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Sunday, January 04, 2009
  PÚBLICO-POLICIÁRIO
CAMPEONATO NACIONAL
Temporada 2007-2008

Prova nº 7
“O Enigma das Portas Fechadas”, de Rip Kirby


21h15 de um dia 30 de Agosto. Francisco, chefe dos empregados dos Castro, um homem rondando os 2 metros, chega à moradia reparando nas luzes acesas nos aposentos do seu patrão. No dia seguinte seria o seu último dia de férias mas, como era costume há muitos anos, regressava mais cedo. O patrão, Albano de Castro, e os seus dois netos regressariam no dia 1, não era costume fazerem-no antes dessa data. Por isso estranhou as luzes acesas. Guardou o seu Clio na garagem onde encontrou o carro de Albano. Pensou: Que se teria passado para o patrão voltar antes da data prevista? Encaminhou-se para a porta das traseiras que abriu com uma chave que tirou do bolso e entrou.
Dirigiu-se ao gabinete do patrão e bateu na porta. Não obteve resposta, voltou a bater rodando a maçaneta, mas a porta não se abriu. Como estava fechada à chave, tornou a bater chamando pelo nome do patrão. Preocupado, foi à cozinha, saiu para o exterior, foi a uma arrecadação buscar uma escada e, dando a volta ao edifício, encostou-a junto de uma das janelas iluminadas. Subiu e espreitou para o interior vendo o patrão sentado à secretária numa posição estranha. Bateu no vidro, mas Albano de Castro não escutou. Com preocupação redobrada, voltou para dentro e telefonou para a polícia. Esta chegou 20 minutos mais tarde, pois a moradia distava 6 quilómetros da vila. Francisco expôs a sua preocupação aos agentes. Estes, depois de algumas tentativas para abrirem a porta, resolveram usar a escada que ainda estava encostada junto da janela. Um dos agentes subiu mas logo desceu; pediu para usar o telefone e falou alguns momentos.
Poucos minutos depois chegava a brigada criminal comandada pelo inspector Eduardo Trindade, que se dirigiu imediatamente para a escada subindo-a mas logo desceu dando uma ordem a um dos seus subordinados. Este subiu, partiu o vidro da janela, abriu-a e entrou no aposento indo abrir a porta que dava para o resto da casa e que tinha a chave na fechadura. Verificou que, pela posição da chave, não era possível usar outra pelo lado de fora. Eduardo entrou acompanhado pelo seu ajudante Silveira. A sala era ampla, talvez uns 15 metros de comprimento por 6 de largura.
Na parede em frente da porta por onde entraram, e que era a única de acesso à sala, havia duas janelas, uma das quais era a que tinha sido aberta por ordem de Trindade. Perto desta janela havia uma secretária por detrás da qual, numa poltrona, se encontrava sentado o corpo do dono da casa tombado sobre o seu lado direito. Havia sido atingido com um tiro na têmpora do lado oposto.
Num dos topos da sala havia uma porta que se encontrava fechada e que, segundo o mordomo informou, dava para uma capela. Tentaram abri-la, mas estava fechada à chave, o que causou estranheza a Francisco, já que era usual estar aberta e com a chave na fechadura. Ao centro da sala havia uma mesa baixa e junto desta, no chão no lado contrário à capela, encontrava-se, em cacos, uma jarra de porcelana. Um pouco mais além um naperom de crochê.
No outro topo da sala existia outra porta que dava para o quarto de dormir do dono da casa, onde não foi encontrado nada de estranho. Não havia nenhuma outra porta e todas as janelas estavam fechadas. Junto desta porta, no lado de fora do quarto, sobre um móvel, estava uma escultura. Era bastante pesada, representando dois campinos a cavalo mas dos quais apenas um empunhava o pampilho. O pampilho do outro cavaleiro havia caído ou sido retirado, dando o aspecto de uma moca furada à mão do cavaleiro. O pampilho em falta estava junto à base da estatueta e também aqui foi encontrada uma chave que Francisco identificou como sendo a da capela.
Aberta a porta da capela, foi encontrado a poucos metros o corpo de um rapaz de pouco mais de 20 anos que o mordomo identificou como sendo Artur de Castro, o neto mais jovem do dono da casa. O jovem aparentava estar inanimado, pelo que o inspector chamou o médico que viera com ele, mas quando este chegou já o jovem se encontrava sentado e contava o que havia acontecido.
Tinham chegado da vila, onde tinham jantado, havia poucos minutos – encontrava-se na sala conversando com o avô, não havia mais ninguém na casa, já que o seu primo Américo Castro havia ficado na vila onde dormiria no hotel – quando dois homens muito altos e mascarados entraram e, enquanto um o subjugava, o outro mantinha o avô sob a mira de uma pistola. O tipo que o segurava, muito forte por sinal, arrastou-o para a capela para onde o atirou depois de lhe ter dado uma forte pancada na cabeça. Não se lembrava de mais nada. O médico apalpou-lhe a cabeça, onde encontrou uma leve protuberância um pouco acima da testa.
O inspector ordenou que lhe trouxessem Américo de Castro. Este, advogado conceituado, era um homem alguns centímetros mais alto do que o mordomo e mais forte do que este. Rondaria os 30 anos. Quando interrogado, disse que nada sabia, pois viera com o avô, mas ficara na vila, onde todos haviam jantado por a casa não estar em condições de os receber e ele gostava de comodidade. Depois o avô e o primo vieram para casa e ele ainda ficou alguns minutos num café, indo depois para o hotel, de onde não voltou a sair. Dando uma volta pela capela, o sargento Silveira reparou que não havia janelas, apenas alguns respiradouros a bastante altura; perto da porta encontrou um taco de basebol no qual não foram encontradas impressões digitais. Deteve-se junto do altar onde uma imagem de Santa Teresinha, pela forma estranha como estava colocada, lhe chamou a atenção. Silveira levantou um pouco a imagem para a colocar na posição que lhe parecia certa quando, do seu interior oco, caiu um rolo de fio do que é usado na cozinha. Verificou-se mais tarde que tinha cerca de 65 metros.
A arma do crime foi encontrada numa caixa de sapatos sobre o guarda-roupa do quarto de Américo. Não tinha impressões digitais mas exalava o cheiro característico de arma recentemente disparada. Segundo a opinião do médico, a morte, que havia sido instantânea, teria ocorrido entre as 20h30 e as 21h30.
No hotel garantiram que Américo havia chegado cerca das 20h45 e que não voltara a sair. Francisco não tinha álibi; viera directamente para casa no seu Clio, que ainda estava quente, mas garantia que não havia sido ele quem fizera aquele trabalho.
Interrogados sobre os motivos porque haviam regressado antes da data prevista, Américo disse que não sabia ao certo. Por uma conversa do avô pensara que tivesse sido devido a pressão do Artur, mas durante a viagem convenceu-se que estava enganado, pois o primo levara todo o tempo a reclamar pelo facto das férias terem terminado antes do tempo. Artur, estudante de medicina, afirmou que fora o avô que lhe dera na veneta vir-se embora mais cedo.
Não foram encontrados sinais de arrombamento em nenhuma porta ou janela da casa. Também não foram encontradas impressões digitais para além das pertencentes aos ocupantes habituais da casa. Apenas na maçaneta da porta da sala, pelo lado de fora, se via uma amálgama de impressões que não foi possível identificar e na do lado de dentro, apenas muito ao de leve, os sinais de dois dedos do agente que abrira a porta. Na imagem de Santa Teresinha que estava impecavelmente limpa apenas foram encontradas as impressões do sargento Silveira. Um dos agentes, da equipe do inspector, necessitando de ir ao quarto de banho, encontrou ali um par de luvas de enfermagem. Garantiu que as luvas não se encontravam ali quando revistara anteriormente aquele compartimento da casa.
Será que com estes elementos os meus amigos são capazes de dar uma luzinha ao inspector Trindade que o ajude a deslindar este mistério?...


Solução de Inspector Boavida

Ocorrência: crime de homicídio com arma de fogo.

Vítima: Albano de Castro, avô do conceituado advogado Américo de Castro e do jovem estudante de medicina Artur de Castro.

Local da Ocorrência: sala de trabalho da vítima (espaço contíguo a um quarto de dormir e a uma capela privativa), na sua residência particular, que partilha com os seus dois netos.

Hora e Data da Ocorrência: 30 de Agosto de um ano qualquer, num período temporal que medeia entre as 20h30 e as 21h30.

Suspeitos do Crime: segundo uma antiga e já clássica máxima da polícia de todo o mundo “todos são suspeitos até prova em contrário”, por isso qualquer dos intervenientes (o mordomo e os dois netos da vítima) estão sob suspeita das autoridades.

Autor do Crime: Artur de Castro, o neto mais novo do velho Albano de Castro, foi o autor do crime. A brigada comandada pelo inspector Eduardo Trindade não tardou muito a perceber que ele não só tinha cometido o crime de homicídio, como praticou também o crime de simulação de invasão de propriedade e de agressão física, assim como o delito de prestação de falso testemunho com vista a fazer recair suspeitas sobre dois inocentes (o primo e o mordomo). O caso era difícil e a sua resolução esteve por... um fio! E, curiosamente, foi mesmo um fio que transportou a chave… do enigma para as meninges do inspector Trindade!...


Era Uma Vez…
O Avô, o Neto Bom, o Mordomo e o Neto Mau!


Noite de 30 de Agosto. O inspector Eduardo Trindade tinha os olhos vermelhos e rasos de lágrimas quando se sentou à sua secretária para redigir o relatório do crime ocorrido em casa de Albano de Castro, de tão comovido que estava. Por muito que tentasse, não lhe saía da memória a forma desumana como o infeliz velho Castro fora cruel e impiedosamente abatido por um dos seus dois netos, que ele tanto amava. A arma fatal fora descoberta no quarto do neto mais velho, mas não fora este o assassino. O seu carrasco fora o mais novo, um jovem estudante de medicina com pouco mais de vinte anos. Este malandro tinha preparado muito bem o cenário para escapar à justiça, mas esquecera-se de que a polícia tem um faro apurado para a descoberta de criminosos e de que não há portas fechadas para a intuição dos homens da lei!...

……………………… /// ……………………………

Quando Eduardo Trindade e o seu inseparável amigo e colega sargento Silveira chegaram à moradia ficaram intrigados. O quadro com que se depararam apresentava contornos de um crime quase perfeito. O velho Castro estava sentado à secretária tombado sobre o seu lado direito, mortalmente atingido por uma bala na têmpora esquerda. A sala encontrava-se completamente inacessível ao mundo exterior…fechada por dentro! Só se podia lá entrar arrombando a única porta que comunica com o interior da casa ou quebrando o vidro de uma das janelas que dão para o exterior. Foi, aliás, este o expediente que a polícia utilizou para aceder à sala… iluminada! Tudo parecia indicar que se estava perante um caso de suicídio, não fosse o facto da arma que disparou a bala fatal não se encontrar junto ao cadáver…

A primeira pessoa a ver o velho sem vida foi o mordomo. Ele chegou à moradia um dia antes de terminar as férias, como era hábito. Estranhou ver as luzes acesas nos aposentos do patrão. Bateu à porta e não obteve resposta. Ficou preocupado e resolveu aceder às janelas, por meio de uma escada vertical. Através das vidraças, viu o patrão sentado numa posição estranha e… chamou a polícia. Para os investigadores todos são suspeitos, mas o mordomo não podia ser o criminoso!... É certo que ele não tem álibi e que a sua chegada ocorreu no período em que o dono da casa foi assassinado. Mas as janelas estavam trancadas por dentro e a porta encontrava-se fechada à chave, sem sinais de arrombamento. Por outro lado a posição da chave, que se encontrava na fechadura por dentro, não permitia que alguém abrisse a porta por fora.

O neto mais velho de Albano de Castro também não podia ter sido o criminoso, por várias razões que acrescem ao facto da vítima ter sido encontrada dentro de um “bunker”. Ele regressou de férias com o avô e o primo nesse dia, mas não chegou a entrar em casa. Jantou com eles num restaurante da vila e por lá ficou, alojado num hotel, alegando falta de conforto na moradia (os empregados só voltariam ao trabalho no dia 1). Após o avô e o primo partirem para casa, ele passou algum tempo num café (o que terá sido testemunhado) e deu entrada no hotel logo depois, para não mais sair: eram 20h45, 15 minutos após o início do período em que o avô foi assassinado. A vila dista poucos quilómetros da moradia, mas será que ele podia ter lá estado às 20h30? O caminho era (?) sinuoso e difícil. A polícia demorou 20 minutos a lá chegar!...

Aparentemente, o neto mais novo do velho Castro também não podia ter sido o criminoso. Estava fechado à chave dentro de uma capela que apenas tem por acesso uma porta que comunica com a sala onde o avô fora assassinado. Afirmou que fora manietado por um homem mascarado, alto e forte, enquanto outro, mais ou menos com a mesma compleição física, apontava uma arma ao avô. Segundo ele, o homem que o segurava enfiou-o na capela e desferiu-lhe uma forte pancada na cabeça que o pôs a dormir. Dentro da capela encontrava-se um taco de basebol, um instrumento inadequado a rituais religiosos… Teria sido aquele taco que atingiu a cabeça do rapaz? Talvez. Mas a pancada não parecia ter sido suficientemente forte para o fazer desmaiar. O rapaz apenas tinha uma “leve protuberância” ligeiramente acima da testa…

O Trindade ficou a magicar na pancada que o neto mais novo diz ter levado na cabeça e no facto de ele ter descrito os dois mascarados como pessoas altas e fortes… tal e qual o mordomo e o neto mais velho. A estes pormenores, o inspector juntou a coincidência da arma do crime se encontrar dentro de uma caixa de sapatos em cima do roupeiro do neto mais velho… A sua intuição levava-o a desconfiar que o neto mais novo pretendia levantar suspeitas sobre o mordomo e o primo. Os seus pensamentos remetiam-no ainda para a circunstância das janelas da sala estarem fechadas por dentro e a porta de saída também. Desta forma, considerando que a arma do crime fora encontrada noutra dependência e que o velho tivera morte instantânea, não podia ter sido este a fechar a porta à chave. Por outro lado, quem trancara a porta não podia ter saído dali!...

Mas a verdade é que não havia ninguém na sala nem nos dois espaços contíguos, sendo que nenhum destes comunica com o resto da casa. Bom, o neto mais novo fora encontrado na capela. Porém, a sua porta estava fechada à chave! Este enigma seria indecifrável se a investigação não fosse conduzida por Eduardo Trindade. Ele não descura os indícios mais minúsculos. Cedo se perguntou por que razão a chave da porta que comunica com a capela se encontrava no lado oposto da sala, num móvel junto da porta que dá para o quarto da vítima, uma vez que normalmente estava na respectiva fechadura? Outras perguntas se sucediam. Por exemplo: por que razão havia uma jarra de porcelana partida no chão, perto de um naperom de croché onde supostamente assentava a sua base, junto de uma mesinha baixa colocada ao centro da sala?...

Tinha de haver respostas para estas perguntas e para outras mais. Nomeadamente: por que razão a estatueta pesadíssima colocada em cima de um móvel, situado no enfiamento da porta da capela, apresentava sinais de ter sido mexida?... Um dos campinos que figuram na estatueta fora desprovido do seu pampilho, que se encontrava caído na base do móvel, deixando o seu braço com o aspecto de uma moca com um buraco na extremidade… O pampilho podia ter caído, é certo, mas a intuição de Eduardo Trindade dizia-lhe que aquele curioso caso podia ter alguma relação com outro pormenor interessante: a imagem de Santa Teresinha que existe na capela apresentava-se demasiado limpa para uma casa sem empregados e …. do seu oco corpo saiu um rolo de fio fino que habitualmente se usa em alguns cozinhados, como carne recheada!...

Aquele recheio da Santa era muito estranho, mas acabaria por se constituir na chave do enigma. O fio tinha perto de 65 metros. A sala onde mataram o velho Albano de Castro tem cerca de 15 metros de comprimento, entre a porta da capela e a porta do quarto de dormir da vítima. O Trindade nunca foi muito bom em matemática, mas sabia fazer contas simples de somar, subtrair e dividir!... Somou todos os indícios, subtraiu dois suspeitos no caso e… dividiu o fio em quatro: 16,25 metros de fio davam para “ligar” as duas portas… e ainda sobrava fio para passar por debaixo de uma delas!... Trindade começava a perceber tudo. Já sabia até porque as luzes da sala estavam acesas. Numa sala às escuras seria muito difícil executar a operação ali ocorrida. O malandro do neto mais novo do velho Castro tinha sido desmascarado. Fora ele o autor do crime.

O neto assassino montou um esquema que visava levantar suspeitas sobre o primo e o mordomo, ao mesmo tempo que o ilibava. O plano culminou com o seu auto-encarceramento na capela, onde desferiu depois uma pancada (ao de leve…) com um taco de basebol na própria cabeça. Antes disso, tirou o pampilho de um dos campinos da estatueta; enfiou uma das pontas do fio no “aro” da chave da capela e segurou nas duas pontas; passou as duas pontas pelo buraco da mão do campino e levou o fio e a chave para dentro da capela; fechou a porta à chave por dentro, removeu a chave da fechadura e puxou as duas pontas do fio por debaixo da porta, até que a chave ficou presa no buraco da mão do campino; puxou depois uma das pontas do fio e a chave ficou caída na base da estatueta; recolheu o fio, enrolou-o e escondeu-o na Santinha…

O elevado peso da estatueta facilitou aquela operação, uma vez que a chave pôde fazer o seu percurso entre a porta da capela e a estatueta sem correr o risco desta tombar e comprometer o estratagema engendrado pelo neto mau... Ele não conseguiu, porém, evitar que a chave tivesse partido o jarro de porcelana que se encontrava na mesinha do centro da sala. O percurso da chave foi feito no sentido ascendente, com início na base da porta da capela, acabando por chocar com a jarra, que se desfez em cacos ao cair no chão (juntamente com o naperom de croché…) junto à mesa, para lá do centro da sala, no lado oposto à porta da capela. Este incidente poderá, no entanto, ter sido provocado pelo assassino, quem sabe?, uma vez que ele deixara a luz da sala acesa para poder controlar a manobra do fio, através do buraco da fechadura…

De facto, a jarra de porcelana tanto podia ter sido quebrada devido a precipitação e nervosismo do neto mais novo do velho Castro, como também podia ter sido propositadamente partida. Talvez ele tenha considerado que a quebra da jarra de porcelana poderia constituir forte indício da existência de alguma resistência física por parte dele e do avô aos supostos mascarados, que procurou insinuar nas suas declarações serem o mordomo (que ele sabia que regressaria à moradia a qualquer momento, antes de terminar as férias, como era usual…) e o primo. Foi, aliás, também por isso, que ele colocou a arma do crime por cima do roupeiro do quarto deste. Estes sinais, por serem demasiado óbvios e pouco convincentes, acabariam por levantar suspeitas sobre o neto mais novo. Mas por que será que ele assassinou o avô?...

É óbvio que as relações do avô com o neto mais novo já tinham conhecido melhores dias, se atentarmos no depoimento do neto mais velho. Albano de Castro havia comentado com este algo que ele entendeu como pressão exercida pelo primo junto do avô. Pensou que tal facto estaria relacionado com a inesperada antecipação do final das férias, mas no regresso percebeu nas conversas havidas entre os três que não era essa a razão das pressões de que falava o avô. Aliás, o próprio neto assassino referira nas suas declarações ao inspector Eduardo Trindade que fora o velho Castro quem decidira acabar com as férias mais cedo do que era habitual. Assim, as pressões de que o dono da casa dizia sofrer poderão estar na origem do seu homicídio. A seu tempo, durante a fase de instrução do processo, se verá qual o verdadeiro móbil do crime…

Algo de suficientemente forte, na óptica do criminoso, terá motivado o cometimento de tamanha atrocidade na pessoa do velho Castro. O neto mais novo terá arquitectado o seu maquiavélico plano na viagem de regresso de férias, quando o primo decidiu que dormiria fora de casa. Ele não tinha tempo a perder, porque o mordomo devia voltar nessa noite. Assim que chegou à moradia, aguardou o melhor momento para eliminar o avô. Logo que este se sentou à secretária, aproximou-se dele e quando já estava suficientemente perto para não errar a pontaria, puxou da arma e disparou um tiro à queima-roupa, que lhe furou a têmpora esquerda. De seguida, foi até ao quarto do primo e deixou a arma do crime sobre o roupeiro deste, pegou num taco de basebol que havia algures e depois… dirigiu-se à cozinha, de onde tirou um rolo de fio!

O neto mais novo do velho Castro voltou à sala de trabalho do avô, fechou a porta à chave por dentro… e montou a cena do fio e da chave, da estatueta, da jarra e do naperom de croché, do taco de basebol, da santinha e da capela. O neto mau não tinha razões para temer os efeitos do seu encarceramento na capela, mesmo que sofresse de claustrofobia. Ele sabia que o mordomo não tardaria a chegar, uma vez que era hábito o encarregado dos trabalhadores da casa regressar de férias naquela noite e não deixaria de ver o carro do avô estacionado na garagem e as luzes acesas na sala de trabalho deste, o que determinaria que o mordomo procurasse o dono da casa. Depressa o corpo do velho Castro seria descoberto. E se a polícia não abrisse a porta da capela, seria o próprio neto assassino a “forçá-lo”, batendo na porta pelo interior.

Estava quase tudo explicado quanto à forma como ocorreu o crime, mas havia algo que intrigava o inspector Trindade: não havia impressões digitais do neto mais novo do velho Castro em lado nenhum do interior da sala, nem nos objectos em que tocou. Até a imagem de Santa Teresinha, que havia sofrido uma limpeza geral para que o pó acumulado durante aquele mês não denunciasse que tinha sido mexida, estava “limpa” de impressões digitais. A Santinha apenas apresentava as impressões do sargento Silveira, lá deixadas quando este a mudou de posição e descobriu o fio. O mesmo acontecia com a maçaneta interior da porta da sala, que só registava as impressões digitais do agente que pulou pela janela e deu entrada ao inspector Trindade e restantes homens da sua brigada. Mas a resposta a este enigma não tardou…

Já quase no fim das investigações, um dos agentes descobriu um par de luvas de enfermagem numa casa de banho, que lá não estavam aquando da primeira “inspecção” às dependências da casa. Nessa altura, o neto mau ainda tinha consigo aquele adereço (que usava nas aulas do seu curso de medicina…), com o qual fez todo o seu trabalhinho naquele início de noite. Assim que teve oportunidade desfez-se das luvas, mas foi pouco cuidadoso na escolha do local para o fazer. O Silveira sustentava ainda que, para além daquele descuido, o neto mau havia cometido outro erro de palmatória ao afirmar que foi “atirado” para dentro da capela… depois de ter desmaiado. Na sua opinião, o jovem não podia saber como foi parar à capela! No entanto, o inspector Trindade não dera muita importância ao vocábulo utilizado pelo neto.

O que Trindade estranhou foi o facto do neto mais novo do velho Castro ter estado tanto tempo inanimado. O mordomo chegara às 21h15, batera à porta da sala do velho Castro minutos depois, não tendo este respondido. Foi buscar uma escada, subiu às janelas, viu o dono da casa numa posição esquisita e telefonou à polícia. Em todo este processo terá demorado 10/15 minutos. A polícia demorou 20 minutos a chegar à moradia, tendo chamado a Judiciária passados alguns momentos. Se a polícia tinha demorado 20 minutos a percorrer o caminho entre a vila e a moradia, a Judiciária não terá demorado menos tempo. Antes de ter aberto a porta da capela, a brigada de Trindade terá gasto cerca de 10/15 minutos. Tudo somado, o jovem teria estado inanimado durante cerca de uma hora, o que é completamente impossível… com uma pancada tão leve!

A questão da pancada na cabeça com o taco de basebol é que começou por levantar suspeitas no inspector Trindade, sobretudo quando o médico verificou que o ferimento daí resultante se cingia a um ligeiro galo por cima da testa do neto mais novo do velho Castro. As suspeitas adensaram-se quando o jovem disse que tinha sido atacado por um homem alto e muito forte, por duas razões óbvias. Primeiro, se o agressor era forte, a sua força seria conforme a sua musculatura, pelo que a pancada teria deixado mossas muito maiores; segundo, se o agressor tinha grande altura (mais alto do que o agredido…), o taco teria atingido o cocuruto da cabeça! Para que a parte atingida pudesse ser o cimo da testa, a pancada teria de ser desferida de baixo para cima, uma vez que o agressor estava agarrado à vítima, o que não faz qualquer sentido.

………………….. /// ……………………

Eduardo Trindade acabara de redigir o relatório d’ “O Caso do Avô, do Neto Bom, do Mordomo e do Neto Mau”, que concluíra com sucesso, mas sentia-se extremamente desconfortável. Não conseguia esquecer o corpo do velho Albano de Castro sentado na sua poltrona de trabalho, abatido por um tiro! Era exactamente assim, sentado em frente ao computador no seu gabinete de trabalho, que Trindade estava naquele momento. Estava triste, muito triste e pensativo: «como é que alguém em quem se tem tanta confiança, por quem se tem uma enorme estima, é capaz de entrar pela nossa sala adentro e disparar um tiro sobre nós?» De súbito, irrompeu pela porta do gabinete o sargento Silveira de pistola na mão. Trindade pôs-se de pé num grito lancinante. «Calma, inspector, estou só a guardar a arma» – rematou o Silveira.


PÚBLICO-POLICIÁRIO
CAMPEONATO NACIONAL
Temporada 2007-2008

Prova nº 8
“O Inspector Fidalgo e a Morte na Ajuda”, de Inspector Fidalgo


Naquele dia de calor, de um mês de Junho particularmente quente, o Inspector Fidalgo foi chamado a uma vivenda modesta, na zona da Ajuda, em Lisboa, onde ocorrera uma morte violenta, ao que dizia o agente da polícia que tomou conta da ocorrência.
O que se deparou ao Inspector Fidalgo não era agradável. A casa era simples, térrea e com uma traça que indiciava ter-se tratado de construção para habitação social. Em redor, um pequeno jardim, mal arranjado, excepto nas traseiras, em que havia uma horta minimamente cuidada – onde se via, num extremo, um contador eléctrico, com a porta danificada, que alimentava o motor do furo da água –, que contornava toda a casa. Era ali que se encontrava um cão amarrado por uma forte corrente, ensanguentado na zona do pescoço, não sendo possível saber, naquele momento, se foi originado pela luta para o agarrar, se pela corrente a que se encontrava preso, se por outro motivo qualquer.
– Foi muito difícil prendê-lo, sr. inspector, muito mesmo…, referiu o guarda.
O muro exterior, bastante degradado, mostrava uma cancela que já vira melhores dias e a campainha, suspensa pelos próprios fios eléctricos, não funcionava, como o inspector testou. De resto, durante todo o dia não houve energia eléctrica, por causa de uma avaria qualquer numa central e só depois das 20 horas regressou.
Lá dentro, na cozinha pequena, o corpo da vítima estava estendido de bruços, ostentando um ferimento na zona da nuca, muito violento e profundo, certamente a causa da morte.
Em cima da bancada, de limpeza muito duvidosa, dentro de um prato raso, dois bifes temperados e prontos para cozinhar, com alho cortado em lâminas e sal grosso, com umas aparas de folha de louro. Mais adiante, algumas batatas no lava-louças, aguardando a preparação, certamente para cozer, já que uma panela com água estava colocada em cima de um dos bicos do fogão, esperando apenas que a chama fosse accionada.
Num dos cantos da cozinha, um tronco de madeira, de forma semelhante a um bastão, ostentava, num dos extremos, sangue e cabelos, certamente da vítima. Mais ou menos a meio, viam-se pequenas incisões e crateras, que o Inspector Fidalgo pensou serem marcas dos dentes do cão. Parecia ter sido a arma do crime, mas também podia ser, apenas, a causa do ferimento do cão.
Questionados os vizinhos, estes confirmaram que o velho vivia com um filho e não souberam apontar qualquer atrito que houvesse entre eles. Bem pelo contrário, parecia que o filho era trabalhador e delicado e que se davam muito bem, sendo frequente vê-los a brincarem com o cão, atirando-lhe um pau que ele ia buscar de imediato.
Uma vizinha apercebeu-se, durante a tarde, que o cão não esteve lá entre as 14 e as 16 horas, mais coisa, menos coisa, porque o filho o foi buscar e mais tarde devolvê-lo. Disse, também, que o velho não saiu de casa depois do filho sair de manhã, nem abriu a porta a um vizinho, chamado Januário, que lá foi bater e até escreveu um papel que meteu por baixo da porta.
Depois assistiu a toda a confusão, com a polícia a chegar. Tinha a certeza de que ninguém podia entrar ou sair daquela casa sem que ela notasse, porque do local onde estava tinha uma visão completa das portas e janelas.
– Não sei o que dizer… É muito triste tudo isto. O meu pai não fazia mal a uma mosca e não conheço ninguém que lhe quisesse mal. Hoje, o dia não correu nada bem. Logo de manhã, quando acordei, já não havia electricidade. Tomei um banho a correr porque o meu pai andava a regar a horta que tem nas traseiras e zanguei-me com ele porque nem tive já água para lavar os dentes! Depois, fui trabalhar, como sempre faço. Mais ou menos às 14 horas vim buscar o Rex, o meu cão, para ir ao veterinário. Estive lá com ele até por volta das 15h45 e assim que o veterinário acabou o tratamento do animal trouxe-o para casa. Entrei só por um instante para dizer ao meu pai que o Rex já ali estava e que ele devia ter cuidado com as brincadeiras com ele porque levou alguns pontos junto ao pescoço, no local em que lhe foi tirado um quisto bem grande. Quando me fui embora, ele ficou na cozinha a temperar uns bifes para o nosso jantar.
Mais ou menos às 16 horas já eu estava no emprego e estive lá até às 19h30. Fui beber uma cerveja com os meus amigos e mais ou menos às 20 horas já estava em casa. Estive alguns momentos com o Rex a verificar se estava tudo em ordem e depois entrei e dei com o meu pai assim. Telefonei logo para a polícia e esperei pelos agentes. Não mexi em nada e só lá fui fora para agarrar o Rex para os agentes poderem entrar.
Ah! É verdade. Quando cheguei há um bocado estava este bilhete debaixo da porta…
Mostrou ao Inspector Fidalgo uma folha de papel que dizia:
“Sr. Morais, estive cá hoje para lhe falar. Não posso continuar zangado consigo. Certamente que se falarmos tudo direitinho, vamos chegar à conclusão que tudo não passou de um mal-entendido e que podemos ser amigos como sempre fomos durante mais de 40 anos. Peço-lhe que me ligue logo que possa para acabarmos com esta zanga sem pés nem cabeça. Januário (telefone…)”.
Convocado o sr. Januário, este mostrou-se muito incomodado por ser a polícia a ir buscá-lo a casa e apresentou-se muito apreensivo…
– O sr. Morais apresentou queixa contra mim? Mas eu só vim para fazer as pazes com ele, nada mais. Só entrei porque a campainha não funciona e por isso bati à porta duas ou três vezes. Não me lembro a que horas foi… Como ele não abriu a porta, deixei um bilhete, mais nada. Eu não fiz mais nada, juro… A nossa zanga foi por causa do cão dele que passava a vida a fazer desacatos na minha horta, quando andava à solta. Agora isso já não acontece e o cão está sempre no jardim dele. Já não havia razão para mais zangas… Não achei estranho o cão não estar cá fora, porque às vezes ele punha-o dentro de casa, acho que por causa do calor, não sei…
Quando foi confrontado com a morte do Morais, pareceu ficar em estado de choque e não conseguiu dizer mais nada, apenas balbuciava “não fui eu, não fui eu!”.
A vizinha que tudo notava e via estava inconsolável. Então não era que tinha acontecido uma desgraça, ali mesmo, ao pé da sua janela, e não dera conta de nada? Como é que isso poderia ter acontecido?
Já à guisa de despedida, ainda acrescentou para o Inspector Fidalgo, em surdina:
– Sabe, era boa pessoa e o filho também, mas a vida não lhes foi fácil. Há uns anitos estiveram quase a perder a casa, mas lá conseguiram dar a volta. Sabe o que acho? Isto foi obra do diabo…
O Inspector Fidalgo não acredita nisso e os “detectives” certamente que também não.

Solução de Inspector Boavida

Ocorrência: crime de homicídio cometido por agressão física, supostamente através de pancada desferida à traição na cabeça, com uso de objecto de madeira em forma de bastão.

Vítima: um pobre velho, de nome Morais, que vivia no popular bairro alfacinha da Ajuda.

Local da Ocorrência: cozinha da modesta e descuidada habitação que a vitima partilhava com um filho e um cão.

Hora e Data da Ocorrência: período compreendido entre as 08h00 e as 08h50 de um dia particularmente quente, num mês de Junho de um ano indeterminado.

Suspeitos do Crime: são dois os principais suspeitos do crime: o filho da vítima e um amigo desavindo, mas qualquer vizinho poderia ter cometido o homicídio, nomeadamente a “Dona Cuscas da Ajuda”, mulher que tudo vê e tudo sabe; até o cão podia ser o assassino, mesmo não sabendo pegar em paus para com eles bater em pessoas…

Autor do Crime: poderia muito bem tratar-se de um “crime canino” (?)… mas o autor do crime terá sido o filho da vítima, que parece gostar mais do cão do que do pai; que tinha maus fígados ao acordar; que terá supostamente sabido que o velho pai fez algo ao seu muito estimado cão e não teve contemplações; que só depois de tratar do cão é que se “preocupou” com o cadáver do pai; que inventou uma briga sem sentido, metendo muita água… onde ela não havia; que engendrou uma história que meteu “quistos grandes!” e veterinário; que encenou uma jornada de culinária incrível, com sal a mais e… água dentro de uma panela, depois da electricidade chegar à Ajuda, etc… etc…

Era Uma Vez…
A D. Cuscas da Ajuda, o senhor Morais, o Filho deste, o Rex e o Amigo Januário


A D. Cuscas da Ajuda estava inconsolável. Ela que tudo espreita e tudo vê não tinha dado conta do assassínio do vizinho Morais. Do seu posto de sentinela, sempre atenta ao que se passa no bairro, ela tem uma visão privilegiada sobre a moradia do infeliz vizinho. Dali consegue ver todas as portas e janelas. É por isso que ela tem a certeza de que ninguém entrou ou saiu de casa do Morais, para além do filho, do Januário e… do canídeo Rex. O Januário apenas passou o muro, não chegou a entrar. Escreveu um papel, que meteu por debaixo da porta, e foi-se. O filho do velho Morais saiu pela manhã e voltou às duas da tarde, para sair de seguida com o cão. Regressou cerca de duas horas depois com o bicho e tornou logo a sair, para só voltar mais tarde. Quanto ao falecido, não o viu depois do filho ter saído de manhã.

Pelos vistos, para a D. Cuscas o dia foi extremamente monótono e muito pouco a seu gosto, sem nada de interessante para ver ou ouvir por aquelas bandas. Mas a partir do fim da tarde, por volta das oito horas, o bairro começou finalmente a animar. Foi nessa altura que o filho do velho Morais chamou a Polícia, o que viria a provocar um corrupio de gente a entrar e a sair da moradia. A animação teve o seu início com uma espécie de caçada ao Rex, que andava solto pelo “jardim” da casa e não queria ser preso. Até o conseguirem acorrentar, o cão deu imensa luta à bófia e ao dono mais novo. Coitado do bicho, tinha ao que parece uma mazela no pescoço e a corrente acabaria por agravar a ferida. A agitação prolongou-se noite dentro após a chegada de um piquete da Polícia Judiciária comandado pelo carismático inspector Fidalgo.

Ao que parece, o popular Sherlock de Marinhais não teve quaisquer dificuldades em concluir que o velho Morais fora abatido pelas costas, com uma forte paulada na cabeça, uma vez que se encontrava caído de bruços e a pancada fora desferida na nuca. Quanto à arma do crime, também não parecia haver lugar para dúvidas. A pouca distância do corpo, havia um tronco em forma de bastão com pedaços de cabelo e sangue numa das pontas! As marcas encontradas na parte central daquele objecto faziam crer que ele tinha habitualmente utilidade bem mais pacífica e civilizada. Tudo indicava que o cão e os seus dois donos se ocupavam normalmente em “brincadeiras de busca-busca”, passatempo que mais tarde se confirmaria ser um hábito enraizado naquela casa, através de vários testemunhos recolhidos junto da vizinhança.

Aparentemente os donos da casa tinham não só grande afeição pelo cão como uma especial preocupação pela sua saúde física, a julgar pelo depoimento do filho do velho Morais. Segundo este, o bicho estivera no veterinário entre as 14 e picos e as 15 e 45 para que lhe fosse extraído um quisto do pescoço. Fora ele que o levara e trouxera, seguindo depois para o emprego, não sem antes chamar a atenção do pai para não brincar com o cão devido ao seu ferimento. De acordo com o depoente, nessa altura, o velho Morais ficou na cozinha a temperar dois bifes para o jantar. Atento como sempre aos mais ínfimos pormenores, o inspector interrogou-se sobre qual seria a profissão do rapaz, que era tido como trabalhador. Na verdade, ou ele tinha pedido dispensa no emprego até às 16h00 ou era… barbeiro. Barbeiro e mentiroso!...

Barbeiro, porque normalmente só as Barbearias de Bairro encerram para almoço entre as 14h00 e as 16h00, estando abertas a partir das 9 da manhã e fechando definitivamente às 19h30 (recorde-se que o rapaz voltou a casa por volta das 14h00 para apanhar o cão, regressou com o bicho às 15h45, já estava no emprego às 16h00 e saiu do trabalho às 19h30!...); Mentiroso, porque os bifes que se encontravam na cozinha não podiam ter sido temperados às 15h45, uma vez que, passadas mais de quatro horas, o sal (mesmo grosso…) já não seria visível! Por outro lado, era impossível que uma pessoa habituada a cozinhar, devido à circunstância de não ter recursos para pagar a uma empregada, pusesse sal nos bifes com tanto tempo de antecedência. O velho Morais teria com certeza a consciência de que, assim, a carne ficaria intragável!...

O inspector começou a questionar-se da veracidade da ida do cão ao veterinário, mas essa questão seria facilmente esclarecida através do testemunho do médico. Bastaria uma visita à Clínica para saber exactamente se o rapaz lá fora, quando havia marcado a consulta e a que tipo de tratamento tinha sido sujeito o bicho. É sabido que a extracção de um quisto (grande!...) num animal obriga a uma anestesia geral, da qual o “paciente” leva bastante tempo a recuperar. Um caso destes requer recobro e convalescença, não permitindo que o cão regresse a casa pelas suas próprias patas. E a D. Cuscas não reportou que o bicho tinha vindo ao colo do dono. Disse apenas que ele o trouxe. Por outro lado, uma cirurgia destas demora mais de duas horas, com prévia raspagem do pêlo para evitar o “ataque” das mais variadas bactérias…

O inspector Fidalgo não tem quaisquer problemas de visão, dizem até que ele tem olhos de águia! O que acontece é que, às vezes, não lhe apetece ver o que está mesmo à frente do seu nariz. Só vê o que quer e só ouve o que lhe interessa, e pronto. E ele não estava nada preocupado com o ferimento do cão. Viu sangue no pescoço do bicho e é tudo. Não lhe ocorreu ver se o canídeo estava sem pêlos no pescoço ou se havia sinais de que tivesse sido recentemente suturado. É certo que o sangue poderia esconder os vestígios de uma qualquer pequena costura, mas não conseguiria camuflar a falta de pêlos na zona do pescoço se isso se verificasse, assim como não impediria que se visse o protector que é natural os veterinários colocarem em torno das feridas mais delicadas, para impedir que os animais as atingiam com as suas patas ou com a boca...

O filho do Morais teria decerto levado o bicho ao veterinário (uma mentira destas seria facilmente detectada!). Mas o inspector começava a suspeitar daquela consulta, que, a confirmar-se, não fora previamente marcada. Uma coisa é certa: a eventual ida ao médico não tivera nada a ver com a extracção de um quisto. Com esta cirurgia o cão ficaria muito debilitado, a necessitar de especiais cuidados, e o dono não o deixaria na rua, num dia de imenso calor, durante tanto tempo. Em circunstâncias normais, deixaria o animal dentro de casa, com o pai. Por outro lado, se o bicho estivesse sob os efeitos de anestesia, ainda drogado e enfraquecido, não reagiria a intrusos com a agressividade que foi relatada. Deste modo, sendo verdade que o bicho estivera no veterinário, fora lá cuidar de um qualquer ferimento de natureza ainda desconhecida…

Entretanto havia que verificar a autenticidade de outras afirmações do filho do Morais, nomeadamente o facto da sua higiene pessoal ter ficado a meio, naquela manhã, por falta de água. Era estranho a rede pública não abastecer aquela residência, que tinha todo o aspecto de integrar o tipo de habitações sociais mandadas edificar pela Câmara Municipal nos tempos da “velha senhora”. Até porque, mesmo que a casa não fosse camarária, o facto do seu abastecimento de água ser feito apenas por meio de um furo artesiano não abonaria nada em favor da edilidade! A explicação podia residir na debilidade económica dos Morais, que teria porventura determinado o corte de água por falta de pagamento. Bom, era preciso confirmar as causas da falta de água e… clarificar a verdadeira dimensão da sua relação com a electricidade!...

O filho do Morais afirmou que o dia não começara bem. Quando se levantou, pela manhã, não havia electricidade em casa e o pai estava a regar a horta. O inspector sorriu. Não sabia a que horas o rapaz se levantou, mas considerando que ele trabalha perto de casa (a muito menos de 15 minutos de distância…) e a jornada de trabalho terminava às 19h30, não devia ser muito cedo. Seriam talvez oito da manhã. O dia havia sido particularmente quente, pelo que, àquela hora, o Sol já queimava! E o velho Morais tinha a horta cuidada, o que revela que ele teria conhecimento de que o cultivo não deve ser regado em momentos de excessivo calor. A rega deve ser feita de manhã muito cedo ou ao fim do dia, ao pôr-do-sol! Mas, mais estranho: se não havia electricidade e o furo artesiano funcionava por bomba eléctrica, não podia haver água!!!

O rapaz tinha sido claro: já não havia electricidade e o pai estava a regar a horta! Pior ainda: o filho do Morais disse que conseguiu tomar o seu banho matinal e só não teve água para lavar os dentes!... O inspector Fidalgo sabia que estava perante uma impossibilidade. Não havendo energia eléctrica, o motor não funcionava, pelo que não se podia extrair água do furo artesiano. E uma vez que esta situação se manteve até depois das oito da noite, altura em que a avaria registada na central eléctrica que serve aquela zona da cidade fora reparada, era fácil concluir que a panela que se encontrava em cima de um dos bicos do fogão tinha sido abastecida de água há muito pouco tempo, porque só depois da reparação da avaria que privara o bairro de electricidade é que o furo artesiano dos Morais podia fornecer água àquela casa.

Podia admitir-se que os Morais dispunham de um depósito de água a que recorriam em situações análogas, mas o inspector não encontrou sinais de tal equipamento por lá. Ele viu um contador, com a porta danificada, de onde se alimentava de energia eléctrica a bomba do furo artesiano. Ele observou ainda a falta de manutenção da cancela do muro exterior, o estado degradado da campainha da porta da rua, o abandono do jardim que contornava toda a casa e a falta de higiene patente na cozinha… mas um reservatório de água, isso não viu! O desmazelo da casa não revelava apenas que ali vivia uma família modesta, mas gente pouco atenta ao seu próprio bem-estar e segurança. A falta de limpeza e de conservação podia muito bem ter sido, aliás, a razão que quase determinou em tempos o despejo de pai e filho, situação revelada pela D. Cuscas.

O depoimento do rapaz apresentava ainda outras incongruências, que o denunciavam como mentiroso... Ele disse que encontrara um papel no chão, dentro de casa, junto à porta, quando regressou ao fim do dia, o que não coincide com os restantes relatos. O autor da mensagem era o vizinho Januário, e este disse que a colocara por debaixo da porta, depois de ter batido e não ter obtido resposta. Portanto, o cão não estava por lá. O Rex não fora visto no jardim nem reagira (ladrando) à sua presença! E a D. Cuscas garante que o bicho só lá não esteve entre as 14 e as 16, o que significa que o Januário terá deixado o seu escrito antes do filho do Morais ter regressado com o cão. E se este diz que entrou em casa para recomendar ao pai cuidado com as brincadeiras com o bicho, teria visto o papel nesse momento e não mais tarde, por volta das 20 horas.

O inspector não tinha dúvidas de que o filho do Morais não havia entrado em casa quando regressou com o cão (do veterinário?!). Aquela mentira do rapaz era muita estranha… e suspeita! Até porque eram muitos os indícios de que o velho já estaria morto a essa hora. O seu vizinho Januário bateu-lhe à porta algum tempo antes e ele não respondeu. Podia admitir-se que ele recusava falar com o ex-amigo, com quem estava zangado há algum tempo, mas para isso era preciso que o velho Morais soubesse quem lhe batia à porta. Porém, o Januário não o chamou, apenas bateu à porta. Por outro lado, a D. Cuscas sustenta que o velho não saiu de casa depois do filho partir para o emprego de manhã. Embora cientificamente só se pudesse apurar a hora exacta da morte do velho Morais após a autópsia, Fidalgo acreditava que ele morrera de manhã.

O imenso calor a que o cadáver esteve exposto impedia que algum médico legista pudesse determinar com rigor a hora da morte, sem apurar a temperatura do fígado da vítima (a temperatura daquele órgão desce 0,5 graus celsius por cada hora passada após o óbito). E para isso era preciso esperar pela autópsia! O estado de putrefacção do corpo ajudava muito pouco. Pelo contrário, dificultava qualquer avaliação séria do momento do falecimento da vítima. Poder-se-ia perguntar por que razão o cão não reagira ao cheiro nauseabundo que foi aumentando ao longo do dia. A resposta era simples: o cão não assistira provavelmente ao homicídio do dono e, por essa razão, não associava aquele cheiro à sua morte. Para ele, o cheiro era diferente, apenas isso, uma vez que só os cães que são treinados para descobrir cadáveres reagem nervosamente a esse odor.

Acresce que, como muito bem sabe qualquer experimentado caçador, até os melhores cães treinados para a caça diminuem substancialmente a sua performance quando há muito calor. Tal efeito produz-se igualmente em qualquer canídeo, seja ele de raça pura ou rafeiro, de pequeno, médio ou grande porte, quando o tempo atinge temperaturas extremamente elevadas. É natural, por isso mesmo, que o Rex nem desse conta de que o cheiro do meio ambiente era muito diferente do habitual e que foi aumentando de intensidade à medida em que o tempo avançava. A tudo isto poder-se-á também acrescentar a possibilidade do bicho ter sido medicado por um qualquer anestésico durante a consulta no veterinário, onde supostamente fora tratar da ferida que tinha no pescoço, o que faria diminuir ainda mais a sua capacidade olfactiva.

Aquela ferida, não sendo resultado de um grande quisto pelas razões já explicitadas, teria de ser bem explicada. Algo terá acontecido de manhã que feriu o cão, talvez enquanto o filho do Morais dormia. Terá sido acidente? Ou será que o Morais não gostou que o bicho tivesse feito algum disparate na sua horta?!... O cão sangrava do pescoço quando o inspector chegou a casa dos Morais. E aquele sangue não podia ser apenas resultado do facto do bicho ter sido preso à força pela polícia. Por muito furioso que estivesse, por ver tantos intrusos na casa que tinha por missão defender, o Rex não ficaria com o pescoço tão maltratado. A não ser que tenha sido suturado naquela zona ao início da tarde e a ferida se abrisse durante a tentativa de se soltar da corrente que o impedia de combater a invasão do seu território por gente que lhe era estranha…

O cão era uma verdadeira fera… e um desordeiro. A sua ferocidade, patente na forte corrente que servia para o prender, foi testemunhada pelos agentes da PSP que tomaram conta da ocorrência registada em casa dos Morais antes da chegada da Judiciária, que se viram em palpos de aranha para segurar o bicho, apesar da presença e ajuda do dono. A sua pouca sociabilidade é afirmada pelo vizinho Januário que diz ser o comportamento do bicho a causa da sua zanga com o velho amigo Morais, por ser useiro e vezeiro em provocar desacatos na sua horta quando andava à solta. Mas apesar do seu espírito desordeiro e da sua ferocidade, o cão Rex, para além de não ser capaz de pegar em paus para agredir pessoas, decerto seria incapaz de fazer qualquer mal ao seu dono, fosse de que maneira fosse. Um cão bem estimado é o melhor amigo do homem!...

Os vizinhos eram unânimes em considerar que o bicho se dava muito bem com os donos, sendo frequente vê-los em animada brincadeira. Até o vizinho Januário, que não tem muita estima pelo cão pelas razões que se conhecem, recorda que Rex passava muito tempo dentro de casa em companhia do velho Morais, com certeza por iniciativa deste para proteger o bicho da canícula. Tal como o Rex era muito amigo do velho Morais, também este e o filho viviam como “Deus com os Anjos”, de acordo com os testemunhos da vizinhança. Não era conhecido nenhum atrito entre eles, por mais pequeno que fosse, e o rapaz era tido como trabalhador e delicado. O inspector Fidalgo matutava em tudo isto quando a D. Cuscas sentenciou: «O vizinho Morais era boa pessoa e o filho também! Sabe o que eu acho? Isto foi obra do Diabo!».

A D. Cuscas tinha razão. O Diabo andou à solta por ali. Tudo terá começado de manhã, por volta das oito horas, ainda a D. Cuscas estava no choco. O filho do Morais terá acordado com os gritos do pai e os ganidos do Rex. Levantou-se à pressa e foi ver o que se passava. O pai e o cão estavam nas traseiras da casa. O bicho tinha feito algum disparate na horta. O velho perdeu a cabeça e castigou-o violentamente, ferindo-o no pescoço. Como mais tarde foi dito pelo filho, «o dia não correu muito bem». Aliás, começou até muito mal! Ele tinha uma grande amizade pelo cão e entrou em discussão com o velho pai, que lhe terá voltado as costas e entrado em casa. O filho estava fora de si. Pegou no tronco com que costumavam brincar com o cão e foi ter com o pai. Este estava na cozinha e nem se apercebeu do que lhe ia acontecer.

Quando viu o pai caído no chão, mortalmente atingido por uma violenta pancada na nuca, o filho do velho Morais ficou desesperado. Completamente desorientado, não sabia o que fazer. Ele precisava de ganhar algum tempo, pensar bem no assunto. Achou que o melhor seria fazer a sua vida normal, para não levantar suspeitas na vizinhança e constituir álibis que o pudessem inocentar. Iria trabalhar como se nada tivesse acontecido, deixaria o cão no exterior da casa e na hora do almoço voltaria para tratar dele. Entretanto decidiria o que fazer com o pai, que ficara estendido no chão da cozinha. Foi por isso que a D. Cuscas não viu o Morais depois do filho sair para trabalhar. Durante a manhã, já no emprego, o filho do velho telefonou para o veterinário que cuidava do Rex e marcou consulta para o início da tarde.

Quando saiu do emprego, na hora do almoço, o rapaz voltou a casa e levou o cão ao veterinário. A ferida era pequena, mas exigiu alguns pontos. Antes de ser suturado, o bicho foi sujeito a um leve anestésico local. Por volta das 15h45, o cão voltou para casa pelas suas próprias patas. O seu dono mais jovem deixou-o no jardim e voltou para o emprego, onde chegou um pouco antes das 16h00. Tudo isto é coincidente com o depoimento da D. Cuscas, que algum tempo antes viu o vizinho Januário a rondar a casa dos Morais. O homem não estranhou não ver o cão no exterior, porque era hábito o amigo Morais levá-lo para dentro de casa a fim de o proteger do calor. Tocou à campainha e esta não funcionou. Passou a cancela e bateu à porta. Nem o velho respondeu nem o cão ladrou. Um estaria no veterinário e o outro estava morto.

Conforme a D. Cuscas testemunhou, o vizinho Januário escreveu algo numa folha de papel, que meteu por debaixo da porta. O filho do Morais viu o papel quando voltou para casa ao fim da tarde, o que o desmente quando afirma que lá entrou um pouco antes das quatro horas. Entretanto, e antes de ligar para a polícia, o rapaz limpou as suas impressões digitais do pau com que atingiu o pai. Meteu algumas batatas no lava-louça, tirou dois bifes do frigorífico e temperou-os com alho laminado, folhas de louro e… sal grosso! Colocou em cima de um dos bicos do fogão uma panela… com água! Passava das 20h00 (ele saiu de emprego às 19h30, foi beber uma cerveja com amigos e só depois foi para casa), a electricidade já tinha voltado! Foram alguns destes gestos e de outras mentiras que o perderam, quando o inspector Fidalgo entrou em acção!...

Tudo isto poderá ter acontecido exactamente assim, mas era preciso confirmar primeiro duas questões: a) o que foi exactamente fazer o cão ao veterinário – será que foi tomar um calmante ou qualquer medicação para doença neurodegenerativa? b) que tipo de ferimento tinha exactamente o velho Morais na nuca (sabe-se que era profundo e foi provocado com violência, nada mais) – será que havia fluidos de cão na ferida? Se as respostas que se sugerem a estas duas perguntas forem positivas, podemos estar perante um “crime canino”! Ou seja, podemos estar perante um crime cometido pelo Rex, o que explicaria a violência inusitada que o cão demonstrou quando a polícia o procurou prender, depois do dono tentar segurá-lo sem sucesso. Neste caso, os comportamentos do filho da vítima seriam justificados com a intenção de encobrir o bicho.

Ao contrário do que se possa pensar, tragédias semelhantes acontecem com bastante frequência. Bem recentemente, em 21 de Junho de 2008, uma senhora de 61 anos, residente na Aldeia do Carrasco, perto de Portimão, faleceu vítima de ferimentos graves provocados pelo seu próprio cão. O ataque ocorreu quando a sexagenária estava na sua labuta doméstica. O cão de nome “Tejo”, cruzado de rafeiro alentejano, já antes tinha mostrado alguns sinais de ferocidade, exactamente como acontecera com o Rex da Ajuda. O mau estado de conservação do exterior da casa, nomeadamente a cancela, a campainha, a porta do contador de electricidade e o jardim, podia ser resultante do desatino do cão dos Morais. Aliás, o facto da corrente que servia para o prender ser forte é sintomático, bem como os desacatos que ele provocava nas hortas alheias.

Geralmente, sempre que ocorrem casos destes, os cães são abatidos! O filho do Morais tudo faria para o evitar. Ele seria capaz de tudo para esconder tal cometimento feroz do seu cão, mesmo que a vítima fosse o seu próprio pai. Depois de perder o pai, ele não suportaria perder também o seu cão. Aparentemente, o velho Morais e o Rex eram os seus seres mais queridos. Por essa razão, o rapaz não hesitaria em criar um cenário que inocentasse o cão, caso tivesse sido este o assassino. Assim, o pau-bastão seria utilizado para encenar um homicídio cometido por um ser humano. Para isso, seria necessário desferir uma pancada na cabeça do pai, no local da mordedura do cão, para que numa das pontas do pau ficassem restos de cabelos do pai e… sangue. O sangue ainda não tinha coalhado, devido ao imenso calor que se fazia sentir nesse dia.

De facto, os latidos e os gritos que acordaram o filho do velho Morais, naquela triste manhã, podiam ter tido o mesmo trágico desfecho, mas os seus protagonistas teriam tido acções diversas daquelas que o inspector Fidalgo teorizava com base nos elementos que conseguira reunir. O assassino podia não ter sido o filho da vítima, mas sim o Rex. A autópsia ao Morais e o depoimento do veterinário iria esclarecer tudo! Porém, o exame médico-legal demoria bastante tempo e o veterinário só estaria contactável no dia seguinte. Não se podia esperar. Era preciso entregar um relatório dentro do prazo que fora estabelecido pelo temível chefe LP. Não havia tempo a perder. E como o caso não pode ter duas conclusões, sob pena de uma avaliação negativa, acusa-se o filho! Depois, se for caso disso, reabre-se o processo e produz-se novo relatório…

E pronto (como diz o “chefe” LP). O rapaz (era barbeiro?...) fez a “barba ao pai”, isto é, fez-lhe um “caldinho” que o deixou com uma feia e profunda careca na nuca… para sempre! O moço não teve cabeça e agora terá “direito” a uma nova morada, para umas férias prolongadas, num grande condomínio fechado, onde ficará durante alguns anos, em regime de pensão completa. A Câmara de Lisboa ligará finalmente aquela casa à rede pública de abastecimento de água. O Januário adoptará o Rex, que se tornará num bichinho calmo e amigo das hortas. A D. Cuscas, que tudo vê e afinal pouco sabe, continuará a cuscar a sua vizinhança, mas agora com mais cuidado, maior atenção e… sem qualquer pudor, como até aqui. Ela até já comprou uns binóculos, uma câmara de vídeo e um gravador áudio de longo alcance. Agora é que nada lhe escapará!... 
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