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Friday, May 08, 2009
  MUNDO DOS PASSATEMPOS – JORNAL ALMEIRINENSE
TORNEIO JARTUR MAMEDE

PROVA Nº. 4

A MISTERIOSA CHARADA, de Rip Kirby


Quando o Dr. Jorge Guerra chegou ao seu consultório, já Rosário, a mulher-a-dias, tinha feito a limpeza ao gabinete dele, à sala de espera e preparava-se para fazer o mesmo ao gabinete da sua secretária. Contudo, “mal sabia” ele que aquele era o seu último dia de vida. Às 11h da manhã, um dos seus pacientes encontrou-o morto no seu gabinete. Um telefonema para a PJ trouxe ao local o Insp. Eduardo Trindade e toda a sua equipa.
O consultório constava de uma sala de espera com algumas cadeiras e uma mesa com algumas revistas. O chão estava coberto com uma espessa alcatifa. Quando se entrava, à direita ficava o gabinete do doutor. Em frente, situava-se o gabinete da secretária. À esquerda, duas portas. Uma pertencia à arrecadação e a outra era a do bar. Entre este e o gabinete da secretária havia um corredor que dava acesso a uma casa de banho.
Eduardo Trindade entrou no gabinete do médico e viu este sentado à secretária, recostado como se falasse com alguém à sua frente. Entre os olhos, um pouco acima da confluência do nariz com a testa, via-se o orifício por onde entrara a bala que lhe tirara a vida. Não havia queimadura nem resíduos de pólvora.
Sobre a mesa de trabalho viam-se, à direita do cadáver, o telefone, um bloco de papel, com folhas numeradas, destinado a receitas, e um copo de cristal, contendo algumas esferográficas Bic de tinta vermelha, azul e negra. No lado contrário, ao alcance da mão, um bloco de papel quadriculado e, mais longe, um livro de medicina. Nas gavetas, só amostras de medicamentos. Na frente de Guerra estava uma folha arrancada do bloco de receitas, com alguns algarismos e uma frase escrita com esferográfica de tinta verde. Os algarismos (dispostos aproximadamente como se podem ver abaixo) e a frase eram os seguintes (tendo a parte superior virada para o lado do cadáver):


Ligar entre si os algarismos que tenham algo em comum entre eles
1
2 4
3 5
6

O número de ordem desta folha era três vezes mais baixo do que o da primeira folha visível no bloco. De acordo com o parecer de perito competente, os algarismos e a frase haviam sido redigidos por um esquerdino. Segundo o médico legista, a morte havia sido instantânea e ocorrera cerca de 30 minutos antes de ter sido dado o alarme. Os peritos concluíram que o tiro fora disparado por uma arma de pequeno calibre, a pouco menos de um metro de distância, por alguém que se encontrava de pé.
No local nada foi encontrado de estranho. Quanto a impressões digitais só as do médico e, aqui e ali, as da empregada de limpeza. Nos braços do cadeirão destinado aos pacientes foi detectado um emaranhado de impressões frescas, mas de identificação praticamente impossível.
Após o corpo ser levado, o Inspector entrou no gabinete da secretária da vítima com um dactilógrafo e, enquanto este passava o rato do computador aqui existente da esquerda para a direita, disse a Silveira que chamasse a Rosário. Quando esta entrou, pediu-lhe que lhe contasse tudo o que ali se passara nessa manhã. A empregada, muito nervosa, contou o seguinte: O doutor entrou e foi direito ao gabinete, voltando pouco depois com uma folha de papel que me entregou, dizendo-me: Rosário, a D. Natália não vem hoje de manhã pelo que preciso da sua ajuda. Aqui estão os nomes de alguns pacientes, e a hora a que cada um deve ser atendido. Não deixe entrar nenhum fora da hora aí apontada.
O primeiro chegou às 8h50 e dez minutos depois mandei-o entrar. Foi o senhor Eduardo Neves, que esteve lá dentro vinte minutos. O senhor Rui Abreu chegou alguns minutos antes das 9h30 e a essa hora ele entrou. Saiu eram 9h55. Às dez horas era a vez do senhor David Mayer, mas ele só chegou dez minutos depois dessa hora, pelo que não o deixei entrar sem que antes perguntasse ao senhor doutor se o atendia. Respondeu-me que não.
Transmiti ao senhor David a resposta do meu patrão, o que o irritou; deu-me um empurrão e entrou no gabinete. Ouvi eles discutirem (a porta ficara aberta) e cinco minutos depois saiu. Ia muito exaltado.
Como a próxima consulta seria às 11, aproveitei e, como de costume, fui ao bar, fiz café e comi duas sanduíches, pois estava com fome.
Demorei no bar perto de 30 minutos, depois fui ao banheiro. Quando voltei à sala de espera, senti o cheiro de um perfume no ar e pensei que tivesse sido a D. Natália que já tivesse chegado; mas enganei-me e o perfume devia ser o do senhor David, que também estava muito perfumado. Às 11h chegou o senhor Alberto Pimentel, que mandei entrar imediatamente. Mas ele, logo que abriu a porta, voltou para trás, dizendo que o senhor doutor não estava bem. Entrámos os dois e verificámos que o patrão estava morto.
Findo o depoimento, que foi digitado no computador, Trindade imprimiu uma cópia e, tirando uma esferográfica de um copo de cristal, colocado à esquerda do computador, tendo toda a variedade de cores de tinta da Bic, pediu a Rosário para assinar, o que esta fez sob as vistas de Silveira que parecia fascinado pelo tremor da mão direita da empregada segurando a caneta.
Depois que Rosário saiu, entrou Natália de Sousa, a secretária da vítima, que, entretanto, havia chegado. Era uma mulher muito bela e alta. Disse não poder dizer nada de útil, pois não estivera no consultório nessa manhã nem fazia ideia de quem podia ter disparado no Jorge. Afirmou que era ela quem fazia as marcações das consultas, que na véspera transmitia por escrito ao doutor. Silveira parecia fascinado pela beleza de Natália, não desviando os olhos dela, mas mentalmente pensava: Como era possível que uma mulher, vestindo tão luxuosamente, usasse no braço uma bolsa, que, apesar de ser nova, tinha um pequeno buraco num dos topos?
Perguntado a Natália se ela sabia o significado dos algarismos e da frase que estavam na folha de receitas encontrada junto do morto, ela respondeu que não, mas que devia ser alguma das charadas em que Jorge andava sempre a pensar.
Natália assinou o seu depoimento e saiu, entrando de seguida David Mayer, que havia sido mandado chamar. Quando se cruzaram, Silveira detectou o olhar rancoroso que Natália lançou a David, mas este pareceu não se impressionar.
Do que David Mayer disse, ficou registado o seguinte: Não estava doente; a consulta que marcara fora um pretexto para falar com Jorge de quem era amigo, mas este havia dias que andava a fugir de se encontrar com ele. Jorge tinha um caso com Natália e andava a tratar do divórcio para poder casar com ela. Ele, David, aconselhara-o a que não fizesse isso, mas o Dr. não lhe dava ouvidos.
Na semana anterior, David, que havia descoberto que Natália traía o amigo, contara a este, que se zangou seriamente. Parecia que Jorge havia confirmado as acusações, pois mandara suspender o processo de divórcio. Mas ainda estava ressentido com ele. David afirmou que não havia chegado atrasado à consulta. No papel que Natália lhe dera estava anotado 10h10; infelizmente, ele deitara fora o papel. David assinou as suas declarações, com mão firme, sob o olhar atento de Silveira, que parecia admirar a grossa aliança de casamento que o declarante tinha na mão, espalmada sobre o papel.
Por diligências feitas posteriormente, determinou-se que naquele dia o médico havia passado três receitas cujos números eram os exactamente anteriores ao que se encontrava visível no bloco de receitas e os que se seguiam ao da folha com a charada.

Será que com estes elementos é possível descobrir quem matou Jorge Guerra?


SOLUÇÃO de Inspector Boavida

O Inspector Trindade e o Sargento Silveira foram chamados de urgência para resolver mais um caso aparentemente complexo e difícil. O médico Jorge Guerra aparecera morto no seu consultório, sentado à secretária, atingido entre os olhos por uma bala de baixo calibre. A ferida não apresentava queimaduras nem resíduos de pólvora, facto que afastava a hipótese de se tratar de um suicídio. Esta conclusão era também reforçada pela ausência, no local do crime, da arma que desferira o tiro. Intrigante era a circunstância de se encontrar sobre a secretária uma folha do livro de receitas com uma estranha mensagem em forma de charada, composta pela frase «ligar entre si os algarismos que tenham algo em comum» e pelos números 1, 2, 3, 4, 5 e 6 dispostos de tal forma que, seguindo a indicação do texto, formavam uma cruz de seis pontas.

Curioso era o facto da frase e dos algarismos que nos remetiam para o símbolo judaico estarem escritos a verde e não haver qualquer caneta daquela cor no gabinete da vítima. Em cima da secretária havia diversas canetas, de cor vermelha, azul e preta, mas verdes nem vê-las! Curioso era também o facto da folha que continha a charada se encontrar disposta na secretária com o topo da mensagem voltado para o médico, o que indiciava ter sido escrita e lá deixada por outrem. Este “mistério” seria ainda engrossado pelo resultado da análise feita por um perito em caligrafia, que concluiu ter sido a folha escrita por uma pessoa esquerdina. E, como se podia perceber pela disposição dos objectos poisados sobre a secretária, o clínico era dextro: o telefone estava colocado à sua direita, assim como um livro das receitas e as já referidas canetas coloridas.

Aparentemente apenas quatro pessoas teriam visto Jorge Guerra com vida nesse dia. E pelo menos duas delas eram dextras: a empregada de limpeza, Rosário, e o paciente e amigo do falecido, David Mayer. O Sargento Silveira havia reparado na mão direita trémula de Rosário segurando a caneta com que assinou o seu depoimento. E foi também sob o olhar atento do mesmo Silveira que David assinou as suas declarações, poisando a mão que ostenta a sua grossa aliança de casamento (a mão esquerda, portanto!) sobre a folha de papel. Trindade não sabia se as restantes duas pessoas eram dextras ou não, mas a questão começava a parecer-lhe irrelevante. O médico legista havia determinado que Jorge Guerra falecera às 10h30 e aqueles dois pacientes estiveram com a vítima antes dessa hora, não tendo voltado ao consultório.

O primeiro, Eduardo Neves, entrara no consultório à hora marcada de véspera (09h00) e saíra por volta das 09h20. O segundo, Rui Abreu, entrara no gabinete do médico para consulta às 09h30 em ponto e saíra cinco minutos antes das 10h00. Talvez Eduardo Trindade se desse ao trabalho de ouvir estes dois sujeitos e o paciente que encontrara o doutor Jorge Guerra sem vida, mas ele julgava estar já de posse de elementos que lhe permitiriam dar o caso por encerrado. A estonteante beleza da jovem assistente do clínico, a fragrância do perfume que ela usava, o buraco que a sua bolsa de mão ostentava e… a forma como estavam dispostos os seus objectos de trabalho sobre a secretária pareciam ser suficientes para convencer Trindade de que a verdade dos factos estava ali mesmo à sua mercê, configurando o caso um crime passional.

Natália – era esse o nome da jovem – tinha lançado um olhar furioso ao paciente/amigo do doutor Jorge, o tal David, quando este se cruzou com ela no momento da recolha de depoimentos. E esta atitude de Natália foi o sinal definitivo de que as conjecturas feitas pelo Inspector, após os indícios recolhidos no local do crime e os depoimentos das testemunhas, estavam correctas. David sabia do romance de Jorge com Natália e há muito que o aconselhava a não se divorciar para casar com ela, mas todas as tentativas resultaram infrutíferas. Porém, na semana anterior, havia descoberto que ela o atraiçoava e contou a verdade ao amigo, que anulou o processo de divórcio por via disso. Contudo, Jorge continuava furioso e recusava-se a falar-lhe com ele. Por essa razão, David fingiu estar doente e marcou uma consulta para aquela manhã.

Foi Natália quem, no dia anterior, atendeu o pedido de marcação de consulta e registou a hora, por escrito: 10h10. David Mayer apareceu à hora por ela anotada. A empregada de limpeza Rosário substituíra Natália a pedido do doutor, que a informou da ausência da assistente naquela manhã e recomendou que não deixasse entrar ninguém que chegasse atrasado à consulta. Ele passara-lhe a lista das marcações para aquela manhã que lhe havia sido deixada pela assistente, o que ela fazia sempre de véspera. Na relação constava que a próxima consulta seria às 10h00. Invocando atraso de David, o médico teimava em não recebê-lo. David não levava consigo o talão da consulta, mas tinha a certeza da hora lá anotada e, por isso, não desmobilizou. Pelo contrário, irritou-se com a decisão, afastou Rosário por um braço e forçou a entrada no gabinete de Jorge.

A porta ficara aberta e a discussão fora ouvida pela empregada, que não saiu da sala de espera enquanto David esteve com Jorge Guerra. Quando aquele saiu do consultório passavam quinze minutos das dez horas. Rosário não referiu a audição de nenhum barulho que se assemelhasse a um tiro e àquela hora o clínico ainda estava vivo (recorde-se que sua morte tinha sido instantânea e acontecera às 10h30). Entretanto, como a consulta do próximo paciente só estava agendada para as 11h00, a empregada de limpeza foi, como de costume, até ao bar, que fica situado no lado oposto ao gabinete do doutor Jorge, e preparou um café e duas sandes. Após a comezaina, Rosário foi até aos lavabos e só voltou à sala de espera das consultas por volta 10h50. Sentiu então um cheiro intenso a perfume, igual ao que habitualmente usava a assistente Natália.

A empregada Rosário procurou certificar-se se Natália estava no seu gabinete, mas não a viu. Pensou que cheiro a perfume que havia no ar teria sido lá deixado por David, que também era uma pessoa muito “bem cheirosa”. Entretanto, o paciente das onze chegou mesmo em cima da hora e ela dirigiu-o imediatamente para o gabinete do doutor Jorge. Mas o homem saiu logo que entrou. O clínico estava morto, sentado à secretária, abatido com um tiro entre os olhos. A empregada de limpeza não perdeu tempo. Pegou no telefone e ligou para a Polícia. Pouco tempo depois, uma brigada da Judiciária assentava arraiais no consultório, tendo montado o “escritório e sala de audições” no gabinete da assistente Natália. Para o efeito, houve a necessidade de “requisitar” o seu computador e fazer algumas mexidas nos seus instrumentos de trabalho.

O rato do computador que estava no lado esquerdo passou logo para a direita. O dactilógrafo da PJ era dextro e não se ajeitava a trabalhar com o rato colocado junto à sua mão esquerda… Foi aqui que Trindade e Silveira começaram a desconfiar do envolvimento de Natália na morte do patrão. Mas não era apenas o posicionamento do rato que denunciava a “esquerdisse” da assistente. As esferográficas tipo bic, iguais às que estavam na mesa de consultas de Jorge Guerra, também se encontravam à esquerda do computador. E recorde-se que os homens da “Judite” sabiam que a empregada não tinha feito a limpeza no gabinete de Natália naquela manhã, pelo que não havia a possibilidade de Rosário ter mudado a disposição dos objectos no afã das arrumações e limpezas. Ou seja, tudo estaria como a assistente havia deixado na véspera.

Mas há ainda mais outro pormenor que não escapou ao sentido observador dos homens da “Judite”. Ao contrário do que acontecia no gabinete do clínico, as canetas não eram apenas vermelhas, azuis e pretas. Estavam lá canetas de todas as cores… Ou seja, em cima da secretária de Natália também havia esferográficas verdes, exactamente da cor com que foi escrita a charada deixada junto ao morto. Natália disse desconhecer o significado da “mensagem verde”. Fez crer que esta havia sido escrita pelo doutor Guerra, que tinha como hobby a construção e decifração de charadas. Mas Trindade sabia que não podia ter sido Jorge o autor da mensagem. Primeiro, porque não era canhoto. Segundo, porque não usava canetas verdes. Terceiro, porque a folha de papel estava depositada com o topo virado para o lugar onde ele se encontrava sentado.

Natália era canhota, tinha canetas verdes e… odiava David Mayer. E quem escreveu aquela charada queria fazer levantar suspeitas sobre David. A frase enigmática da mensagem escrita junto aos algarismos, e a posição destes, remetiam-nos para uma Cruz de… David. Quem matou Jorge sabia que ele tinha a mania das charadas e decidiu, por isso, deixar aquela mensagem junto ao morto, de modo a que a polícia pensasse que fora este quem a escrevera para denunciar o nome do seu homicida. Natália tinha motivos para odiar David. Fora este que denunciara a sua infidelidade, o que acabaria por motivar o fim do seu romance com o clínico e a decisão deste em cancelar o seu processo de divórcio. Ela tinha planeado casar com Jorge, e David dera cabo de tudo. A sua vingança seria terrível. Matava um e mandava o outro para a cadeia!

Ao ver o seu casamento com Jorge cair por terra, Natália entrou em desespero e planeou ao pormenor a sua vingança. Tudo começou quando David marcou a consulta para aquele dia. Ela sabia que Jorge se irritava sempre que um paciente chegava depois da hora marcada e decidiu agendar a consulta para as… 10h10, anotando na ficha das marcações 10h00! Ela tinha a certeza que David não deixaria de discutir com o clínico quando este se recusasse a atendê-lo, situação que seria testemunhada pela empregada de limpeza. Por outro lado, Natália conhecia a prática habitual de Rosário tomar o pequeno-almoço entre as 10h20 e as 10h30, o que não deixaria de fazer nesse dia. Até porque a consulta seguinte seria às 11h00. Deste modo, Natália teria o caminho livre para entrar no consultório (ela tinha com certeza a chave…) e eliminar Jorge Guerra.

Escondida, Natália esperou na rua pela saída de David e entrou depois no consultório, confiante de que Rosário já estaria a tomar o pequeno-almoço. Dirigiu-se ao gabinete de Jorge e… disparou! A arma era de pequeno calibre, das que são usadas por senhoras e que cabem em pequenas bolsas… O buraco existente na bolsa de Natália foi resultado daquele tiro. O facto dela ser alta explica que tenha atingido Jorge entre os olhos. Ela estava de pé e o clínico sentado. Ele nem se apercebeu que ia ser morto. Só viu que Natália entrou, levou a mão para dentro da bolsa e… Não havia o risco da empregada ouvir o disparo. Ela estava no bar, distante do gabinete de consultas. O disparo fora feito de dentro da bolsa, num espaço com chão revestido a alcatifa espessa (matéria absorvente…), o que abafou o som do tiro (ou será que a arma tinha silenciador?!...).

De seguida, Natália depositou a “mensagem verde” em cima da secretária, de frente para a vítima. Natália tinha feito a Mensagem de véspera, numa folha de receitas do clínico. Recorde-se que o número de ordem da folha de receita que estava no rosto do livro era sequencialmente três vezes acima do da mensagem. Tinham sido três os pacientes que o médico havia consultado, tendo ele passado três receitas. Será que um deles levou duas? Parece pouco crível que David tenha saído de lá com uma receita (ou será que o inspector estava enganado e David levou uma receita de drogas, que o médico prescreveu para ele se acalmar?). Bom, depois de ter cometido o crime, Natália saiu apressada do consultório, antes que a empregada voltasse do seu pequeno-almoço e a visse. Natália saiu de facto, mas deixou por lá o seu perfume a empestar o ar…


MUNDO DOS PASSATEMPOS – JORNAL ALMEIRINENSE
TORNEIO JARTUR MAMEDE

PROVA Nº. 5

ESTÁ TUDO LÁ, de Daniel Falcão


Quando julgamos que nada mais nos pode surpreender, eis que aparece mais um desafio estimulante. Como sei que este é um dos teus passatempos favoritos, sem esquecer a Banda Desenhada, não resisto em pôr à prova as tuas celulazinhas cinzentas.
Esta manhã, pouco depois das nove horas, fomos chamados a uma moradia por um advogado da nossa praça, suspeitando ele que algo errado tinha acontecido a um dos seus clientes. Assim que lá chegámos, além de nos indicar a razão da sua suspeita, explicou os seus movimentos, quando inquirido, desde que chegou à moradia.
Chegou por volta das nove horas, hora previamente combinada, para preparar a reunião que iriam ter no final da manhã com uns investidores. Poucos segundos depois de tocar à campainha, a porta foi aberta pelo sobrinho do cliente. Trocaram algumas palavras, enquanto se dirigiam para o escritório, localizado no andar superior da moradia. A porta, como era habitual, estava fechada. O advogado, sempre acompanhado, bateu; primeiro levemente, depois uma segunda vez e, por fim, uma última vez com um pouco mais de força. Estranhando não haver qualquer resposta, questionou o sobrinho do cliente se já tinha estado com o tio durante a manhã. Recebeu como resposta uma negativa.
Foi então que decidiram ligar para o telemóvel. Quando a ligação foi estabelecida, escutaram o som de uma campainha dentro do escritório. No final do quarto toque, o advogado interrompeu a ligação e, simultaneamente, o outro telefone calou-se. Não havia qualquer dúvida – o telefone e, provavelmente, o seu portador habitual estavam do outro lado da porta.
O sobrinho teve a brilhante ideia de espreitar pelo buraco da fechadura e assim se apercebeu de que o tio estava recostado na cadeira da secretária numa posição estranha. Algo de grave teria sucedido. A decisão fora unânime: ligar para as autoridades.
Chegados ao local, confirmámos a observação que fora anteriormente feita e, depois de um pequeno empurrão, não necessariamente muito forte, pois aquela porta tinha uma chave única e essa estava sempre na posse da vítima, lá entrámos no escritório.
Rapidamente nos apercebemos de que, não fosse o corpo estar sentado à secretária numa posição muito estranha, a visão de sangue já coagulado espalhado pelo corpo e lugares mais próximos e uma arma próxima da mão, tudo estaria no seu devido lugar. Uma observação pouco minuciosa levar-nos-ia a pensar tratar-se de um suicídio. O género de ferimento que apresentava no temporal direito era claro quanto à distância a que o disparo fora efectuado: poucos centímetros. A arma, de onde saíra a bala fatal estava caída no chão, do lado direito e próxima da vítima.
A porta, que estava fechada à chave, era o único acesso ao escritório, já que as janelas existentes ficavam demasiado altas. Estas, como tive oportunidade de confirmar, estavam bem fechadas. Havias de ver a maravilhosa vista de que se pode usufruir por aquelas janelas: um jardim muito bem cuidado, com um imenso lago de águas cristalinas a uma escassa dezena de metros da casa e uma montanha verdejante ao fundo.
Depois de o médico legista ter estabelecido o período no qual teria ocorrido o óbito, algures entre as 22 e as 23 horas do dia anterior, avancei para a recolha dos depoimentos das duas personagens já referidas.
O advogado estivera em casa, desde que chegara às 20h30, na companhia da esposa. Reside a cerca de vinte quilómetros da moradia, demorando aproximadamente uns vinte minutos a lá chegar. Saiu de casa, já passava das 22 horas, respondendo a uma inesperada solicitação da vítima. Recebera um telefonema, pedindo-lhe que passasse na moradia para adiantar uns assuntos relacionados com a reunião do dia seguinte. Já ia a caminho, quando recebeu um SMS indicando que já não era necessária a sua presença e que falariam depois. Já que se tinha preparado para sair, aproveitou e foi até um bar tomar uma bebida. Regressou a casa pouco antes das 23 horas.
Passei, então, para o sobrinho da vítima. Na noite passada, como era a primeira quarta-feira do mês, dia de reunião do seu grupo de amigos, saiu pouco depois das 21 horas e dirigiu-se a casa do amigo que os devia acolher naquela noite. O amigo vivia a pouca distância da moradia; diria mesmo, ali ao lado. Contudo, surgiu um contratempo, a companheira desse tal amigo não estava com disposição suficiente para os acolher naquela noite, pelo que tiveram de se deslocar para a casa de outro amigo (como vivia sozinho, não teria o mesmo problema), bem mais distante – a uns bons trinta quilómetros.
Já passava das 22 horas quando o sobrinho da vítima recebeu uma chamada identificada como sendo proveniente do telemóvel do tio. Este pedia-lhe que se encontrasse com ele, em determinado lugar, para tratar de assunto do seu interesse. Como o local apontado até era muito próximo daquele onde estava, acedeu imediatamente. Dizendo aos amigos que ia tratar de um assunto rápido, saiu. Chegou ao local do encontro, estacionou o automóvel e por lá ficou uns quinze minutos. Como ninguém aparecia, foi até um bar que ficava próximo, de onde podia observar o local. Por fim, aborrecido, decidiu voltar para junto dos amigos. Tinha acabado de colocar as chaves na ignição, quando foi surpreendido por dois indivíduos que o puxaram para fora do automóvel e, apontando-lhe uma faca assustadora, o assaltaram, levando-lhe o casaco de couro, com a carteira, o telemóvel e o que mais lá havia. Por sorte, como tinha a chave na ignição, pôs-se imediatamente dali para fora. Quando chegou junto dos amigos, contou-lhes o que acontecera. Estes decidiram ir imediatamente atrás dos meliantes. Contudo, o assaltado demoveu-os e resolveu voltar para a moradia onde vivia com o tio. Após entrar em casa, ainda foi bater à porta do escritório, mas, como ninguém respondeu, decidiu falar com o tio no dia seguinte.
Enquanto recolhia os depoimentos, os meus homens trataram de passar a moradia a pente fino: escritório, quartos, tudo. E ainda bem que o fizeram, porque foram encontrar, no fundo da gaveta da roupa interior do sobrinho da vítima, a chave da porta do escritório e umas luvas. Encontraram ainda, no guarda-fatos dentro de uma caixa de sapatos, alguns volumes de notas, totalizando 50 mil euros.
Tive oportunidade de consultar o PDA da vítima (não tinha mais nenhum telemóvel e na moradia não havia telefone fixo) e verificar que as comunicações mais recentes foram: recepção de uma chamada não atendida às 9:06:49; no dia anterior, enviara um SMS às 22:20:27 – “Mudança de plano. Falamos amanhã.”; e, antes, fizera um telefonema, às 22:14:02. Sendo a origem e o destino destas comunicações o telemóvel do advogado, pude confirmar as comunicações recíprocas.
Acresce que não foram encontradas quaisquer impressões digitais na chave e apenas as da vítima na arma do crime. Quanto ao dinheiro, confirmei que tinha sido levantado pela vítima, numa agência bancária, no dia anterior.
Os amigos do sobrinho da vítima confirmaram os movimentos por ele descritos, assim como o atendimento do telefonema por volta das dez e um quarto, embora ninguém tenha ouvido qualquer toque de telemóvel, e a sua chegada antes das onze horas. Os empregados dos bares confirmaram a passagem dos dois homens pelos respectivos bares, mas não conseguiram precisar a hora, para além de “entre as dez e as onze”. Na moradia, habitavam apenas o tio e o sobrinho, embora, entre as 8 e as 20 horas, contassem com os préstimos de um casal que tratava do seu interior e exterior. É sabido que os negócios da vítima estavam em queda nos últimos meses e que a relação entre tio e sobrinho não era a melhor, devido aos gastos excessivos do herdeiro único, actualmente desempregado.
– Não precisas de acrescentar mais nada! – exclamou Jartur Mamede, depois de escutar atentamente e sorrindo na direcção de Marcos Dias.
– Ah, é? Expõe lá, então, tintim por tintim, o teu raciocínio…


SOLUÇÃO de Inspector Boavida


O Daniel de Braga, que já foi apenas Falcão, depois de ter sido Mac Jr. e Jomasacuma, e que agora é conhecido entre os seus amigos nortenhos da “tribo” policiária como o “tsunami do norte”, quis colocar à prova as reconhecidas capacidades dedutivas dos veteraníssimos Jartur Mamede e Marcos Dias. Inventou, para isso, uma estranha história policial que envolve um morto, um advogado e um jovem sobrinho da vítima. Juntou àqueles três protagonistas diversos personagens secundários, todos sem nome e muitos deles quase sem acção directa nos acontecimentos, e conduziu a narrativa de molde a fazer recair as suspeitas sobre o sobrinho da vítima. Foi de tal forma óbvia a tentativa de inculpar este protagonista que Jartur e Marcos “torceram o nariz”. Era tudo tão fácil, que eles ficaram logo “à coca”. Mas, vejamos como foi construída a história.

Tudo começou com um telefonema do advogado para a Polícia Judiciária. Ele tinha chegado à moradia da vítima à hora que haviam combinado, por volta das nove da manhã, tendo sido surpreendido por um rotundo silêncio quando bateu à porta do compartimento onde funcionava o seu escritório. Ia acompanhado pelo sobrinho da vítima, que lhe abriu a porta da moradia à chegada e com ele subiu até ao piso onde estaria o tio. O advogado bateu à porta do escritório por duas ou três vezes, mas sempre sem sucesso, tendo então resolvido ligar-lhe para o telemóvel. O toque da chamada ouviu-se do outro lado, mas o seu destinatário não atendeu. Tendo espreitado pelo buraco da fechadura, o sobrinho viu o tio recostado na cadeira da secretária numa posição pouco ortodoxa. Ambos concluíram que algo de grave teria acontecido.

Quando a polícia chegou, a porta do escritório continuava fechada. A chave estava habitualmente na posse do dono da casa e não havia conhecimento da existência de duplicados da dita. Não foi difícil deitar a porta abaixo. Os homens da PJ estranharam o facto do advogado e do sobrinho não terem arrombado a porta para melhor observarem a vítima, porque supostamente não tinham consciência da gravidade da situação. De facto, era incompreensível que eles não tenham forçado a porta, uma vez que não sabiam o que tinha realmente acontecido. Esta omissão poderia até ser utilizada contra eles, se um qualquer bom jurista quisesse acusá-los de crime por falta de prestação de auxílio a um cidadão em risco de vida. Na verdade, quando eles bateram à porta, a vítima ainda poderia estar viva e a necessitar de socorro emergente.

Mas, não. A vítima não estava viva quando o advogado e o sobrinho bateram à porta do seu escritório, naquela manhã. O médico legista concluiu que o homem falecera na noite anterior, entre as 22h00 e as 23h00. O cenário com que a brigada da Polícia Judiciária deparou indiciava que se estava perante um caso de suicídio. O ferimento denunciava que o tiro fora desferido a poucos centímetros do alvo: o temporal direito. A arma que havia disparado a bala fatal encontrava-se caída no chão, perto da vítima e do seu lado direito. Aparentemente, não havia nenhuma desarrumação no local. A porta, que fora encontrada fechada à chave, era o único acesso ao escritório. As janelas existentes situavam-se a uma grande distância do chão, no exterior. Delas avistavam-se um jardim e um lago de águas límpidas, a escassos metros dos muros da moradia.

Enquanto um dos homens da PJ se preparava para recolher os depoimentos do advogado e do sobrinho, os outros membros da brigada efectuaram uma busca por toda a casa. Nos aposentos do sobrinho foram encontrados a chave do escritório da vítima, um par de luvas e 50 mil euros. Estes achados suscitavam alguma perplexidade. Se o sobrinho fosse o criminoso, a presença do dinheiro justificar-se-ia, uma vez que o roubo poderia ter sido o móbil do crime. Mas, por que raio havia ele de esconder a chave (juntamente com as luvas!...)? A esta pergunta acrescentava-se uma outra: se tivesse sido ele o autor do crime, por que razão deixaria o escritório arrumado e a porta fechada? O mais natural seria que ele deixasse tudo desarrumado e as portas abertas (tanto a do escritório como a da rua), para fazer crer que o tio teria sido vítima de um assalto.

A primeira pessoa a depor foi o advogado. Ele morava perto, a pouco mais de vinte quilómetros, demorando cerca de vinte minutos a vencer aquela distância com o seu automóvel. Na noite anterior recebera um telefonema da vítima, convocando-o para uma reunião inesperada. Já passava das 22h00 quando saiu de casa. Ia a meio do caminho quando recebeu uma mensagem escrita, onde se lia que já não era necessária a sua presença em casa da vítima naquela noite, mantendo-se a reunião agendada para o dia seguinte. O advogado diz que aproveitou o facto de já estar na rua para tomar um copo num bar vizinho. Ainda não eram 23h00 quando regressou a casa, facto que a sua mulher obviamente confirmaria. O funcionário do bar, porém, confirmou a presença do advogado no estabelecimento, mas não conseguiu precisar a hora.

Apesar de o advogado não ter um álibi consistente para uma boa parte do período de tempo em que, segundo o médico legista, acontecera o crime, eram várias as circunstâncias que faziam crer que o causídico estava inocente. Impunham-se várias perguntas e esta seria a primeira: se ele tivesse de facto assassinado o seu cliente, por que raio não levara o dinheiro? Seria crível que ele deixasse as luvas e a chave do escritório nos aposentos do sobrinho da vítima, para o incriminar, mas não fazia qualquer sentido que deixasse por lá o dinheiro. Até porque, sendo ele o autor do homicídio, aparentemente não havia outro móbil que não fosse o roubo. Se não fosse o dinheiro a razão do crime, o que teria motivado tal acto? O que ganharia o advogado com a morte do seu cliente? Nada. Pelo contrário, perderia um cliente (para sempre!...).

No seu depoimento, o sobrinho da vítima também declarara a sua inocência. Na véspera estivera reunido com um grupo de amigos na casa um deles. Aquela reunião acontecia habitualmente na primeira quarta-feira de cada mês, por volta das 21h00, e estivera marcada para uma casa das proximidades. Naquela quarta-feira, porém, a companheira do amigo que havia de os receber estava de mau humor, pelo que tiveram que improvisar a reunião à última da hora, numa casa localizada a mais de trinta quilómetros. Já passava das 22h00 quando o sobrinho da vítima recebeu uma chamada telefónica. Nenhum dos amigos ouviu o telemóvel tocar. Apenas o ouviram falar ao telefone. Este facto podia ser facilmente explicado se o rapaz tivesse o telemóvel em silêncio e encostado ao corpo, de forma a poder sentir a vibração do aparelho.

No telefonema, o tio pediu-lhe que se encontrasse com ele, a fim tratar de um assunto de seu interesse. Como o local indicado era próximo da casa onde decorria a reunião, acedeu de imediato. Disse aos amigos que ia tratar de um assunto rápido e saiu. Segundo estes, seriam 22h15. Quando chegou ao sítio combinado, estacionou o carro e ficou à espera. Havia um bar por perto e resolveu entrar. Sentou-se num sítio de onde podia observar o local do encontro. Cansado de esperar, resolveu voltar para junto dos amigos. Quando já estava dentro do carro, com as chaves na ignição, foi surpreendido por dois estranhos que o puxaram para fora da viatura. Sob a ameaça de uma faca, foi despojado do casaco, onde tinha a carteira, o telemóvel e outros pertences. Felizmente, a chave havia ficado no carro, que, estranhamente, os meliantes não levaram.

O empregado do bar confirmou que o rapaz havia estado por lá naquela noite, mas não se lembra que horas eram quando ele chegou e quando saiu. Os amigos afirmam que ele regressou à casa onde decorria a reunião antes das 23h00. No espaço horário que medeia entre as 22h15 (quando saiu da casa dos amigos) e as 23h00 (quando regressou) seria quase impossível que o sobrinho da vítima tivesse tempo de ir tomar um copo a um bar, de se deslocar à moradia onde vivia, assassinar o tio, esconder o dinheiro, as chaves e as luvas no seu quarto e voltar para junto dos amigos. As duas casas ficam a uma distância de “uns bons trinta quilómetros” (leia-se: a mais de 30 kms…), o que significa que o rapaz teria feito uma viagem de 60 quilómetros em menos de quarenta e cinco minutos, de noite, e ainda tivera tempo suficiente para “visitar” um bar.

Como diria o nosso ex-“primeiro” Guterres, bastaria fazer as contas para afastar o sobrinho de todas as suspeitas. Mesmo não se conhecendo as estradas que ligam as duas casas (da vítima e do amigo do sobrinho), poder-se-ia admitir que uma distância de 60 quilómetros se consegue vencer a uma média horária de 90 km (o que já é uma velocidade considerável para uma viagem nocturna numa via não-rápida), o que equivale a 40 minutos de tempo gasto. Se a este tempo se somar cerca de (apenas) 5 minutos para cometer o crime e mais outros tantos 5 minutos para tomar o copo no bar, chegar-se-á à conclusão de que o rapaz teria gasto 50 minutos em toda esta “operação”. Ou seja, ele nunca poderia ter chegado a casa do amigo onde decorria a reunião antes das 23h00 como se confirmou ter acontecido através dos depoimentos recolhidos.

Sublinhe-se, entretanto, que estes cálculos pressupõem que as estradas percorridas pelo sobrinho da vítima permitiriam a circulação de viaturas automóveis a uma média bastante mais elevada do que aquela que o advogado consegue atingir para vencer os 20 quilómetros que separam a sua casa da moradia do seu cliente. No caso do advogado, recorde-se que ele demorava cerca de 20 minutos a percorrer 20 quilómetros, o que significa que teria de circular com o seu automóvel a uma velocidade média de 60 km/hora. Ou seja, partindo do princípio de que os caminhos são idênticos (uma vez que a acção decorre basicamente no mesmo espaço territorial), o sobrinho da vítima teria demorado cerca de uma hora a percorrer por duas vezes (ida e volta) a distância que separa a casa onde decorria a reunião e a moradia onde ele vivia com o tio.

Faz algum sentido que o sobrinho da vítima tenha desencorajado os amigos no impulso de partir no encalço dos meliantes que o atacaram, uma vez que muito dificilmente seriam bem sucedidos nessa empresa e, por outro lado, se os alcançassem, decerto que a noite acabaria da pior maneira, uma vez que a violência gera violência. O que não faz qualquer sentido é que os assaltantes se tenham limitado a roubar o casaco de couro, a carteira e o telemóvel do rapaz, uma vez que o carro estava por lá à sua mercê… com a chave na ignição. O facto dos meliantes não terem levado o automóvel parecia indiciar que eles queriam que o rapaz não tivesse provas de que o assalto acontecera. Algo parecia indicar que o móbil daquele estranho assalto não tinha sido verdadeiramente a extorsão de bens. Qualquer coisa de bizarro se escondia por detrás daquele assalto.

Havia elementos mais do suficientes para se poder ilibar o sobrinho de quaisquer suspeitas. O mesmo se pode dizer relativamente ao advogado. Recorde-se que, através dos registos dos telemóveis deste e da vitima, se confirmou que o advogado recebera uma chamada daquele às 22h14m02s e que às 22h20m27s recebera da mesma proveniência uma mensagem onde se dizia: “Mudança de plano. Falamos amanhã”. Sublinhe-se que também se confirmou que o advogado ligou para a vítima às 09h06m49s (chamada não atendida), que coincide com a hora a que ele diz ter telefonado para o seu cliente quando este não respondeu à sua chamada. No telemóvel foi com certeza encontrado o registo de um telefonema para a PJ, uma vez que não havia telefone fixo na moradia e o sobrinho havia sido despojado do seu telemóvel.

Ainda no que respeita à consulta feita ao telemóvel da vítima, convinha atentar na falta de registo relativo à chamada que aquele supostamente fizera para o sobrinho. Jartur e Marcos olharam um para o outro e sorriram, dando claramente a entender que tinham uma explicação para o facto. Eles estavam agora absolutamente seguros de que não se tratara de um crime de homicídio. A tese por eles defendida assentava em suicídio planeado com encenação de assassinato, visando claramente a culpabilização de uma pessoa. Entre a vitima e o seu sobrinho não havia uma relação que se recomendasse, e, por outro lado, os negócios do primeiro atravessavam um período complicado. Estas pareciam ser as razões que levaram a vítima (a partir de agora, suicida) a pôr termo à vida na noite da véspera, criando todas as condições para inculpar o seu sobrinho.

Durante o dia, o suicida levantou cinquenta mil euros da sua depauperada conta bancária, mandou fazer um duplicado da chave do seu escritório e… voltou para casa, onde pôs em prática toda a encenação do seu “homicídio”. Ele tinha conhecimento dos hábitos do sobrinho, pelo que sabia que naquela noite o rapaz estaria numa reunião de amigos, numa casa situada nas proximidades da sua moradia. Por outro lado, sabia que o sobrinho naquelas ocasiões usava normalmente o seu telemóvel no “modo” de silêncio, colocando-o num dos bolsos, junto ao corpo, de forma a sentir as suas vibrações caso alguém lhe telefonasse. Este facto servia perfeita e duplamente o macabro e maquiavélico plano do suicida: por um lado, ele podia telefonar para o sobrinho e, por outro, ninguém podia testemunhar que o telefone tocara.

O suicida ligou então para o sobrinho e pediu que se encontrasse com ele num lugar distante, curiosamente perto da casa onde acabara por se realizar a reunião de amigos naquela noite. Facto que o suicida desconhecia!... Entretanto, o suicida já havia telefonado para o seu advogado, convocando-o para um encontro de emergência. Breves instantes depois de ter ligado para o sobrinho, o suicida enviou, então, uma mensagem escrita para o advogado, cancelando a reunião. Perguntar-se-ia quais seriam as razões que determinaram que esta comunicação não fosse feita de forma oral, como a primeira. E a resposta parecia muito simples: o suicida queria deixar no ar a dúvida quanto ao verdadeiro emissor daquela mensagem, uma vez que uma qualquer pessoa que tenha acesso a um telemóvel activado pode enviar uma mensagem em “nome de outrem”.

Depois de enviada a mensagem para o advogado, o suicida “escondeu” o dinheiro, as luvas e a chave do escritório no quarto do sobrinho. “Trancou-se” depois no escritório, utilizando para o efeito a chave que havia mandado fazer. Atirou a chave para o lago existente no exterior, que se encontrava a poucos metros da moradia, e sentou-se à secretária. Antes de disparar a arma sobre si, o suicida ter-se-á questionado se os dois malfeitores que havia contrato para assaltar o sobrinho cumpririam exactamente o que estava aprazado. Ou seja, eles não podiam deixar marcas do assalto e teriam que ficar com o telemóvel do sobrinho. Era absolutamente necessário que ninguém tivesse acesso ao registo da sua chamada feita para o sobrinho. Por sua vez, ele apagaria o registo daquela mesma chamada do seu próprio telemóvel. E lá partiu ele para o outro mundo.

O suicida acreditou que a polícia interpretaria o dinheiro “escondido” nos aposentos do sobrinho como o móbil do “homicídio”; que consideraria as luvas como “ferramenta” de trabalho para impedir que as impressões digitais do rapaz ficassem inscritas na arma assassina; e que entenderia a chave como meio facilitador de acesso ao local crime. Segundo o suicida, a polícia não teria dúvidas em considerar a história do assalto uma grande mentira e chegaria facilmente à conclusão que o rapaz teria abandonado a reunião com os amigos para o eliminar, com a desculpa de um compromisso de última hora imposto pelo tio através de uma chamada telefónica que ninguém ouvira. O suicida havia pensado tudo ao mínimo pormenor, mas esqueceu-se de que não há crimes perfeitos. Sobretudo quando eles são muito óbvios e os imprevistos acontecem…

Estava tudo muito limpo e arrumadinho, portas fechadas, luzes apagadas (não havia referência a luzes acesas e o caso verificou-se durante a noite…) e aconteceu um imprevisto: a mulher do amigo que havia de ser o anfitrião da noite não estava para aturar a rapaziada e a reunião acabou por ter lugar a 30 quilómetros de distância. E foi curiosamente para esses lados que o suicida mandou o sobrinho e os “assaltantes” contratados. Ele havia “enviado” o sobrinho para um sítio longe para que ele se ausentasse da reunião durante um bom período de tempo e não tivesse álibi para a hora da sua morte. Os meliantes chegaram atrasados porque o sobrinho estava mais perto do que se julgava. Mas fizeram tudo como o mandante havia determinado… e deixaram o carro e as chaves para que o rapaz pudesse voltar para casa onde decorria a reunião.

Mas o mais importante era que o sobrinho ficasse sem o seu telemóvel, que levou sumiço. E este pormenor não escapou ao “faro” policial de Jartur e Marcos Dias. Para eles, o assunto ficaria definitivamente esclarecido com uma consulta à “operadora” do telemóvel do suicida, onde decerto se confirmaria a chamada feita por este para o telemóvel do sobrinho. Perante o ar estupefacto de Daniel Falcão, eles atiraram-se a um bloco de apontamentos que os acompanha permanentemente e rabiscaram a solução devida ao problema engendrado pelo “miúdo” de Braga. O “relatório” reproduzia tudo o que atrás foi dito, com uma exclamação final:”SUICÍDO, dizemos nós!” O “tsunami do norte” estava pasmado a ler as várias folhas escritas pelos seus veteranos amigos. Meio incrédulo com tanta mestria, só conseguiu balbuciar: “É pá, está tudo… cá”.


MUNDO DOS PASSATEMPOS – JORNAL ALMEIRINENSE
TORNEIO JARTUR MAMEDE

PROVA Nº. 6

SONHO DESFEITO, de Nove


Simas de Oliveira reformara-se há três anos. De entre as diversas coisas que sonhara fazer estava a catalogação da sua considerável biblioteca. Tendo constatado ser difícil realizar tal tarefa sem a ajuda de outra pessoa, contratou um estudante de dezanove anos, versado em informática, para o período de 21 de Julho a 5 de Setembro de 2008.
Era viúvo e vivia sozinho no segundo andar esquerdo de um prédio de oito habitações. Tinha uma empregada, a Sra. D. Joana Simões, que vinha todas as manhãs, entre as 9 e as 12 horas, de segunda a sexta. Seu filho, não morando longe, visitava-o mais frequentemente do que as duas filhas, que viviam noutra cidade. Os três, assim como a empregada, tinham chaves das portas do andar e da entrada do prédio. O estudante, de seu nome Nuno Costa, que costumava aparecer por volta das 9h30, dispunha apenas do comando do portão da garagem (onde se arranjara lugar para o seu pequeno descapotável dos anos noventa) e de uma chave de acesso à garagem pelo elevador.
Na manhã cinzenta do dia 12 de Agosto, pelas 9h07, Jaime Gomes de Oliveira, com a voz embargada, informou a polícia de que, momentos antes, a empregada de seu pai lhe telefonara, assustadíssima, a comunicar que tinha encontrado o patrão morto, com o pescoço todo ferido. Finalizou dizendo que pedira à D. Joana para aguardar e não mexer em nada.
O Inspector J. Mamede chegou ao local da ocorrência pelas 9h55. Numa sala com três estantes pejadas de livros, uma secretária e uma mesa de trabalho, dois computadores e acessórios, denominada escritório, cheirando em conformidade, mas com um enjoativo aroma de sangue à mistura, encontrava-se, à secretária, o cadáver de Simas de Oliveira, recostado e descaído na sua cadeira de braços, com um extenso ferimento na parte da frente do pescoço, que vertera sangue para o casaco de pijama, o leve roupão, o braço direito da cadeira e para o soalho. Havia, ainda, salpicos de sangue na aba anterior da secretária e no exterior da gaveta mais baixa do conjunto da direita.
Nenhum dos objectos cortantes existentes no escritório mostrava sinais e condições de ter sido usado como instrumento de degolação. A janela estava encostada. J. Mamede abriu-a e espreitou para fora, nada tendo notado de especial.
A Sra. D. Joana, pessoa dos seus sessenta anos, de aspecto cuidado mas com ar abalado, declarou:
– Abri a porta como de costume, rodando duas vezes a chave, e gritei para dentro os bons-dias, a fim do Sr. Doutor saber que eu já tinha chegado. Não ouvi resposta, mas também não estranhei, porque nem sempre a tinha à primeira. Eram quase nove horas. Fui junto da casa de banho maior, bati e nada. Dirigi-me então para o escritório e dei com aquele horror. Passou-me uma sombra pelos olhos e não sei como não caí. Pensei, então, que o melhor seria telefonar ao Sr. Engenheiro… ao filho do Sr. Doutor. Ele disse-me para não mexer em nada e aguardar. Com o medo, saí, fechei a porta e esperei no patamar da escada.
Gomes de Oliveira, homem perto dos quarenta anos, bem parecido, engravatado e com fato claro, afirmou:
– Como vos disse, soube desta desgraça pela D. Joana e, mal vos telefonei, corri para aqui. Tinha saído de casa cerca das vinte para as oito, passei pelo atelier, onde devo ter estado das oito às nove, mais minuto menos minuto, e ia falar com um cliente a Torres Vedras. Ontem, conversei com o meu pai, que estava muito entusiasmado com a catalogação dos livros, embora um tanto desagradado com o trabalho do jovem. Falou-me outra vez das jóias da minha mãe, que queria dividir entre os filhos, e de outras peças valiosas que guardava no cofre, tais como uma preciosa miniatura dos fins do século XVIII e duas colecções de moedas, uma de ouro e outra de prata. Por isso, peço que verifiquem o cofre. Ele está no escritório, escondido atrás de uma serigrafia de Cargaleiro. O meu pai, não raro, abria-o, falava do conteúdo e deixava-o aberto à vista de estranhos…
Às 10h40, um agente anunciou a chegada de Nuno Costa, dizendo que o rapaz ficara muito assarapantado ao dar com um polícia no patamar. Identificara-o e deixara-o isolado na saleta, com a indicação de que seria contactado dentro de momentos.
Antes de falar com o estudante, J. Mamede voltou a pedir informações à empregada. Ela disse que sim senhor, que havia uma ampla arrecadação no piso mais alto, onde o Sr. Doutor também tinha livros, cuja chave estava à entrada, junto com as chaves da porta da casa e do prédio, dentro de uma taça de estanho, que mostrou ao Inspector. Asseverou que tinha saído de casa pouco antes das oito e meia, direita para o trabalho, a pé, como de costume, mas, nesse dia, acompanhada, em grande parte do caminho, pela sua neta mais velha. Comunicou, ainda, que era normal encontrar o Sr. Doutor já vestido e pronto, ou quase; que o estudante, às vezes, chegava bastante depois das nove e meia e que o vira passar no descapotável, em sentido contrário, com ar muito desportivo, camisa toda aberta, quando ela vinha para o trabalho, nessa manhã. Ao filho da vítima também foram pedidos esclarecimentos adicionais. Não decorara o segredo do cofre, mas sabia que estava guardado numa folha, junto com outras senhas, em escrita cifrada, que o pai dizia ser criptografia de meninos. Afirmou que o contrato com Nuno Costa era de vinte horas semanais, que o jovem trabalhava sobretudo da parte da manhã, e que, em sua opinião, o pai lhe dera demasiada liberdade.
Não se encontrou a folha onde Simas de Oliveira teria criptografado o segredo do cofre e outras palavras passe. O filho ficou de disponibilizar a sua cópia que, segundo afirmou, nunca tentou decifrar.
Nuno Costa era um rapaz de elevada estatura, pele bronzeada, muito composto mas um tanto afectado. Vestia um pólo azul e umas calças creme e exalava um perfume agradável. Sobre o que havia feito nessa manhã, disse ao Inspector que combinara com o Dr. Oliveira chegar mais tarde, por razões pessoais e também para ter tempo de comprar “memória” extra e papel para o trabalho em curso. Mostrou um recibo da loja de informática, que registava as 10h11 para o pagamento do material que trazia consigo. Esclareceu que, não tendo um horário rígido, preferia ocupar as manhãs. Interrogado sobre o que sabia das relações do Dr. Oliveira com outras pessoas, alegou desconhecer-lhe inimigos, que só tinha a dizer bem dele e que jamais lhe passaria pela cabeça que o liquidassem de maneira tão bárbara.
Entretanto, J. Mamede recebeu a cópia das senhas criptografadas. Eis um excerto do conjunto:

CMIAADCFEOBNÇOOOR: OTZRNVSITEIOEOOEESRS

Aberto o cofre, com base nesta informação, constatou-se que, de grande valor, só lá estava a miniatura do século XVIII. Gomes de Oliveira orçou o possível roubo em mais de cinquenta mil euros. Por outro lado, verificou-se, via internet, que as contas bancárias do pai não tinham sido tocadas naquele dia nem de forma anormal nas quatro semanas anteriores. À primeira vista, só o cofre teria sido assaltado.
O médico legista concluiu que o esfaqueamento – dois profundos golpes – bem como a morte quase imediata, deverão ter ocorrido entre as 8 e as 8h45. J. Mamede confidenciou ao seu ajudante Artur dos Santos que, apesar de haver ainda muita coisa para verificar e comprovar, já se vislumbrava o que acontecera.
O que é que se podia entrever, como e porquê?


SOLUÇÃO de Inspector Boavida


Homicídio, disse Mamede. Não há nada mais óbvio, pensou o seu ajudante Artur dos Santos. O velho Simas de Oliveira jazia recostado na cadeira de secretária da sua biblioteca, com uma extensa ferida no pescoço, e o objecto que o havia degolado não estava na sala. Por outro lado, existiam pingos de sangue na aba anterior da secretária, o que revelava a circunstância de alguém ter “passeado” a arma que tirou a vida ao dono da casa “por aquelas bandas”, provavelmente quando abandonava o escritório após o homicídio. O Artur dos Santos tinha absoluta certeza de que o assassino (ou será assassina?...) levara a arma, uma vez que esta também não fora avistada pelo inspector Mamede quando espreitou pela janela que se encontrava encostada. De facto, o inspector não vira nada de especial, nada que tivesse interesse para a investigação.

Por outro lado, o facto de apenas a gaveta mais baixa da secretária ostentar salpicos de sangue significava que essas marcas não resultavam directamente do pescoço da vítima e parecia indiciar que o homicida já sabia onde encontrar o que procurava. Ou seja, o sangue fora lá deixado inadvertidamente pelo assassino, ao abrir a gaveta. Por certo, ele tinha conhecimento de que era naquela gaveta que o dono da casa guardava o segredo do cofre onde conservava as jóias da sua falecida esposa, algumas peças de grande valor e as suas duas colecções de moedas de ouro e prata. Se o assassino não soubesse onde Simas de Oliveira tinha o que pretendia, decerto teria vasculhado todas as gavetas e não apenas (e logo) a última, a que ficava mais abaixo (se tivesse andado a mexer em todas as gavetas, o lógico seria que elas também apresentassem vestígios de sangue).

O filho da vítima conhecia os hábitos do pai e a empregada também, sabendo, por isso, onde Simas conservava a folha de papel que continha o segredo do cofre. Mas o mesmo se pode dizer relativamente ao jovem Nuno, que já trabalhava com o velho há semanas. E todos tinham conhecimento do “tesouro” que o cofre encerrava, uma vez que o velho fazia gáudio em exibi-lo em frente a toda a gente, como recordou o filho no depoimento. Mamede sorriu e esboçou no seu bloco de notas a caricatura de alguém, que o ajudante não conseguiu identificar, seguido de um “balão” com um enorme ponto de interrogação. Decerto que Mamede perguntava no desenho (outra das suas grandes paixões!...): será este o assassino? Mas quem era a personagem representada naquele “boneco”? Seria o filho da vítima, a empregada ou o estudante Nuno Costa?...

O filho de Simas de Oliveira podia ter sido o autor do crime. O velho fora assassinado entre as 08h00 e as 08h45, e o seu rebento varão não tinha nenhum álibi para um período temporal (das 07h40 às 09h07) que se encaixa perfeitamente na baliza horária em que o médico legista situa a morte quase instantânea da vítima. Acresce ainda que o filho de Simas possuía as chaves de casa e da porta de entrada do prédio. Em sua defesa surge, porém, o facto de ter sido ele a alertar a polícia para a existência de um cofre no escritório onde o pai guardava algumas peças valiosas, com destaque para uma preciosa miniatura do século XVIII (peça esta que, curiosamente, o assassino não levou…). Resulta ainda a seu favor a circunstância de ter disponibilizado uma cópia da folha com o segredo do cofre, quando se constatou a inexistência do original na casa da vítima.

A empregada do velho Simas de Oliveira também possuía as chaves da casa e da porta de entrada do prédio. É, no entanto, pouco provável que tenha sido ela a assassina do patrão. Ao que tudo indica, ela não terá saído do prédio onde o crime fora cometido desde a hora em que chegou para o seu serviço de todos os dias úteis, ficando por lá, no patamar da escada, desde o momento em que telefonou para o filho do velho Simas a avisar daquele terrível acontecimento. Se ela tivesse sido a autora do homicídio teria com certeza marcas de sangue na roupa e a arma do crime ainda estaria em seu poder (ou por perto). Por outro lado, ela apresentava um forte álibi para o período temporal em que o crime ocorreu: a sua neta mais velha acompanhou-a desde casa e durante boa parte do percurso que a levou, a pé como de costume, até à casa do velho Simas.

O estudante Nuno Costa, que, há três semanas, ajudava o velho Simas a catalogar os livros da sua vastíssima biblioteca, não possuía chave da casa nem da porta da rua, mas tinha outra forma de aceder ao prédio. O dono da casa havia-lhe disponibilizado um lugar na garagem, para estacionar o seu descapotável, e a chave de uma porta interior através da qual podia aceder ao elevador. Depois de chegar ao patamar do segundo piso onde vivia a vítima, bastava-lhe tocar à porta. Entre as 09h00 e as 12h00, de segunda a sexta, a porta poderia ser aberta pela empregada ou pelo dono da casa. Mas se ele batesse à porta antes das 09h00, seria quase de certeza o próprio Simas a franquear-lhe a entrada. O que por certo nunca teria acontecido, uma vez que o rapaz chegava quase sempre depois das 09h30 e preferia trabalhar de manhã (apenas nos dias úteis?...).

Naquele dia, terá sido a primeira vez (e a última…) que o velho Simas de Oliveira abriu ele próprio a porta de sua casa ao jovem estudante de informática, passavam alguns minutos das oito da manhã!... O rapaz quis fazer crer que havia chegado nesse dia a casa da vítima bem mais tarde do que era habitual, alegando que tivera de tratar de assuntos pessoais e de adquirir “memória” extra para um dos computadores lá de casa, para além de papel necessário ao trabalho ali em curso, apresentando como comprovativo um recibo da loja de informática, onde se registava a respectiva compra às 10h11. Para dar mais credibilidade às razões do seu atraso, o estudante acrescentou que tinha combinado previamente com o dono da casa aquelas compras. Mas de nada serviu tal discurso, uma vez que o jovem acabaria por se denunciar no decurso do seu depoimento.

Quando questionado pela polícia se sabia da existência de inimigos do Simas, o rapaz admitiu conhecer o que seria suporto ignorar, ao revelar saber que o velho morrera de forma babara. Com efeito, o estudante só podia saber que o velho Simas morrera (e de morte bárbara!...) se fosse ele o seu assassino. Mamede sabia que o jovem tinha estado isolado numa saleta, desde que chegara. Logo, não poderia saber nada do que se passara naquela casa e muito menos ter conhecimento da barbaridade ali cometida. Por essa altura, Artur dos Santos aproximou as suas narinas do jovem, inalou sonoramente o perfume que este exalava, e acenou afirmativamente para o inspector. Mamede sorriu com satisfação, denunciando a descoberta de mais um indício de culpa do jovem, enquanto recordava mentalmente o testemunho da empregada do velho Simas.

No seu depoimento, a empregada havia dito que se cruzara com o jovem Nuno Costa quando se dirigia para casa do seu patrão. Segundo ela, o estudante de informática seguia nessa altura no sentido inverso ao seu, ao volante do seu pequeno carro descapotável, com um ar muito desportivo, de camisa completamente aberta. Mas, estranha e curiosamente, o jovem apresentava-se agora perante o inspector com um pólo vestido. Ou seja, a fazer fé no testemunho da empregada da vítima, o informático mudou de roupa entre o momento em que ela o avistou (às nove menos picos) e a hora em que a polícia o recepcionou no patamar da entrada de casa do velho Simas. Artur dos Santos tocou no ombro do inspector Mamede e segredou-lhe ao ouvido: depois do trabalhinho sujo, o malandro ainda teve tempo para tomar banho e perfumar-se.

Mamede tinha uma explicação para a muda de roupa do jovem Nuno Costa. Durante o homicídio ele sujara-se de sangue. Para além da troca de vestuário, o informático tomara provavelmente um banho para apagar quaisquer vestígios de sangue ou perfumara-se simplesmente para ter a certeza de que o odor do sangue da vítima não permaneceria no seu corpo. Mas faltava uma explicação para o facto do malandro ter deixado no cofre a miniatura de fins do século XVIII. Na opinião de Mamede, o rapaz desconhecia o valor daquela peça e avaliou-a apenas em função do seu tamanho, razão porque a desprezou. Artur dos Santos estava absolutamente de acordo com o chefe, mas havia uma questão que lhe fazia alguma espécie: como é que a porta da casa do velho Simas de Oliveira podia estar fechada à chave quando a empregada chegou?...

Segundo Mamede, o rapaz não tivera dificuldades em iludir a empregada. Quando ele decidiu eliminar o velho Simas já estava familiarizado com as rotinas da vítima. Só não sabia eventualmente quantas voltas o velho dava à fechadura da porta, ao fim do dia. Por isso, o rapaz deve ter dado a máxima atenção à forma como a porta lhe era franqueada. Depois de entrar, justificou ao velho a razão da sua chegada “madrugadora”, invocando naturalmente a sua vontade em iniciar o trabalho de catalogação dos livros mais cedo. O velho terá ficado admirado, mas, ao mesmo tempo, satisfeito, pois estava muito entusiasmado com aquele trabalho. Simas nem mudou de roupa. Mesmo de pijama e de roupão vestido, sentou-se à secretária e… Então, o estudante aproximou-se dele, pelas costas, e desferiu-lhe dois golpes fatais no pescoço.

O jovem Nuno Costa sabia exactamente a que horas a empregada chegava normalmente àquela casa para começar a sua jornada de trabalho e apressou-se a “limpar” o cofre do velho Simas. Para isso, apoderou-se da folha com o segredo do cofre, que ele sabia estar guardada na última gaveta da secretária, e terá ficado agradavelmente surpreendido com a simplicidade da “chave” do código que “escondia” o segredo do cofre. Realmente, o dono da casa não mentia quando dizia ao filho que o código do segredo estava escrito em “criptografia de meninos”. O que o rapaz nunca pensou é que seria tão fácil, realmente mesmo coisa de meninos! O jovem informático foi-se rapidamente ao cofre e retirou todas as jóias, moedas e outras peças que considerou serem valiosas. Só não perdeu tempo com a miniatura… porque desconhecia o seu valor e antiguidade.

O estudante informático dirigiu-se depois para a porta de casa e, antes de sair, retirou, da Taça de Estanho, a chave de casa que se encontrava junta com a chave da arrecadação do último piso do prédio, que ele utilizava com alguma frequência no âmbito do seu trabalho de catalogação dos livros do velho. Era naquela arrecadação que o Simas de Oliveira guardava boa parte dos seus livros que não tinham espaço no escritório-biblioteca onde fora assassinado. Decerto que o “estudante trabalhador” fora algumas vezes à arrecadação e sabia, por isso, que junta à chave daquela dependência se encontrava depositada a chave da porta da rua (dentro da Taça de Estanho). Artur dos Santos não tinha reparado na falta desta chave quando a empregada falou da Taça de Estanho, mas tal facto não terá escapado ao olhar de lince do inspector Mamede.

Segundo Mamede, o rapaz fechou a porta de casa, dando duas voltas à fechadura, como o velho Simas fizera, mas no sentido inverso, quando a abrira naquela manhã, e levou consigo a arma do crime, a folha de códigos da vítima e o “tesouro”do cofre. Desceu de elevador até à porta que dá acesso à garagem, meteu-se no seu pequeno descapotável e lá foi ele muito feliz da vida, estrada fora. Ia feliz e de… camisa aberta, com ar desportivo e alheado de tudo o que se passava à sua volta, não tendo dado conta de que a empregada do velho Simas o avistara quando ela se dirigia para o trabalho. Artur dos Santos, parecia ler o pensamento de Mamede e concordava em absoluto com o seu raciocínio, olhou para a cópia da folha dos códigos fornecida pelo filho da vítima e não conseguiu reprimir uma pergunta: afinal, caro chefe, qual é o segredo do cofre?

Mamede sorriu desbragadamente perante a santa ignorância do ajudante. Aproximou-se dele e disse-lhe com o ar mais paternalista deste mundo: No primeiro conjunto de letras, que algarismo é que consegues compor por extenso? O algarismo CINCO, não é verdade? Artur dos Santos tentou compor outros algarismos, mas sem sucesso. De facto, com aquelas letras só era mesmo possível escrever o algarismo cinco. Mamede colocou então a sua mão direita sobre o ombro do ajudante e continuou: No primeiro conjunto de letras temos CINCO seguido de : (dois pontos). Faltam, portanto, os cinco algarismos que constituem o segredo do cofre, e que podemos construir por extenso utilizando todas as letras do segundo conjunto. E o que é que dá? Artur dos Santos estava de boca aberta de espanto. O seu chefe não parava de o surpreender.

Mamede prosseguiu. Os algarismos que constam, camuflados e embaraçados, no segundo conjunto de letras são o 3, o 6, o 8, o 9 e o 0. Mas temos que descobrir qual a ordenação dos algarismos na sua introdução na “fechadura-segredo” do cofre. E qual é a conclusão? Concluímos que a ordem só pode ser esta: 8 0 9 6 3! E porquê? Atendendo simplesmente à forma como estão ordenadas as letras. Ora veja, meu caro Artur: a primeira letra é o O. Com esta letra inicia-se a palavra OITO, agrupando nós as letras respectivas pela ordem em que aparecem no conjunto. Segue-se a letra Z, uma vez que a letra T já foi “comida” pela palavra oito, formando assim o ZERO. Temos, portanto, de seguida a letra N, que ajuda a formar o algarismo NOVE. Depois surge o S, que inicia o SEIS. E, para acabar, temos a letra T, que forma, com as letras sobrantes, o TRÊS.

Artur dos Santos estava rendido perante o poder de dedução do Inspector. Bravo, chefe, bravo! Como diria o velho Marcos Dias, desde os tempos do Clube do Aranhiço que não existe investigador mais brilhante do que o chefe. De pronto, Mamede rejeitou o elogio, dizendo, com a humildade que o caracteriza: Não, meu caro Artur, não. Eu sou quase um pigmeu face aos grandes vultos do meu tempo, que ainda hoje temos por aí em actividade, como o Zé Viseu, o Aranha, o Constantino, o Big-Ben ou o Fidalgo. Isto para já não falar do Daniel de Braga, o tal “tsunami” que começou nas páginas do Mundo de Aventuras e que neste momento arrasa a concorrência em todas as investigações em que se mete. E não só como investigador. Ainda nem há um mês ele provocou uma hecatombe em Almeirim, como inventor de crimes!...



MUNDO DOS PASSATEMPOS – JORNAL ALMEIRINENSE
TORNEIO JARTUR MAMEDE

PROVA Nº. 7

O APRENDIZ FIDALGO, de Inspector Fidalgo


Decorria um ano qualquer da década de 70 do século de todos os exageros, o XX.
Numa terra qualquer, algures num pequeno país rectangular com duas frentes de mar, um indivíduo de média estatura, cabelo ralo e algo anárquico, com ar satisfeito, irradiando alegria no sorriso gaiato, terminava um curso de formação para detectives, com um problema para resolução…
– Olha, pá, estás numa mansão enorme, magnífica. Entras por uma porta pesadíssima, com vitrais brilhantes e chegas a um imenso espaço aberto. Em frente, ao fundo, a porta do elevador de acesso ao piso superior. De ambos os lados dessa porta, abrem-se os caminhos que levam à imensa sala de jantar. Na parede lateral esquerda, vislumbram-se as portas de acesso a outras divisões – cozinha, quartos de criados, salas de banho. Encostada à parede do lado direito, majestosa, vai-se erguendo uma escadaria em pedra granítica, obra excelente de engenharia porque vai torneando, suavemente, para a esquerda e depois para a direita, até ficar centrada, no piso superior, com a porta do elevador, tudo sem apoio de qualquer coluna. No piso de cima, ao subires pelas escadas, chegas a um átrio amplo. Do lado direito, vês um grande vitral, ocupando toda a parede. Para a esquerda, um pequeno corredor com cerca de 4 metros de comprimento, que depois roda para a direita e continua, longo, abrindo 3 portas para o lado direito, que dão acesso a outros tantos quartos.
– Espere aí, Sete de Espadas. Tanta informação tem que ser devidamente digerida! Numa folha de papel, Fidalgo foi apontando algumas notas e garatujou uns rabiscos esquemáticos… – Vá, Sete, vamos em frente…
– Vamos! Na mansão moram 3 irmãos e vários empregados. Estes têm quartos no piso de baixo e só nos interessa um deles, como vamos ver. Lá em cima, a partir do átrio, o José tem o primeiro quarto; o João o segundo; o Jaime o último.
O Jaime é o mais novo, amigo da farra e dos copos, sempre a abrir na vida. As manhãs são sagradas, para dormir profundamente, e esta manhã, ao que parece, não foi excepção. Depois de uma noite atribulada, chegou por volta das 7h15 da manhã e teve que ser amparado pelo Baltazar, o empregado que nos interessa, que o levou até ao elevador, o acompanhou até ao quarto e o ajudou a deitar-se.
O João é deficiente. Apenas se pode deslocar em cadeira de rodas e é com muita dificuldade que consegue usar o seu comando. Tem que ser colocado na cadeira e dela retirado. Esta é accionada por bateria que é recarregada na corrente eléctrica, mediante um cabo amovível que a liga a uma qualquer tomada de casa. De qualquer modo, por uma questão de segurança, a cadeira só funciona quando os cintos de segurança, cruzados sobre o peito e no ventre, estão devidamente presos – o que apenas pode ser feito por outra pessoa – mantendo-o sempre agarrado à pesada e bastante estável cadeira, em caso de acidente.
Apesar da porta do quarto do João ter uma mola que a impede de ficar aberta por engano, ainda para maior segurança, foi instalado um minúsculo fio sensor, que atravessa o corredor, num ponto intermédio entre as portas dos quartos do João e do José e que acciona uma campainha bastante sonora, quer no corredor, quer no escritório privativo que está dentro do quarto do José. Destina-se a dar o alarme e evitar que, em caso de descuido, o João consiga passar na direcção das escadas, sem o devido acompanhamento. Para não ser accionada sempre que alguém passa, basta que não seja pisado o fio.
O José é o mais velho e o acompanhante do João, por quem se sente responsável por ter sido para o salvar de ser atropelado por uma carroça puxada por cavalos que ele ficou naquele estado físico. Todos os dias, por volta das 6 horas, o José vai ao quarto do João, veste-o, coloca-o na cadeira. Desliga o cabo do carregador da bateria, enrola-o e guarda-o na bolsa da cadeira, encaminhando-se, então, para o elevador. Depois de descerem, passam pela cozinha onde comem alguma coisa e às 6h30 já estão a passear pela propriedade, vão até junto dos cavalos, regressando por volta das 7h30, dirigindo-se directamente ao quarto do João, onde este fica a descansar, sentado na cadeira, a ver um pouco de televisão até cerca das 10h30, hora em que o irmão, depois de tratar das papeladas no seu escritório, o vai buscar para virem para o piso inferior, até à hora de almoço.
Naquele dia, no entanto, algo correu mal.
Um prolongado estrondo alertou toda a gente, eram 7h35. Do piso de baixo acorreram os empregados e do piso de cima o José, que assomou à porta do seu quarto, quando o Baltazar começava a percorrer o corredor, aparentemente vindo do quarto do Jaime, para assistirem à triste visão do João caído no último degrau da enorme escadaria, com o pescoço completamente torcido, enquanto, alguns metros mais adiante, a cadeira estava imóvel, mas com a roda do lado direito ainda rodando, macabramente.
Inconsolável, o José explicava vezes sem conta o que fizera naquela manhã… Tinham cumprido toda a rotina habitual e deixara o irmão no quarto, às 7h30 certinhas – ele mesmo confirmou, na televisão, antes de sair.
Demorou um pouco mais porque teve que pôr novamente a bateria da cadeira a carregar, já que continuava a dar sinais de fraqueza e foi para o seu escritório privativo. Mal se tinha sentado à secretária, ouviu o estrondo e veio à porta. Viu o Baltazar a vir do fundo do corredor, arrastando a perna doente e correu para as escadas, ouvindo, logo depois, os gritos dos outros empregados, só interrompidos pelo som estridente da campainha, que de súbito irrompeu.
– A campainha! A campainha não tocou! A campainha não tocou! – Repetia, desolado.
O Baltazar dizia que tinha acabado de deitar o patrão Jaime, que nem acordou e, ao ouvir o estrondo, correu para a porta, com as dificuldades que a sua perna aleijada lhe impunham e começou a percorrer o corredor. A princípio julgara que o barulho tinha sido no quarto do patrão João e notou que a porta estava encerrada, mas viu que o patrão José se encaminhou para os lados das escadas e ouviu gritos vindos lá de baixo, dos outros empregados, pelo que continuou até se juntar ao patrão José, no cimo das escadas. Tinha a certeza que a campainha só tocara pelas 6h15, como era habitual quando os patrões saíam e só voltou a soar quando ele, inadvertidamente, pisou a linha na correria para as escadas.
Naquela manhã, não houve qualquer corte de fornecimento eléctrico na casa e a carga da bateria da cadeira estava baixa, como dissera o José, mas suficiente para a movimentar no seu curto trajecto. O defeito de não carregar correctamente estava, como depois se confirmou, no cabo que o Inspector recolheu da bolsa da cadeira, para posterior análise.
Não houve qualquer coligação ou cumplicidade no incidente.
O João morreu na queda, pescoço partido…

– Ó Fidalgo, se queres concluir o curso no Quadro de Honra, estuda bem este caso e retira as tuas conclusões!
– Estou feito! O Sete de Espadas está a fazer de propósito; este é muito difícil…


SOLUÇÃO de Inspector Boavida


O Portugal do século XX vivia tempos de grande mudança. A Primavera deixara de ser finalmente Marcelista. Os craveiros escaparam de vez às grilhetas das águas furtadas e floriram livremente nos canos das espingardas dos soldados de Abril, espalhando o cheiro a Revolução pelas nossas aldeias, vilas e cidades, enquanto o povo invadia as ruas para saudar a Liberdade aprisionada há quase quarenta e oito anos. O homem que hoje assina a página dominical do jornal Público dedicada ao policiário era ainda um jovem mancebo, aprendiz de Fidalgo, e frequentava nessa altura um curso de detectives. O Sete de Espadas era o Mestre e havia decidido colocar à prova as capacidades dedutivas do formando com um Problema aparentemente complexo e difícil, cuja resolução poderia garantir a inscrição do seu nome no Quadro de Honra do curso.

O aprendiz de Fidalgo percebeu que o Mestre pretendia confundi-lo com a descrição pormenorizada do “local do crime”, onde a televisão, por essa altura, supostamente já chegava ao romper do dia. A aula era ministrada neste país à beira mar fundado, mas a acção do problema decorria com toda a certeza noutro lugar civilizado e tecnologicamente mais avançado. Isto porque o Sete fazia crer que uma das personagens se entretinha normalmente a ver TV às sete e meia da manhã, o que não podia acontecer neste nosso retangulozito, também atrasado nos domínios do audiovisual em relação ao resto das nações livres, onde a “caixa que mudou o mundo” só entrou àquela hora na década seguinte, irradiada “parabolicamente” de outras paragens. Nos anos 1970, a RTP (única emissora de televisão então existente em Portugal) só emitia a partir das 19h00.

Não havia dúvida: a acção do Problema decorria algures, num outro país, em casa de uma família portuguesa, a julgar pelos nomes dos protagonistas. José, João e Jaime eram três irmãos que viviam numa enorme e rica casa, servidos por vários empregados. Um destes chamava-se Baltazar e fora o único que tivera papel relevante nos factos descritos com vista à resolução do enigma. Os três irmãos tinham os seus aposentos no piso superior, em apartamentos independentes, situados ao longo de um corredor (cego num dos topos?...) que nascia perto do elevador e da escadaria que comunicavam com a ampla sala do piso térreo da mansão. José, o mais velho, vivia no apartamento situado no início do corredor; João, o irmão do meio, deficiente físico, ocupava o segundo apartamento; e Jaime, o mais novo, amante da noite e das farras, vivia no último.

A manhã começou igual às que a precederam. José cumpriu a sua rotina de todos os dias. Por volta das 06h00, foi ao quarto do João, vestiu-o e sentou-o na cadeira de rodas eléctrica, prendendo-o com os cintos de segurança, condição sem a qual ela não funcionava. Acto contínuo, retirou o cabo do carregador da bateria que se encontrava na tomada de corrente eléctrica, colocou-o na bolsinha da cadeira de rodas e percorreu o corredor até ao elevador, ao lado do irmão. Eram 06h15 quando o sensor que atravessa o corredor dos apartamentos, num ponto intermédio entre as portas dos aposentos do João e do José, fez soar a estridente campainha que fora accionada pela passagem da pesada cadeira de rodas sobre o minúsculo fio. Era tão habitual o som da estridente sirene àquela hora que ninguém assomou ao local para ver o que se passara.

José sentia-se responsável pela invalidez do irmão, por este ter ficado tetraplégico quando, no passado, agiu corajosamente em defesa da sua vida, pelo que vivia em parte condicionado pela deficiência de João. Naquela manhã repetiu os mesmos gestos de todos os dias. Tomou o pequeno-almoço com o irmão na cozinha situada no piso térreo, levou-o a passear pela propriedade e dirigiu-se, depois, como habitualmente, em direcção ao piso superior, onde se localizam os apartamentos dos três irmãos. A vida corria tão igual, que só momentos antes, por volta das 07h15, o irmão mais novo retornou a casa, como sempre perdido de bêbedo, após mais uma noite de alegre festança até às tantas. Como era usual, Jaime subiu a custo até ao seu apartamento mais uma vez amparado por um dos criados da casa, Baltazar, que entretanto o vira chegar.

De facto, tudo teria sido igual a todos os dias, não fora um terrível estrondo que se ouviu, cerca das 07h35, na escada de pedra granítica que serve os dois pisos da mansão. Toda a gente da casa ocorreu ao local. Toda a gente, excepto Jaime, que dormia profundamente embalado pelos vapores do álcool, e… João, que jazia sem vida no fundo da escadaria com o pescoço completamente torcido, a alguns metros da sua inseparável, porque indispensável, cadeira de rodas eléctrica. José esforçava-se em encontrar explicação para o sucedido, dizendo que deixara o irmão no quarto, como de costume, às 07h30, hora que confirmou na televisão antes de abandonar o apartamento de João, não sem antes ter voltado a colocar a bateria da cadeira a carregar numa das tomadas, uma vez que aquela continuava alegadamente a dar sinais de fraqueza.

O empregado Baltazar, que acorreu ao cimo das escadas vindo do quarto de Jaime, pisou inadvertidamente o sensor do alarme e lembrou-se subitamente, com espanto e desalento, que a campainha nessa manhã só tinha tocado naquele preciso momento e às 06h15. O espanto de Baltazar era fundamentado na seguinte razão: não se tendo registado qualquer corte de fornecimento de energia eléctrica na casa, se João tivesse saído realmente sozinho do seu apartamento em direcção à escadaria, a sua pesada cadeira de rodas teria forçosamente feito soar o alarme. Isto porque, recorde-se, o fio sensor que atravessa o corredor estava localizado num sítio estratégico entre o apartamento da vítima e a escadaria. A esta razão somam-se outros factos que eliminam definitivamente a tese de suicídio ou de acidente… e comprometem o irmão José.

Tendo nós (e o aprendiz de Fidalgo, claro!) a informação de que João sofria de profunda deficiência física motora e apenas se podia deslocar em cadeira de rodas (desde que lá colocado por alguém…), a que se conjuga o facto de o incidente não ter sido objecto de qualquer coligação ou cumplicidade, não restam dúvidas: não se está perante um suicídio (através de acto solitário ou “assistido” por outrem) … nem João foi levado para o seu apartamento depois do passeio pela propriedade! E isto infere-se pela simples razão do alarme não ter disparado (tanto após o passeio, por volta das 07h30, como depois, imediatamente antes do incidente), e no facto da porta do apartamento da vítima possuir uma mola que a impedia de ficar aberta (e ela continuava fechada quando Baltazar acorreu à escadaria), não tendo João condições físicas para a abrir... sozinho!

Mas existem ainda outros factos que também não escaparam ao nosso espírito observador e às capacidades dedutivas do aprendiz de Fidalgo. Um deles prende-se com a impossibilidade física de João manusear o cabo de alimentação da bateria que, segundo José, se encontrava minutos antes na tomada … e agora estava na bolsinha da cadeira. Outro pormenor interessante residia na circunstância do corpo da vítima se encontrar caído a alguns metros da cadeira, sendo que esta não funcionava se os cintos de segurança do utilizador não estivessem muito bem colocados ou tivessem sido retirados (o que, em qualquer dos casos, só podia ser feito por outra pessoa). Convém referir que a este pormenor acresce ainda o facto dos cintos de segurança garantirem que, em caso de acidente, o corpo do utilizador se manteria sempre preso à cadeira.

Definitivamente, não se está perante um acidente ou suicídio! João foi vítima de um bárbaro assassínio, ao ser empurrado do cimo da escadaria granítica por alguém da casa. Falta saber por quem. Os suspeitos apenas poderiam ser três: Jaime, José e Baltazar, por serem os únicos que se encontravam nessa altura no piso superior da mansão. Quanto a Jaime, dormia no seu quarto (o que podia ser testemunhado por Baltazar). Quanto a José e Baltazar, ambos dizem que acorreram ao cimo da escadaria, imediatamente após ouvirem o estrondo provocado pelo incidente. Assim sendo, José seria naturalmente o primeiro a chegar, não só porque estava no apartamento mais próximo da escadaria, mas também por ser mais ágil do que o empregado, que caminhava com alguma dificuldade, devido a deficiência de uma das suas pernas – a tal que fez disparar o alarme.

José foi o primeiro a chegar ao cimo da escadaria, após o estrondo, mas… ele já lá tinha estado segundos antes! Tudo indica que a cadeira terá sido comandada por João, desde o quarto de José até ao cimo da escadaria. O rapaz terá estranhado o seu regresso súbito ao piso inferior, mas ele tinha absoluta confiança no irmão, que o acompanhava. Chegados ao topo da escada, José terá alegado uma qualquer razão para lhe desapertar os cintos de segurança (dizendo que estavam mal colocados…) e, de seguida, empurrou João e a cadeira pelas escadas abaixo. José correu então para o seu apartamento, que ficava perto, e acto contínuo, simulou a saída, como se tivesse sido impulsionado pelo barulho. Nesse mesmo momento, Baltazar procurava chegar com a rapidez possível ao cimo da escadaria, arrastando a perna deficiente por cima do sensor do alarme.

Foi, aliás, o alarme (ou melhor: a falta deste, por duas vezes…) que começou por denunciar José. Às duas ausências da sirene, somaram-se outras razões para que o aprendiz de Fidalgo se sentisse confiante na resolução do enigma proposto pelo Mestre Sete de Espadas. Ele estava tão ansioso de conseguir um lugar no Quadro de Honra do curso, que repetiu até à exaustão os indícios que inculpavam José. Tal como nós, ele começou por referir o facto do fio sensor do alarme atravessar o corredor num ponto intermédio entre o apartamento do João e os aposentos do José, conjugado com a informação de que não houvera corte de energia eléctrica na casa, para desmentir José no que concerne à afirmação de que cumprira naquela manhã a sua rotina habitual de todos os dias, tendo deixado João no apartamento deste por volta das 07h30.

Para reforçar a convicção de que João não regressou ao seu apartamento depois do passeio matinal, o aprendiz de Fidalgo sublinhou o elevado peso da cadeira de rodas e o facto de José não a ter levantado aquando da primeira passagem sobre o fio, de forma a evitar o ruído da sirene. Se José assim procedeu daquela vez, não era crível que ele tivesse erguido a pesada cadeira de rodas na sua alegada segunda passagem sobre o sensor, na companhia do irmão. Por outro lado, era completamente impossível que João tivesse passado pelo local sozinho sem que o alarme soasse. Seguro de que concluía o curso com distinção, o aprendiz de Fidalgo continuou a elencar todos os indícios de envolvimento de José na morte do irmão, por nós atrás referidos, mas o Sete já quase nem o ouvia. Ele agora só queria que o formando lhe apresentasse os motivos do crime.

O aprendiz de Fidalgo engoliu em seco e empalideceu. Ele havia aprendido numa das primeiras lições do Mestre que “não há crime sem móbil”, mas, com a pressa de apresentar a sua proposta de resolução do enigma, nem sequer se havia lembrado desse pequeno, mas importante, pormenor. O Sete de Espadas parecia ler-lhe o pensamento e sorriu. O formando pegou então no seu bloco de apontamentos e escreveu com a firmeza da sua convicção o que nós agora subscrevemos sem qualquer reserva. “A deficiência de João não só perturbava a consciência de José, por sentir alguma responsabilidade por ela, como condicionava toda a sua própria vida. Por essa razão, decidiu eliminar o sofrimento de ambos: com a morte de João, acabava de vez o triste sofrimento para um e reacendia a esperança de uma nova vida para o outro”…


MUNDO DOS PASSATEMPOS – JORNAL ALMEIRINENSE
TORNEIO JARTUR MAMEDE

PROVA Nº. 8

A TRILHA DO MORTO, de “Mário Campino”


Fim de ano torvo. Inclemente…
Em meados de Dezembro de um ano da década de 40, duas cheias consumadas, uma terceira a assomar… Sementeiras perdidas, vinhais adiados… a própria erva, alimento das manadas, jazia sob as águas estagnadas… A inexorável lei da lezíria: ora pingue de abundância ora de míngua e agruras.
Sol sem calor; crepúsculos precoces… O Tejo não voltara ao leito natural e a vala engrossava o caudal, prestes a galgar os combros. Auga, auga, q’anta Deus quer!
Com os rostos estriados de rugas, abertas pêlos sóis dos estios e geadões invernios, os homens da borda-d’água cuspiam desdenhosos na água turva, eternos inocentes do legado fatalismo… E o tempo sem ajudar “a ponta de um corno” – comentam. Refugiam-se no falso lenitivo de duas goladas de vinhaça… assenta p’raí, home, q’eu ópois pago…
Avô Palaló, de ordinário animoso e sereno, mostrava o semblante sombrio. Mas a vida tinha de continuar! Na “Azeitada”, o Firmino e meia dúzia de ganhões, “todo o santo dia metidos na lama até aos joelhos”, podavam as videiras com rama fora de água, talvez para manter os homens ocupados! Nas “Milheiras”, o Manel Hortelão não descurava as culturas hortenses. Lembrou a “Herdade das Ferrarias”, o duro arroteamento do solo demasiado amplo, demasiado estéril, de fracas colheitas… não se pode ficar pelo milho amarelo, só pelo apego à terra! Gorada a tentativa da compra aos Condes seus proprietários – “nunca gostara de tentar filhos em mulher alheia” – feirara os porcos, reduzira as semeadas, mantendo os arrozais junto à Ribeira de Muge, já que contraíra compromisso de parceria com os trabalhadores… impensável lesá-los.
Sete dias antes do Natal, combinou com o “Chico Charneco” sementar a “Courela das Azinheiras”, pouco mais de dois campos de futebol. O Chico madrugou. Quando o dia clareou, já gradara, no sentido do comprimento, cruzado à lavra, quase toda a leira. O patrão lançou a semente, deixou algumas recomendações e montou a cavalo em direcção a Benfica, para ir à “Azeitada”. A faina do Chico era cobrir a semente. Começou por um dos extremos laterais, com nova passagem de grade sobre a qual equilibrava o corpo miúdo, a servir de lastro… Parou a meio, para dar água à mula e “engolir uma bucha”, voltando à gradagem, desta vez começando do lado oposto ao início, até encontrar a primeira fase. Deixou a grade e os tirantes onde terminou, mas fora do terreno, já que iria precisar dela para novo trabalho. Engatou a mula à carroça na qual carregou alguns cepos para a lareira – pedido da “Ti Zéfa” – e voltou a Almeirim, sem passar pelo Casal.
O Casal era a preocupação do Avô Palaló. Consentiu que a Ana “Russa” ali se alojasse com o “Tó-Zé” e detestava desapossá-los. A “Ruiva” cedo provou o largo amargo da vida. Um corpo airoso, cabelo rubro, foi “enganada” pelo Quim Faia, que havia de emigrar, deixando-a. Dava-se a qualquer, por necessidade de pão e carinho mentido, até que o “Tó-Zé”, rude mas certo, a tirasse da “roda”. Ouvira-a, enquanto arrumava dois tarecos no Casal, feliz-amarga…

Na sei s’as cante, s’as chore,
P’ra aluviar a ‘nha pena…
S’eu canto, tudo m’esquece,
S’eu choro, tudo m ‘alembra.

Lembrai o diabo… Quim voltou, na véspera do Natal. O mesmo franzino moreno, mas de fato inteiro às risquinhas. Lenço ao pescoço com laço, óculos de lentes azuis, boina à banda, “paivante nas ventas”, punha as cachopas de cabeça doida, com trejeitos de rufia e falas à “estrangêra”.
Procurou Ana; todos se calavam. No dia seguinte ao Natal, rumou à Raposa pela madrugada. Aí obteve o paradeiro da antiga amante.
A porta do Casal estava aberta e a rapariga, de costas, arrumava um cesto. Devagar, pôs os óculos sobre uma arca, fechou a porta suavemente e dirigiu-se-lhe. Pressentindo a presença desusada, ela voltou-se, ruborizada… Ele estendia os braços… Monamour… monamour!... ciciava, enquanto ela fugia para a cozinha, gritando-lhe: Suma-te! Rai’s ta quême… qu ’ele é bum home p ’ra mim!...
A porta do casal foi aberta com estrondo. Quim saiu lesto pelas traseiras, escondendo-se nos ramos de um salgueiro. Ouviu ralhos, choros e pancadas… Alevo-lhe duas alembranças; uma é ’ma cachaporrada p’rós cornos – era a voz alterada do Tó-Zé. Saiu do esconderijo e meteu-se pelo carreiro da Ribeira, a caminho dos Paços. Ainda que tentasse recompor-se, ao Zé Vicente, sentado à porta da “venda”, não passou despercebida a ansiedade, talvez medo, que lhe ia nos olhos castanhos…
– Viste lobo… ou alevaste “tampa” da Cachopa? Intão?
– Na é isso, Ti Vicente… Vá, prante ai um pirolito p ’ra eu boer! – disparou. Mas preciso duma bicicleta p ’ra ir a Benfica, botar o olhar na ’nha tia Dores…
– Bricicleta… bricicleta… o Jerolmo enxertador…
Saiu ágil, sem beber e sem pagar, deixando Vicente atónito.

O Jerónimo estava de partida para Almeirim, para a Casa Prudêncio. Acedeu em emprestar a “pedaleira” e pediu-lhe que, por uns dias, ordenhasse as vacas, tratasse delas e do burro, possante animal de raça espanhola, preso à manjedoura. Podia ficar na casa, se quisesse… Pendurou a jaqueta no ombro, pegou na caixa do ofício e tomou a charrete que o esperava.
Tó-Zé procurou o Quim. Não o encontrou na Raposa, galgou a estrada de areia para os Paços e… apagou-se-lhe o rasto! Não voltou a casa nesse dia e noite. Ana pensou que estava zangado ou, porque a noite foi de chuva intensa, estivesse recolhido. Na tarde do dia seguinte, já angustiada, fechou a porta à chave e procurou o regedor da Raposa, com um mau pressentimento. Foi através deste que a notícia chegou aos Paços.
Jerónimo, com a terra ensopada, não podia enxertar. Ia a chegar a casa, quando a voz da Rosa leiteira lhe chegou aos ouvidos: – na ma deixaste lête, duas vezes, pirum arrufado… Não compreendeu logo, mas, quando chegou a casa, viu que as vacas, com comida à frente, se encostavam à cancela, a mugirem penosamente. O burro, com a porta do curral aberta, solta, roía os restos das couves da horta… Entretanto, chegou o Quim, que “gramou a grande tosquia”, enquanto tirava e punha os grandes óculos azuis, incapaz de responder. Foi quando chegou a notícia do desaparecimento. Quim ofereceu-se para as buscas e desandou para as margens da Ribeira, que ladeiam as duas povoações – Paços e Raposa…
Só no quarto dia havia de aparecer o corpo.
Um participante nas buscas, a pouco mais de 200 metros do Casal, ao lado do caminho de areia, entrou nas giestas altas, notou um cheiro esquisito e olhando, ocasionalmente, para o campo de trigo, viu um corpo com as vestes do desaparecido, no centro do terreno. Gritou pelo regedor, que tomou a iniciativa de mandar chamar a G.N.R., não consentindo que alguém se aproximasse… o cheiro não pedia socorro! Três horas depois, o cabo André e um guarda pedalavam para as Ferrarias; Avô Palaló, avisado, montou o lusitano castanho, meteu-se por atalhos… Chegaram quase em simultâneo: os guardas, suados, de farda cinzenta e capacete género colonial, às voltas com as “mauseres”; Avô Palaló, fresco, talvez com as pernas mais arqueadas. Olhou o cabo indeciso, ouviu o regedor e convidou-os a irem ver o corpo – era, de facto, Tó-Zé, de costas, braços abertos, cabeça esmagada! Fora crime, sem dúvida…
Olhou à volta, não viu pegadas nem rastos de transporte ou de luta. Parecia que “o homem caíra do céu” – comentou com o cabo. Observou o terreno em volta, onde o trigo a despontar formava um ténue tapete verde. Apenas que naquela última passagem da grade (que o Chico deixara na orla e lá continuava) o trigo não nascera, como que assinalando o trilho da morte. Absorto, assistiu ao transporte do corpo. Não era suficientemente importante para merecer a presença de um especialista em medicina legal; o Dr. Godinho faria uma autópsia sumária…
Passava as rédeas sobre a cabeça do cavalo, quando o cabo se aproximou. – Sr. Pa… perdão… vocemessê ajuda-me? Trespassou-o com o olhar, viu que o homem estava “completamente às aranhas”, acenou gravemente com a cabeça num sim e voltou-lhe as costas. No Casal, conversou demoradamente com Ana “Ruiva”, soube da abordagem e seu resultado. Ficou com a certeza de que não voltara a ver o ex-amante e que nem queria voltar a pôr-lhe os olhos em cima. Na Raposa, não encontrou pistas. Meteu pelo caminho dos Paços, perto da “trilha do morto”. A cerca de 200 metros, à esquerda, havia uma rima de canas que o Daniel Bicho utilizava para apoiar os bacelos. Daniel não viera à fazenda desde o princípio do mês. O Brito, quase no fim da jornada, foi mais útil. Vira passar o Tó-Zé para os Paços, no dia seguinte ao Natal; não o vira regressar. Ao romper da noite, já chovia (ca noite d’auga, rai’s m’abrasem!), no sentido da Raposa, viu um grande burro carregado com dois molhos de canas, um de cada lado. A carga pendia para a esquerda e o homem, com a manta pela cabeça, via-se aflito para manter o equilíbrio. Não soube quem era. Aqui acabaram-se possíveis rastos do morto – se é que eram rastos!
Jerónimo contou a sua história. O Vicente, sempre em dia com as novidades, escudou-se na falta de memória. Ninguém “enxergara” a vítima, nos Paços.
Era noite e tomou o caminho de casa, já que Almeirim era um dos vértices do rectângulo irregular; Paços, Raposa e Benfica os outros.
No último dia do ano, recebeu a visita do cabo André. O Dr. Godinho tinha feito o serviço: a morte dera-se entre três a cinco dias antes, provavelmente, no dia em que saiu de casa. Recebera uma pedrada na cara, mas a morte resultou de duas pancadas violentas, talvez com um pau. O sangue acumulado indicava que o cadáver esteve deitado sobre o lado direito, durante algumas horas.
Agradado pela humildade do cabo, Avô Palaló abriu-se num dos seus escassos sorrisos: – Sabe, cabo André, reuni indícios, dei-lhe um corpo que parece sólido… Tenho uma teoria, que lhe ofereço com satisfação, de quem matou aquele desgraçado e como o seu cadáver foi parar à minha seara, sem deixar rastos…

Notas: Milheiras e Azeitada – Casais próximos; Ferrarias – Herdade próxima; Benfica (do Ribatejo), Paços (Negros) e Raposa – localidades próximas.

É tempo de os leitores competirem com o Avô Palaló, elaborando os seus relatórios e descrevendo como entendem que o crime terá acontecido.



SOLUÇÃO de Inspector Boavida

A Ana Russa estava inconsolável, completamente de rastos. Agora que tinha encontrado um homem para a vida, não é que o raio da morte o havia de lho tirar? Ela vivera ao “deus dará” desde que o demónio do Quim Faia a fizera perder-se nas terríveis armadilhas que se formam nas encruzilhadas do amor, até que um dia um anjo da guarda pusera no seu caminho o rude Tó-Zé – um tosco homem, de pequena formação mas de alma grande, que iluminara os seus negros dias com focos de esperança num amanhã com mais luz. A Ana nada tinha de seu, a não ser uma incrível capacidade de se dar por inteiro, e o Tó-Zé também pouco mais tinha. Não fora o Avô Palaló decidir acolhê-los no Casal, na Raposa, e eles não teriam sequer um tecto seguro que os abrigasse das águas que assolam as terras do Ribatejo nos tempos mais invernosos.

Naquela manhã cedo de Dezembro, no dia em que o menino da Galileia nascido em Belém se preparava para mais uma noite de azáfama na distribuição de prendas pelos sapatinhos das crianças que (ainda) tinham Natal, o Quim Faia retornou da estranja e decidiu desinquietar a sua ex-amante. Dois dias depois soube que ela estava no Casal e aventurou-se. Entrou portas adentro, viu-a na lida, largou os seus grandes óculos azuis sobre uma arca, fechou devagar a porta atrás de si, estendeu-lhe os braços e insinuou-se-lhe todo falinhas mansas com meneios galantes e sotaque estrangeirado. Ela ruborizou de raiva e gritou de medo, mas nem isso refreou os impulsos do machão latino-ribatejano. Tudo mudou, porém, quando o Tó-Zé acudiu aos gritos. O rufia deu logo “às de vila Diogo” e, nas pressas, deixou os seus óculos azuis abandonados sobre a arca…

O intrometido Quim Faia abandonou rápido o Casal pelas traseiras quando a porta se abriu com estrondo, não dando tempo a que Tó-Zé o vislumbrasse. Mas os óculos azuis poisados sobre a arca não permitiam que Ana Russa pudesse desmentir o que saltava à vista: estivera por ali um homem!.. Após mil ralhos e pancadas, a infortunada Ana teve que identificar o inesperado visitante daquela manhã. Tó-Zé não perdeu muito tempo e saiu pela porta fora, enquanto bradava com destinatário certo: “Alevo-lhe duas alembranças; uma é ‘ma cachaporrada p’rós cornos” – a outra eram os óculos azuis, claro!.. Mas o proprietário dos óculos já estava com dono. Depois de ocupar esconderijo breve por entre os ramos de um salgueiro, Quim Faia pusera-se a caminho dos Paços, onde procurou afogar o medo numa bebida rápida na “venda” do Zé Vicente.

O Quim esforçou-se por esconder dos olhos de Vicente o medo que lhe invadia a alma e escudou na saudade da sua tia Dores, de Benfica, a pressa que tinha de fugir. Uma bicicleta podia ajudar a acelerar a sua fuga (se ele quisesse mesmo ir ver a sua tia, não teria ido para norte, uma vez que Benfica fica a sul, perto da Raposa…). Vicente não tinha a pedaleira desejada, mas sabia de quem o podia valer. A metros dali, o Jerónimo enxertador seria bem capaz de se constituir remédio para a cura das saudades de Quim. Posto perante o problema, o enxertador não se fez rogado. Em troca do empréstimo da bicicleta, apenas punha como condição a ordenha das vacas e o tratamento delas e do burro durante a sua ausência. O Quim anuiu de pronto e o Jerónimo lá foi de abalada até Almeirim, onde o labor do seu ofício exigia presença nos dias mais próximos.

Entretanto, o Tó-Zé continuava em correria desenfreada e sem norte pelas terras alagadas das lezírias à procura do homem que manhã cedo lhe invadira a casa que recebera por empréstimo, atormentando a companheira que tomara por amor. Ele saíra do Casal, febril, levado pelas brasas que crepitavam sem acalmia na fogueira do ciúme, queimando em lume vivo o seu orgulho de homem ferido no mais íntimo do ser. Ela ficara no Casal, gélida, posta em desassossego e em desatino, com um pressentimento demoníaco a roer-lhe o coração e a destruir-lhe a alma. Ele não foi capaz de sossegar a raiva que galopava sem freio pelas suas veias. Ela aguentou o mais que conseguiu o sofrimento gerado pelo silêncio das razões da ausência do companheiro, que teimava em não voltar, jurando partir à sua descoberta se ele tardasse um dia mais que fosse.

No dia seguinte, dois dias após o Natal, o Jerónimo enxertador voltou mais cedo a casa do que era esperado e foi recebido com as duras críticas da Rosa leiteira, que se queixou amargamente de ele não lhe ter deixado leite por duas vezes. Ao princípio, ele não percebeu as razões da zanga da Rosa, mas logo encontrou explicação para tanto descontentamento: as suas vacas estavam prostradas junto à cancela, com comida à frente, sem apetite para comer nem vontade para fazer qualquer outra coisa que fosse, de tão indispostas que estavam por falta de ordenha. Ou seja, o Quim Faia não lhes pusera as mãos nas tetas, como se havia comprometido!.. Olhando em redor, o Jerónimo ficou ainda a saber que o seu possante burro andara a fazer das suas, roendo-lhe o que restava das couves da horta, solto que estava da manjedoura onde o deixara preso.

Chamado a dar explicação para o sucedido, o Quim Faia ficou embasbacado, sem palavra, ajeitando sem jeito os óculos de grandes lentes azuis que tinha nas mãos. Os tais óculos que ele tinha deixado em cima da arca na casa onde a Ana Russa e o Tó-Zé se haviam instalado por deferência do Avô Palaló!.. Foi nessa altura que alguém deu conta do desaparecimento do Tó-Zé, que saíra esbaforido do Casal de óculos em punho, à cata do malandro que lhe revolvera a vida naquela manhã, e se sumira para parte incerta. O Quim ouvira a notícia e nada disse. Se a Russa estivesse por perto ter-lhe-ia perguntado como é que as “lunetas” haviam chegado de novo às suas mãos. Mas mais ninguém sabia ainda da história dos óculos!... Curioso foi o Quim ter-se disponibilizado para colaborar na busca do Tó-Zé e ter corrido logo para as margens da Ribeira…

Foi pelo carreiro da Ribeira que o Tó-Zé se perdeu. Havia marcas do seu caminhar na estrada de areia que leva aos Paços, para quem vem da Raposa. Ele procurara o Quim Faia nas imediações do Casal, sem sucesso, e depois metera-se a caminho dos Paços. Não se sabia absolutamente mais nada! Só ao segundo dia de buscas, quatro após o Natal, é que ele apareceu, na seara do Avô Palaló, na Raposa: morto, deitado de costas, de braços abertos, sobre a terra encharcada. Com certeza não morrera ali e tombado daquele jeito, porque o Dr. Godinho concluiria, na autópsia, que o corpo estivera deitado sobre o lado direito durante algumas horas após a morte. Houvera crime, disso não havia dúvidas! Até porque o homem tinha a cabeça esmagada e a autópsia viria a confirmar que ele fora apedrejado primeiro e agredido depois com um qualquer objecto.

Estranhamente, não havia por ali pegadas de gente nem rastos de transportes ou sinais de luta. Parecia mesmo que o corpo do Tó-Zé caíra dos céus, mandado por uma qualquer máquina voadora… Porém, olhando bem mais atentamente para a zona envolvente à “Courela das Azinheiras”, que fora semeada de trigo pelo Avô Papaló sete dias antes do Natal com a ajuda do Chico Charneco, concluía-se que a tal hipotética máquina que ajudara a criar a ilusão daquele mistério não tinha asas e estava ali bem pertinho do chão que servia de cama ao morto. Tudo parecia indicar que a Grade e os Tirantes utilizados para esterroar a courela e cobrir a semente no dia da sementeira, e que o Chico deixara perto do terreno para fazer trabalhos futuros, havia servido também para apagar todas as marcas por ali deixadas aquando da “trasladação” do cadáver.

A utilização da Grade para aqueles tristes fins explicam o facto da faixa do terreno que nascia junto ao corpo, desde o centro até ao local onde ela fora deixada, se encontrar falha do verde trigo ainda bebé que cobria toda a courela. É verdade que fora aquela a parte do terreno por onde havia passado pela última vez a Grade aquando da sementeira, mas a faixa pelada de trigo não podia ter sido criada pelo Chico Charneco na jornada desse dia, já que ele sabe muito bem como se amanha a terra. Definitivamente, a falha de trigo nascente naquela faixa do terreno não podia ter sido provocada por utilização defeituosa da Grade, arrancando a semente da terra antes de gerar fruto. O trigo não nascera, nem crescera, em toda a courela por igual… porque, quatro dias antes, a Grade e os Tirantes andaram por mãos criminosas a fazer algo para que não foram criados.

A autópsia determinara que a morte do Tó-Zé ocorrera entre três a cinco dias antes da descoberta do corpo, muito provavelmente quatro dias antes, no dia seguinte ao Natal, exactamente quando ele partiu à cata de Quim Faia. Nesse dia, o Brito vira-o a caminho dos Paços e não o vira regressar; mais tarde, ao romper da noite, avistara um homem montado num possante burro, indo em direcção da Raposa. O homem ia de cabeça coberta por uma manta, pelo que não foi possível identificá-lo. Ele mal se equilibrava no burro, cuja carga pendia para a esquerda devido ao peso que transportava naquele lado. A cabeça coberta podia justificar-se pela chuva que caía aos potes, mas nada explicava a má distribuição da carga sobre o burro. O que estava há vista eram dois molhos de canas, mas tudo indicava que aquele burro levava na sua carga algo mais…

O avô Palaló, que acompanhara os acontecimentos e ouvira vários testemunhos, conjugou todos os indícios que conseguiu recolher (as vacas por ordenhar e o possante burro solto na casa de Jerónimo, a inexplicável mudança de mãos dos óculos azuis, as canas abandonadas nas terras de Daniel Bicho, o sangue acumulado sobre o lado direito do corpo de Tó-Zé, a má distribuição de carga no burro e a manta que cobria a cabeça do homem que o montava por perto das terras do Brito, a falha de trigo numa faixa da “Courela das Azinheiras” a partir do cadáver e o facto de haver uma Grade e uns Tirantes próximos desta, etc, etc…) e construiu uma teoria imbatível quanto à forma como o crime ocorrera, quando foi cometido e por quem. O cabo André, da GNR, que tinha a responsabilidade da condução das investigações, não podia ter melhor ajuda.

Segundo a teoria do Avô Palaló, no preciso momento em que Jerónimo deixou a sua casa entregue a Quim Faia, este, de tão atemorizado que estava, tratou de organizar a sua defesa face à mais do que provável investida de Tó-Zé. Talvez por influência de informação prestada pelo Zé Vicente, o encontro entre os dois homens desavindos deu-se na casa do enxertador. Quis o destino que Quim avistasse Tó-Zé antes que este o visse a ele. O companheiro da Ana Russa foi surpreendido por uma pedra que o atirou ao chão. Antes que Tó-Zé tivesse tempo de se refazer do apedrejamento, já o Quim caíra sobre ele com um duro objecto, batendo-lhe até à morte. Temendo que alguém aparecesse, ele arrumou o corpo num canto qualquer e deixou-o por lá tombado sobre o seu lado direito (segundo a autópsia, o corpo esteve assim durante algumas horas…).

O Quim tinha que desfazer-se do corpo da vítima, levá-lo dali para fora (se o homicídio não tivesse acontecido nos domínios do enxertador, não se justificaria que ele se preocupasse com a trasladação do cadáver para outro lugar...), mas não o podia fazer às claras, em pleno dia. Era preciso esperar que a noite nascesse. Entretanto, recuperara com agrado algo que lhe pertencia (os óculos de lentes azuis que ele deixara no Casal, quando assediara Ana Russa, e que Jerónimo enxertador vira nas suas mãos quando voltou inesperadamente de Almeirim…), ao mesmo tempo que foi pensando em como dar sumiço ao cadáver sem correr o risco de ser visto ou reconhecido por alguém. E se bem pensou, melhor o fez: sem muitas pressas, saiu em busca de algo (uma rima de canas, por exemplo…) que pudesse encobrir a carga que ele tencionava transportar.

No seu afã, Quim Faia não ordenhou as vacas e fechou as portas da casa de Jerónimo à vizinhança (deixando a Rosa leiteira sem leite para a venda, pela primeira das duas vezes de que ela acabaria por se queixar!...). Depois de ter recolhido algumas canas algures nos terrenos das redondezas, o maldito matador do companheiro de Ana Russa começou por aparelhar o possante burro espanhol do enxertador, para dar corpo a um plano de viagem pré-definido: a Raposa era o destino! O tolo pensou talvez que, devolvendo o cadáver à terra de onde provinha, ficaria mais longe de ser acusado de envolvimento no homicídio. Colocou o morto na ilharga esquerda do bicho (o Brito vira a carga do jumento pendendo para aquele lado…) e juntou depois dois molhos de canas de dimensão igual nas duas bolsas de carga do animal, um de cada um dos lados.

A chuva recomeçou a cair quando o dia deu lugar à noite (ca noite d’auga, rai’s m’abrassem! – disse o Brito), o que levou Quim Faia a cobrir a cabeça com uma manta quando se pôs a caminho da Raposa. A cabeça coberta escondiam-no do mundo, e a chuva brava e a pesada carga mal distribuída dificultavam o seu equilíbrio sobre a montada, para mais sendo ele uma espécie de meia dose de gente (continuava franzino, o rufia moreno que punha as cachopas de cabeça doida e que havia encantado a Ana Russa…). Ao chegar à Courela das Azinheiras, a cerca de duzentos metros do Casal onde o morto fizera casa com Ana, o malandro do Quim encontrou o poiso que julgou certo para campa fúnebre e depositou o cadáver no centro do terreno (que ainda não tinha trigo nascente… - apenas se haviam passado oito dias após a sementeira!).

Depois de deixar o corpo de Tó-Zé no centro da courela, Quim levou o burro para os vizinhos terrenos duros da Herdade das Ferrarias (foi para ali que os homens da GNR pedalaram quando foram chamados após a descoberta da vítima…), utilizou a Grade e os Tirantes para apagar as suas próprias pegadas e as marcas deixadas pelas patas do jumento no sítio por onde levou o cadáver, destruindo, assim, a semente que em breve acabaria por fazer despontar trigo naquele lugar (quatro dias depois toda a courela estaria coberta de verde, excepto na faixa de terreno que o Quim “gradara” após a trasladação do morto…). Ele estava certo de que a abundante chuva acabaria por dissipar todas as marcas deixadas no duro arroteamento do solo das Ferrarias e saiu tranquilo em direcção aos Paços, passando por terras da fazenda de Daniel Bicho.

Foi nas terras de Daniel Bicho que Quim abandonou as canas que haviam camuflado a trasladação do corpo. O Avô Palaló chegou a pensar que elas pertenciam ao dono da terra, já que ele usava normalmente canas para amparar o miúdo vinhedo, quando as viu por lá estendidas. Mas convinha recordar que o Bicho não passara pela fazenda desde o princípio do mês. E após duas cheias, que haviam precedido mais uma que assomava, não era crível que Daniel Bicho deixasse ao relento aquela preciosa “ferramenta” no cultivo e cuidado das vinhas. O mais certo seria que Quim tivesse abandonado por ali aquelas canas, uma vez que já não precisaria delas para esconder fosse o que fosse (a carga que ele quis esconder de quem assistisse à sua passagem de burro em direcção da Raposa já estava entregue…), e lá rumou ele, depois, para norte, a caminho dos Paços.

Quando chegou a casa de Jerónimo, que tinha tomado na manhã anterior por empréstimo, Quim Faia deixou o burro à solta e foi logo meter-se na cama para uma noite de repouso tranquilo. O seu descanso durou até às tantas, deixando mais uma vez as vacas sem ordenha e a Rosa sem leite para a venda. O que ele não contou foi com o regresso inesperado de Jerónimo que, ao ouvir as queixas da vizinha Rosa e ao ver as suas vacas queixosas de dores e as couves da sua horta roídas pelo burro espanhol, desancou nos ouvidos do malandro do seu “hóspede” a fúria que continha na alma. Mas o Quim pouco se importou com o sermão do enxertador. Agarrado aos seus óculos de grandes lentes azuis, que havia trazido da estranja, talvez ele estivesse já a pensar em assediar de novo a sua ex-amante Ana Russa, uma vez que ela estava agora “viúva”...

Foi nessa altura, já a tarde ia longa, que chegou aos Paços a má nova do desaparecimento do Tó-Zé. Havia muito pouco tempo que a Ana Russa alertara o regedor da Raposa, mas a notícia correra bem depressa. Não houve quase ninguém que não quisesse participar nas buscas. Nem mesmo o Quim se furtou em bater os terrenos próximos da Ribeira da Muge!... Durante mais de dois dias viera gente dos quatro vértices do “rectângulo irregular” formado por Almeirim (Milheiras) e Paços (Jerónimo enxertador), mais a norte; e por Benfica (Azeitada) e Raposa (Casal e Herdade das Ferrarias), mais a sul. Até o Brito, que mora entre a Raposa e os Paços, andou nas buscas. O Tó-Zé apareceu quatro dias após o Natal, já cadáver. A autópsia feita pelo Dr. Godinho ajudaria a concluir, quase timtim-por-timtim, como tudo se tinha passado.

Palaló tinha sobretudo uma dúvida: de quem eram de facto as canas que se encontravam na fazenda do Daniel Bicho? A questão era pouco relevante para a descoberta do assassino, mas ele não descansava enquanto não decifrasse aquele enigma. O que o intrigava era o seguinte: se o Quim Faia tivesse dado cabo do canastro ao Tó-Zé noutro sítio que não fosse a casa do Jerónimo, não faria qualquer sentido que ele transportasse o corpo da vítima fosse para onde fosse; logo, confirmando-se que Quim matou o Tó-Zé naquele lugar, não haveria explicação lógica para ele se meter a caminho da Raposa (a fazenda de Daniel Bicho, fica a cerca duzentos metros da Courela das Azinheiras…) para ir buscar as canas, correndo o risco de ser visto nessa altura, como aconteceu, depois, quando passou com o morto naquela mesma direcção, em cima do burro.

Tal era a confusão que aquela dúvida lhe gerava, que o Avô Palaló decidiu tomar uma decisão extrema. No último dia de Dezembro, bem perto do fim da noite, antes do nascimento de mais um novo ano, ele foi de mansinho até à beira do neto e perguntou-lhe calmamente ao ouvido: «ouve lá, manelito, já sabes de quem são as canas que vais colocar na fazenda do Daniel Bicho quando escreveres “A Trilho do Morto”? E, já agora, podes dizer-me onde é que o Tó-Zé vai mesmo cair às mãos do Quim Faia? Será na casa do Jerónimo ou nos caminhos de Benfica, quando ele for em fuga, em cima da pedaleira, com a desculpa de que vai visitar a tia Dores? Eu sei que não é muito importante e que tu não gostas de falar dos problemas antes de terminado o prazo do envio das soluções, mas é que o cabo André precisa de acabar o relatório…» 
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