como detective privado. Mesmo na sua qualidade de free-lancer, ele é regularmente convidado a colaborar com a Scotland Yard, principalmente quando a polícia britânica se vê em apuros para resolver alguns dos casos mais delicados.
Smaluco já reservou a passagem. O seu voo está marcado para as próximas horas. Resta-lhe apenas tempo para fazer algumas compras, entre elas um livro para ler durante a viagem, no qual se publica na íntegra, e em português, todo o caso vivido na casa dos McLeavy, o que facilita a sua réplica no espaço lusófono. E, se forem cumpridos determinados procedimentos, tal facto não é punível. Na pista, o Boeing 707 espera por Smaluco. No regresso, daqui a umas semanas, ele promete explicar melhor o caso aos leitores do PÚBLICO. Até lá…


Solução de Inspector Boavida

Tipo de Ocorrência: recordações de um passado longínquo convocado por uma situação de dor e perda, resultante de um julgamento que determinou a prisão por treze anos de um ente muito querido do antigo detective Smaluco, levando este a decidir-se por umas pequenas férias “de refúgio” em Londres, na companhia de um velho amigo e companheiro de muitas aventuras policiais e… teatrais.

Vítima: o popular e destemido Smaluco, que, depois de ter reencontrado a sua eterna amada Natália Vaz, de quem andou perdido durante largos anos, se vê agora de novo impedido de partilhar com ela todos os dias que restam da sua vida, por decisão da justiça. Embora o veridicto fosse justo (e esperado), o detective não deixou de sofrer um profundo abalo psicológico, que quase o arrastou para uma profunda depressão.

Data da Ocorrência: um dia indeterminado no inicio de Janeiro de 2008, conforme se pode depreender no relato de Inspector Boavida publicado nas páginas do jornal Público de 6 do mês corrente, onde se diz que o detective Smaluco está de partida nesse dia para Londres, assumindo, no entanto, o compromisso de voltar a abordar a ocorrência em causa algumas semanas mais tarde aquando do seu regresso à terra pátria.

Local da Ocorrência: sala de audiências do Tribunal Criminal da Comarca de Lisboa, cidade (ainda não há Alcochete!) onde Smaluco apanhou o primeiro voo com lugares disponíveis para Londres, levando na bagagem um livro com a tradução em português da peça teatral de Joe Orton “O Saque”, uma das obras daquele dramaturgo que o alter-ego de Inspector Boavida terá visto na capital do Reino Unido nos idos de 1975, no palco do Royal Court Theatre, na companhia do seu amigo João Horta.

Autor do “Delito”: se há “delito” nas razões que convocaram as recordações de Smaluco, depois de conhecida a sentença que determinou a prisão da mulher amada, a sua autoria só pode ser atríbuida…à puta da vida!... Quanto às memórias relatadas, tudo é nada, ficção, teatro, pura encenação!

Era Uma Vez…
Um Estágio Na Scoltand Yard (ou Um Caso Policial Encenado No Royal Court Theatre, de Londres)

A polícia inglesa não dorme nem brinca em serviço, sempre de olhos postos em tudo o que se passa nos quatro cantos do Mundo. Nem Portugal escapa ao olhar atento e perscrutador da Scoltand Yard, sobretudo depois do desaparecimento da pequena Maddie e das insinuações da comunicação social britânica sobre a falta de coordenação entre aquela instituição e a Polícia Judiciária Portuguesa. Por essa razão, e por muitas outras que não vêm agora ao caso, a direcção executiva da Scoltand Yard decidiu contratar em Portugal alguém de créditos firmados nos domínios da investigação, com ligações à estrutura policial do nosso país, que vem funcionando desde então como uma espécie de agente secreto ao serviço do país de Sua Majestade.

Essa tarefa tem ocupado boa parte do tempo do sub-chefe Pinguinhas, efectivo da Polícia de Segurança Pública, em serviço na Esquadra do Rossio, em Lisboa, que não perde pitada do que os media lusos dizem ou escrevem sobre a polícia britânica. O seu dia-a-dia é passado em frente aos televisores, de ouvido colado às telefonias e de olhos pregados nos principais jornais portugueses. No âmbito da sua missão, ao passar em revista a imprensa do passado dia 6 de Janeiro, Pinguinhas foi surpreendido com referências pouco abonatórias à Scoltand Yard nas páginas do jornal Público a propósito de um suposto caso ocorrido em 1975, em Londres, cuja investigação foi conduzida por um alegado inspector daquela polícia inglesa, de nome Truscott.

Depois de haver contactado o agente britânico que constitui o seu elo de ligação com a direcção da Scoltand Yard, o sub-chefe Pinguinhas ficou a saber que o caso retratado no órgão de comunicação social português supra citado não consta do imenso rol de processos investigados por aquela polícia no período temporal referenciado. Ficou, aliás, também a saber que não foi encontrado nada em arquivo que faça menção a uma família de apelido McLeavy envolvida em crimes de homicídio ou de assaltos a bancos, não sendo igualmente do conhecimento da instituição que alguma vez tenha integrado os seus quadros um inspector com o nome Truscott, embora conste dos seus ficheiros um estágio realizado pelos detectives Smaluco e João Horta.

Insatisfeito com os resultados obtidos junto da Scoltand Yard, Pinguinhas leu e releu vezes sem conta a peça jornalística assinada por um tal inspector Boavida, salpicada de menções ao dramaturgo Joe Orton e ao seu assassinato, até que decidiu vasculhar a imprensa dos dias anteriores em busca de notícias relacionadas com o caso. Ao pegar no suplemento Ypsilon do Público de 4 de Janeiro, suspirou de alívio. Estava finalmente encontrado o fio da meada. Na página 12 de um Encarte sobre a programação do Teatro Nacional S. João (TNSJ) para o primeiro trimestre deste ano, podia ler-se «O Truscott diz, a determinada altura, uma frase muito engraçada: ‘O que se passou ainda agora é perfeitamente escandaloso e é melhor nem sair destas três paredes».

Aquela afirmação é feita naquele Encarte pelo encenador Ricardo Pais a propósito do «policial negro onde afinal o crime compensa!» O Saque, de Joe Orton, que o TNSJ anuncia repor em Fevereiro próximo. Pinguinhas estava no bom caminho. O Truscott só existe como personagem de uma peça de teatro! Entusiasmado com a descoberta, o sub-chefe da Esquadra do Rossio ao serviço de Sua Majestade, a “rainha” Scoltand Yard, atirou-se de imediato ao seu computador e em menos de nada estava ligado ao site daquele Teatro Nacional (www.tnsj.pt), que vinha mencionado no Público. Acedeu ao campo Unidades/Centro de Informação, seguiu para Núcleo Documental, entrou em Programas de 2006. E, pronto, ficou na posse de toda a verdade.

Lá estava ela, em www.tnsj.pt/cinfo/REP_1/A6/C20/D11907F21046.doc, a matéria textual do Programa do espectáculo O Saque, disponível em ficheiro formato Word (e em formato pdf, se ele quisesse ter acesso à sua edição gráfica). Através deste meio, o sub-chefe Pinguinhas ficou a saber tudo sobre a vida e a obra de Joe Orton, nomeadamente que ele nasceu em 1 de Janeiro de 1933 no n.º 9 de Fayhurst Road, Saffron Lane Estates, Leicester, em Inglaterra; Que foi baptizado com o nome de John Kingsley Orton; Que reprovou nos exames de acesso ao ensino secundário, em 1944, e que frequentou uma Escola Comercial privada, o Clark’s College, entre 1945 e 1947; Que integrou diversos grupos de teatro amadores de Leicester, em 1949...

O Pinguinhas leu de fio a pavio a biografia de Joe Orton, ficando a saber que este teve aulas de elocução privadas com Madame Rothery para corrigir o seu ceceio e o sotaque típico de Leicester; Que, em 1951, iniciou os estudos na Royal Academy of Dramatic Arts, Londres; Que, nesse mesmo ano, partilhou casa com James Hilbern e Lawrence Griffin, até conhecer aquele que viria a ser o seu parceiro de vida, de escrita, de cárcere e de… um brutal crime passional: Kenneth Halliwell. Foi com este que Orton escreveu a meias os romances The Silver Bucket, The Mechanical Womb, The Last Days of Sodom, The Boy Hairdresser e The Boy Hairdresser, ao mesmo tempo que ia trabalhando como assistente de direcção de cena no Ipswich Repertory Theatre.

Na sua leitura quase obsessiva, o sub-chefe da Esquadra do Rossio ficou também a saber que Joe Orton e Halliwell decidiram a determinada altura danificar livros nas bibliotecas de Islington, e que esta “brincadeira” os levou a cumprir uma pena de seis meses de cadeia. Ficou ainda a saber que Orton começou a escrever a solo, em 1958, cartas sob o pseudónimo de Edna Welthorpe; Que escreveu, em 1961, o romance The Vision of Gombold Proval, publicado postumamente sob o título Head to Toe; Que, em 1962, enviou The Visit ao Royal Court Theatre de Londres; Que, em Agosto de 1963, vendeu The Ruffian on the Stair (originalmente The Boy Hairdresser) à BBC; E que, entre Setembro e Dezembro desse ano, escreveu Entertaining Mr. Sloane…

Não foi difícil ao sub-chefe Pinguinhas compreender que o grande momento criativo do dramaturgo Joe Orton ocorreu nos anos 60, período em que estrearam nos palcos ingleses as suas mais importantes obras. A 6 de Junho de 1964 estreou, no New Arts Theatre de Londres, a peça Entertaining Mr. Sloane, que se transferiu pouco tempo depois (29 de Junho) para o Wyndham’s Theatre e mais tarde (5 de Outubro) para o Queen’s Theatre; Nessa mesma altura, Orton concluiu The Good and Faithful Servant; Ainda em 1964, entre Junho e Dezembro, escreveu Loot/O Saque; Em 1965, O Saque estreou a 1 de Fevereiro no Arts Theatre de Cambridge e a 11 de Abril no University Theatre de Manchester. Entre Julho e Setembro, escreveu The Erpingham Camp.

O Pinguinhas estava completamente deslumbrado com a capacidade de trabalho de Joe Orton e com a carreira que as suas peças fizeram nos mais diversos palcos. The Erpingham Camp estreou no Royal Court Theatre, a 21 de Agosto de 1966; O Saque estreou no Jeanetta Cochrane Theatre a 27 do mês seguinte, e foi transferido para o Criterion Theatre a 1 de Novembro; Em Janeiro de 1967, O Saque foi distinguido com os prémios do jornal Evening Standard e da revista Plays and Players; Três meses depois, estreou no King’s Head Theatre The Good and Faithful Servant; A 6 de Junho desse ano, estreou no Royal Court Theatre Crimes of Passion; E.. a 9 de Agosto de 1967 Joe Orton foi assassinado por Halliwell, que se suicidou de seguida.

No prosseguimento da sua consulta no site do TNSJ, Pinguinhas deu conta de que são sete as personagens (seis “vivas” e uma morta) que dão vida à trama da peça O Saque. A saber: o já referido Inspector Truscott, o agente da Scoltand Yard Meadows, a enfermeira Fay McMahon, o amigo do filho dos McLeavy de nome Dennis, o McLeavy pai, o filho deste (Harold), para além da Senhora McLeavy. O sub-chefe do Rossio conseguiu ainda apurar que o Teatro Nacional S. João levou à cena aquele texto no Porto entre 14 e 26 de Novembro de 2006, tendo-o reposto mais tarde na mesma cidade entre 16 de Março e 1 de Abril de 2007, imediatamente antes de o apresentar em Lisboa (18 a 21 de Maio de 2007) e em Turim (4 e 5 de Novembro de 2007).

O sub-chefe Pinguinhas ficou ainda a saber que o maior sucesso de O Saque foi conseguido nos teatros do Reino Unido e dos Estados Unidos, na primeira década após a sua estreia, nomeadamente nos palcos de Nova Iorque e Londres, onde a peça foi remontada com alguma frequência nos anos que se seguiram à morte do autor. Mas foi a partir de uma mostra retrospectiva de Joe Orton, realizada entre Junho e Julho de 1975, no Royal Court Theatre, onde O Saque figurou ao lado de outras duas grandes obras do dramaturgo (Entertaining Mr. Sloane e What the Butler Saw) que aquela peça se transformou numa espécie de texto de culto, sendo traduzido e representado em diversas línguas, desde o francês, o italiano e… o português.

Como já estava com as mãos na massa, que é como quem diz: no computador, o sub-chefe Pinguinhas entrou num “motor de busca” e pesquisou a eventual edição de O Saque em português, chegando à conclusão de que a tradução de Luísa Costa Gomes encomenda pelo TNSJ para a encenação de Ricardo Pais foi editada pela Campo das Letras, em 2007 (www.cdgo.com/artigoDetalhe.php?idArtigo=3550421). Assim como a Cotovia havia dado à estampa, há uns anos, uma tradução de Manuel João Gomes (www.livroscotovia.pt/livros/artistas_unidos/livrinhosdeteatro/nossohospede5.htm), sob o patrocínio do colectivo Artistas Unidos liderado pelo encenador Jorge Silva Melo, que ainda não há muito tempo ocupava as instalações do extinto jornal A Capital.

O Sub-chefe Pinguinhas coçou o bigode, franziu as sobrancelhas, arregalou os olhos e pensou: «o melhor é ler novamente, e com mais atenção, o texto publicado pelo jornal Público do passado dia 6». Dito e feito. Folheou o suplemento P2 e mergulhou as vistas na Página Jogos, na Secção Policiário. Só não corou de vergonha porque não tinha ninguém a seu lado. Afinal aquilo que ele havia tomado como uma notícia verdadeira, não passava de um simples jogo, de um passatempo. Estava perante um enigma. E assim como assim, resolveu participar na brincadeira. Ele próprio decidiu enviar uma proposta de solução a um tal Luís Pessoa, se bem que havia ainda um outro problema para resolver: não sabia que explicações dar aos seus “patrões” da Scoltand Yard.

Decidido a deixar as preocupações para depois, o Pinguinhas começou a “desenhar” na sua cabeça a resposta que havia de enviar para o responsável do PÚBLICO-Policiário. Seria mais ou menos assim: «A investigação policial a que se reporta o enigma proposto pelo inspector Boavida não passa de uma mera representação teatral. São, aliás, inúmeras e evidentes as pistas que nos levam a essa conclusão, se fizermos uma leitura atenta do texto. Vejamos. João Horta era Orton para os amigos, em homenagem ao dramaturgo inglês premiado pelos orgãos de comunicação social britânicos Evening Standard e Plays and Players em 1967, ano em que este foi assassinado pelo seu companheiro Kenneth Halliwell. Estamos a falar de John (Joe) Orton, portanto!

Loot, Entertaining Mr. Sloane e What the Butler Saw, foram as três peças que constituíram uma mostra retrospectiva da obra de Joe Orton realizada nos meses de Junho e Julho de 1975, no Royal Court (Theatre), período em que Smaluco e João Horta (Orton) estagiaram em Londres, na Scotland Yard. No dia em que o detective Smaluco chegou ao Royal Court mesmo em cima da hora combinada, às oito (da noite – em inglês não “existe” 20h00 e em Londres as representações teatrais começam normalmente àquela hora), e sentou-se depois de entrar na Sala afogueado... Ia assistir a um espectáculo de teatro, claro! Orton (João Horta) entregou-lhe uma brochura para a mão. Era o programa/catálogo da peça: Loot (Saque, O/A).

Por outro lado, ao dizer-se que “por força das palavras de John Orton, o inspector Truscott acabou por ficar muito mal na fotografia”, é óbvio que se está a falar da peça Loot do dramaturgo Joe Orton, cuja trama põe em causa os princípios éticos, os métodos de investigação e a honestidade moral daquela corrupta personagem, que arrasta consigo a imagem da Scoltand Yard pelas ruas da amargura. Quando se diz que “Orton segredou: o dinheiro está na urna”, revela-se que estamos perante um comentário feito por João Horta ao seu amigo Smaluco, em surdina para não incomodar os restantes espectadores. E quando se diz que a cortina correu sobre o acontecimento, não se pode ser realmente mais claro: tinha acabado o espectáculo!

A investigação policial dos estranhos crimes descritos no enigma em análise pode ler-se na íntegra, e em português, graças às editoras Cotovia e à Campo das Letras, que publicaram recentemente em livro o texto Saque, o/a (Loot), com tradução de Manuel João Gomes e Luísa Costa Gomes, respectivamente. Foi um destes livros que o detective Smaluco comprou antes de partir para Londres, a fim de avivar a memória dos belos momentos vividos na plateia do Royal Court. E é verdade quando diz que a edição daquele texto em língua portuguesa facilita os grupos de teatro, profissionais ou amadores, do espaço lusófono, com mais ou menos meios, a promoverem a sua reprodução (réplica!) em cena, sem que isso constitua qualquer crime.

De facto, se forem respeitados diversos procedimentos, nomeadamente o acordo dos representantes legais do autor do texto e do respectivo tradutor (no nosso território, a Sociedade Portuguesa de Autores ou a GDA-Gestão dos Direitos de Autor), bem como a obtenção de licenças junto da entidade oficial que fiscaliza e autoriza a realização de espectáculos públicos (no caso de Portugal, a Inspecção-Geral de Actividades Culturais), a representação daquela obra de Joe Orton não é punível por lei. E é essa a grande “lição” que se pode retirar deste intrigante enigma do Inspector Boavida, que parte de crimes ficcionados para trazer à coacção um outro crime bem real e que muita gente parece ignorar: o desrespeito pela propriedade intelectual!

A defesa dos direitos de autor, considerada fundamental para o estímulo e promoção da actividade criadora dos homens, está hoje na ordem do dia e a sua actualidade é sinónimo de preocupação pelas violações de que esses direitos vêm sendo alvo. Com efeito, tem-se verificado nos últimos tempos um crescimento acentuado de actos de violação da propriedade intelectual, o que nega aos autores o direito de gozarem dos produtos resultantes da reprodução, da execução ou da representação das suas criações. Sublinhe-se que os direitos de autor integram a lista da Declaração dos Direitos do Homem e que a nossa Constituição “manda” expressamente dar-lhes protecção legal, ao inscrevê-los entre os direitos fundamentais no seu Artigo 42º.

Mas não é só nas artes que a questão dos direitos de autor se coloca nos dias de hoje. Também na esfera da comunicação social essa problemática é discutida há já muito tempo, tenho ganho entretanto contornos bem mais visíveis. A exigência da defesa da criação jornalística (imagens e textos) faz-se sentir por todo o lado, em consequência da globalização e do aparecimento dos grandes grupos dos Media. Na globalização o facto mais gritante é o uso e abuso da edição electrónica de trabalhos jornalísticos feitos sem consulta aos autores, sem a sua prévia autorização. Escamoteiam-se direitos morais, a começar pelos que dizem respeito à assinatura e à integridade da obra, criando a desresponsabilização deontológica perante os públicos que os jornalistas servem.

Em resumo: qualquer criação – da publicidade ao vídeo, da literatura ao cinema, do teatro à música, da arquitectura ao design, do software ao folclore, do jornalismo à internet – envolve direitos de autor, expressamente defendidos pela legislação nacional e internacional, pelo que qualquer utilização que dela se faça deve ter isso em conta. A Sociedade Portuguesa de Autores e as suas congéneres espalhadas por quase todo o Mundo têm feito esforços enormes no sentido de sensibilizar a comunidade para o respeito pela propriedade intelectual. Foi este o tema que o Inspector Boavida quis trazer à discussão no seio da “tribo” policiária, através de um enigma aparentemente complicado mas muito fácil para os mais atentos. Terá conseguido?...»


PÚBLICO-POLICIÁRIO
CAMPEONATO NACIONAL e TAÇA DE PORTUGAL
Temporada 2007-2008

Prova nº 3 / 3ª. Eliminatória


“Morte na Ponte”, de Búfalos Associados

Uma jovem senhora, casada com um rico homem de negócios, fora habitar com o marido na margem sul de um rio. Ele era obrigado a frequentes ausências e a jovem aborrecia-se terrivelmente. Um amigo dela e seu eterno pretendente fora habitar na margem norte do rio. De uma casa à outra mediavam uns dois quilómetros, repartidos em dois troços quase iguais da estrada que, partindo da mansão do casal se dirigia para poente, atravessava uma estreita ponte e, já na outra margem, seguia para nordeste, até à casa do amigo. Continuando para leste, a estrada levava à casa de um conhecido sedutor que há pouco viera viver para a região.
Uma tarde, durante uma das ausências do marido, a jovem saiu de casa, atravessou a ponte e foi bater à casa do amigo. Ele manifestou-lhe de novo o seu amor, que ela uma vez mais recusou. Ela dirigiu-se então à casa do sedutor, que casualmente estava em casa e a convidou a entrar. Gerou-se entre eles uma imediata atracção, jantaram e passaram a noite juntos.
De manhã ela acordou sobressaltada. Aproximava-se a hora do regresso do marido e saiu precipitada em direcção à ponte. Aí esperava-a uma assustadora surpresa. Um louco perigoso estava na ponte e ameaçava matar quem quisesse atravessá-la. A jovem resolveu então procurar um barqueiro que, ali perto, costumava transportar as pessoas de um lado para o outro. Disse-lhe não ter qualquer dinheiro com ela e pediu-lhe que a levasse à margem sul. O homem não se deixou convencer e insistiu no pagamento.
Desesperada, ela dirigiu-se à casa do amigo e implorou-lhe um empréstimo, mas ele ficou chocado quando ela lhe contou onde passara a noite e recusou ajudá-la. Então ela resolveu recorrer ao amante ocasional, que também não se comoveu. Era já hora do regresso aprazado do marido. Voltou a abordar o barqueiro, mas sem resultado.
O rio era largo, agitado, impossível de atravessar a nado. De madrugada chovera abundantemente. Não havia outro remédio senão ir até à ponte e tentar passar, mas, como era inevitável, o louco matou-a.
Quem tiver idade para isso, talvez se lembre desta história. Era um jogo de sociedade/teste psicológico que esteve em voga nos anos 60. O teste consistia em perguntar aos amigos qual das seis personagens tinha sido mais responsável pela morte da jovem. O amigo? O sedutor? O marido? O barqueiro? O louco? Ou ela própria? Deviam colocar-se por ordem de responsabilidade moral, do mais para o menos culpado. Normalmente não havia duas opiniões iguais e cada resposta tinha a sua interpretação. Ora acontece que, aqui há uns anos, um detective norueguês nos relatou um caso com ele acontecido, em tudo praticamente igual a esta história. Vejamos os apontamentos narrados por ele.
Passava do meio-dia quando o guarda-florestal daquela região apareceu no posto de polícia, situado a três quilómetros a noroeste do local, alertando para o facto de, no meio da ponte, estar um corpo de mulher loira, morta, com as roupas vermelhas esfarrapadas, tudo sugerindo violência. Um médico de imediato solicitado, após um breve exame, pronunciou-se por morte por estrangulamento entre as 9h e as 10h dessa manhã.
Perto do corpo foram encontrados: um botão de metal amarelo ainda com um pedaço de linha preta agarrado e cabelos arrancados de duas cores diferentes – loiros, longos, aparentando ser da vítima, e outros escuros e mais curtos. Foram interrogados separadamente todos os suspeitos menos o louco, que não foi encontrado. O que disseram coincidia com a história do teste, pelo menos até às 9h da manhã. Vejamos o que disseram.
Depoimento de Helmer – Advogado, proprietário da casa a sul do rio, Helmer era moreno e vinha de fato de cor castanha e gravata desapertada. Declarou ser o marido da vítima, reconheceu o cadáver e mostrou-se desolado. “Eu amava muito a minha mulher. Cheguei de viagem, pontual, às 9h da manhã, e estranhei não ver Nora em casa. Perguntei por ela às duas criadas, que me disseram que a senhora saíra a meio da tarde da véspera e não dormira em casa. Também não levara o telemóvel. Tive um palpite. Sabia que um antigo namorado dela se mudara recentemente para uma casa na margem norte. Fui até à ponte, seriam umas nove e um quarto, e daí pude ver ao longe a casa em questão. Para evitar um confronto, voltei para casa, mas cheio de maus pressentimentos. Certamente que ela estava em casa do amigo. Agora estou arrependido de lá não ter ido. Teria certamente evitado esta desgraça. Nora amava-me e tudo indica que tentou fugir às tentativas dele. Decidi ficar em casa e não voltei a sair a não ser quando a polícia me convocou para vir aqui. Estava tão preocupado que nem sequer despi a roupa de viagem. As minhas empregadas podem testemunhar.”
Depoimento de Rank – É o amigo da margem norte. Jovem médico de cerca de 30 anos, baixo, também moreno, vestia uma calça cinzenta, camisa amarela e um gilet de malha bege com botões de madeira. “Aconteceu desgraça? Estou arrependido de não lhe ter dado o dinheiro. Comigo não aconteceu nada, mas ela disse-me que passou a noite com o vizinho. Depois de lhe ter recusado o dinheiro, com remorsos, saí e fui até à ponte. Não vi ninguém. Pensei, pronto, a Nora já deve estar em casa. Não lhe aconteceu nada, pois não? O marido é tão ciumento…”
Depoimento de Krogstad – Homem para 35 anos, moreno. Chegou impecável, com um fato de treino vermelho, ténis brancos e uma toalha branca à volta do pescoço. “Coitada da rapariga, era tão bonita, não merecia acabar assim. Claro que dormiu em minha casa, e então? Entre pessoas adultas, qual é o problema? De manhã, não sei que horas eram, preocupado por não lhe ter dado o dinheiro, vesti-me para sair e fui até à ponte. Acho que o meu mordomo me viu sair, porque foi ele que me preparou a roupa. Fiquei já vestido para um almoço que ia ter na cidade, do qual acabei por desistir. Voltei, vesti esta roupa e fui fazer uma corrida na margem do rio. Fui uns bons dez quilómetros para o lado nascente e voltei, era quase meio-dia. O mordomo devia estar a tratar do jardim e não me viu chegar. Ah, é claro que não vi ninguém, nem na corrida nem na ponte. Calculei que a senhora já estivesse em sua casa. Quando vinha para aqui verifiquei que ela me roubou um prato qualquer que eu tinha perto da porta da entrada. Não apareceu nada na ponte, não? Eu não encontrei.”
Depoimento do mordomo – O mordomo declarou: “A senhora dormiu, de facto, lá em casa, mas de manhã já lá não estava. Dei por isso quando ajudei o senhor a vestir-se para sair. Calça cinza e um blazer. Perto da porta deu por falta de um prato na mesa da entrada e ficou furioso. Era uma porcelana de altíssimo valor que pertencera ao Rei Luís I da Baviera. Ignoro o que se passou a seguir, porque fui tratar do jardim das traseiras onde estive o resto da manhã.”
Depoimento do barqueiro – Era um homem dos seus 60 anos, cabelo todo branco, baixo e magro. “Não tenho culpa nenhuma se alguma coisa se passou. Ela não tinha dinheiro, eu vivo do meu trabalho e não faço favores. À segunda vez veio-me com um prato de louça para pagar a travessia. Eu não quero cá pratos, só quero ‘moné’! Depois fui com o barco rio acima até um local mais ou menos a três quilómetros dali, a nascente, onde costumo ir pescar. Ela veio algum tempo atrás de mim, pela margem, a tentar convencer-me! Depois voltou para trás e não sei mais nada.”
Depoimento do guarda-florestal – Era um homem de mais de 50 anos, cabelo grisalho, mais branco que preto, fardado de caqui castanho. “Que houve? Seriam 9h da manhã, ia passar a ponte de sul para norte para fazer a minha ronda, quando encontrei o louco, excitadíssimo. Ele é meu primo, e às vezes tem crises violentas, só fala em matar. Consegui acalmá-lo, trouxe-o para minha casa que fica na margem sul aí a uns dois quilómetros da ponte, para poente, e dei-lhe um forte comprimido para dormir. Eram para aí 10h, fiquei em casa a arrumar umas coisas e ao meio-dia voltei à ponte, onde encontrei a senhora naquele estado.”
Falta dizer que o valioso prato apareceu, dias depois, intacto, no fundo do rio, quase debaixo da ponte. Mas a polícia não teve dúvidas em suspeitar de quem foi o assassino. Pergunta-se: quem terá morto Nora e porquê? Reconstitua o que se passou. Será que esta história esconde ainda uma coincidência curiosa?
E já agora divirta-se a discutir o teste com os seus amigos.

Solução de Inspector Boavida

Tipo de Ocorrência: Homicídio por estrangulamento, precedido de confronto físico por disputa de um valioso prato que pertencera à baixela de porcelana do Rei Luís I da Baviera...

Vítima: Nora, a jovem esposa de um marido permanentemente ausente, que antes de morrer por asfixia já “morria” asfixiada no tédio da sua vida conjugal. Foi, aliás, o sufoco em que vivia que a levou às mãos do seu assassino. Este tomou primeiro o seu corpo todo, ficando-se no fim apenas pelo pescoço… e por alguns cabelos!

Data da Ocorrência: O inicio de uma manhã sombria num dia indeterminado, mas não em tempos muito distantes (já havia telemóvel!…), cuja madrugada havia sido fustigada por chuva abundante.

Local da Ocorrência: O tabuleiro de uma ponte que separa/une uma aldeia, algures numa região florestal da Noruega, atravessada por um rio largo e de corrente rápida e forte.

Suspeitos do Crime: Neste caso, como em qualquer outro processo de investigação criminal, há quem defenda que assiste aos envolvidos a presunção de inocência até se provar a sua culpa; da mesma forma que há quem sustente que todos são suspeitos de culpa até se provar o contrário. Para estes últimos, os suspeitos nesta ocorrência são, portanto: o marido da vítima, um amigo e um amante dela, um mordomo deste, um guarda-florestal, um velho barqueiro e… um louco.

Autor do Crime: Krogstad, um jovem sedutor bem posicionado na sociedade, com mordomo e tudo!, coleccionador de pratos valiosos e (alegadamente) amigo de “dar à perna”, como o nosso “primeiro” Sócrates, que não perde uma corridinha matinal por nada deste mundo, mesmo que o chão que pisa esteja enlameado pelas chuvas da véspera e… vá de ténis brancos calçados.

Nota Curiosa: o marido desta infeliz Nora chama-se Helmer, tal como na peça “Uma Casa de Bonecas”, de Henrik Ibsen, cuja protagonista feminina tem um amigo chamado Rank e vive sob chantagem de um escroque que dá pelo nome de Krogstad…


Era Uma Vez…
Um Teste Psicológico, Uma Morte por Asfixia e… “Uma Casa de Bonecas”


Tal como no “teste psicológico de salão” que fez furor e animou noites de convívio das mais prósperas famílias portuguesas e das nossas elites intelectuais nos idos de sessenta do século passado, uma jovem loira e esbelta atravessou recentemente um largo e agitado rio que separa uma aldeia florestal norueguesa, à descoberta de um fim de tarde que desse algum colorido à sua fastidiosa vida de casada. O seu marido estava quase sempre ausente, deixando-a entregue às suas fantasias. Do outro lado do rio, um pouco para nordeste, vivia um seu antigo apaixonado que nunca desistira de lhe pôr o coiro em cima; seguindo mais para leste, morava um conhecido sedutor que não perdia muito tempo com pormenores nas suas conquistas amorosas… e isso excitava-a.

Nora – segundo o detective (norueguês…) que nos narrou esta história, era este o seu nome – começou por bater à porta do seu apaixonado de longa data. Dois dedos de conversa chegaram para ela perceber que não era ali que estava o “paraíso”. O rapaz, Rank, bem tentou levá-la para a cama, mas a “reprise” não a entusiasmava. Ela estava mais interessada numa “estreia absoluta”, uma coisa que a empolgasse, que a retirasse da monotonia em que vivia, uma aventura repleta de cenas escaldantes, verdadeiramente “hard core”. Bateu com a porta e subiu mais para leste, em direcção à casa onde vivia Krogstad, o tal sedutor que vivia há pouco tempo na região, mas de cujas façanhas as mulheres faziam gala em contar umas às outras até corarem de vergonha.

Helmer, o esposo, voltaria na manhã seguinte às nove em ponto, como era hábito acontecer em cada uma das ausências. Nora sabia da sua pontualidade e tinha bem presente a necessidade de regressar a casa antes dele. Nessa madrugada, porém, a volúpia trouxe-lhe cansaços mil e outros tantos descuidos. A noite fora longa e farta de prazer, espiritualmente reconfortante, mas fisicamente arrasante. Ela tinha satisfeito os seus mais secretos desejos, mas acabou por se perder em maus lençóis. Quando acordou, era tarde. Se não se apressasse, o marido chegaria a casa primeiro do que ela. Levantou-se em sobressalto e correu em direcção à ponte que a levaria à outra margem do rio, mas… um perigoso louco ameaçava cobrar-lhe “portagem” com a vida.

O pagamento exigido por um velho barqueiro-pescador, que costumava ganhar a vida atravessando gente no seu barco entre as duas margens do rio, era bem mais “modesto”, mas a jovem não trazia dinheiro consigo e ele recusou-se a transportá-la para a margem sul. Nora ficou aflita, mas não conformada. Procurou socorrer-se do seu amigo e antigo apaixonado Rank, mas este negou-lhe qualquer ajuda monetária. Tentou depois um empréstimo junto do seu amante de ocasião, mas Krogstad também não se comoveu. Em desespero de causa, a jovem mulher adúltera virou ladra. Ao sair de casa do sedutor pegou num valiosíssimo prato de porcelana, sem que ele se apercebesse do roubo, e correu veloz para a margem do rio ao encontro do velho barqueiro.

Mas de nada valeu a insistência de Nora. O barqueiro-pescador não quis saber do suposto valor do prato. Ele vivia de dinheiro, não de porcelana. Se não havia dinheiro também não havia travessia; e remou o seu barco em direcção à nascente do rio, onde o peixe pica mais. A jovem mulher ainda correu junto à margem tentando sensibilizar o velho para seu problema, mas ele mostrou-se irredutível. Nora não tinha outro remédio se não enfrentar o louco que tomara conta da ponte. Porém, ao contrário do que acontecia no “teste psicológico” dos anos sessenta, o louco já lá não estava. Ela suspirou de alívio. Talvez já não chegasse a casa antes do marido… mas, pelo menos, chegaria viva! E quanto ao prato, que já de nada lhe servia, que tal atirá-lo ao rio?!...

Chegar a casa com um prato da baixela do rei Luís I da Baviera era muito comprometedor. Seria muito difícil encontrar uma explicação para aquele “achado”. Sem o objecto, ela arranjaria uma qualquer desculpa convincente para justificar a sua ausência de casa naquela manhã. Quem sabe se uma noite de insónias provocada pelas imensas saudades do querido marido não seria razão convincente para uma saída madrugadora… Por isso, a porcelana teria de levar sumiço. Mas acontece que o prato tinha demasiado valor para o seu dono, que ao dar por falta dele correu no encalço da ladra. Quando Nora sentiu a sua presença terá ficado assustada, mas jamais ousaria pensar que um homem que “amou” durante a noite seria capaz de a matar pela manhã.

O reencontro dos dois protagonistas da atracção física arrebatadora do dia anterior, vivida pela noite dentro de forma intensa e apaixonada nos braços do sexo e da volúpia, terá começado com alguns safanões e impropérios, que inundaram a manhã, a que terá sucedido gritos de revolta e outros de raiva e fúria, várias pragas e ameaças de morte, inúmeros puxões de cabelo e uma luta corpo-a-corpo sem compaixão nem tréguas, que tiveram por balanço final os seguintes despojos caídos sobre o tabuleiro que liga as duas margens do rio: um botão de metal amarelo com restos de linha preta, curtos pedaços de cabelo escuro em comunhão com fios compridos de cabelos loiros… e uma jovem mulher sem vida, vestida de roupa escarlate rasgada: «morte na ponte!».

O sedutor regressou a sua casa convencido de que escaparia às malhas da justiça, mas as suas inúmeras contradições em sede de interrogatório acabaram por o denunciar. Ele deu a entender que já sabia que Nora havia morrido; deixou perceber que tinha estado na ponte numa altura em que o corpo dela ainda por lá jazia; mentiu ao afirmar que tinha feito um longo jogging (duas vezes dez quilómetros!...) junto à margem, a nascente do rio (sem ter avistado ninguém), vestido com o fato de treino que ainda envergava (sem sinais de suor…), calçado com uns ténis impecavelmente brancos (que haviam pisado terreno fustigado por abundantes chuvadas na noite anterior…). Estas e outras evidências não escaparam aos polícias que conduziram as investigações.

Passava do meio-dia quando a Polícia tomou conta da ocorrência. Um guarda-florestal apareceu no posto da Polícia, que fica para os lados onde vivem o sedutor e o amigo de Nora, cerca de três quilómetros para nordeste da ponte na margem direita do rio, a fim comunicar a presença de uma mulher loira, vestida de roupa vermelha esfarrapada, com sinais evidentes de violência, caída sobre o tabuleiro da ponte…. morta! Sem perder muito tempo, os agentes da autoridade deslocaram-se para o local, levando um médico que não teve dificuldade em determinar as causas e a hora da morte da vítima: estrangulamento, entre as nove e as dez da manhã. Depois de recolhidos os vestígios relevantes, passou-se à fase de reconhecimento do corpo e às inevitáveis interrogações.

O botão de metal e o tipo de cabelo encontrados, podiam servir para ilibar em definitivo o guarda-florestal. Tratava-se de um homem de cabelo grisalho, mais branco que preto, envergando farda de caqui castanha, por norma com botões de massa cosidos por linha castanha, em nada coincidentes com o que foi encontrado. Ele tinha estado no local às nove da manhã, vindo da margem sul em direcção a norte para uma ronda, quando foi confrontado com um louco, seu primo, acometido de uma das suas mais terríveis crises de violência. A muito custo, conseguiu acalmá-lo e levou-o para casa, que fica na margem sul. Deu-lhe depois um forte calmante que o deixou a dormir. Ficou entretanto por casa e só regressou à ponte ao meio-dia, quando encontrou o corpo da mulher.

Depois de identificar o corpo, Helmer, o marido da vítima mostrou-se muito abalado. Disse que chegou às nove da manhã e estranhou não ver a mulher. Soube pelas criadas que ela havia saído na tarde da véspera, não levara telemóvel e não dormira em casa naquela noite. Foi então que teve um pensamento ruim: do outro lado do rio, na margem esquerda, morava um ex-namorado da mulher e… Amava-a e não podia admitir que ela o traísse. Foi até à ponte, por volta das nove e um quarto. Não viu ninguém (o louco já tinha sido removido…). Ficou a ver de longe a casa do antigo apaixonado da sua esposa, que dali se avistava, mas não teve coragem de se confrontar com a realidade. Ferido de morte no seu orgulho masculino, voltou para casa profundamente abatido.

O marido de Nora era um homem moreno, advogado, ainda jovem. Aparentemente, nada indiciava que ele estivesse envolvido na morte da mulher. Vestia um fato castanho, roupa que não despira desde que chegara de viagem. Os pedaços de cabelo escuro recolhidos no local do crime podiam pertencer-lhe, mas o botão (de metal amarelo) não combinava com a vestimenta que ele envergava. Por outro lado, o facto de não se ter cruzado com o guarda-florestal pode ser explicado por este morar a poente da ponte, portanto no lado oposto à sua casa, embora na mesma margem do rio. Poder-se-á admitir que no momento em que o louco era arrastado pelo guarda-florestal para poente, Helmer vinha do lado nascente, onde fica a sua moradia, em direcção à ponte.

Rank, o antigo apaixonado da vítima, era um jovem médico, com cerca de trinta anos, também moreno como o marido de Nora. Vestia calças cinzentas, uma camisa amarela e um gilet de malha bege com botões de madeira. Os pedaços de cabelos negros encontrados junto ao cadáver podiam ser seus, mas o botão amarelo de metal nada tinha ver com a roupa que envergava. É certo que podia ter mudado entretanto de look, de figurino, mas… O facto de ter começado por perguntar se tinha acontecido alguma desgraça, quando foi chamado a depor, parecia indiciar que nada sabia da morte da sua eterna apaixonada. Confessou que tinha recusado emprestar dinheiro a Nora, quando soube que ela tinha passado a noite com o vizinho, tendo-se arrependido de imediato.

Rank foi à ponte, mas já não viu a jovem… nem ninguém! É natural que não tenha visto Nora, uma vez que ela tinha ido em direcção contrária, até casa do sedutor, que fica a leste da habitação do médico. Mas é estranho que ele não tenha avistado o barqueiro, que se encontrava perto da ponte (ele só remou uns três quilómetros para a nascente do rio depois da segunda investida da jovem). É admissível, porém, que Rank não tenha de facto reparado no velho, por este se encontrar já ligeiramente afastado da ponte, quem sabe? Por outro lado, o marido de Nora já tinha regressado a casa, ardendo em ciúmes, na convicção de que ela estaria com o médico. E quando ao guarda-florestal e ao louco, também já estavam ambos longe da sua vista, no outro lado do rio.

Poder-se-ia perguntar como foi possível que, depois, no regresso a casa, Rank não se tenha cruzado com Nora. Mas a resposta pode ser muito simples: a jovem senhora Helmer estaria ainda em casa do sedutor, que, recorde-se mais uma vez, fica a leste da habitação do médico, a tentar convencê-lo do empréstimo. Tudo isto fazia sentido. Mas houve, porém, ainda uma outra atitude do jovem médico que não escapou aos investigadores como indiciador da sua inocência, exactamente quando este manifestou as suas preocupações pela segurança e bem-estar físico de Nora ao perguntar: «Não lhe aconteceu nada, pois não? O marido é tão ciumento…». Era evidente que ele não sabia realmente o que acontecera a Nora, o que não parecia ser o caso do sedutor…

Como é natural, a polícia quando iniciou os interrogatórios (individuais, em separado) não abriu o jogo, ou seja, não começou por dar conhecimento do que tinha acontecido. Aliás, isso parece muito claro nas afirmações produzidas por todos os depoentes. Só no caso de Krogstad é que a língua (norueguesa….) foi muito traiçoeira… «Coitada da rapariga, era tão bonita, não merecia acabar assim» – começou por dizer o sedutor. «Era», só pode significar que já não “é”. Ou seja, que está morta! Mas como é que Krogstad sabia que Nora morrera?! «Não merecia acabar assim», significa que ele sabia que ela “acabara” e “como”. Será que o homem é bruxo?!... Será que ele é uma espécie de Zandinga lá do sítio! Não. Um mentiroso, um assassino, é o que ele é!!!

O barqueiro não podia ser o assassino. Era um homem com sessenta anos, de cabeça branca, de baixa estatura e magro, o que não combina com os elementos que permitiram “esboçar um primeiro retrato” do homicida. Da sua cabeça não podiam cair cabelos escuros, porque os não tinha; a “farda de trabalho” de quem se dedica à tarefa de barqueiro e pescador não se compagina com o botão de metal amarelo; e a sua frágil compleição física pouco se coaduna com a natureza (violenta) do crime. Ele confessou que recusara dar boleia à jovem, quando esta o procurou por duas vezes: sempre sem dinheiro para pagar a travessia do rio. Da segunda vez, ela ofereceu-lhe um prato como pagamento, mas ele vive de dinheiro! E seguiu no seu barco em direcção à nascente.

O depoimento do mordomo de Krogstad começou por ilibar o serviçal de qualquer relação directa com o homicídio, mas acabou por ajudar a polícia a incriminar o amo. Confimou que Nora dormiu lá em casa, mas que esta saiu muito cedo, porque não a viu quando foi, ao início da manhã, ajudar o amo a vestir-se para um almoço que havia agendado para aquele dia, na cidade. Disse que o patrão vestiu nessa manhã um blazer (onde encaixam uns botões de metal amarelo…) e calças cinza. O mordomo disse ainda que o sedutor, depois de vestido, descobriu que um valioso prato de porcelana exposto numa mesinha junto à porta tinha desaparecido e ficou furioso. O mordomo foi logo de seguida para as traseiras da casa, tratar do jardim, onde ficou até ao fim da manhã.

Muito curiosa foi a forma como Krogstad se apresentou (em sua casa, presume-se…) para prestar declarações à polícia, impecavelmente vestido de fato de treino vermelho (a cor do vestido de Nora), com uma toalha branca em volta do pescoço (a parte do corpo da jovem por onde foi provocada a sua morte) e calçado com uns ténis brancos (o contraste do imaculado da pureza com a negritude da morte). O sedutor tentou explicar aquele seu ar desportivo com o facto de ter aproveitado boa parte da manhã para fazer um jogging ao longo da margem do rio, percorrendo dez quilómetros em direcção à nascente e outros tantos no sentido oposto, no regresso a casa. Segundo ele, terá terminado o exercício por volta do meio-dia e durante a corrida não viu vivalma.

Mas como é possível que ele não tenha visto ninguém, vivo ou… morto?! Por um lado, o barqueiro sustenta que, por essa altura, estava a pescar a cerca de três quilómetros da ponte, para nascente; Por outro lado, o guarda-florestal descobriu o corpo no tabuleiro da ponte, na margem sul, a essa hora; E, por fim, mesmo que o guarda-florestal ainda não tivesse chegado à ponte quando o sedutor passou por aí no fim da alegada corridinha, o certo é que a vitima já por lá jazia (o médico dissera: a morte ocorreu entre as 9h00 e as 10h00). Estranho era também o facto de Krogstad estar impecavelmente ataviado com uma roupa que supostamente estivera colada ao seu corpo durante uma corrida de vinte quilómetros (sem suor?), com uns ténis brancos… brancos, limpos!

Uma longa corrida pela margem de um rio, numa aldeia florestal (um caminho de terra batida, portanto), fustigada durante toda a noite por chuva abundante, deixaria uns ténis brancos muito pouco… brancos e cheios de lama. Com o estado do terreno, nem mesmo as calças do fato de treino escapariam a uns valentes salpicos de terra encharcada. Para além do mais, é muito estranho que um homem minimamente preocupado com a sua higiene (um irresistível e famoso sedutor…) não tenha tomado um grande banho depois da corrida e… mudado de roupa. Na verdade, o que acontece é que Krogstad mente! A forma como ele estava vestido era adequada para quem pretende iniciar uma corrida, mas inapropriada para quem a terminou (há um tempo considerável)!!!

A primeira vez que o moreno (cabelo escuro!) Krogstad saíra de casa naquele dia vestia outra roupa, como se apurou no depoimento do seu mordomo. Fora este que o vestira de manhã. Nessa altura, recorde-se, o sedutor envergava um blazer (com botões de metal amarelos!) e uma calça cinza. E foi assim que ele saiu, quando, algum tempo depois, deu por falta do prato de porcelana e percebeu que este tinha sido surripiado pela sua mais recente conquista amorosa. O que seguiu, já se sabe. Nora voltara desolada à ponte, depois do barqueiro recusar o prato como pagamento da travessia do rio, e estava sozinha no tabuleiro da ponte quando Krogstad a alcançou… Prato reclamado, prato negado, roupa rasgada, botão caído, cabelos arrancados, mulher estrangulada.

Quando o crime ocorreu não estava mais ninguém na ponte, nem suficientemente perto dela para ver ou ouvir o que passou. O louco dormia, o guarda-florestal arrumava coisas em sua casa, Helmer aguardava na mansão o eventual e desejado regresso da mulher, Rank sofria em sua casa a “dor de corno” de não ter sido o eleito de Nora para uma “facadinha” no matrimónio, o barqueiro dedicava-se à pesca a cerca de três quilómetros dali e o mordomo tratava do jardim. O sedutor ainda gastou mais algum tempo no local a procurar o seu valioso prato de porcelana que, mais tarde, tentaria desvalorizar no “confronto” com a polícia, mas cedo percebeu que o melhor seria trocar de roupa. Equipado de fato de treino, talvez voltasse mais uma vez ao local do crime…

Na versão que tentou defender em sede de interrogatório, o sedutor admitiu ter estado na ponte, no inicio da manhã. Disse que tinha ido em busca de Nora, preocupado por não lhe ter emprestado o dinheiro para a travessia do rio. Ela não estava lá, pelo que terá concluido que já estaria em casa. Entretanto, decidira não comparecer no almoço que havia programado, tendo optado por mudar de roupa e fazer uma corridinha junto à margem. No final do jogging, ao chegar a casa, disse ter detectado a falta de um prato de porcelana que tinha junto à porta de entrada. Desta afirmação resulta uma contradição importante: o mordomo dissera que o desaparecimento do prato fora detectado de manhã e ele diz que só dera conta desse facto ao início da tarde.

O jogging matinal nunca existiu e não foi esse o motivo que levou Krogstad a trocar a formalidade do conjunto “calça/casaco” por um informal fato de treino. A razão porque ele mudou de roupa foi outra. Ao regressar a casa, depois de assassinar Nora, o sedutor detectou que tinha perdido um botão do seu blazer. Foi talvez por isso que ele perguntou se a polícia não tinha encontrado alguma coisa na ponte (será que ele se referia também ao valioso prato de porcelana?!). «Eu não encontrei» - disse. O que revela que andou por lá à procura (do botão, do prato ou dos dois objectos?). E porquê na ponte? Como é que ele soube que a morte ocorrera na ponte? Quem o disse? Não era preciso que alguém o dissesse, porque ele o sabia. Foi ele que matou Nora!!!

Por detrás deste triste acontecimento ocorrido na terra natal de Henrik Ibsen, um dramaturgo que assinou algumas das mais importantes obras do teatro universal, como “Hedda Gabbler”, “Fantamas”, “O Ganso Selvagem”, “O Mestre Construtor” ou “Quando Nós Os Mortos Acordamos”, esconde-se a curiosidade dos seus protagonistas terem o nome de quatro personagens da peça “Uma Casa de Bonecas” daquele autor norueguês. Nesta obra de Ibsen, Nora foi educada para ser a mãe perfeita e a esposa obediente; Helmer, o marido, vive em função do trabalho, em busca de notoriedade e poder; Krogstad é um homem sem escrúpulos, que vive de expedientes; Rank é um médico que acalenta a secreta esperança de merecer os favores amorosos de Nora.

Nesta sua obra, Ibsen questiona as convenções da sociedade e a (des)construção do individuo dentro e fora dela. Através de Nora, ele mostra como muitas mulheres foram e ainda são tratadas como seres frívolos, bibelots frágeis ou bonecas desprovidas de inteligência (chega a ser impressionante como um texto escrito há quase 130 anos é ainda hoje tão actual). Mas não se pense que tudo se resume a uma crítica à sociedade machista. Nesta peça é sobretudo questionada a possibilidade e a viabilidade real da assunção e prática de valores como a moral, a ética, o amor e a individualidade nas relações inter-pessoais, no contexto do matrimónio, quando ele é somente uma vida a dois, e não uma vida em comum, uma parceria, como o casamento deveria ser.

Na peça de Ibsen, o sonho dourado de um casamento feliz, que Nora projectara na sua relação, revelara-se falso, um embuste. A sua vida transformara-se numa espécie de “casa de bonecas”, onde tudo funcionava bem, ao gosto de quem a controlava. Contra o conforto dessa letargia, Nora impõe-se a si mesma o desafio de viver sozinha, de pensar sozinha, de ganhar experiência do mundo para dela extrair sua própria compreensão. Sua postura pode ser taxada de inocente, e não o deixa de ser, pois ela sentia-se como uma criança que percebia todo um mundo lá fora, e queria sair para explorá-lo sem reservas, ainda que se expondo a todos os seus riscos. Se nos dias de hoje tal visão ainda é considerada subversiva, na sociedade vitoriana do século XIX era uma heresia.

Envolvido neste balanço crítico aos valores da sociedade, o Inspector Boavida decidiu aceitar o repto lançado por dois Búfalos, que vivem “associados” numa acolhedora habitação para os lados da Damaia, e passou uma noite de ameno convívio na mansão sintrense dos reis do jet-set nacional, o eunuco abichado José Castelo-Branco e a monstra americana Betty Grafstein, em companhia da santanete Cinha Jardim e da cara mais plastificada da nossa praça (Lili Caneças), jogando o Teste Psicológico que fez furor nos anos sessenta. A mulher, o marido, o louco, o barqueiro, o sedutor e o amigo, ocuparam aquelas ilustres cabeças durante duas horas, cinco garrafas de champanhe francês, três dúzias de frescas ostras e pratadas de caviar… Eis o resultado do teste:

Eu
Mulher
Sedutor
Amigo
Barqueiro
Marido
Louco

Zé Castelo-Branco
Louco
Barqueiro
Sedutor
Amigo
Mulher
Marido

Betty
Marido
Louco
Barqueiro
Sedutor
Amigo
Mulher

Cinha Jardim
Sedutor
Amigo
Mulher
Marido
Louco
Barqueiro

Lili Caneças
Amigo
Marido
Louco
Mulher
Barqueiro
Sedutor


A escolha do Inspector Boavida quanto ao grau de responsabilidade dos intervenientes na morte da mulher explica-se facilmente: 1º - a mulher, porque se expõe ao perigo apenas para proteger aos olhos do marido a sua hipócrita máscara de esposa fiel; 2º - o sedutor, porque revela uma sórdida mesquinhez de carácter absolutamente condenável; 3º - o amigo, porque revela uma personalidade execrável ao ser preterido pelo sedutor; 4º - o barqueiro, porque privilegia o vil metal quando está em causa a vida do seu semelhante; 5º - o marido, porque vota a jovem esposa a noites de solidão; 6º - o louco, porque… é louco, coitado, não sabe o que faz. Bom! E quanto às razões da escolha dos quatro parceiros de Boavida… os Búfalos que se pronunciem, ora essa!...


PÚBLICO-POLICIÁRIO
CAMPEONATO NACIONAL e TAÇA DE PORTUGAL
Temporada 2007-2008


Prova nº 4 / 4ª. Eliminatória


“O Naufrágio do Veronese”, de Bernie Leceiro


Nas suas deambulações pelos arquivos históricos da biblioteca Florbela Espanca, em Matosinhos, o detective Alves da Selva, assim apelidado pelos amigos devido ao seu mau feitio e aspecto – farta cabeleira ruiva que em tudo se assemelhava à juba de um leão –, encontra uma carta com um curioso agradecimento de um cidadão brasileiro ao capitão de um salva-vidas da Póvoa do Varzim que, supostamente, terá estado envolvido na acção de salvamento dos passageiros e tripulação de um vapor inglês de nome Veronese que encalhou junto à praia da Boa Nova, em Leça da Palmeira.
O Veronese zarpou de Liverpool, fez escala em Vigo e encalhou junto à praia da Boa Nova, em Leça da Palmeira, no dia 16 de Janeiro de 1913, devido a um forte temporal. Tinha a bordo 232 pessoas. Este trágico acidente foi o maior de que há memória nas águas de Matosinhos.
Alves da Selva, um apaixonado pela vida marítima e as suas apaixonantes histórias, resolveu de imediato fotocopiar a carta que abaixo se transcreve e iniciar a investigação de uma história que poderia ser bastante curiosa…

“Rio de Janeiro, 20 de Outubro de 1913

Caro amigo e digníssimo capitão Lagoa,

Escrevo-lhe uma vez mais para lhe agradecer o seu acto de bravura no nosso resgate do vapor Veronese.
Efectivamente, caro amigo, ainda hoje me arrepio com a história que me contou tão amavelmente, já no conforto do seu lar, sobre a forma determinada como as gentes da Póvoa do Varzim, às quais também estarei eternamente grato, voluntariamente se uniram e transportaram em ombros o seu barco até ao comboio que o levaria a Matosinhos, para que o senhor e a sua tripulação, num impensado desprezo pelas próprias vidas, embarcassem para salvar as nossas almas desprotegidas que estavam à mercê daquele mar revoltoso.
Na noite do naufrágio, segunda-feira, na companhia da minha mulher Lídia e do comandante do Veronese, Cristophe Turner, já depois de termos largado de Vigo, comentava a má sorte que nos tinha acompanhado nesta viagem à Europa no sentido de nos afirmarmos como músicos profissionais – eu como violinista e ela como pianista –, nos bares de Liverpool. Falávamos sobre a possibilidade de desembarcar em Leixões e tentar a sorte na cidade do Porto, onde teríamos a vantagem de falar a mesma língua, e onde ainda não teria chegado a loucura dos novos ritmos negros do jazz de Duke Ellington, Fats Waller e Louis Amstrong tão em moda nas cosmopolitas cidades inglesas.
Foi já perto das duas da manhã, quando só estava na companhia da minha inseparável garrafa quase vazia de Cutty Sark – como costuma dizer um amigo meu, o “uísque é o melhor amigo do homem, é o cachorro engarrafado” – que tudo aconteceu: um enorme estrondo no convés e de repente o caos instalou-se e parecia que o mundo iria acabar. O mar estava agitadíssimo, com vagas impetuosas e altas batendo furiosamente no costado do navio, galgavam e varrendo o convés. A neblina cerrada envolvia o barco, que apitava, pedindo socorro.
Foram longas as horas de espera, as tentativas contínuas dos Bombeiros Voluntários de Leixões para passar os cabos de vaivém, o desespero dos populares na praia, ali tão próxima, até que você e os seus homens surgem do meio do temporal no seu barco Dragão Azul para nos salvar.
Este deve ser um ano amaldiçoado para o construtor de navios Penman, Clark & C.ª, Ld.ª, pois um outro navio por ele construído, de seu nome Workman, afundou-se há poucos meses aqui na baía de Guanabara, felizmente sem vítimas mortais.
Quem lhe escreve esta carta, caro capitão Lagoa, acredite que deve ser o homem mais feliz do mundo, pois acabo de ser pai de um menino muito bonito, que nasceu ontem, e que sem a sua bravura e das suas gentes certamente não teria nascido.
O que o senhor não sabe é que, provavelmente, terá sido debaixo do seu tecto, e na ressaca da alegria que o seu salvamento nos proporcionou, que o meu filho terá sido concebido e, como tal, é com enorme alegria e satisfação que lhe comunico que, em sua homenagem, o meu filho se chamará Marcus como o senhor e Vinicius como o avô.
Aceite um grande abraço deste homem feliz e eternamente grato ao grande capitão Lagoa,

Clodoaldo Pereira da Silva Moraes”

Pergunta-se aos leitores: Poderão ajudar o detective Alves da Selva a verificar a veracidade desta carta? Poderá existir alguma relação entre o naufrágio do Veronese e um personagem da história cultural e política do Brasil? Explique as suas opções.


Solução de Inspector Boavida

Tipo de Ocorrência: Carta forjada por pessoa incerta, com objectivos desconhecidos, onde se agradece a um pescador (e Patrão do Salva-Vidas “Cego do Maio”) da Póvoa do Varzim e às suas gentes, o acto heróico de salvamento dos tripulantes e passageiros do navio inglês Veronese quando este naufragou junto a praia da Boa Nova, em Leça da Palmeira, nos idos de Janeiro de 1913.

Vítima: Alves da Selva, medíocre detective nortenho e esforçado “rato de biblioteca”, obrigado a consumir o seu tempo a vasculhar o nosso passado comum por falta de trabalho no momento presente e sem grande esperança no seu futuro profissional.

Data da Ocorrência: Depois de 9 de Maio de 2005, num qualquer dia dos muitos dias em que Alves da Selva sofre as “dores” da falta de ocupação como investigador, talvez devido ao seu conhecido mau feitio e aspecto menos cuidado.

Local da Ocorrência: Biblioteca Florbela Espanca, infra-estrutura da autoria do arquitecto Alcino Soutinho, situada nas traseiras do edifício da Câmara Municipal de Matosinhos, e inaugurada a 9 de Maio de 2005 pelo anterior Presidente da República Jorge Sampaio.

Suspeitos do Crime: Todos os funcionários e frequentadores da Biblioteca Municipal Florbela Espanca são suspeitos de crime de falsificação desta carta que ainda hoje traz atormentado o pobre detective Alves da Selva…

Autor do Crime: Um qualquer ferrenho Dragão que detesta o mau feitio e aspecto desagradável do detective Alves da Selva, cuja alcunha (da Selva) suspeita ser originada por uma ligação do investigador aos leões de Alvalade.


Era Uma Vez…
Uma Carta de Um Brasileiro Escrita em Português… de Portugal”


O popular detective nortenho Alves da Selva, habitual cliente do Arquivo Histórico da Problemística Policiária Portuguesa, que o veterano coca-bichinhos Jartur vem construindo com zelo e paixão, consome boa parte do seu tempo livre em deambulações pelas mais variadas bibliotecas e arquivos da área metropolitana do Porto, vasculhando o passado. Diz ele que numa dessas inúmeras pesquisas descobriu recentemente na Biblioteca Florbela Espanca, em Matosinhos, uma curiosa missiva de um alegado sobrevivente do naufrágio do navio inglês Veronese, ocorrido em águas portuguesas nos inícios de 1913, que agradecia penhoradamente ao seu salvador. Desconfiado da autenticidade da carta, o Alves da Selva decidiu pedir ajuda aos policiaristas do jornal PÚBLICO.

Eu não podia ficar indiferente a este pedido do confrade Leceiro, por inúmeras razões. Primeiro, por solidariedade e dever de ofício. Depois, porque não quero perder pontos no Campeonato Nacional, no Ranking, no Policiarista do Ano… nem ser eliminado da Taça de Portugal. Portanto, vamos lá a isto. Para já, bastou-me fazer uma leitura corrida da carta para perceber que ela não merece qualquer crédito, uma vez que é assinada por um cidadão brasileiro e… está redigida em português de Portugal. Por outro lado, a pessoa a quem é atribuída a sua autoria chama-se Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, pai do grande poeta, compositor e diplomata Vinicius de Moraes, e ele não estava a bordo do Veronese no dia do seu naufrágio junto à praia da Boa Nova, em Leça da Palmeira.

Acresce ainda que a missiva está escrita com grafia actual e trata o seu destinatário por “Capitão” Lagoa, quando é suposto ter sido endereçada há quase 95 anos a um homem que nunca ostentou tal patente. A pessoa a quem a carta se refere foi pescador e Patrão do barco Salva-Vidas Cego do Maio, que resgatou do vapor inglês cento e noventa e duas pessoas. Abro aqui um parêntesis para recordar que o nome do barco salvador prestava homenagem a um dos mais respeitados pescadores poveiros, de seu nome verdadeiro José Rodrigues de Maio, mais conhecido como Cego de Maio, que durante a segunda metade do século XIX salvou das fúrias do mar dezenas de pessoas, cometimento que lhe valeu várias condecorações oficiais, como o Colar de Cavaleiro de São Tiago da Torre e Espada.

O homem a quem a carta se dirige ficou imortalizado pelo nome de Patrão Lagoa, mas na verdade chamava-se Manuel António Ferreira. Foi ele de facto o grande herói do naufrágio do navio Veronese, que transportava 232 pessoas (isto, de acordo com a placa instalada pela Câmara de Matosinhos junto à Casa de Chá do Siza…) – embora outras “fontes” refiram 221 –, quando encalhou, na praia da Boa Nova, a 16 de Janeiro de 1913. Esta diferença quanto ao número de náufragos não tem, porém, qualquer relevância, comparativamente às inúmeras inverdades e imprecisões referidas pelo autor da missiva forjada. Como primeira nota, refiro que é pouco provável que o Patrão Lagoa lhe tenha descrito os acontecimentos que antecederam a operação daquele salvamento em massa, algum tempo depois, no “conforto do seu lar”.

Como se constata nos vários relatos da época, os sobreviventes do naufrágio ficaram sob a protecção das autoridades oficiais, que os deslocaram para Lisboa e mais tarde para Inglaterra, depois de socorridos em terra, pelos bombeiros locais, em improvisados hospitais no areal da praia. Se o alegado passageiro brasileiro tivesse conseguido escapar ao controle das autoridades, gozando do privilégio de ter estado em casa do Patrão Lagoa (viajando com este, com os demais poveiros que constituíam a tripulação do Cego de Maio e com a sua própria esposa, para a Póvoa de Varzim) não encontraria razões para falar no “conforto do seu lar”. O Lagoa era um humilde pescador, e a sua casa, como todas as habitações dos homens que então viviam da pesca, era tudo menos “confortável”.

A verdade, porém, é que a pessoa que escreveu a carta datada de 20 de Outubro de 1913 teve conhecimento de boa parte de tudo o que se passou em terra antes do resgate dos ocupantes do Verenose. Ele soube da “forma determinada como as gentes da Póvoa se uniram e transportaram em ombros o barco” do Patrão Lagoa “para o comboio, que o levaria até Matosinhos”. Bom, aqui existe um pequeno desfasamento entre o que ele escreve na sua carta e os relatos da época. O que se pode ler nos relatos do naufrágio a que acedi, é que o comboio levou o barco até… Leixões (o que não era a mesma coisa, na época), e onde se diz também que os pescadores agiram “num impensado desprezo pelas próprias vidas“, frase textualmente usada na carta descoberta na Biblioteca Florbela Espanca.

A forma como a falsa carta descreve o momento do naufrágio também coincide com os relatos históricos, quando se afirma que os passageiros e tripulantes do navio inglês estavam completamente à mercê do mar revoltoso. O estado do mar era terrível e assustador na altura em que o navio encalhou, não permitindo a utilização dos botes salva-vidas, uma vez que o temporal e o tamanho das vagas destruiriam facilmente aquelas pobres e frágeis embarcações. Aliás, era tal a força das águas que o próprio Verenose ameaçava desfazer-se a qualquer momento. Se não fosse a coragem do Lagoa e dos seus companheiros, bem como a forma engenhosa como decidiram actuar, ninguém se salvaria naquela noite de quinta-feira (não segunda-feira, como se refere erradamente na carta).

Os erros constantes da missiva são tantos e tão grosseiros, que nem sei por onde começar. Valerá talvez a pena referir, por exemplo, que o naufrágio do Veronese aconteceu às cinco horas e não às duas. E já agora convém recordar que Clodoaldo Moraes, a quem é atribuída a autoria da carta, não era violinista, mas sim violonista (tocava violão) e que, nem ele nem a sua mulher (a pianista Lydia – com “y” – Cruz de Moraes), eram músicos profissionais. Eles eram, sempre foram, apenas amadores! E que se saiba nunca saíram do Brasil para tocar. Não faz sentido, assim, que uma eventual viagem do casal até à Europa tivesse como objectivo a sua afirmação como músicos profissionais nos bares de Liverpool, nem tão pouco que resolvessem tentar a sua sorte nos palcos da cidade do Porto.

Sem correr qualquer risco de cometer o mínimo de exagero, tenho para mim que esta carta representa um embuste do tamanho da légua da Póvoa. Quero crer, aliás, que a junção de tantas confusões, incongruências e mentiras num único documento só pode ter origem numa mente transtornada. Na verdade, só isso explicará a troca do nome do comandante do Veronese. Sim, porque, ao contrário do que é afirmado, ele não se chamava Christophe, mas Charles. Charles Turner. Enfim, tenho a firme convicção de que esta troca de nomes, bem como a referência à existência, em 1913, de uma garrafa de Cutty Sark, marca criada apenas dez anos mais tarde, quando a empresa Berry Bros decidiu lançar no mercado um novo whisky, só pode ter como explicação uma qualquer patologia mental.

Mas há, ainda, muito mais mentiras na carta. É falso, por exemplo, que o jazz estivesse nessa altura em moda nas cosmopolitas cidades inglesas, onde alegadamente Duke Ellington, Fast Waller e Louis Armstrong faziam furor. Tudo mentira! O jazz só começou a ser conhecido na Europa na década de quarenta. O extraordinário Ellington começou a sua carreira musical como pianista e só enveredou pelo movimento jazzistico em terras do Tio Sam na década de vinte, exactamente na mesma altura em que o (também) negro norte-americano Armstrong (não Amstrong!) começava a distinguir-se no panorama do jazz no seu país. Quanto a Waller, o seu enorme talento de pianista só começou a despontar em 1924, quando gravou o seu primeiro disco nos Estados Unidos da América.

As inverdades contidas na carta não se ficam por aqui. É correcto que 1913 foi um ano amaldiçoado para os construtores do Veronese, porque, para além deste navio, também nesse ano, de má memória para a navegação marítima, naufragou o vapor Workman (exactamente em 8 de Março de 1913). Mas não é verdade que a empresa construtora daqueles navios se chame Pennan, Clark & Cª, Lda, assim como o Workman não se afundou na Baía de Guanabara, no Brasil. E também não é correcto que não tenha havido vítimas mortais neste acidente. A companhia construtora daquelas embarcações chama-se Workman, Clark e Co.; o Workman afundou-se na brasileiríssima Barra da Tijuca, praia do Recreio dos Bandeirantes, e morreram dois tripulantes em consequência do naufrágio.

Mas, como já referi, não há apenas mentiras na carta. Ela também relata pormenores verdadeiros. Por exemplo, quando se diz que o Veronese começou a viagem em Liverpool e fez escala em Vigo antes de encalhar em Leça ou quando se diz que foram utilizados cabos de vaivém para o resgate das pessoas e que foram longas as horas de espera, estamos perante factos que correspondem à verdade. Mas quando se faz referência aos “Bombeiros Voluntários de Leixões”, comete-se um erro grosseiro, uma vez que naquela altura a corporação que esteve envolvida nas operações de salvamento chamava-se Bombeiros Voluntários de Matosinhos Leça (ou de Leça da Palmeira). Outro erro gritante cometido na carta radica no facto de se dizer que o barco do Lagoa se chamava “Dragão Azul”…

O nome da corporação de Bombeiros e a designação do barco salva-vidas do Lagoa, levam-nos a concluir que esta carta assinada por um falso Clodoaldo Moraes foi escrita nos tempos presentes por um ferrenho portista, a partir de elementos recolhidos à pressa em qualquer arquivo (na Biblioteca Municipal Florbela Espanca, por onde andou o Bernie Leceiro a preparar a produção do problema) ou na internet (por onde eu naveguei durante algumas horas…), só para chatear o Alves da Selva. Como já referi atrás, o barco do Lagoa chamava-se Cego de Maio e não “Dragão Azul”. O nome falso do barco leva-me a suspeitar que o verdadeiro autor da carta tenha uma forte ligação afectiva ao Futebol Clube do Porto – quem sabe se ele não será até membro activo dos Super Dragões?!...

Não, não estou a crer insinuar que este caso está relacionado com qualquer das pessoas envolvidas no famoso processo Apito Dourado ou referidas no best-seller Eu, Carolina. Confesso que não estou a pensar em ninguém em particular, designadamente num tal Fernando Madureira ou noutros homens da noite portuense alegadamente participantes no ajuste de contas que levou o político Ricardo Bexiga ao hospital com os queixos partidos. Nada disso!... Estou apenas a sublinhar o facto da expressão Dragão ter nascido como sinónimo de adepto do FC Porto durante o consolado do Pintinho da Costa. Até essa altura, os sócios e simpatizantes do clube eram apenas conhecidos como tripeiros ou portistas, pese embora o Dragão ser o símbolo daquela colectividade desde a sua fundação.

De uma coisa eu estou certo: a pessoa que forjou a carta tem problemas de iliteracia e dislexia. Se ele soubesse interpretar o que eventualmente terá lido nas obras Homens do Mar da Póvoa, de José de Azevedo, e A Epopeia dos Humildes, de Santos Graça (ambas depositadas no arquivo histórico da Biblioteca Municipal Florbela Espanca), onde se diz claramente que o estrondo ouvido no Veronese quando o navio chocou contra as rochas proveio do porão, não teria escrito que o barulho do embate adveio do “convés”. Acresce que o falsificador comete ainda erros de identificação do tempo e do espaço na sua escrita, datando acontecimentos em épocas anteriores à sua verificação. Foi o que aconteceu ao citar a frase «o uísque é o melhor amigo do homem, ele é o cachorro do homem».

A frase supracitada é da autoria de Vinicius de Moraes, nascido apenas um dia antes da data que encima a carta em apreço, e que só começou a utilizar aquela máxima na idade adulta, altura em que passou a ter por companheira inseparável uma (no recital realizado no Teatro Villaret nos anos setenta, teve mais…) garrafa de whisky. Já agora, devo dizer que, ao contrário do que afirma o autor da carta forjada, este grande vulto da cultura brasileira foi baptizado com o nome de Marcus Vinitius (mais tarde alterado para Vinicius…) Moraes. E não foi “Marcus” em homenagem ao Patrão Lagoa, uma vez que este se chamava Manuel. Como também não recebeu o nome de Vinit(c)ius por ser esse o nome do avô, uma vez que os seus avós se chamavam Anthero (do lado paterno) e António (do lado materno).

Para terminar, devo dizer que o nome completo do poetinha (alcunha daquele que foi considerado como um dos pais da bossa nova e um dos principais impulsionadores da chamada nova música popular brasileira) era o seguinte: Marcus Vinicius da Cruz e Mello Moraes. Devo ainda sublinhar que ele não foi concebido em Portugal e muito menos na Póvoa de Varzim. Primeiro, porque, como já referi, os seus pais não figuravam na lista de passageiros do Veronese aquando do seu naufrágio (nem estiveram no nosso país no nono mês anterior ao seu nascimento). Segundo, porque, a casa do Lagoa (mesmo que se entenda como “confortável”…) era muito pequena e não permitiria, obviamente, a privacidade mínima para que um casal de náufragos se desse ao luxo de uma noite de amor.

«Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia
Entrar nela não
Porque na casa
Não tinha chão
Ninguém podia
Dormir na rede
Porque a casa
Não tinha parede
Ninguém podia
Fazer pipi
Porque penico
Não tinha ali
Mas era feita
Com muito esmero
Na Rua dos Bobos
Número Zero»
(Vinicius de Moraes)

Poeta, compositor, intérprete e diplomata brasileiro, nasceu no Rio de Janeiro em 19/10/1913, onde viria a falecer em 09/07/1980. Escreveu o primeiro poema aos 7 anos. Cursou Direito no Rio e Literatura Inglesa em Oxford. Como diplomata, andou por Los Angeles, Paris e Montevideu. Foi crítico cinematográfico. Participou em vários festivais de cinema (Cannes, Berlim, Locarno, Veneza e Punta del Leste) e, em 1966, foi membro do Júri Internacional de Cannes). Aos 19 anos publicou o seu primeiro livro de versos, Caminho para a Distância, e aos 22, Forma e Exegese. Em 1936 saiu Ariana, a Mulher, que é o apogeu da sua fase mística. Começou então a usar uma sintaxe mais popular, e a sua lírica carrega sensualismo a partir de Cinco Elegias (1938) e Poemas, Sonetos e Baladas (1948), enriquecendo-se depois com temas de sentido social. Publicou então Livro de Sonetos, Procura-se uma Rosa e Para Viver um Grande Amor. O drama Orfeu da Conceição estreou no teatro em 1956 e foi transposto para o cinema por Macel Camus em 1959 (como Orfeu Negro). Ganhou nesse ano a Palma de Ouro do Festival de Cannes e o Oscar de Hollywood para o melhor filme estrangeiro. Na década de 60 junta-se a jovens músicos no movimento conhecido como Bossa Nova. Compôs com Tom Jobim, a música Garota de Ipanema, símbolo de uma época. Uma grande quantidade de poemas seus foi posteriormente musicada.


PÚBLICO-POLICIÁRIO
CAMPEONATO NACIONAL e TAÇA DE PORTUGAL
Temporada 2007-2008

Prova nº 5 / 5ª. Eliminatória

“Nelinha – Uma Estrela no Céu”, de A. Raposo & Lena

Esta é mais uma história escabrosa do conhecido detective Tempicos.
“Tenho vindo a sofrer muito, ultimamente.
Eu sei que as mulheres têm sido a minha perdição e a culpa é minha, pois continuo um pinga-amor. Está-me na massa do sangue e não há nada a fazer! Acabo sempre vítima dos meus desmandos.
Em 22 de Abril de 2007 veio publicado um caso dos confrades Búfalos Associados, no PÚBLICO-Policiário e, mais atrás, um outro contando a minha ida a Paris com a Nelinha em 1972.
Quando hoje penso no caso, já não sei se fui com ela ou com a sua irmã gémea.
Contava quem as conheceu bem que Nelinha teria tido uma irmã gémea, do mesmo óvulo! Nunca a vi, nem nunca mais ouvi falar no caso. A Nelinha nunca me adiantou nada e eu respeitei o seu silêncio. Desconfio que foram separadas à nascença e uma delas foi adoptada!
(Entretanto, há pouco tempo, chegou-me um telefonema de um advogado de Nova Iorque, que me informou que alguém, estrela na Broadway, estaria interessada em legar, em testamento, a sua fortuna à Kátinha – filha da Nelinha, de quem sou padrinho e que vive comigo desde que a sua mãezinha se finou. Fiquei surpreendido e, por mais que eu tentasse, a informação não foi além disso.)
Mas as memórias são como as cerejas, vêm sempre umas atrás das outras: lembrei-me agora que, quando fui a Paris com a Nelinha, em 1972, estávamos no Louvre e ela, a determinada altura, pediu-me o meu canivete suíço. Não liguei ao caso e quando já vínhamos de regresso, no comboio, a Nelinha apresentou-me um diamante, de enorme tamanho!
(No relato dos Búfalos Associados é mencionada uma estatueta roubada. Mentira, foi um diamante enorme!)
Disse-me com o ar mais angelical do mundo que vira uma vitrina com uma abertura e com o canivete que lhe emprestara tinha deslocado a gema de uma tiara exposta.
Fez um trabalho tão perfeito que nenhum alarme soou. A Nelinha – ingénua – não alcançara o problema que nos poderia ter saído na rifa!
Meti a pedra no bolso e disse-lhe que depois se veria o que fazer. A pedra deveria ser muito valiosa e eu na altura não tinha como resolver o assunto. Entretanto, com o cansaço, adormeci e quando acordei a pedra tinha-se pura e simplesmente evaporado… Bizarro!
Em 2006, como devem estar recordados, e para mal dos meus pecados, a Nelinha apareceu morta, no Museu do Teatro, aquando do Convívio da Tertúlia da Liberdade.
Todo o mundo me acusou da sua morte. Um papel na mão da Nelinha, machucado, dava a entender que fora eu. Nunca se veio a provar! E assim fui preso, acusado e julgado, mas não fui incriminado, por falta de provas.
Resolvi, agora, rever todos os acontecimentos. Lembrei-me que com a minha máquina fotografara todos os cantos da cena do crime. Fiz dezenas de fotos.
Neste momento estou a revê-las, tentando decifrar o caso.
Numa das mesas havia um livro que, mais tarde, a senhora da biblioteca veio dizer-me que alguém lá o deixara, esquecido. Não me ocorre o título, mas era sobre as memórias de um antigo personagem histórico. Se calhar era mais uma pista deixada pela Nelinha e a que nós não ligámos.
Noutra mesa, junto ao corpo caído da Nelinha, estavam desenhadas com o dedo no pó umas letras que eram: JLZPGUZ. Um enigma que a Nelinha deve ter deixado escrito no pó do tampo. Lembro-me de ter ensinado à Nelinha uns jogos sobre criptografia. Ela aprendia depressa…
Numa outra foto nota-se a janela, ao fundo, meio aberta e uma corda a pender da balaustrada de ferro, para a rua. Com tantos policiaristas a passarem pela sala e ninguém descobriu nada. Que rico ramalhete, benza-os Deus!
Sem dúvida que a Nelinha teria desconfiado daquele encontro, marcado – julgo – em meu nome. Sabia quem era a pessoa que a convidara, ou, no mínimo, desconfiara.
Algo se passou que levou à morte da Nelinha e à minha incriminação. Eu tinha contado a alguém que trabalhava comigo na altura acerca do diamante retirado pela Nelinha, do meu bolso, e a respectiva história. Seria por causa do diamante que a Nelinha tinha morrido?
E agora? Também não tenho provas para acusar ninguém e começo a ter dúvidas sobre a própria morte da Nelinha.
Mas, para mim, a Nelinha morreu e o verdadeiro assassino anda por aí a assobiar!

Resumindo: o que me resta é um problema policial e as sacramentais perguntas da ordem:
– Quem matou a Nelinha?
– Qual o nome que corresponde ao enigma?
– Qual o título do livro que alguém deixou na biblioteca?

Mas não julguem que com estas questões encerramos o relato das minhas aventuras.
Em Setembro de 1999, atingi os 64 anos e reformaram-me compulsivamente da PJ. Fui eu e mais três camaradas, entre os quais o Garçôa. No último dia de trabalho, ia eu a sair do edifício, já no passeio, quando alguém chocou comigo vindo em sentido contrário. Só quando entrei no carro me apercebi que me tinha sido surripiada a carteira e, com ela, todos os documentos.
Requisitar de novo a documentação – não queiram saber – deu-me um trabalhão. Depois de ter reunido de novo os documentos, a carteira foi encontrada num marco de correio. Fiquei com os documentos em duplicado. O dinheiro que tinha, esse, voou!
Apesar deste contratempo, eu e mais os colegas reformados mais amigos, entre eles o Garçôa (éramos quatro ao todo), combinámos dar um passeio de carro, todos os anos em Setembro.
Em 2000 lá fomos dar a nossa voltinha. A certa altura, fiz uma travagem brusca para evitar um acidente. Acontece que bati com a cara no vidro pára-brisas e os meus óculos voaram e foram aterrar nas orelhas do Garçôa, que seguia no banco atrás do meu. A malta riu-se, mas eu não achei muita graça, pois tinha partido a cana do nariz e os meus olhos ficaram azuis que até parecia que tinha óculos escuros. Isto apesar de eu ter colocado o cinto de segurança e o ter apertado, penso.
Devo ter explicado mal a travagem às autoridades porque me cassaram a carta, e proibiram-me o volante, durante dois anos.
Porém, como tinha outro exemplar da carta, aquela que voltou a reaparecer na carteira roubada, foi o que me valeu para poder andar regularmente. Passei durante os dois anos por diversas operações stop e ninguém me aborreceu, mas o certo é que os médicos só me deram como apto para conduzir depois de longas observações à minha cabecinha.
O meu colega Garçôa insiste em contar uma versão divergente desta história. Mas quase que juro que tudo foi como contei, a menos que os leitores não estejam de acordo comigo. Nesse caso, a história muda de figura. Compete-lhes apresentar a prova.”


Solução de Inspector Boavida

Ocorrências
: Venturas e desventuras de um detective pouco credível, que vive actualmente os seus dias em busca da verdade de um crime que lhe roubou para sempre uma das mulheres da sua vida… ao mesmo tempo que vai contando mentiras aos amigos!

Vítimas: Nelinha (Manuela) ou Leninha (Madalena), pouco importa o seu nome, uma jovem mãe solteira esfaqueada numa biblioteca é a vítima de um crime que tem cerca de dois anos, mas cujos resultados deixaram sementes de vingança que começam a ganhar contornos completamente imprevisíveis e quase patológicos… As outras vitimas são os ”detectives de domingo” que já não têm pachorra para “caçar mentiras”!

Locais das Ocorrências: A primeira ocorrência (o homicídio) registou-se no Museu do Teatro, em Lisboa; as outras aconteceram algures… ou talvez nunca tenham acontecido!...

Datas das Ocorrências: O homicídio cometido no Museu do Teatro ocorreu no dia 21 de Maio de 2006, quase nas “barbas” de 37 pessoas que compareceram no II Convívio da Tertúlia da Liberdade e que ainda hoje questionam as razões da ausência do “homem dos pássaros” e da “bancada directa”... Quanto às mentiras reportam-se a um período temporal de dois anos, com início em Setembro de 2000.

Suspeitos: No caso do homicídio, todos são suspeitos. No caso de mentiras, importa apenas elencá-las… porque o suspeito já todos o conhecem de “ginjeira”!

Autores: O homem que matou a mãe de Kátia Vanessa chama-se Onaírda, Adriano como o Imperador Romano de quem Marguerite Yourcenar escreveu as memórias. O homem que “mata” a paciência dos detectives com as mais incríveis mentiras “vive” na cabeça de um matreiro Raposo: Tempicos, de seu nome!


Era Uma Vez…
Uma Estrela nos Palcos, nos Ecrãs, na Cama… Perdão, na Vida, e na Morte!


A edição de hoje do New Yorky Times publica a toda a largura da sua primeira página uma foto da mítica Nelly Purification, a maior e mais disputada estrela do teatro e do cinema norte-americano, que começou por brilhar na off-Broadway, no Manhattan Theatre Club, a 23 de Novembro de 1972, como intérprete de uma pequena peça de um desconhecido dramaturgo português, tendo saltado algum tempo depois para os grandes palcos nova-iorquinos, onde protagonizou os mais diversos êxitos musicais, como actriz e cantora, antes de singrar na sétima arte. O título que faz a manchete daquele prestigiadíssimo jornal deixou os Estados Unidos da América em estado de choque: «morreu a nova coqueluche do teatro e do cinema».

Nas páginas centrais, o New Yorky Times passa em revista a vida da estrela Nelly, com depoimentos de alguns dos seus mais fiéis admiradores e companheiros de profissão, onde se destaca o consenso da crítica e do público relativamente ao seu talento de artista e se levanta o véu sobre o seu lado humano e as suas origens. Através deste artigo ficamos a saber que a partida da actriz lusa para os Estados Unidos ocorreu em meados de 1972, após uma visita ao Museu do Louvre, quando já se encontrava dentro do comboio que a levaria de volta ao seu torrão natal. Deixou o companheiro de viagem a dormir e pegou na sua bagagem, que continha apenas alguma roupa, muitos sonhos, uma peça inédita de teatro policial e… uma jóia de grande valor.

O autor da peça nunca se deu a conhecer, tendo-se desconfiado desde sempre que por detrás da sua “assinatura” (ETMIPVJF) se escondia um nome criptografado. E a verdade é que foi aquela obra que lançou Nelly para o estrelado. Só agora, coligindo vários documentos, desde reportagens, entrevistas, crónicas e correspondência dispersa encontrada num baú que guarda as memórias da actriz, é que se soube finalmente o nome do autor da peça policial que deu origem à sua estreia nos palcos: TEMPICOS. Os maiores génios da criptografia chegaram a esta conclusão utilizando o alfabeto do fim para o principio, “valendo” Z a letra A, “valendo” X a letra B, etc. Através deste processo, soube-se que ETMIPVJF era… Tempicos.

Foi com aquele ex-detective da Polícia Judiciária que ela fez a viagem até Paris nos idos de 1972. Nelly, Manuela de baptismo, nunca contou a Tempicos as verdadeiras razões da sua incursão à capital francesa, e ele, completamente apaixonado e deslumbrado com a sua beleza, jamais imaginou que houvesse qualquer outra razão para além do irresistível desejo de ambos espalharem o amor pela mais linda e luminosa cidade do Mundo. Mas não. Era lá que se encontrava refugiada a sua irmã gémea, Madalena, uma perigosa psicopata revelada pelo “desertor” Moka no “Pão de Canela”, que fez morada durante meses no site do tresloucado Smaluco, e que Nelly pretendia fazer retornar a Portugal sem o risco de ter que ajustar contas com a justiça.

Nelly tinha dois Passaportes em seu nome, desiderato conseguido com o expediente da reedição do documento, invocando extravio do primeiro. Entregou um dos passaportes à gémea, meteu-a no comboio com o Tempicos e raspou-se para os States… com um diamante que lhe fora oferecido por um milionário grego que conheceu junto ao Louvre. Para “esconder” a prova da infidelidade, ela encenou… um impossível roubo da jóia no Museu! O detective acreditou na patranha e ainda hoje a “vende” como verdade. Quanto ao desaparecimento da jóia, que ele havia guardado nos bolsos, a explicação é simples: assim que entrou no comboio e se sentou, ele caiu num sono profundo, graças a uma “pastilha” colocada num café tomado na gare. O resto já se adivinha. Nelly foi-lhe aos bolsos e Madalena tomou o lugar da irmã no Sud-Express.

A jóia oferecida pelo grego (Onassis?...) serviu para a Nelly alugar um belíssimo apartamento na quinta avenida, junto ao Central Parque, comprar roupas atrevidotas, ver espectáculos e conhecer artistas, encenadores e produtores… O seu corpinho e a peça de teatro que o Tempicos tinha escrito fizeram o resto. Poucos meses depois, o seu nome estava iluminado a néon na fachada do Manhattan Theatre Club. Daí para a frente, Nelly não parou. Mas mesmo distante, ela foi acompanhando as aventuras de Madalena, que ia destroçando corações aos magotes. Sabe-se agora que a cachopa deu umas voltinhas com meia dúzia de figurões que se dedicam a descobrir crimes de brincar e que um deles acabou mesmo por arranjar uma grande “brincadeira”.

A “brincadeira” chama-se Kátia Vanessa, mas desconhece-se o nome do brincalhão. Há quem desconfie de que a mão-de-obra do fabrico da menina seja “made in Viseu”, mas também há quem sustente que a “coisa” foi feita para os lados do Cais do Sodré, em Lisboa, ou para as zonas da Ericeira ou de Mafra… A verdade é que foi Tempicos quem acabou por ficar com o “problema” nas mãos. A galdéria da Madalena, que todos pensaram, e ainda hoje pensam, que seria a Manuela – vulgo Nelinha, deu “às de vila Diogo”, primeiro atrás do saudoso capitão Dic por terras alentejanas e depois pelos sítios mais recônditos da serra de Sintra “coladinha” ao PP de IX ou escondida na batina do diácono Novena, deixando a filhota ao “Deus dará”.

O detective Tempicos deu guarida à miúda, deu-lhe colo, educou-a e até há bem pouco tempo ainda a sustentava e lhe dava muitos carinhos... A pobre coitada ficou sem a mãe numa triste manhã de Maio, quando um sujeito, que a sua progenitora muito bem conhecia, a convidou a participar no Convívio da Tertúlia da Liberdade, que ia decorrer nesse dia no Museu do Teatro. Temendo que o depravado estivesse a tentar novamente uma aproximação física, que havia sempre rejeitado, ou que ela lhe dissesse onde se encontrava o tal diamante do Louvre a que Tempicos se referia muitas vezes, sem que ela percebesse do estava ele a falar, a mãe da Kátinha decidiu arranjar forma de deixar sinais que denunciassem o malandro, se a coisa desse para o torto.

O livro Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, deixado na biblioteca talvez bastasse, terá pensado ela. Havia no título desta lendária obra e no nome da escritora mais do que uma pista para se chegar ao autor do convite… O sujeito que havia “desafiado” a Madalena a comparecer no Museu do Teatro tem Adriano por nome próprio, como o Imperador retratado pela notável escritora, mas, também como esta, utiliza um nome que não é o seu. Ela chamava-se Crayencour e utilizou este apelido para criar o anagrama com que ficou conhecida para a posteridade (Yourcenar). Ele, por sua vez, decidiu usar o seu primeiro nome por inteiro, sem alterar a ordem das letras que o compõem, mas fazendo a sua leitura de trás para a frente.

Com receio de que o título do livro, deixado como que por acaso no local do encontro, não fosse pista suficiente para identificar o homem que a fizera ir ao engano ao Museu do Teatro, a gémea de Nelly escreveu com os dedos no pó do tampo de uma mesa o nome com que ele é conhecido no seio da “família policiária”. E fê-lo utilizando um código que o detective Tempicos havia ensinado em tempos à irmã gémea, ensinamento que esta, por sua vez, passou para ela. O código é muito básico, e foi o mesmo que a Nelly usou para escapar ao pagamento de direitos da peça que marcou a sua estreia na Broadway, resumindo-se à utilização do alfabeto como se ele começasse de trás para a frente, mantendo a sua ordenação mas mudando o valor das letras.

No diário da Nelly Purification, encontrado no seu baú, quase sem fundo como a célebre arca de Pessoa, que esconde um tesouro infindável de poemas de Fernando (ele mesmo) e dos seus heterónimos, este código é explicado de uma forma muito simples. «Basta escrever o alfabeto (apenas com 23 letras) pela ordem normal, iniciando em A e terminando em Z. Depois é só inverter a ordem do alfabeto, que passa a iniciar-se com Z e a acabar com A, sendo que o A passa a Z, o B passa a X, o C passa a V, o D passa a U, o E passa a T, e assim sucessivamente, como conforme tabela a seguir discriminada:
Z X V U T S R Q P O N M L J I H G F E D C B A
A B C D E F G H I J L M N O P Q R S T U V X Z».

Ora bem, de acordo com a tabela de descodificação encontrada na agenda da Nelly, as letras impressas no pó do tampo da mesa (JLZPGUZ) significam… ONAIRDA. Nada menos, nada mais! Tudo batia certo, segundo o código de criptografia ensinado em tempos por Tempicos à sua amada. Assim, e em resumo, todas as pistas nos levam ao homem de Cabriz, que adora a Ericeira e passa boa parte do seu tempo em Mafra, quando não anda por aí, por entre quintas e quintais, à cata de tentilhões, canários, piriquitos, pintassilgos, rouxinóis, melros, caturras, pardais, e outros bicharocos que cantam, imitando-os na perfeição com o seu vasto repertório de assobios. E como diz o Tempicos, o assassino da mãe da Kátia anda agora por aí a assobiar!...

Convém ainda recordar que aquele “patife” não esteve presente no Convívio da Tertúlia da Liberdade que se realizou no Museu do Teatro, no dia em que assassinaram a mãe da Kátinha, como se pode ler (foi o que fez a Nelly, através da Internet, no site do tsunami de Braga!) no texto de introdução à entrevista/reportagem do Convívio, inserto no último número de O Lidador… das Cinzentas. Estão lá os nomes de todas as pessoas que marcaram presença no Museu do Teatro, e o Onaírda (Adriano) não consta do rol dos convivas. Ou melhor: ele esteve presente, só que ninguém o viu. Ele chegou primeiro que todos; entrou por uma porta e… saiu por uma janela, descendo agarrado a uma corda (coitada da corda!!!...) suspensa da balaustrada.

Nessa altura, quando a gémea foi assassinada, já Nelly tinha conhecimento da doença que a minava. Os médicos já a tinham desiludido. Restava-lhe muito pouco tempo de vida. Tinha pela frente dois ou três anos, no máximo. Decidiu então pedir a um advogado de confiança que tratasse do seu testamento com a maior brevidade possível e que recolhesse todos os documentos necessários à inclusão da sobrinha como beneficiária dos seus bens. Assim que soube que o Tempicos tinha tomado conhecimento desta sua intenção, ficou furiosa. Reuniu com carácter de urgência todos os seus advogados, gestores e conselheiros para os informar de que não queria o detective ao corrente de nada. E proibiu-os de voltar a contactar a criatura!

Perante a surpresa dos seus colaboradores, a lusa Nelly Purification viu-se forçada a retratar o detective Tempicos. Definiu-o como um homem instável, desequilibrado, gabarolas, capaz de inventar as história mais incríveis e relatá-las com a convicção profunda de que elas são absolutamente reais, quando tudo se resume afinal a situações criadas pela sua fértil e delirante imaginação. E para exemplificar até onde pode ir a mitomania e a fanfarronice do homem que, em tempos, julgou amar, Nelly decidiu recordar uma pequena história por ele inventada e que lhe fora contada pela sua sobrinha. A história era tão inverosímel e trapalhona que a mítica actriz e os seus colaboradores terminaram a reunião com grandes e sonoras gargalhadas.

O detective Tempicos tentara convencer os seus confrades policiaristas que, quando seguia ao volante do seu carro na companhia de três velhos camaradas da Judiciária, foi forçado a efectuar uma travagem brusca que lhe valeu a cassação da carta e a inibição de conduzir por dois anos (o que só poderia ser determinado por Tribunal!...). Daquela travagem, diz o detective que resultou ainda um nariz com a cana partida, um par de olhos negros e uns óculos voadores. O nariz foi o seu, o par de olhos também, assim como os óculos, sendo que estes foram projectados para trás, indo cair exactamente nas orelhas do amigo que viajava no banco traseiro. Ora toda a gente sabe que, numa travagem, as matérias são impelidas para a dianteira e nunca para trás.

É ainda estranho que apenas o Tempicos tenha sido projectado para a frente no momento da travagem. Nessa altura, já era obrigatório o uso do cinto de segurança nos bancos traseiros. Mas a verdade é que, ontem como hoje, quase ninguém cumpre essa lei. Assim sendo, tanto o seu camarada que serviu de “aeroporto” aos óculos voadores, como o outro companheiro que viajava ao lado deste, teriam sido “cuspidos” para a frente. Curioso é ainda o facto de Tempicos ter efectuado a travagem e não se ter agarrado ao volante, por instinto. Por outro lado, nunca seria possível ter ele batido com a cana do nariz e com os olhos no vidro pára-brisas. Quanto muito, bateria com a parte superior da cabeça. Mas para que tal acontecesse, o detective teria de ter voado por cima do volante, o que parece improvável!

Pouco provável parece ser também o facto de uma simples travagem brusca de que não resultou quaisquer prejuízos materiais ou danos físicos a terceiros ter “metido a polícia ao barulho”. A não ser que um qualquer “chui de giro” passasse por mero acaso no local e tivesse detectado que o Tempicos conduzia embriagado e… com a carta de condução caducada (será que ele já tinha feito 65 anos e a carta ainda não tinha sido revalidada?!...). Perante tal situação, um polícia que se preze e tenha orgulho na farda que enverga não hesitaria nem um instante. Encaminharia logo Tempicos para a esquadra e lavraria o respectivo auto de ocorrência, a fim de que ele fosse presente a um Juiz de Turno. Tudo isto é pouco provável mas não impossível.

Mas o que é mesmo impossível é que Tempicos tenha andado dois anos ao volante do seu automóvel com a carta de condução caducada, período de tempo durante o qual passou diversas vezes por operações stop sem que alguma vez tenha sido incomodado. Bom, a não ser que tivesse “apenas passado” e nunca fosse mandado parar pelas brigadas de trânsito (será por isso que afirma que conduzia “regularmente” e não “regulamentarmente”?)!... A carta de condução de que era portador nesse espaço temporal tinha sido emitida antes de ter completado 64 anos de idade. E, de acordo com a lei em vigor na época, os documentos de habilitação de condução tinham de ser revalidados quando os seus titulares atingissem os 65 anos!

Para melhor compreensão deste episódio, a Nelly explicou aos seus colaboradores que o detective tinha sido roubado no mês em que fez 64 anos, por um carteirista que lhe levou dinheiro e documentos. O dinheiro nunca mais o viu, mas os documentos viriam a “dar à costa” numa caixa de correio. No entanto, como Tempicos já tinha requisitado uma nova emissão dos ditos, acabou por ficar com documentação a dobrar. Um ano depois, deu-se a tal travagem brusca e a Justiça apreendeu-lhe a carta e inibiu-o de conduzir por 2 anos. E foi durante esse período de inibição que Tempicos terá usado a carta de condução roubada, entretanto recuperada. Porém, se ele tivesse sido fiscalizado numa qualquer operação stop não escaparia a um conjunto de situações complicadas.

Ao ser detectada a caducidade da carta de condução, a brigada de trânsito vasculharia todo o seu processo e chegaria à conclusão que aquele documento era exactamente o que havia sido declarado como roubado em 1999 e que o detective estava inibido de conduzir desde Setembro de 2000. Este acumulado de irregularidades e de ilícitos seria motivo suficiente para que o detective Tempicos fosse formalmente acusado de diversos crimes graves de desobediência às autoridades e às Leis em vigor, que o conduziriam inevitavelmente à prisão por um bom par de anos. Foi por estas razões, e por outras não comentadas por pudor, que Nelly decidiu, horas antes da sua morte, declarar a sobrinha Kátia Vanessa da Purificação como sua herdeira universal…

… Havia no entanto uma condição sine qua non. A sobrinha da Nelly teria que cortar de imediato relações com todos os “padrinhos” do sul e passar a morar no norte com o Inspector Boavida, entretanto nomeado gestor de todos os bens até ao fim da vida. Ao que o New York Times conseguiu apurar, a sobrinha da mítica Nelly foi informada da última vontade da tia e vive agora feliz numa enorme e rica vivenda voltada para a foz do rio Douro… Segundo aquele periódico, a popular Kátinha promete comparecer no próximo dia 1 de Junho no Convívio da Tertúlia da Liberdade, a realizar na Serra da Arrábida, de braço dado com o seu noivo, para reafirmar o que vem dizendo à imprensa cor-de-rosa portuguesa: «Agora sim, que “boa vida”!!!»


PÚBLICO-POLICIÁRIO
CAMPEONATO NACIONAL
Temporada 2007-2008

Prova nº 6

“A Confraria do Terror”, de Onaírda

António Garçôa – o teórico da PJ – saiu de casa e em vez de ir para a Gomes Freire, foi para Loures, para dar aula teórica a alunos do Curso de Formação de Inspectores. Leu uma obra de A. R. Hope Moncrieff até às 23h00 e de seguida tomou apontamentos. Normalmente, as leituras que fazia à noite metiam-se nas suas teorias do dia seguinte. Por isso lhe chamavam “o teórico”, ajustando a sua cultura à prática profissional.
“A Confraria do Terror” foi o nome escolhido para a prova que Garçôa apresentou aos formandos.
Rui d’Orey, era Presidente da Confraria do Terror, associação de sete membros, todos da banca e titulo nada lógico, pois eram, supostamente, pessoas de bem. Juntaram-se por interesses financeiros, com a Bolsa de Valores preferencial. Havia o presidente, um vice-presidente, um tesoureiro, um secretário e três vogais. Reuniam-se semanalmente em sede e anualmente em Janeiro, confraternizavam num jantar, em restaurante de luxo, precedido de uma reunião plenária, que começava pelas 19h00, para tomarem conhecimento de resultados finais do ano anterior.
Num dia do passado mês de Janeiro o jantar foi marcado para as 20h30 em restaurante de nome curioso, Mithos. Tinha sido escolhido pelo vice-presidente e comunicado ao presidente através da mulher deste. Reunião e jantar que não se realizaram, porque Ruy d’Orey foi descoberto em sua casa, mortalmente ferido com uma punhalada desferida em pleno coração. Sentado numa cadeira do seu escritório e recostado para trás. Ainda tivera tempo de escrever uma nota num papel “estava escrito o meu destino”.
Ainda em relação à Confraria do Terror, é curioso que todos os membros se conheciam e tratavam-se por nomes de animais, excepto o presidente, que por ser o líder e se julgar uma estrela, tomou o nome de Orion. Os nomes eram: Orion o Presidente, Tubarão o Vice, Tigre o Tesoureiro, Abutre o Secretário e os três vogais Crocodilo, Víbora e Mabeco. E por esta ordem sequencial tínhamos as suas esposas, que também usavam, por vaidade, nomes clássicos da antiguidade: Artemisa, Vénus, Bellona, Ceres e por fim as dos três vogais eram Abeona, Aurora e Vesta. Estas nunca tomavam parte nas reuniões de trabalho mas podiam participar no jantar anual, se assim o entendessem.
Era o dia da reunião e jantar anual. Estava tudo programado, mas aconteceu o imprevisível: o presidente não compareceu aos eventos e descobriram-no pelas 21h30 em sua casa já cadáver. Foi o secretário que descobriu o corpo, quando entrou em casa da vítima – acompanhado do motorista – depois de ser incumbido pelos seus pares de tentar saber o que tinha acontecido ao ausente. Logo chamou a polícia, Garçôa estava de piquete, compareceu de imediato e posteriormente o médico legista afirmaria que a vitima teve quase morte imediata, devido a ter sofrido uma punhalada no coração e que esta e a morte ocorreram, entre as 17h20 e as 17h45.
A Confraria do Terror tinha dois funcionários a tempo permanente. Uma era secretária, especialista em negócios bolsistas e, para não variar, chamava-se Minerva. O outro era motorista e estava ao serviço particular do presidente e sua mulher, mas com o ordenado pago pela Confraria. Artur era o seu nome, mas Escorpião a sua alcunha. Tinha estilo efeminado porque era gay.
No dia da reunião e jantar, o motorista foi buscar Artemisa pelas 16h00 a casa, recolheu as mulheres do vice-presidente e do secretário e foi deixá-las num centro comercial às 16h30. As três mulheres fizeram compras e estiveram por lá até às 20h00, apanharam um táxi e foram para o restaurante onde chegaram às 20h15.O presidente deslocar-se-ia para a sede da Confraria no seu carro pessoal e estaria na sede pelas 18h55.
As mulheres do tesoureiro e dos três vogais combinaram e foram a uma matiné que começou às 17h00 e entretiveram-se até às 20h00, hora a que o Artur as foi buscar e as levou para o restaurante.
A secretária chegou à sede da Confraria pelas 16h00 para preparar a reunião. Pelas 16h45 chegou o secretário e ambos se mantiveram na sede até ao previsível início da reunião. Depois tiveram a companhia dos restantes membros da Confraria, excepto o presidente pelos motivos já expostos. Aguardou-se a sua chegada, o que não aconteceu, pelo que a reunião não se iniciou e todos foram para o restaurante pelas 20h00, esperançados de que o líder para lá se dirigisse. Os telefones fixos e móvel deste não atendiam as chamadas que efectuaram. Decidiu-se esperar pela chegada da sua mulher para saberem informações.
O vice-presidente e o tesoureiro marcaram encontro numa pastelaria do Saldanha pelas 16h30, conversaram e dirigiram-se, de táxi, para a sede pelas 18h30.
O motorista (Escorpião) foi buscar pelas 18h30, num local combinado os três vogais e deixou-os na sede da Confraria pelas 18h50. Estes três elementos já estavam reunidos desde as 16h00. Ficaram admirados com a ausência do presidente.
Quando a mulher do Presidente chegou ao restaurante, disseram-lhe da ausência do marido, tendo respondido que, quando saiu de casa, ele estava no escritório. Não se despediu dele e nada sabia da sua ausência. Incumbiram o secretário, acompanhado do motorista, para se deslocarem a casa de Orion e ver o que se passava; o motorista tinha a chave de casa do presidente, necessária para quando os patrões estivessem ausentes.
A PJ tomou conta da ocorrência e apurou-se o seguinte: soube-se por declarações cruzadas que a mulher do presidente se relacionava com o vice-presidente e que este a sugestionava, porque ambicionava ocupar o lugar do marido. Dizia-se que a relação com Artemisa tinha o objectivo de proporcionar esta promoção. E a escolha do restaurante não tinha nada de inocente. Mas também se sabia que o presidente era íntimo da mulher de um dos vogais; este sabia, mas convinha calar. Por outro lado Artur, pago pela Confraria, estava ao serviço só do presidente e de sua mulher. Mas o presidente estava sempre em desacordo sobre os caminhos que cada um preferia. O presidente seguia para Ocidente e o motorista, invariavelmente, tomava a direcção do Oriente. Artemisa sabia que Artur era gay e, por este motivo, desabafava com ele aspectos da sua vida amorosa. Artur dizia que a apoiaria no que fosse preciso. Orion sabia da relação próxima de sua mulher com Tubarão e teme pelo futuro. Tubarão dizia a Vénus que em breve substituiria Orion.
Garçôa acabou a exposição advertindo os futuros inspectores que esta história não era real e que tinha sido imaginada por ele nas primeiras horas do dia. Influenciado ou não, a história surgiu. E, por fim, pediu aos formandos que enquadrassem todos os pormenores e aliassem a prática à teoria, não só para dizerem quem foi o assassino e quais os seus motivos, mas também para dizerem qual seria a intuição que Garçôa desenvolveu para enquadrar as figuras criadas. E já agora, para anotarem quem andava o presidente a atraiçoar. Mas para Garçôa não tinha lógica o patrão querer ir para Oeste e o motorista desobedecer e ir para Leste.


Solução de Inspector Boavida

Ocorrência: A mitologia tomou conta das meninges de Garçôa para baralhar a cabeça dos jovens formandos candidatos a inspectores, que se viriam em palpos de aranha para descobrir entre deusas, constelações e bichos, os autores morais e materiais da morte do presidente de uma ficcionada e misteriosa Associação ligada ao mundo das finanças.

Vítima: Rui D’ Orey, uma das maiores estrelas dos Bancos e da Bolsa, que se considerava tão brilhante quanto a constelação de Orion em Janeiro, personagem criada pela imaginação do “Teórico” da Polícia Judiciária Portuguesa para explorar os sentidos dedutivos dos seus potenciais futuros colegas… em formação.

Local da Ocorrência: Escritório da vítima, uma dependência da sua residência pessoal e familiar, onde foi encontrado já sem vida, recostado numa cadeira junto à secretária de trabalho.

Hora e Data da Ocorrência: Num fim de tarde, entre as 17h20 e as 17h45, presumivelmente em Janeiro de 2008, porque foi neste mês e ano que o Teórico “criou” Rui D’Orey, o Orion.

Suspeito da Autoria Material do Crime: Existe apenas um suspeito: Artur Escorpião, o motorista da vítima, porque só ele não foi visto por ninguém durante o período temporal em que ocorreu o homicídio – ele é o único que não possui qualquer álibi nesta história!

Autores Morais do Crime: Articulando a mitologia com a história ficcionada por Garçôa, a autoria moral do homicídio pode ser assacada à dupla Artemisa e Tubarão (ela, porque sugestionou o Escorpião; ele, porque sugestionou aquela a cumprir o “destino” de Orion inscrito na mitologia – para sublinhar/reforçar a necessidade da execução do crime, ele até escolheu como local para o jantar anual de confraternização da Associação o restaurante… Mithos!).

Mandante do Crime: Para além de ser autora moral do crime, Artemisa foi a sua mandante. Tal como na mitologia, também nesta história “vivida” nos tempos de hoje, foi ela que encomendou o “trabalhinho” ao (delicado, sensível e… abichanado) Escorpião, que por ela dizia ser capaz de… fazer tudo!!!

Autor Material do Crime: A punhalada que mandou Orion para os céus foi desferida por Escorpião, o motorista que fazia sempre questão de se dirigir para o lado oposto ao desejado pelo seu patrão: tal como as constelações homónimas, que nunca estão do mesmo lado!

Era Uma Vez…
A Mitologia Clássica, a Ficção, a Traição, a Vingança e… a Aula Improvável

Garçôa, o grande deus da teoria da investigação criminal, a estrela mais luzente da constelação policiária internacional, o maior mito de sempre da história da Judiciária portuguesa, estava indeciso sobre a sua leitura de fim de noite. Tinha como opções um enigma do desmiolado Inspector Boavida publicado naquele Domingo no jornal PÚBLICO e um Guia Ilustrado sobre Mitologia Clássica, editado no nosso país em 1992. Depois de muito reflectir, pareceu-lhe aconselhável deixar a escrita do seu pouco inspirado colega para outras “núpcias”. Tinha de encontrar tema para uma aula do dia seguinte, destinada a futuros inspectores, e aquela versão abreviada da obra de Hope Moncrieff «Classic Myth and Legend» servia perfeitamente os seus intentos.

Como afirma o seu autor no prefácio da edição integral, esta obra trata das célebres ficções lendárias da Grécia Antiga que tantos temas e alusões proporcionaram aos autores modernos. Transmitidas por via oral de geração em geração, durante milhares de anos, estas histórias foram entretanto passadas a escrito e depois aproveitadas pelos mais diversos poetas e dramaturgos, e assim transmitidas através dos séculos até nós. A tarefa de Hope Moncrieff foi reproduzir as características principais desta mitologia, geralmente segundo a versão mais conhecida, mas por vezes tendo em conta o gosto dos leitores que não digeririam facilmente algumas expressões consideradas grosseiras nos dias de hoje, mas que não ofendiam os ouvintes de outros tempos.

Uma certa selecção ou supressão praticadas pelo autor deste Guia da Mitologia Clássica “perdoam-se”, uma vez que a sua intenção foi, na medida do possível, apresentar o espírito grego tal como ele se revela nas suas fábulas e tornar familiares os nomes e caracteres tantas vezes citados em poesia, em oratória e na história. Porque não há dúvida de que a mitologia, com o seu vasto elenco de deuses e semideuses, heróis e mortais, ninfas dos bosques e das águas, monstros da terra e do mar, as alturas do Olimpo e as profundezas do Hades, muito deve ao génio e à imaginação dos Gregos. A própria tradição destas histórias remonta ao tempo em que ainda não tinham sido contadas pela primeira vez, isto é, a um passado pré-helénico.
Os dois grandes feitos épicos da mitologia grega são os relatados por Homero na sua Ilíada, onde descreve a guerra de Tróia, e na Odisseia, que conta as aventuras de Ulisses na sua viagem de regresso à pátria. Sublinhe-se que Homero escreveu estas histórias 400 anos depois da guerra de Tróia. Extraídos de Homero e do seu contemporâneo Hesíodo, estes temas e muitos outros mitos clássicos de fontes desconhecidas foram relatados nas peças de Ésquilo e Sófocles, nas Metamorfoses de Ovídio, nas Vidas Paralelas de Plutarco e nas Odes de Píndaro, entre outras. Daí resulta que podemos encontrar feitos semelhantes atribuídos a personagens diferentes e versões diversas, por vezes contraditórias, do que parece ser a mesma história.

Os escritores clássicos que tinham de lidar com esta confusão de tradições da mitologia eram mais ou menos livres para as “deturpar” segundo os seus próprios gostos e preconceitos... Hércules, por exemplo, aparece como contemporâneo de muitos heróis que deviam ser demasiado velhos ou demasiado jovens para terem alguma utilidade entre os seus companheiros Argonautas. O estilo de Moncrieff nesta obra faz eco do próprio lirismo e da poesia com que os mitos épicos eram originariamente tratados. Contudo, e apesar de toda a sua natureza fantástica, são histórias cujos temas têm paralelo nos dias de hoje. E foi nisso que Garçôa foi empreendendo enquanto tomava as notas para a aula do dia seguinte, segunda-feira (7 de Janeiro de 2008, crê-se).

O Teórico tentou relacionar a mitologia com uma história por ele ficcionada, vivida em pleno século XXI, no seio de uma misteriosa Associação com ligações ao mundo financeiro que tem por presidente um banqueiro de nome Rui D’Orey, que naquela qualidade usava o pseudónimo de Orion (um gigante e exímio caçador, dotado de uma beleza invulgar e de um vigor extraordinário, que por mérito da sua bravura era constantemente convocado a presidir aos grandes combates de feras e monstros que atacavam as cidades e os campos – hoje dir-se-ia “a sociedade”). A mulher do presidente desta Associação usava o pseudónimo de Artemisa (deusa da caça e da vida selvagem, conhecida também pelos seus ciúmes… fatais!!!).

Os restantes membros da Associação e suas mulheres usavam nomes estranhos e mitológicos: o vice-presidente chamava-se Tubarão e era casado com Vénus (deusa do amor); o tesoureiro usava Tigre como nome e era esposado com Bellona (deusa romana da guerra, equivalente à grega Enyo); o secretário denominava-se Abutre e tinha por esposa Ceres (deusa romana das plantas, equivalente à grega Deméter); o 1º. vogal era Crocodilo e a mulher Abeona (deusa romana das viagens); o 2º. vogal tinha como nome Víbora e a sua companheira Aurora (deusa romana do amanhecer, equivalente à grega Eos); e o 3º. vogal usava o nome de Mabeco e tinha por cônjuge Ceres (personificação romana do fogo sagrado, equivalente à Héstia dos gregos).

A relação dos protagonistas desta história com a mitologia não se fica por aqui. Falta fazer referência a um motorista e a uma secretária, que constituíam o grupo de apoio à Associação que o Teórico denominou de A Confraria do Terror. Ele tinha a alcunha de Escorpião e ela chamava-se Minerva (deusa virgem, também chamada de Atena, que tinha como vocação a fantasia, as artes e ofícios). Minerva chegou à sede da Associação por volta das 16h00 de um qualquer dia de Janeiro de 2008 a fim de preparar a reunião dos corpos gerentes, agendada para as 19h00, visando o balanço dos resultados do ano anterior, finda a qual sucederia um jantar de confraternização (alargado às mulheres dos confrades) marcado para as 20h30, no restaurante Mithos.

O secretário Abutre compareceu na sede às 16h45, para ultimar a documentação necessária à reunião plenária, e aí permaneceu na companhia de Minerva. Entretanto, foram chegando os restantes membros da Associação: o vice-presidente Tubarão e o tesoureiro Tigre deram entrada na sede às 18h30, vindos de uma pastelaria do Saldanha onde estiveram juntos, à conversa, desde as 16h30. Às 18h50 chegaram os vogais Crocodilo, Víbora e Mabeco, transportados pelo motorista Escorpião, que os recolheu pelas 18h30 num sítio algures onde estiveram reunidos desde as 16h00. Faltava o presidente Orion, que havia dito fazer-se deslocar para o local da reunião na sua viatura pessoal, onde contava chegar às 18h55. O tempo foi passando e… nada!

Os membros da Confraria do Terror começaram a ficar preocupados com a ausência do líder, até que resolveram ligar-lhe para o telemóvel e para casa, mas em vão. Orion não atendeu nenhuma das chamadas. A hora do jantar aproximara-se e eles partiram para o restaurante na esperança de que D’Orey tivesse ido directamente para lá, após algum imprevisto que o houvesse feito atrasar-se ao ponto de faltar à reunião. Quando a esposa do presidente chegou ao local do repasto, o desespero instalou-se. Ela não sabia nada do marido. Havia estado toda a tarde num Centro Comercial, desde as 16h30, com as legítimas do Tubarão e do Abutre, depois de terem sido transportadas na mesma viagem pelo Escorpião, que começou por recolher Artemisa, em casa, às 16h00.

As esposas daqueles três dirigentes da Associação estiveram sempre juntas, e juntas chegaram ao Restaurante, transportadas por um táxi que apanharam por volta das 20h00. E se Artemisa nada sabia do marido, as outras duas menos podiam saber. Por sua vez, as mulheres do Tigre, do Crocodilo, do Víbora e do Mabeco também não puderam ajudar a decifrar o mistério da ausência de Orion. Elas tinham estado juntas num cinema da cidade, onde assistiram a um filme que começara às 17h00. Depois, deambularam, juntas, até que o Escorpião as foi buscar, às 20h00, para as transportar até ao restaurante. Não sabiam absolutamente nada do presidente! O receio de que algo de muito grave teria acontecido com Orion começava a inquietar os espíritos.

O Abutre foi encarregado pelos seus pares de tentar apurar o sucedido. Acompanhado de Escorpião, que tinha um duplicado da chave de casa do presidente para o caso de ter necessidade de lá entrar quando os patrões estavam ausentes, uma vez que ele funcionava como uma espécie de motorista particular do casal (embora às custas da Confraria…), o secretário encontrou Orion morto, sentado numa cadeira do seu escritório e recostado para trás. Perante esta dramática situação, a polícia foi chamada de pronto. Um punhal enfiado no peito, em pleno coração, abatera Orion, que ainda teve tempo para anotar com a sua mão a frase «estava escrito o meu destino». O médico legista não tivera dúvidas: tudo acontecera entre as 17h20 e as 17h45.

O único dos protagonistas desta história que não se sabe onde estava no período temporal em que foi cometido o crime, chama-se Artur, é homossexual e tem por alcunha Escorpião. A antepenúltima viagem que ele fez (para transportar Artemisa, Vénus e Ceres para um Centro Comercial) ocorreu entre as 16h00 e as 16h30; e a penúltima viagem por ele realizada (para transportar os três vogais para a sede da Associação) ocorreu entre as 18h30 e as 18h50. Ou seja, desconhece-se por onde andou o Escorpião entre as 16h30 e as 18h30, período de tempo durante o qual aconteceu o homicídio de Orion. Todos os outros membros dirigentes da Associação, assim como as respectivas mulheres, bem como Artemisa e Minerva, têm álibis imbatíveis

Só o Escorpião podia ter assassinado Orion! Mas porquê ele, ó deuses? O que teria motivado o motorista a cometer tão grande e cruel atrocidade? A resposta está na mitologia… mas também nos sentimentos contraditórios que caracterizam a humanidade desde a criação do Mundo: não há admiração sem que haja inveja; não há amor sem que haja ódio; não há ciúme sem que haja vingança!!!... Durante as investigações, a polícia teve conhecimento de que a mulher do presidente da Associação tinha um relacionamento amoroso com o vice-presidente. Este atraiçoava o líder porque ambicionava ocupar o seu lugar; e ela traía o seu marido, talvez dominada pelos ciúmes, porque este cometia adultério com a esposa de um dos vogais.

Mas por que mataria Escorpião o Orion? «Estava escrito no seu destino», como anotara Orion antes de morrer: segundo a mitologia, foi o Escorpião quem, por ordem de Artemisa, matou Orion!!! Na história ficcionada pelo Teórico Garçôa aconteceu o mesmo. A mulher do presidente desabafava com o motorista alguns aspectos da sua vida íntima. Ele sabia que a mulher do presidente tinha um caso com o Tubarão e sabia igualmente que Orion tinha um romance com Aurora, a mulher do segundo vogal (também é isso que diz a mitologia – a paixão de Aurora e Orion durou pouco, porque Artemisa mandou um Escorpião para o picar mortalmente!). O “sensível” Escorpião sofria com a situação e dizia que apoiaria Artemisa no que fosse preciso.

Artemisa foi a mandante do crime, mas não terá sido a única autora moral. O vice-presidente dizia à sua mulher Vénus que em breve substituiria Orion, o que indicia o seu conhecimento de que a morte deste estaria por acontecer. Não foi inocente a escolha do restaurante para o jantar: Mithos!!! O local do repasto foi escolhido pelo Tubarão, que o comunicou ao líder através da mulher deste, exactamente para que ela não esquecesse que tinha de se fazer cumprir o destino de Orion (escrito na mitologia). Ou seja, os dois congeminaram/premeditaram em conjunto a morte do presidente. Somente eles tirariam vantagens com o desaparecimento de Rui D’Orey: o Tubarão ascenderia ao poder se Orion morresse e, desta feita, Artemisa cumpriria a vingança da traição.

Refira-se que a curiosa contradição em que viviam o presidente da Confraria do Terror e o seu motorista, relativamente aos caminhos a seguir (o empregado ia sempre para o lado oposto ao desejado pelo patrão), também tem resposta na mitologia. Diz a lenda que os deuses elevaram os “inimigos” Orion e Escorpião aos céus para que fossem imortalizados, colocando-os, no entanto, em pontos diametralmente opostos. E é exactamente por isso que aquelas duas constelações nunca são visíveis em simultâneo: quando o Escorpião se põe a Ocidente, Orion aparece a Oriente; quando Orion tem o seu ocaso, tem o Escorpião o seu nascimento. No mês de Janeiro, por exemplo, o Escorpião está escondido a Este e o Orion é visível a Oeste!

Não se pense, porém, que a decifração deste curioso enigma inventado pelo Teórico Garçôa seria “pêra doce” para os seus alunos… se eles existissem no referido mês de Janeiro de 2008 – os Cursos de Formação de Inspectores estiveram “em banho-maria” até Maio passado! Recorde-se que só há pouco menos de um mês é que o actual Ministro da Justiça anunciou o arranque de novos Cursos de Inspectores da Polícia Judiciária, “congelados” desde 2004. Mas, se os formandos ficcionados pelo Teórico existissem mesmo, e nesse grupo de futuros Inspectores estivesse o velho detective Smaluco, a voz deste não deixaria de fazer luz sobre o caso em análise em breves palavras, repetindo quase “ipsis verbis” tudo o que atrás foi dito.

Smaluco poderia acrescentar que o segundo vogal Víbora calava fundo e a contra-gosto o facto de saber que a sua mulher Aurora lhe ornamentava a cabeça, com receio de perder influência junto do presidente Orion, não pondo assim em causa o seu lugar na Confraria do Terror. Smaluco poderia ainda referir a remota possibilidade de Orion ter tido tempo de escrever fosse o que fosse, depois de ser apunhalado em pleno coração. Admitindo, porém, esta acção, o famoso detective perguntaria como é que um ser quase moribundo, depois de se ter debruçado sobre a secretária para escrever algo, morreria recostado na cadeira. Alguém (o Escorpião motorista, claro!...) mexeu na vítima e, com esse estranho acto, recostou-a na cadeira onde estava sentada.

Com toda a certeza que Smaluco diria que o Garçôa apenas introduziu no enunciado do problema a frase impossível de ter sido escrita por um homem já moribundo, que ainda teve tempo de se recostar (para descansar do esforço?!...), para reforçar as suspeitas que já haviam recaído naturalmente sobre o motorista Artur. De facto, ao colocar o presidente a redigir a frase «estava escrito no meu destino», o Teórico Garçôa apenas quis deixar mais uma pista aos seus formandos. Ou seja, queria remetê-los outra vez para a Mitologia Clássica, concretamente para o mito de Orion, que determinou a morte deste e a sua elevação aos céus, onde ainda hoje continua, sempre de “costas voltadas” para o seu matador Escorpião, por vontade dos deuses.

Smaluco poderia sublinhar também que existem variadíssimas versões do mito de Orion (como em tudo na mitologia, aliás!...), tendo o Teórico Garçôa escolhido a que é defendida por A. R. Hope Moncrieff, uma vez que é essa a versão que cabe no problema por ele criado. Por fim, Smaluco talvez tentasse explicar melhor a razão do motorista seguir para Este quando o patrão o mandava para Oeste. É muito simples e a mitologia serve mais uma vez como “justificação” para tão insólito caso: o presidente (Orion) queria ir para Oeste, porque em Janeiro é a Oeste que se pode ver a Constelação Orion; por sua vez, o motorista (Escorpião) queria ir para Este, porque é a Este que está a Constelação Escorpião, embora não seja visível.

E, pronto, com estas sábias palavras de Smaluco, aqui me despeço da Confraria do Terror e da… Taça de Portugal.



 
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